Há palavras cuja genealogia devia um dia ser imperativamente feita. Por exemplo, a palavra camarada.
Estávamos em 1975, o nacional tempo nascente dos camaradas. Foi uma altura generosa, na qual, parece, todos éramos camaradas, mesmo os carrascos e os desempregados.
A 2 de Agosto desse ano, por exemplo, um comandante militar da Zambézia apresentou uma lista de pessoas acusadas de vários delitos contra-revolucionários, entre os quais “cinco camaradas da PIDE” (sic, Polícia Internacional de Defesa do Estado, polícia política portuguesa).
Num relatório de 2 de Setembro do mesmo ano, foi a vez de um administrador distrital da mesma província escrever sobre os “camaradas desempregados que por aqui proliferam”.
Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
1 comentário:
Mas não foi só em 74/75. Já na década de 80, vi serem apresentados às populações no jardim da cidade de Tete “camaradas infiltrados nas nossas fileiras” referindo-se a expressão a elementos da RENAMO capturados. Aqui vão algumas outras palavras típicas da época de que agora me lembro e que julgo merecerem melhor registo e estudo: madjambene, fudjo, fudjista, xiconhoca; rassemblement, casquete, sacudu; chotoculiua, parar (‘pôr-se em sentido’); elemento, estrutura, situação.
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