09 fevereiro 2007

Dois leitores indignados com o que escrevi sobre a novela brasileira


A 7 de Maio postei aqui um trabalho sobre a novela brasileira. Esse trabalho provocou a crítica de uma leitora brasileira quando o coloquei no blogue das crónicas semanais publicadas no semanário Savana. Hoje chegou-me, via email, uma outra crítica, de um estudante universitário moçambicano. Para que essas críticas não fiquem perdidas, uma num comentário, outra num email, vão ser colocadas no fim da crónica sobre a novela brasileira, que vou, portanto, repetir. Talvez o debate se amplie sobre o que escrevi ou sobre o que vocês pensam que escrevi. E, talvez, sobre outras coisas.

"Há anos que a novela brasileira habita as televisões e os corações de milhares de moçambicanos. A certas horas da noite (e, certamente, também a certas horas do dia), não importa em que ponto urbano do país, tudo pára. Chegou a hora da missa profana, do ritual ansiado.
O que tem sido a novela brasileira, no seu conjunto e na sua temporalidade? De tudo um pouco: o amor, o ódio, a juventude, a velhice, o sonho, a subversão do real, o caciquismo, a luta, a política, a verdade, o erro, a falsidade, a burla, o amantismo, a dor, o choro, a prisão, o casamento, o humor, o racismo, a heroicidade, o banal, o fantástico, a beleza, a fealdade, a profissão, a pobreza, a riqueza, a ostentação, a bela música. Coisas humanas, coisa de todos, artérias universais.
Todos os dias, milhares de moçambicanos esquecem a sua vida real e se novelizam, se brasileirizam, se tornam outros sendo eles e apesar deles, se identificam. Afinal não há aqui, neste país, tantas coisas parecidas? Não há aqui, também, o húmus do que vemos, sentimos, odiamos, ansiamos?
Por que não deveríamos nós sonhar saindo fora das nossas fronteiras tacanhas, amando e sofrendo, não deixando de ser nós sendo os outros e sendo os outros para ensaiarmos tentar ser outros? Falta-nos o pão em casa, não temos dinheiro? Existe a novela brasileira, ela nos compensa. Estamos bem? Existe a novela brasileira para estarmos melhor.
E assim, ano após ano, nos fomos e nos vamos abrasileirando, muita da nossa fala possui já as expressões coloquiais brasileiras, a cadência frásica. E aumentam as escolas de capoeira na cidade de Maputo.
E enquanto isso acontece, ficam os mais velhos e conservadores perturbados, rancorosos, gritando que os nossos costumes estão devassados, que a nossa moral se perdeu e se perde sob o efeito das novelas brasileiras, que as nossas catorzinhas são o que são em suas jeans apertadas e sexualizadas devido a isso, que tudo vai mal, que, enfim, deus é, digamos, brasileiro. E dizem: no meu tempo é que era, a moral respeitava-se, as mulheres guardavam respeito.
A brasileirização cultural foi e é ainda ampliada pelos cultos da IURD, nos quais milhares de pessoas aprendem, também, as belas cadências linguísticas dos brasileiros.
E assim vai este Moçambique, de real em real, de novela em novela, de sonho em sonho.
Vixe, deixa para lá, ó gente!
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Crítica 1:
"Não sei ainda, se sua matéria foi uma crítica à nós brasileiros, ou para seu povo.Bem sei que possui conhecimento suficiente sobre as condições de precariedade que assolam nossa massa, designada "povão."E, que graças a deus, existe um anestésico chamado "novelas" para estes esquecerem por momentos a dura realidade que os cercam. Se seu povo usa esse mesmo artifício, fazer o que? Qual outro veículo de entretenimento o senhor poderia sugerir? Se assistem nossas novelas, é porque são bem elaboradas, possuidoras de belos cenários, romances, belas atrizes e atores, belas canções temáticas, e uma ótima fotografia/direção. Está comprovado que o Brasil é detentor das melhores telenovelas do mundo; por os motivos acima citados. Geralmente nas novelas brasileiras são colocados temas que instigam o povo a reflexão sobre os preconceitos raciais, homosexuais, alcoolismo...abordam assuntos sobre drogas, prostituição,tráfico...O que não é de todo mal assim certo? As banalidades estão presente tambem nesse contexto, não há como negá-lo. Quanto a nossa fala; existe algo nocivo que contamina seu país, nessa... digamos, união de expressões coloquiais, modismos, e jeito de ser? Seria muito interessante que o senhor escrevesse um artigo diretamente para "seus velhos" lamentando estarem parados no tempo. Aqui no Brasil, como em todo o mundo existe o que "era antes", e o que "é agora", e naturalmente este "agora" torna-se-á o "antes", logo no amanhã que nos espera. Nossas calças jeans são apertadas e sexualizadas? Faltou dizer ainda que são bem rebaixadas, deixando nossa cintura mais aparente e sensual, ainda que encoberta por uma camiseta básica. Nada disse sobre nossos biquinis? São os mais curtinhos do mundo, minúsculo mesmo;e maravilhosamente lindos, exportado sempre; (bem sabemos que possuímos corpo escultural para bem usa-los.). Por favor, seria mais sensato da sua parte dizer:"A banalização cultural foi e é ampliada pelos cultos da IURD."Porque não só voces, mas tambem nós sofremos com esta praga mercenária que se alastra feito vírus pelos quatro cantos do mundo. (penso até que seja um sinal apocalíptico.). Quando o senhor diz " as belas cadências linquísticas dos brasileiros", referindo-se ainda a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), me pareceu zombar de TODOS os brasileiros; Parecendo que TODOS somos IURDIANOS,o que para mim e para muitos é uma ofença grave. Seu povo imita a cultura massificada, o que é compreensível. Porque não imitam nossas belas canções? Conhecem a bossa nova? a mpb? Cantarolam Chico Buarque, Elís Regina, Tom Jobim, Caetano, Flávio Venturini...? Seu povo imita as grandes produções teatrais e acompanham o cinema novo? Assistem na tv os curtas fantásticos, as grandes mostras do cinema e das artes em geral? Assistem programas culturais na tv educativa, futura,cultura e tantas outras? Vou até recomendar um aqui "Café filosófico" na tv Cultura, temas e discurssões variados e questionadores. Acompanham nossa moda? Então devem saber que nossos estilistas nada devem aos estilistas italianos ou franceses. Eles...seu povo, sabem dos nossos grandes romancistas, poetas, atores, atrizes e diretores? Estranho e sinistro esse seu texto, "só pegou o resto da comida queimada do fundo do tacho". Permite-me corrigi-lo? Em sua última frase o correto sería assim dizer:(num bom e prosaico português)"vixe, xá prá lá gentem!" (Gaby Ninck)"

Crítica 2:
Boa tarde Sr. Carlos. Se me permite, quero pedir desculpas pelo incómodo que poderei lhe causar a enviar esta mensagem. Chamo-me M. L.C. U. Moçambicano; Residente na Beira - Província de Sofala. Estudante da Universidade Pedagógica - Delegação da Beira. Ora! O que me levou a escrever - lhe? Sou leitor do jornal Savana, e na publicação do dia 19.01.2007 li o seu artigo "fungulamaso" que tinha como título "A novela Brasileira" . Com o comentário apresentado por si, pude perceber que propõe uma paralização do acesso à novela brasileira (os Moçambicanos não devem gastar o seu tempo a ver novelas; nem devia-se passar a novela brasileira nas nossa televisões, mas sim produzir a sua). Assim compreendi. Desculpe se entendi mal a sua mensagem. Mas se este for o objectivo da sua mensagem, então deixe-me apresentar -lhe as minhas questões e o meu ponto de vista acerca disto. Os moçambicanos andam frustrados com o sistema politico do nosso Querido Governo que previlegia mais os seus membros que o povo. Os moçambicanos batem-se dia após dia para ganhar o pão e no dia seguinte aparece o governo a saquear-lhes o pouco que conseguiram com muito esforço. ( sao ivas; imposto de lixo; rádio difusão que é util, e tantas outras formas de roubar ao povo). E no fim do dia eles estão cansados de tanto lutar e nada ganhar, então em vez de ir às 21h roubar - coitado do moçambicano - prefere sentar-se em frente do humilde écran do televisor do vizinho que trabalha nas finanças para puder relaxar a sua mente com a telenovela brasileira. E aí vem o Sr. Carlos dizer que : eles não deviam assistir a novela? Ou eu entendi mal? Acha que a paralização da Novela é solução para os nossos problemas económicos, políticos, culturais e morais? Se pararmos de assistir à novela o Governo parará de nos roubar? E a vida melhorará? O que tem haver a pobreza do Moçambicano com as telenovelas brasileiras? Propõe também que nos façamos nossas próprias novelas (entre aspas claro, assim entendi), uma vez que não temos meios nem tranquilidade para tal. Como sera isso possível? Quem vai patrocinar novela com centenas de Moçambicanos a morrerem de fome, resultado das cheias na região centro do pais e seca na regiao sul?
Aonde quis chegar mesmo Sr. Carlos com o seu artigo?
Eu acho que a Novela por um lado escandaliza os menores, mas isso os pais devem resolver em casa, tirar o televisor da sala ou mandar dormir a criança menor de 10 anos no período da telenovela das 21 h, e explicar que o seu programa é Mãozinha talento, pirlim pim pim e o sítio do pica pau amarelo....
E por outro lado faz muito bem para relaxar as mentes cansadas de tanto lutar com a vida dia a dia e nada ganhar.
Eu também sei que não é o seu caso. Porque tem vida estável aí no Maputo, trabalha numa boa intituição e tudo mais.... Com muito respeito, devemos analisar bem quando pretendemos escrever algo que vai ser publicado nos jornais e de conteúdos que tocam ao pobre povo Moçambicano. Porque ele não é o responsável da pobre vida que possui. Meus Cumprimentos.

3 comentários:

PuLa O mUrO disse...

É, caro Carlos, vocês acabaram importando algumas das piores coisas do Brasil; as novelas e a IURD... Entendo seu ponto de vista, as novelas realmente vendem o estilo de vida burgues que, por sua vez, têm grande acolhida por parte dos telespectadores que, pelo menos no caso brasileiro, são normalmente conservadores e ufanistas. Mas, ainda assim, concordo com a primeira crítica quando diz que há no Brasil muitas outras coisas mais valiozas que as novelas e a IURD, basta saber procurar. De resto, fico feliz de saber que há espaço para tantas e diversas manifestações artísticas. Mesmo que os espaços não sejam igualmente distribuídos, ainda assim é melhor ter liberdade de escolha do que sofrer qualquer tipo de censura.

É isso,

Abraço!

Leonardo

Carlos Serra disse...

Prefiro, por agora, não escrever sobre o que acho que escrevi. Aguardo mais comentários. Muito obrigado, Leonardo.

Fátima Ribeiro disse...

Eu tenho sempre de lamentar não poder dispor de tempo para grande elaboração. Também não possuo o dom da palavra e da argumentação nem a produtividade de escrita já mais que comprovadas de alguns dos nossos colegas aqui do blog. Mas não será por isso que não virei aqui dar a minha opinião.
As duas reacções ao texto do Professor mostram que não é só na literatura que se aplicam as teorias da estética da recepção ou da resposta do leitor. De um modo geral, os textos só se completam com a intervenção de um leitor real, e, como cada leitor é único, com as suas circunstâncias, também estas variáveis de leitura para leitura, temos, de um mesmo texto, não só diferentes leituras de diferentes leitores, mas também diferentes leituras feitas por um mesmo leitor. Até o nosso estado de espírito pode influenciar a leitura. Isto que aqui digo assim desta forma simples daria pano para mangas se fosse ilustrado com as posições da Gaby Nick e do MLCU.
Agora, também eu vou trazer uma outra leitura: o texto de Carlos Serra não é crítica nem censura, mas um esforço para um retrato tanto quanto possível fiel e neutro da nossa realidade. Se não tivesse sido o próprio Professor a afirmá-lo, talvez eu nem tivesse sentido o tal “estilo algo cáustico” que admite em resposta à Gaby Ninck.
Já agora, passado que foi algum tempo sobre a primeira leitura que a Gaby fez, que já sabe um pouco mais de Moçambique, que conhece melhor Carlos Serra...., eu perguntar-lhe-ia, se hoje ficaria com a mesma ideia ao ler o texto.

Quanto às novelas, eu, que muito raramente vejo um episódio, não deixo de reconhecer que, apesar das muitas críticas a fazer a diversos conteúdos, ao arrastar das histórias por razões comerciais, etc., etc., e aos efeitos práticos de tudo isso, reconheço que muitas delas merecem ser vistas, também por diversas razões, até mesmo por certos conteúdos informativos e educativos. Roque Santeiro, por exemplo, foi exemplar na arquitectura da história, na crítica de costumes, na representação teatral, na arte de fazer humor, enfim...
Cada um de nós fará da novela a sua leitura e tirará dela o que mais lhe aprouver, com o melhor sentido crítico que tiver. E se ela lhe der prazer e ajudar a superar as amarguras da vida, ainda melhor. Melhor essa alienação que muitas outras alternativas disponíveis.
O que eu peço é às diversas televisões que tenham critérios bem definidos para seleccionar as novelas, e que nos dêem também outras coisas, já que os não assíduos de novelas e os que não as suportam têm também o direito de usufruir de outras coisas.