04 janeiro 2009

Os externalizadores (3)

Nenhum ovo dá origem a um pinto se um calor local não lhe der um empurrão (palavras minhas para uma ideia de Mao Tse Tung).
Vamos lá a mais um pouco da
série com o título em epígrafe.
Neste número vou tentar mostrar como os externalizadores trabalham com as suas bombinhas de flit para matar não os mosquitos, mas as causas internas dos fenómenos sociais.
A revolta popular de 5 de Fevereiro de 2008 está amplamente documentada e analisada neste diário. Mas regressemos a ela, de forma breve, por causa dos baygonistas.
O que fizeram os baygonistas? Através de múltiplos laços, directos e indirectos, conscientes e inconscientes, construíram um edifício causal-demonizante através das seguintes cinco linhas mestras, expostas em vários órgãos de comunicação social e na blogosfera do país:
1. Mostrar a natureza selvagem da revolta, com o seu séquito de destruição, o seu atentado à razão, aos bons costumes, à paz, ao bom senso, ao secular pacifismo dos Moçambicanos.
2. Salientar a natureza juvenil e adolescente dos actores, com o seu comportamento desregrado e irresponsável.
3. Vincar a preguiça desempregada dos actores, a sua aversão ao trabalho, a sua repulsa por quem honestamente trabalha e tem o direito de proteger os seus bens.
4. Atribuir ora à Renamo ora ao mercado internacional a responsabilidade última e condutora da revolta, o selo da mão externa.
5. Acusar de incitação à violência e de homologação da revolta aqueles que procuraram realmente analisá-la fora dos cânones baygonistas.
Portanto, veio à luz todo um cordão sanitário conservador em torno de um fenómeno cujas causas internas importava de pronto silenciar, de um fenómeno inscrito em relações sociais cujo êmbolo, cujas nervuras era imperioso ocultar, de um fenómeno cuja mecânica, se desnudada, poria em causa os hinos glorificadores do desenvolvimento e os sagrados princípios do diálogo harmonioso.
Na verdade, era e foi fundamental isolar a revolta das suas raízes sociais e do sistema que a gerou, dar-lhe o sinete de um fenómeno absurdo, atípico, espúrio, o labelo de uma metástase exterior à natureza pacífica dos Moçambicanos, estrangeiro ao crescimento do país.
Por isso a mão externa, a mão invisível foi e é, sempre, a arma privilegiada dos baygonistas das causas internas.
(continua)

2 comentários:

Anónimo disse...

http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/contentx/383161

Carlos Serra disse...

Obrigado ao anónimo, mas se reparar bem essa carta já foi referida aqui no diário, dia 2: http://oficinadesociologia.blogspot.com/2009/01/ainda-o-estado-da-nao.html