05 dezembro 2019

A lógica da política

"Os grupos (em particular as classes sociais) são sempre, em parte, artefactos: são o produto de uma lógica de representação que permite a um indivíduo biológico, ou a um pequeno número de indivíduos biológicos, secretário-geral ou comité central, papa e bispos, etc., falar em nome de todo um grupo, de fazer falar e marchar o grupo "como um só homem", de fazer crer - e em primeiro lugar ao grupo que representam - que o grupo existe. (...) A lógica da política é a da magia ou, se se preferir, do feiticismo." - Pierre Bourdieu, Desnudar os pilares do poder, entrevista com Didier Éribon, Libération, 19 octobre 1982 [tradução minha, CS].

04 dezembro 2019

Estado de crença

Toda a investigação, aí compreendida a científica, bem como qualquer modesta pergunta, visa obter um estado de crença, visa essencializar-se. Cada um de nós passa a vida a crer ou a tentar crer. A única função do pensamento é a de produzir a crença e a de eliminar a dúvida. A crença é, na realidade, como defendeu Charles Peirce, uma regra de acção pela qual ajustamos as nossas expectativas à realidade social e natural. A crença é um processo que nos permite passar do desconhecido ao conhecido, da dúvida à certeza, do sofrimento ao bem-estar, do hoje ao amanhã.

03 dezembro 2019

Visão individualizadora do social

Na visão individualizadora do social, o ponto central não é apenas a pessoa, o indivíduo, mas o episódico, o circunstancial, o evento único, o efémero, a superfície desgarrada e caótica dos fenómenos sociais, aquilo que aparece à tona dos actos sociais em sua crua unicidade, a biografia, o papel decisivo do indivíduo, o que cada um pensa e faz, o eu por cima, a lógica formal, o princípio disjuntivo (ou isto ou aquilo), enfim a árvore em sua plenitude. É como se a foto pudesse viver sem o caixilho. E nos casos em que surge um sistema, é o sistema do romance policial, o sistema que alberga apenas um determinado fenómeno.
Adenda: lembre a visão socializadora neste blogue aqui.

02 dezembro 2019

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19 com 148 palavras. Edição 1351 de 29/11/2019. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

01 dezembro 2019

Ponto central

O ponto central não é apenas o social, mas o sistema em toda a sua complexidade, a articulação, o encadeamento, a chave do funcionamento dos indivíduos e dos colectivos, o conjunto dos dispositivos que dão sentido e frequentemente determinam o que se pensa e se faz, o conjunto interligado dos indivíduos determinado por baixo, a base de tudo situada em baixo do que se pensa, o papel decisivo das condições históricas herdadas e tornadas regra, a lógica dialéctica, o princípio da copulativa (isto e aquilo), enfim a floresta. É como se nenhuma foto pudesse viver sem o caixilho, seu suporte. O sistema não é o do romance policial, mas o da estrutura que orienta e ilumina não importa que romance da vida.

30 novembro 2019

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1351, de 29/11/2019.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na crónica semanal que divulgo à segunda-feira.

29 novembro 2019

Compreender

Compreender significa que sou capaz de procurar conhecer o sistema de referências de alguém, quer dizer, o quadro social que o informa, que o dirige. Mas compreender outrem, não significa aceitar o seu sistema de referências. Uma grande parte dos problemas de conflito social nasce quando em lugar de procurarmos conhecer o sistema de referências de outrem, simplesmente submetemos esse outrem ao nosso sistema de referências. Chamo a isso fagocitose cognitiva.

28 novembro 2019

Três coisas

Há três coisas a considerar na teoria dos grandes homens. A primeira é que ela faz da história um colecção de actos movidos por pessoas consideradas excepcionais, sejam elas boas ou más. A segunda é que ela faz da correção da história - quando necessária - um processo de substituição de pessoas e não de sistemas. A terceira é que ela faz da história um caminho aberto por homens e não também por mulheres.

27 novembro 2019

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [146]

-Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações." (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p.6).
Número inaugural da série aqui. Número anterior aqui.
Prossigo a história do rumor da prisão da chuva no céu.
A propósito desse rumor, dessa crença, creio ser fundamental recordar um extracto de um trabalho publicado pelo semanário "Domingo" a 8 de Março de 2009, trabalho que situa o fenómeno num conjunto de problemas sociais graves, os quais darei a conhecer no próximo número.
Nota: os rumores que estou a apresentar não seguem uma ordem cronológica.

26 novembro 2019

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19 com 148 palavras. Edição 1350 de 22/11/2019. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

25 novembro 2019

Ciência

Na maior parte da vida da humanidade, os fenómenos sociais e naturais eram vistos como movidos por causas sobre-humanas, deuses ou espíritos. A pergunta fundamental aqui era: “quem fez mover isto ou quem provocou isto?”
A ciência clássica inverte esse estado de coisas. A pergunta fundamental aqui passa a ser a seguinte: “o que faz mover isto ou o que provocou isto?”
Este é um percurso longo, inacabado, mas que está umbilicalmente ligado à formação de um saber sistemático e secular, divorciado da tutela religiosa ou mágica.

24 novembro 2019

Dialéctica da história

A história - feita para o movimento - será sempre a dialéctica da rotina e do espasmo, do velho e do novo, da tradição e da novidade, da permanência e da ruptura.

23 novembro 2019

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1350, de 22/11/2019.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na crónica semanal que divulgo à segunda-feira.

22 novembro 2019

Relações sociais concretas

Observemos uma rua da cidade de Maputo. O que vemos parece ser um conjunto variado e infindável de microdestinos, cada um seguindo o seu caminho e o seu destino, a pé ou de carro. Mesmo aqueles que seguem apinhados em chapas ou myloves surgem-nos como microdestinos, impermeáveis uns aos outros. Sejam quais forem as diferenças sociais, os nossos sentidos dizem-nos que estamos perante o acaso e o individual.
Porém, esse acaso é apenas aparente. Na verdade, cada microdestino é peça de uma configuração, de uma dialéctica de grupos, hierarquias e conflitos. Cada microdestino é uma célula social.
Na verdade, pessoas, viaturas, bicicletas, tchovas e myloves são componentes de uma configuração regida por relações sociais concretas. Nenhuma das pessoas que vemos na rua é uma "pessoa em si", uma simples "pessoa da natureza humana diversa".
Na verdade, somos todos produtos de relações sociais e nacionais concretas. O Sr. A, por exemplo, é cidadão de um país, profissional de um determinado ofício (ou pertence aos desclassificados sociais), membro de um grupo ou de uma classe, eventual frequentador de uma igreja, portador de uma determinada visão da vida e do mundo, etc.

21 novembro 2019

Erros

Cometemos invariavelmente erros - por vezes graves - quando não temos em conta que são várias as racionalidades que habitam a vida social.

20 novembro 2019

Jogadores-mercadoria

Na superimensa acumulação de mercadorias que é hoje o nosso mundo, o jogador de futebol é apenas uma delas, com seu valor de uso e seu valor de troca. As equipas são bem mais do que equipas de futebol: são empresas operando com mais-valia e taxas de lucro, são produtoras e gestoras de marcas de todos os tipos publicitários com base em predicados dos jogadores-mercadoria.

19 novembro 2019

Copiar e colar

A internet é um imenso campo de muitas coisas, aí compreendido o roubo de ideias e de informação. Há gente que apenas pensa quando pensada pelo que rouba ou plagia: notícias, fontes, ideias, fórmulas, técnicas, maneiras de escrever, de citar, de organizar textos, etc. Tudo o que é roubado ou plagiado surge no quintal do autor como produto exclusivamente seu. O mais criativo dos plagiadores não sabe fazer mais nada senão copiar e colar. A estiagem de espírito é bem mais incurável do que pensamos.

18 novembro 2019

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19 com 148 palavras. Edição 1349 de 15/11/2019. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

17 novembro 2019

O que é sociologia?

Existem muitas definições de sociologia.
Eis, por exemplo, esta: sociologia é o estudo das lógicas não visíveis do funcionamento de uma sociedade, de como ela se constrói e se mantém produzindo e reproduzindo práticas e imaginários.
O que se vê é apenas um conjunto de indicadores (práticas, crenças, imaginário social). Mas esses indicadores são meros factos sociais. Os factos sociológicos obtêm-se pela construção teórica. A construção teórica decompõe o magma de senso-comum e de mitos que permeiam os factos sociais.
O produto final da construção teórica é uma sociedade cujas lógicas de funcionamento nem sempre correspondem às lógicas quer da consciência imediata dos actores sociais em geral, quer da consciência interessada dos produtores oficiais de opinião. Por isso nem sempre a construção sociológica agrada às lógicas de uns e de outros.

16 novembro 2019

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1349, de 15/11/2019.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na crónica semanal que divulgo à segunda-feira.

15 novembro 2019

Mas social

O homem nasceu livre, escreveu um dia Jean-Jacques Rousseau. Muito certamente estava e está errado. Nascer é nascer para a sujeição. O homem não nasce livre, mas pode tornar-se livre. A liberdade não é um dado natural, mas social. Ter consciência disso é um primeiro indicador de liberdade e, talvez, a primeira porta aberta da democracia.

14 novembro 2019

Produção discursiva

No magma das representações sociais (não poucas vezes travestida de roupagem científica), um campo importante é a produção discursiva permanente de estímulos, de avisos e de símbolos de ordem e conformismo.

13 novembro 2019

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [145]

-Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações." (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p.6).
Número inaugural da série aqui. Número anterior aqui.
Prossigo a história do rumor da prisão da chuva no céu.
Na verdade, parece ser uma lei da história a de que quando confrontados com problemas graves procuramos sempre encontrar um responsável, algo ou alguém - regra geral alguém - que de nós receba a fúria e a catarse purificadoras.
Nota: os rumores que estou a apresentar não seguem uma ordem cronológica.

12 novembro 2019

Pedagogia da autonomia

Escreveu Paulo Freire sobre o que chamou pedagogia da autonomia . Na verdade, o mais difícil na educação está, justamente, em criar essa pedagogia, em descolonizar os alunos (para recordar o título de um livro de Gérard Mendel) para os levar pelas estradas da consciência crítica.

11 novembro 2019

Uma crónica semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19 com 148 palavras. Edição 1348 de 08/11/2019. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.
Atenção: onde está "este este termo" na segunda linha do texto devia estar "este termo".

10 novembro 2019

Como uma sonda

Importa investigar os fenómenos sociais como se fôssemos dentistas, penetrando com uma sonda na cavidade das coisas, separando o nervo da raiz.

09 novembro 2019

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1348, de 08/11/2019.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na crónica semanal que divulgo à segunda-feira.

08 novembro 2019

Sobre correr

Parece ser sensato dizer que são várias as razões por que corremos, marchamos ou andamos. Por exemplo, para chegar ao emprego, depois de duras provas de empurra-empurra para apanhar um chapa. Por outras palavras: podemos correr por necessidade de saúde e podemos correr por necessidade de emprego, podemos correr porque dispomos de tempo para isso e podemos correr porque não temos senão o tempo de chegar ao emprego.

07 novembro 2019

Desejo popular

Quando analisamos, por exemplo, as cartas de leitores dos jornais, verificamos ser muito forte o desejo popular de um messias político, daquele capaz de resolver os problemas sociais com uma varinha mágica.

06 novembro 2019

Analisar e avaliar outrem

Um dos capítulos mais interessantes da vida consiste em estudar os modos pelos quais grupos sociais se inter-analisam e avaliam. Analisar e avaliar outrem não são coisas naturais, são coisas totalmente sociais, aprendem-se e defendem-se. Classificar outrem de atrasado, aprende-se e exercita-se; ignorar em outrem aquilo que são as suas representações sociais, aprende-se e exercita-se em luta permanente. Analisar e avaliar outrem são recursos de poder.