30 janeiro 2007

Terra amada, terra desmatada: o que acontece às nossas florestas em Cabo Delgado





É agora a vez de mostrar o que se está a passar em Cabo Delgado a propósito das nossas florestas, feito o percurso pela Zambézia (
1 e 2).
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Eis uma carta do engenheiro Heike E. Meuser, endereçada ao governador de Cabo Delgado:

"Heike E. Meuser
Maputo, 08 de Janeiro 2007
DED, Maputo

V. Excia. O Governador de Cabo Delgado
Pemba

Excelentissimo Sr. Governador de Cabo Delgado,

venho por esse meio informar a V. Excia. dos acontecimentos que nos vivemos enquanto nos, os meus dois filhos de 11 e de 15 anos de idade, eramos como turistos em Cabo Delgado.

No sabado, dia 06 de Janeiro deste ano, meus filhos quiserem fazer um safari para ver os famosos lioes e elefantes no Parque National de Quirimba, em Mareja. Infelizmente, em vez de animais salvagems, eles eram testemunhos de um encontro com dois camões cheio de madeira preciosa, madeira que foi tirado de maneira ilegal do Parque National de Quirimba. Não só o facto de ser enfrentado com madereiros ilegais, também o encontro foi violente, um fiscal de Mareja foi aleijado dos madereiros, aparamente trabalhando por um chines.

Tal acontecimentos não favorecem ao turismo e dão um mal exemplo, ao lado dos efeitos negativos para os fundimentos da natureza mosambicana,

Agradecemos antecipadamente a Vossa atenção

Heike Meuser
Eng. Agr,, Mag. Agr.
"
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Eis uma carta denúncia:

DENUNCIA

A quem de direito:

Dia 6 de Janeiro de 2007, as 12h, recebemos informacao via radio Motorola que se estava a efectuar o transporte ilegal de madeira num camiao.

12.20, enviei um carro, land rover com 4 fiscais armados para confiscar a madeira e os mesmos encontrarao a um individuo numa motorizada.
Imobilizaram o individuo e respectiva motorizada e levaram a ambos na viatura land rover para o posto de Biaque.

Enquanto isso eu Dominik, tambem fui ao local para ver como estava a situacao, pois nesse momento eu estava de guia turistico com alguns turistas dos quais dois eram menores.

3 km, antes de chegar a Biaque, encontrei um Toyota Corolla escondido que achando que tinham ludubriado aos fiscais que capturaram ao individuo da motorizada decidiram arrancar com a viatura justo no momento que eu estava a chegar e comecei e perseguir o respectivo carro que este parou e dele sairam 2 individuos que eram fiscais fardados e se puseram em fuga mas a populacao diz que viu 3 pessoas a sairem do carro.

Perguntei ao motorista o que estava a fazer naquele local e disse que estava a comprar castanha.

Dirigimo-nos ao posto e nao havia ninguem, so estava um fiscal comunitario.

O land rover que estava com os fiscais armados e o individuo da motorizada foram por uma outra estrada a 3km de macomia, numa aldeia chamada arrapale para procurar o camiao, entraram do mato 3km adiante e encontraram 2 camioes de marca Faw,azul, MNB 98-56 e Faw, branco, MPB 09-69.

Falamos com os motoristas e pedimos os documentos e chaves dos camioes e ficaram 3 fiscais para guardar os camioes que transportavam 32 e 48 touros de pau ferro sem sigla.

Liguei para o Sr. Dias por volta das 15horas, responsavel da fiscalizacao, informando do ocorrido e pedindo ajuda de Pemba.
Disse que ia mandar um carro do parque e que guardasse os documentos dos camioes, enquanto isso chegaram ao local os senhores Rafael e Majimoto, fiscal do parque nacional e chefe do posto.

Estes comecaram a exigir me os documentos dos camioes, um motorista dum dos camioes comecou a agredir me a mim e a minha viatura, tentou levar as chaves do meu land rover, a situacao tornou-se incontrolavel e tentei sair dali e ele bateu-me com uma pedra no braco enquanto eu estava no interior do carro com os turistas nao esquecendo que duas eram menores.

Os fiscais do parque (Rafael e Majimoto), nao interviram nesta contenda e eu disse que ia dar queixa a policia.
Chegados ao posto policial de Anguabe que esta a 40km do local da contenda, liguei para o Sr.Dias a informa-lo do sucedido e ele disse que era para eu deixar os documentos e chaves dos camioes na policia.

Pedi para falar com o comandante mas nao estava e falei com o chefe de operacoes e pedi um policia armado para voltar a Biaque, nesse momento chegou o corolla com o operador ilegal mais 2 fiscais, entraram na esquadra e disseram que iam levar o caso para o posto que iam fazer um auto de noticias e aviso de multa.

Avisei aos presentes que o Sr.Dias tinha dado ordens para deixar os documentos e chaves na policia e negarao e entregaram aos operadores ilegais na presenca dos fiscais.

Pedi proteccao da policia e negaram alegando que teria proteccao dos fiscais do parque.

Voltamos para o local onde estavam os camioes, encontramos o corolla na estrada e os fiscais iam a pe para o mato, oferecemos boleia e negaram.

Chegados a local, levamos os nossos 3 fiscais que tinham ficado a guardar os camioes e comecou confusao entre motorista do camiao e os fiscais, feriu a um deles, tiraram a motorizada do land rover com ajuda da populacao local, partiu o radio motorola que recuperamos e fugimos, quando chegamos a estrada, estacionamos o nosso carro para bloquear o camiao que saia para Macomia e eles foram para Biaque, mobilizaram 20 homens para fazer frente ao meu carro e enquanto eles vinham nos faziamos marcha atras e eles acabaram cansados e desisitiram.

Enquanto isso o outro land rover levou o ferido e os turistas e eu continuei com as deligencias.

Os camioes por fim foram escoltados por uma viatura do parque que so estava com motorista sem fiscal, o corolla que iam a frente dos camioes e atras deles ia um hilux que tentou bloquearme mas nao conseguiu e eu fiquei atras dos camioes. Antes do cruzamento a Anguabe ultrapassei os camioes e fiquei parado a frente para impedir que fossem a selva macua.

Os camioes avancaram em direccao a Anguabe, ultrapassei-os para prevenir a saida para Montepuez, perto da esquadra encontrei ao hilux que dava boleia a mae dum fiscal.

Insistimos para meter os camioes no quintal da esquadra de Anguabe sede e nao aceitavam mas por fim aceitaram.
O motorista comecou a insultar aos fiscais ate que a policia teve que intervir fazendo uso da sua arma.

Abriu-se a investigacao e o policia de servico chamou-me de maneira arrogante, pediu-me o Dire e questionou o meu nome Dominik nome de mafioso, pedi para repetir e disse o mesmo.

Pediu o nome dos motoristas dos camioes mas nao pediu-lhe documentos.

Fiz queixa de agressao fisica contra minha pessoa e os meus fiscais e transporte ilegal de madeira, a policia nao aceitou a queixa de agressao e disse que so ia tratar do assunto madeira.

A policia entregou um auto de entrega aos agentes do parque, pedimos para ler em voz alta e nao aceitou.
Enquanto se fazia as diligencias o Sr. Magimoto, insultou-me, dizendo que eu nao sabia nada porque nao estava formado em Gorongosa, eu sugeri que ele devia contar os touros, sendo o fiscal e porque os camioes iam ficar na esquadra e ele disse que nao era trabalho dele, que eu fosse contar os touros e fui contar.

Quando todos estavam a sair ( Fiscais, Motoristas e operador ilegal), este ultimo ameacou-nos que se nos saissemos da esquadra alguem ia morrer.
Pedimos a policia para mostrar a copia do auto de entrega e a matricula nao correspondia com a do camiao.
Pedi o nome de oficial de servico e recusou-se e dar e essa conversa foi escutada via celular pelo Sr. Nazerali, assessor do parque.

Fomos jantar e apareceu o Director distrital da agricultura para falar comigo e estava acompanhado da esposa e do Comandante da Policia na sua viatura.

Reportei tudo que tinha acontecido, disse que estava desiludido por nao ter apoio das autoridades locais e disse que viviamos numa anarquia total e ele disse me que tinha que ter cuidado com o que dizia porque era perigoso.

Por volta da 1.30 da manha os camioes estavam na esquadra, voltei para casa porque dia seguinte tinha que levar os turistas para Pemba porque viajavam.

As 20.30 do dia 7 de Janeiro de 2007, liguei para o oficial de administracao para saber como estava a situacao e ele disse que os camioes tinham saido, quis saber a que horas tinham saido os camioes e nao me facultou essa informacao.

Nenhuma autoridade do parque foi a esquadra saber do assunto.

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Entretanto, leia aqui, aqui e aqui documentos em língua inglesa.

Já agora, saiba sobre os 47 contentores de madeira apreendidos há dias no porto de Pemba.
Finalmente, hoje ainda e a propósito do que se passa com as nossas florestas na Zambézia e em Cabo Delgado, escreverei aqui uma carta ao presidente da República.




9 comentários:

Anónimo disse...

e porque tudo e uma mafia e bem maquinada nos "esquemas", em vez de eles averiguarem e por a maquina da justica a funcionar, agora estao vasculhar a validade do teu dire dominik la nos servicos de migracao, procurando mil e umas razoes para nao te renovarem mais. podes crer, casos desses sao conhecidos em mocambique. a policia so protege "os violadores da lei", disso temos experiencia desde os casos de disputas de terra e praias na provincia de inhambane.
professor! espero que o presidente leia a tua carta. se o dominik conseguiu fazer ouvir a sua voz e mesmo foi ameacado e aconselhado a calar pelo comandante.so para ver como as nossas populacoes estao desprotegidas. isto ja nao e "deixa-andar" mas sim "deixa-destruir".

Carlos Serra disse...

Lutemos por um mundo mais justo e solidario, Jorge. Lutemos sempre.

Anónimo disse...

Voila! La sociologie est un sport de combat !
A “floresta é a raiz”. Gostei. Esta expressao diz tudo...
Espero que o escutem.
Entretanto daqui deste lado do mundo manifesto a minha soooooooooolidariedade para com a sua/nossa luta
« Le sociologue, c'est celui qui ouvre sa geule" a dit Bourdieu
Bon courage.

Carlos Serra disse...

Obrigado Paula. Un très grand merci, c´est comme çà toujours.

Esfinge disse...

Meu Deus, como as coisas estao.

Avid disse...

Triste... ver que nem o que e nosso respeitamos, alguem precisa por um BASTA nesta pouca vergonha e com urgencia...
Bjs meus

Iolanda Aguiar disse...

Oh la la! Complicado isto!
Contra a seca e contra as cheias, por um equilibrio écologico, por uma gestao tecnicamente racional das florestas de Cabo delgado, espero que se criem condiçoes para que Silvicultores, agronomos ... possam executar dignamente o seu trabalho, espero tbem que alguem leve suas/nossas preocupaçoes aos ouvidos do PR.
Protejamos a floresta, pulmao de vida.
solidarizando-me com o solidarizavel,
Iolanda Aguiar

Carlos Serra disse...

Isso, Yolanda, pulmão da vida.

Anónimo disse...

Uma historia mesmo triste este.
JCTivane