10 fevereiro 2008

Sismo social: "Domingo" critica governo (2) (prossegue)


Depois do feio, desonesto editorial do "Notícias", autêntico e desleal exercício de pistoleirismo verbal - escrevendo que um povo pacífico e bovino tinha sido desencaminhado no dia 5 por uma tenebrosa mão externa -, temos agora, na sua edição de hoje, em editorial, o semanário "Domingo", pertencente à mesma empresa pública, a criticar, com recurso a uma expressão minha (sismo social), o governo, por ter entregue aos chapistas a gestão dos transportes públicos urbanos em Maputo.
Não gostei de certas passagens alusivas à bílis popular (descrição conservadora em pleno), à redução da revolta a "uma franja muito franja da população" (completamente falso e de uma ironia penosa) e ao apelo a uma polícia mais forte (este tipo de apelo à musculatura policial é sempre um problema quando esquecemos a tuberculosidade social das periferias). Mas isso agora não é o principal.
No próximo e último número escreverei um pouco mais fundamente, mostrando também a posição do semanário em relação às explosões de Malhazine o ano passado (clique duas vezes sobre a imagem com o lado esquerdo do rato para a ampliar).
1.ª adenda às 12:30: na primeira página, o "domingo" usa o antetítulo "Depois do caos" e o título "Maputo e Matola voltam à normalidade". Há sempre uma diferença entre o "caos" e a "revolta popular". A palavrinha "caos", antípoda tenebroso da doce "normalidade" (e importaria saber o que se entende por tão fecunda palavra, a "normalidade") remete sempre para os cenários dantescos que amos usar em países como a Polana e a Sommerchield.
2.ª adenda às 13:03: falta fazer um trabalho sobre os epítetos empregues para designar os revoltosos de 5 de Fevereiro, sobre as santas palavras destinadas a etiquetar o povo das periferias.

6 comentários:

Xiluva/SARA disse...

Pistoleirismo verbal, tuberculosidade social...vc e seus neologismos! Gostei, viu? Não se aborreça se vc virou machamba e nela todos colhem ideias, palavras, assuntos para sites e outras coisas. Força!

AGRY disse...

Considero o texto do Domingo muito NIM!
Muito politicamente correcto!
Numa linguagem mais rude há quem adore chamar os bois pelos nomes

Anónimo disse...

Profesor Serra, permita-me algumas ideias:

Estamos em novos ambientes. O capitalismo fabricou para si atmosferas ainda mais complexas. Como diria Deleuze, não mais a toupeira disciplinar, mas a serpente fluída do control. A subjectividade já não é produzida simplesmente pelas velhas máquinas disciplinares. As máquinas a vapor e de carbono deram lugar às máquinas de silício, de terceira geração. O modus operandi do poder disciplinar, fechado e segmentarizado no tempo e no espaço, como descreveu Foucault, cedeu lugar para as cifras magnéticas que encaixam ou desencaixam fluxos de energia em espaço aberto e controle ininterrupto.

Tanto o Poder quanto a produção do seu estofo, se realizam actualmente por modulação de fluxos sob controle aberto, infinitamente permutáveis e em comunicação permanente, como modo de produção de canais, de idéias e mais valia de saber e poder. Control num espaço tornado aberto simultaneamente no interior e no exterior e em velocidade absoluta no tempo que nos constitui como cifras simultaneamente comunicantes.

Não obstante, do mesmo modo que o poder tornou-se mais subtil com as suas novas máquinas e formas de exercício, a vida, os devires activos da vida também encontram ocasiões inéditas, inauditas e poderosas para reagir, criar, fazer passar o inesperado, o ar puro de novos devires, de novas composições no seio mesmo de suas máquinas cibernéticas de controle.
Pois, na verdade, a natureza ou a própria vida, que é um modo de produção da natureza, é quem produz a realidade e portanto, por esta capacidade de gerar o excesso, torna ao mesmo tempo possível e necessário novos modos de se relacionar em sociedade e em particular na sociedade moçambicana. Essas novas maneiras de ser ou modos de relação se caracterizam pela capacidade de fazer passar o excedente não codificável, as intensidades não mensuráveis, as quantidades de energia não axiomatizáveis.

Podemos fazer de nós mesmos um elemento sempre diferencial e diferenciante, gerador de novos devires, um agente imperceptível porque excêntrico e em mutação constante, senhor das modificações que fazem das relações verdadeiras alianças propulsoras de uma vida social em plena expansão. E só nestas condições poderemos formar cidadãos aptos a construir um campo de consistência e composição de tecidos sociais libertários. Homens realmente livres - com força suficiente para resistir e conjurar as ingerências de poderes alienígenas ao campo de imanência de uma sociedade civil, livres de um modelo de acumulação e consumo de energia mortificada e de produção de relações de troca ou de transmissão abstratas, que separam os homens de suas próprias capacidades de agir e de pensar.

É a partir do modo como se produz e transmite energia, que não mais parasita, mas que estabelece autênticas simbioses, que as condições de existência da vida poderão encontrar o seu meio de expansão e efeitos do aumento da capacidade de agir e pensar Moçambique, em Moçambique e por Moçambique como tão brinhantemente faz o Professor Carlos Serra. Bem haja. Luis Cezerilo

Carlos Serra disse...

Obrigado Sara, Agry e Cezerilo. De facto, o texto do "domingo" está pelo politicamente correcto, mas tentei e tento extrair-lhe a parte positiva. Já de seguida virá o encarramento. Abraço.

Carlos Serra disse...

Dr. Cezerilo: deverei ir ao Brasil em Abril. Abraço.

Anónimo disse...

Professor Serra. Aqui estarei a sua espera e a sua disposicao. Se precisar que faca algo entretanto, por favor disponha Professor. Espero recebe-lo em minha casa aqui. Obrigado. Luis Cezerilo