19 dezembro 2018

Partidos e luta pelos cargos

Em 1919 o sociólogo alemão Max Weber escreveu o seguinte: "O que os chefes de partido dão hoje como pagamento de serviços leais são cargos de todo o tipo em partidos, jornais, confrarias, Caixas de Segurança Social e organismos municipais ou estatais. Toda e qualquer luta entre partidos visa, não só um fim objectivo, mas ainda e acima de tudo o controlo pela distribuição de cargos. (...) Com o incremento do número de cargos, consequência da burocratização geral e o crescente apetite por esses cargos como modo específico de assegurar o futuro, essa tendência aumenta em todos os partidos, cada vez mais encarados pelos seus seguidores como o meio de alcançar o fim: a obtenção de um cargo." - [Max Weber, A política como vocação, trabalho publicado em 1919]
Entretanto, eis o que se passa no ANC sul-africano a propósito do adiamento da conferência electiva do partido prevista para o passado fim de semana: "Há problemas no ANC. Os membros do ANC estão a lutar porque todos querem ser deputados nacionais e deputados provinciais. Eles veem uma conferência de nomeação como de criação de emprego (...) em vez de implementar as políticas do partido. É sobre os seus estômagos (...)" - afirmação de um parlamentar do ANC citado pelo "Notícias" de ontem, última página, internacional [notícia por enquanto não disponível na versão digital].

18 dezembro 2018

Necessidade desnecessária

As garrafas de água mineral povoam em permanência as conferências e os seminários do país, não importa se faz frio ou calor, se há ou não sede. Decididamente a água mineral tornou-se necessária sem o ser, passou a guardar em si o selo da necessidade desnecessária. A função primordial da água de "matar a sede" foi convertida à função "dar sentido cerimonial aos encontros". Um mito, um deus líquido.

17 dezembro 2018

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19. Edição 1301 de 14/12/2018, retomado o padrão do texto escrito com 148 palavras. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

16 dezembro 2018

O novo destino dos óculos solares [3]

Número anterior aqui. Finalmente, em espectáculos nocturnos, a transgressão ostensiva operada com os óculos solares está, não poucas vezes, pese o intenso calor, associada a uma outra transgressão, expressa no uso ostensivo do blusão de cabedal ou de napa.

15 dezembro 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1301, de 14/12/2018.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na "crónica semanal" que divulgo à segunda-feira.

14 dezembro 2018

13 dezembro 2018

O novo destino dos óculos solares [2]

Número anterior aqui. Os óculos tornam-se símbolo de uma juventude desafiante, juntando-se, aqui e acolá, aos bícepes treinados nas academias de musculação. À inutilização ritualizada da função primordial dos óculos solares (proteger os olhos do sol) cola-se a aspiração à vida milionária quando os jovens cantam e dançam junto a ou dentro de luxuosas viaturas, sempre com os óculos solares.

12 dezembro 2018

Facebook e Twitter [4]

Número inaugural aqui. Número anterior aquiConfissões, fotos, exclamações, descrições da vida pessoal, pedidos de apoio, apelos, multiplicação de redes de "amigos" (multidões ciberdomesticadas e ciberdigeridas no clique de um mouse), etc. - tudo isso é um complexo vital e comportamental de grande intensidade, uma busca intensa de ciberempatia. De alguma maneira algo que, progressivamente, substitui o contacto físico.

11 dezembro 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [97]

-Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações." (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p.6).
-"No terreno, a nossa equipa de reportagem interpelou muitos jovens sobre o assunto, no entanto, ninguém conseguiu apresentar prova desta informação, limitanto-se apenas a afirmar que circulava informação de que muitos jovens estavam a ser recrutados para tropa.” – in “O País” digital de 28/11/2013.
Número inaugural da série aqui. Número anterior aqui.
Prossigo a história do rumor do tira-camisa.
Observei no número anterior que era necessário considerar mais dois fenómenos. O primeiro desses dois: a ameaça da Renamo de inviabilizar as eleições autárquicas de 2013, conjugada com quadros de violência registados aqui e acolá nas campanhas eleitorais, com um clímax na Munhava.
Nota: os rumores que estou a apresentar não seguem uma ordem cronológica.

10 dezembro 2018

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19. Confira na edição 1300 de 07/12/2018. Livro no preloSe quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

09 dezembro 2018

O novo destino dos óculos solares [1]

Somos um mundo de transformações e transgressões permanentes. Assim acontece, por exemplo, com os óculos solares. Os obreiros são quase sempre jovens. Reparem na forma como os jovens subvertem o papel do óculos solares quando frequentam cocktails e espectáculos musicais nocturnos.

08 dezembro 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1300, de 07/12/2018.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na "crónica semanal" que divulgo à segunda-feira.

07 dezembro 2018

Facebook e Twitter [3]

Número inaugural aqui. Número anterior aqui. Provavelmente as redes sociais desempenham também o papel pagão dos confessionários religiosos, dos padres de antanho, Mark Zuckerberg, Jack Dorsey, Evan Williams, Biz Stone e Noah Glass são, na verdade, os criadores do cibersacerdócio e da ciberconfissão.

06 dezembro 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [96]

-Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações." (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p.6).
-"No terreno, a nossa equipa de reportagem interpelou muitos jovens sobre o assunto, no entanto, ninguém conseguiu apresentar prova desta informação, limitanto-se apenas a afirmar que circulava informação de que muitos jovens estavam a ser recrutados para tropa.” – in “O País” digital de 28/11/2013.
Número inaugural da série aqui. Número anterior aqui.
Prossigo a história do rumor do tira-camisa.
O boato do recrutamento compulsivo era, afinal, em 2013, o sintoma de uma espécie de doença social, o sintoma de uma doença social que pagava uma factura ao passado e ao presente, em meio ao receio no tocante ao futuro. Importa considerar mais dois fenómenos.
Nota: os rumores que estou a apresentar não seguem uma ordem cronológica.

05 dezembro 2018

Facebook e Twitter [2]

Número inaugural aqui. São os herdeiros dos velhos amigos confidentes e das velhas amigas confidentes, dos ombros humanos tornados velharias, das amizades de rua, das camaradagens clássicas, são mecanismos substitutos, compensatórios.

03 dezembro 2018

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19. Confira na edição 1299 de 30/11/2018. Livro no preloSe quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

02 dezembro 2018

Facebook e Twitter [1]

Facebook (especialmente) e twitter desempenham hoje o papel de bálsamos, de calmantes, algo como um ciberdiazepan. 

01 dezembro 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1299, de 30/11/2018.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na "crónica semanal" que divulgo à segunda-feira.

30 novembro 2018

Bonés

Há muito que passou a época do boné como protector solar. Hoje é indistintamente usado como enfeite e marca distintiva em reuniões estatais e partidárias (por vezes adicionado ao fato e gravata), como se fosse um símbolo da juventude. Com a pala virada para trás junta-se um travo de irreverência, especialmente entre os estudantes e os rappers.

29 novembro 2018

Rasgado é que é

Tempos houve em que um rasgão numa calça levava ao concerto à mão ou com uma máquina de costura. Era indecoroso usar uma calça com rasgões. Hoje, a vida-punk é diferente: as calças, as jeans, são compradas rasgadas e, aqui e acolá, com sinais intencionais de sujidade. Ou rasgamo-las. Calças ou calções.

28 novembro 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [95]

-Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações." (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p.6).
-"No terreno, a nossa equipa de reportagem interpelou muitos jovens sobre o assunto, no entanto, ninguém conseguiu apresentar prova desta informação, limitanto-se apenas a afirmar que circulava informação de que muitos jovens estavam a ser recrutados para tropa.” – in “O País” digital de 28/11/2013.
Número inaugural da série aqui. Número anterior aqui.
Prossigo a história do rumor do tira-camisa.
Seguem-se mais consequências da guerra. No que toca à personalidade das crianças, foram verificados os seguintes distúrbios: falta de confiança nos adultos e em si próprias, falta de perspectiva de futuro e/ou perspectiva pessimista, isolamento, depressões, resignação, altos índices de agressividade, perda de sensibilidade, regressão, introversão, fobias diversas, falta de mecanismos adequados para resolução de conflitos, capacidade muito limitada para aceitar frustrações, sintomas neuróticos diversos.
Nota: os rumores que estou a apresentar não seguem uma ordem cronológica.

27 novembro 2018

Sumptuosidade

Para a classe política dirigente, não faz sentido que o poder se apresente em paridade com as obras do comum dos mortais, esse poder exige correspondência absoluta com a sumptuosidade, com a visibilidade ostentatória.

26 novembro 2018

Uma coluna semanal

"Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre na página 19. Confira na edição 1298 de 23/11/2018. Livro no preloSe quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

25 novembro 2018

O chamado azar

Na inteligência espontânea das coisas, raramente escapamos à busca do absoluto e das forças intencionais. No senso comum o chamado azar mais não é, afinal, do que uma intenção disfarçada.

24 novembro 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1298, de 23/11/2018.
Nota: o acesso ao Savana digital tornou-se um exclusivo dos assinantes razão por que deixei de colocar a edição completa aqui e na "crónica semanal" que divulgo à segunda-feira.

23 novembro 2018

Sentimentos

Parece ser sensato acreditar que por regra as nossas acções do dia a dia são baseadas nos sentimentos. Para fazer uso de uma frase do sociólogo americano Everett Hughes, "os sentimentos não estão à procura da resposta, eles são a resposta".

22 novembro 2018

Decisão

No alfobre dos múltiplos poderes do poder, uma decisão do grande líder é como que um vistoso e imponente 4x4 último modelo das palavras, da propriedade da palavra oficial e decisional.

21 novembro 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [94]

-Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações." (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p.6).
-"No terreno, a nossa equipa de reportagem interpelou muitos jovens sobre o assunto, no entanto, ninguém conseguiu apresentar prova desta informação, limitanto-se apenas a afirmar que circulava informação de que muitos jovens estavam a ser recrutados para tropa.” – in “O País” digital de 28/11/2013.
Número inaugural da série aqui. Número anterior aqui.
Prossigo a história do rumor do tira-camisa.
Seguem-se mais consequências da guerra: acima de 250 mil crianças orfãs e não acompanhadas. As crianças foram submetidas a repetidas experiências traumáticas: ameaças de morte, terror, agressões, processos sistemáticos de desumanização, fome, sede, mal-nutrição, exploração pelo trabalho, abuso sexual e envolvimento em actos militares.
Nota: os rumores que estou a apresentar não seguem uma ordem cronológica.

20 novembro 2018

Lá onde

Lá onde tem curso uma relação política, existe uma resistência, um inconformismo, uma aspiração geral ao não obedecer e, quero crer que em simultâneo, um desejo específico de um Estado mais redistribuidor.