O grande informal desmoçambicaniza-se?

O "Canal de Moçambique" afirma que refugiados dos Grandes Lagos controlam não apenas o mercado do Estrela na cidade de Maputo, mas, também, os mercados Patrice Lumumba e o T3 no município da Matola, a poucos quilómetros de Maputo.
Mas se formos à cidade da Beira, por exemplo, Nigerianos e Zimbabeanos controlam literalmente o mercado informal do Goto, como já tive ocasião de estudar.
E se formos para o grande mercado informal junto à arquidiocese de Nampula, veremos que os refugiados também têm uma palavra a dizer.
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Foto do "Canal de Moçambique"
Mensagem para Gabriel Muthisse: ó Gabriel, diga lá como explicar este fenómeno, você que é economista....









10 Comments:
Professor,
Do meu ponto de vista o debate que levanta ultrapassa as questões de economia. Teriam que entrar outros especialistas para explicar este fenómeno. Deixe-me dar dois exemplos para explicar o meu ponto. O primeiro é de um amigo meu, proprietário de uma oficina mecánica no Maputo, com uma sucursal na Beira. Emprega no total cerca de 20 pessoas. Conseguiu furar o mercado da reparação de automóveis do aparelho do Estado. Em termos de trabalho não é o pior. Por formação, este meu amigo graduou-se como técnico de mecánica no Instituto Industrial, após o que trabalhou como Director Oficinal numa grande empresa de construção civil, daquelas que acabaram por fechar. Ficou com a oficina por acaso e, entretanto, matriculou-se no ISPU para fazer gestão de empresas. Concluiu o curso com sucesso e é aqui onde começa a história. Quando este meu amigo se graduou, procurou-me para pedir ajuda. O problema é que ele gostaria de trabalhar! Está a entender Professor? Um homem que emprega cerca de 20 pessoas acha que é um desocupado! Custou-me algum trabalho convence-lo de que ele poderia utilizar os conhecimentos que adquiriu no ISPU para desenvolver a sua oficina, moderniza-la e torna-la mais competitiva. E que qualquer emprego que ele pudesse arranjar, sempre lhe pagaria menos do que os rendimentos que obtem da oficina. E o que é pior! Ele ia colocar em risco os empregos de cerca de 20 pessoas já que não mais teria a mesma atenção para com a oficina. Finalmente expliquei-lhe que se era um problema de pôr gravata de manhã, poderia faze-lo exactamente para ir trabalhar na sua própria empresa. Por algum milagre consegui convencer este meu amigo e, com satisfação, noto que as suas oficinas estão a crescer.
O segundo exemplo é de uma amiga que explora uma mercearia no município da Matola. A mercearia funciona num contentor. Esta minha amiga está a concluir o Instituto Comercial privado SOMIMO e, Professor, advinha o sonho desta minha jovem amiga. Acha que é fazer crescer a sua mercearia? Acha que é desenvolver o negócio e chegar a ter uma cadeia de lojas na Matola e, porquê não, no Maputo? Lamento desiludi-lo, mas a minha amiga quer é emprego!
O grande problema quanto a mim é que os moçambicanos que estão nesses “dumbanengues” não estão lá por convicção, diferentemente dos nossos irmãos que vêm dos Grandes Lagos ou da África Ocidental. Estes encaram o negócio com seriedade. Começam com um contentor. Se passa por lá seis meses depois, já acoplou mais um ou dois contentores. Um ano depois está a disputar com os nossos compatriotas de origem asiática as lojas do Alto Maé ou da Baixa. Vá a Nampula, Professor, para ver que grande parte das lojas da Cidade estão nas mãos de africanos que falam português com acento francês ou inglês.
Qual é a solução? Barrar estes nossos irmãos empreendendores em “benefício” dos moçambicanos? Acho que não. Creio que a presença destes estrangeiros pode ajudar os moçambicanos a ver que negócio é emprego. Não é ponto de espera enquanto não surge outra coisa. E estes estrangeiros oferecem uma vantagem que outros estrangeiros não têm. Eles vivem juntos dos moçambicanos no Infulene, no T-3, no Chamanculo, em Namutequeliua ou em Xiwawula na Cidade de Lichinga.
Creio que os exemplos que dei ajudam a mostrar que o problema não é económico. Creio até que é, em parte, sociológico.
Um abraço Professor. Gabriel Muthisse
Excelentes exemplos, excelente hipótese. Não tinha pensado que o problema se poderia equacionar tal como o Gabriel o fez. Terei de arranjar tempo para estudar melhor este fenómeno. Fascinou-me ver no Goto da Beira a facilidade com que Nigerianos e Zimbabeanos fazem negócio e ampliam as suas tendas, vendendo desde electrodoméstios a capulanas, ganhando montes de clientes que, muitas vezes, pelo que observei, não são clientes-pé-descalço, mas clientes das zonas do Macúti e da Ponta Gêa.
acho que as hipóteses do gabriel fazem muito sentido. o problema é sociológico e económico. é económico porque precisamos de analisar a estrutura de incentivos bem como a segurança do investimento para a prosperidade do negócio. refiro-me aqui ao ambiente de negócios que pode ser a razão principal do baixo empreendedorismo entre nós. a questão sociológica levanta-se neste ponto, pois onde os moçcambicanos desapontam os estrangeiros triunfam. talvez seja útil considerar que os estrangeiros não têm o peso das relações familiares que os moçambicanos enfrentam. não nos esqueçamos que antes dos nigerianos e não sei quem mais temos, tivemos também os asiáticos que singraram igualmente mais ou menos nos mesmos moldes. aqui levanta-se também um problema político, nomeadamente que quadro institucional se cria em moçambique para libertar as pessoas dos deveres familiares. o desleixo a que a segurança social está votado é preocupante a este respeito.
Enfim, um caleidoscópio temático que vale a pena investigar. Num trabalho feito há vários anos, pessoas em cinco cidades do país mostraram boa receptividade à presença de refugiados. Mas se a competição por recursos (raros) aumentar, o conflito, a vários níveis, pode surgir. Os refugiados poderão, então, ser acusados de várias coisas (já aconteceu na Matola), o que, creio, é clássico na história da humanidade.
ESM nao pode estar serio ao afirmar que os Nigerianos, Ruandeses, Chineses, Indianos e Paquistaneses tem menos peso familiar que os Mocambicanos e por isso singram nos negocios, onde nos falhamos.
Concordo que necessitamos de incentivos e de um Estado mais presente. Mas no dumbanengue o Estado nao esta para ninguem. Incentivos nao os ha, nem para nacionais, nem para estrangeiros. O que vinga e o empreendendorismo. E ai nos temos bons exemplos, mas aparentemente uma atitude mais negativa para com a associacao com o sector informal... a julgar pelos comentarios de GM.
Asseguro ESM, que as responsabilidades familiares dos africanos dos grandes lagos ou da africa ocidental nao sao menores que as nossas (com o agravante que, sendo emigrantes, as expectativas que recaem sobre eles sao bem maiores). Quanto aos compatriotas ou imigrantes de origem asiatica, e conhecimento publico que a sua dinamica de negocio normalmente envolve membros da familia ou do cla... E diga la que isso nao significa peso familiar?
asseguro a la strega que estou a falar a sério quando digo que os refugiados não estão sujeitos ao mesmo peso das relações familiares. não disse mais, nem menos. referia-me à qualidade. os refugidos também têm relações familiares e compromissos com essas famílias, mas o contexto é completamente diferente. pensem só nos empreendedores que singram no nosso país e as acusações de feitiçaria a que estão sujeitos pelos membros da família. quanto aos asiáticos, não devemos descurar a própria natureza das relações familiares (com uma concepção que me parece diferente da nossa em termos dos deveres e direitos) entre eles. não quero dar a ideia de essencialidade, pois no nosso caso também o tipo de relações familiares que temos é resultado histórico da relação com o estado colonial e pós-colonial. também não reduzo a questão apenas às relações sociais. nunca falo a brincar.
Os Nigerianos e Ruandeses (tb africanos) conseguem fazer nas suas terras o mesmo que fazem em Mocambique ou noutros países estrangeiros? Se não conseguem, porquê?
Eu acredito em todas as hipóteses dadas aqui. E essa de peso familiar é séria quando se está em casa. Podemos ver o que é conceito família para nós. Embora pareca ser outro assunto, mas quero dizer que há muitos que não querem trabalhar na sua terra natal precisamente para evitar o peso familiar.
aqui está uma excelente pergunta! eles fazem o mesmo nos seus países? creio que não. creio que lá eles se comportam como nós cá da mesma forma que há moçambicanos fora que se comportam como os estrangeiros entre nós. um outro dado importante, quanto a mim, é o sentido de comunidade que os estrangeiros entre nós produzem. refiro-me sobretudo ao papel das igrejas pentecostais (por exemplo, a redeemed church of christ de nigerianos cujas dependências já vi em vários pontos em maputo) que se constituem como verdadeiras redes de solidariedade para facilitar os negócios.
De facto tem razao, ESM, nao devemos essencializar as coisas. Nao posso negar que o peso familiar em casa sera de certa maneira diferente do peso familiar quando fora de casa. Tambem nao e de negar que as dinamicas de interaccao familiares sao diferentes em cada comunidade. E tenho que admitir que este e um factor que pode dificultar o nosso sucesso em casa. Como diz o ditado, ninguem e profeta em sua casa...
Mas ainda assim nao creio que o factor familia e responsabilidade familiar seja o factor determinante na nossa comparativa falta de sucesso nos negocios. Da mesma maneira talvez tambem a atitude negativa perante o informalismo nao seja um factor determinante. Sao factores contribuites. E de igual modo poderiamos avancar varios outros.
Ja quanto a questao das acusacoes de feiticaria, que estao talvez ligadas a ideia de inveja e mau olhado, nao creio que se podera dizer categoricamente que nao acontecem nas comunidades imigrantes.
Na realidade estamos aqui a generalizar para uma gama de individuos e comunidades com uma panoplia de habitos e costumes e tradicoes diferentes... Para nos sao os nigerianos e ruandeses e afins, categorias hermeticas, homogeneas e individuos sem rosto... mas por cada bem sucedido, quantos nao o sao? E por cada loja que abre, saberemos mesmo se sao sempre os mesmos individuos que por ali andam? E onde estao os que ja ca nao estao? E porque se foram?
Ha uma serie de factores e caracteristicas que nao conhecemos destas comunidades, para simplesmente assumir que a nossa familia e as nossas acusacoes de feitico sao-nos exclusivas e impedem-nos de ser bem sucedidos... Isso e discurso de vitima. E a culpa nunca e nossa, como sempre. Os outros vencem porque a vida lhes esta mais facilitada. Nao esquecamos que eles sao imigrantes e estao a tentar vencer em terra alheia... Isso de si ja deve ser complicado.
E quanto ao sucesso e empreendendorismo ca, que nao se verifica no pais de origem... Nao sei se sera justo falar-se nesses moldes. Nao quero generalizar, obviamente, mas os Nigerianos nao sao conhecidos pela sua falta de empreendendorismo. Nem aqui, nem na Nigeria. Dos poucos Nigerianos (na diaspora) que tive a oportunidade de conhecer, o traco comum e a queixa continua sobre um governo que os impede de realizar sonhos e empreendimentos. E os Ruandeses sabemos nos porque estao em nossa casa...
Nao sei, nao sei... mas penso que precisamos de mais dados antes de estarmos ai a avancar pros ou contras e razoes explicativas de fenomenos cuja dinamica mal conhecemos... precisamos de desmistificar tudo isto. Seja em relacao a nos, seja em relacao as nossas comunidades imigrantes.
mas é justamente o que estamos a fazer. eu pelo menos não avancei explicações, avancei hipóteses a considerar. também não sei com certeza uma vez que nunca investiguei o assunto e nunca li nada baseado numa investigação. mas deve haver. eu estava apenas a aumentar os aspectos sociológicos que precisam de ser tomados em consideração. há muitos outros, temos que controlar as nossas impressões, verificar se os nossos palpites são plausíveis, etc.
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