26 outubro 2006

É perto mas não é perto

Sempre me fascinou uma coisa, desde a minha meninice, lá na minha terra, vasta, que é Tete: o oxímoro.
Em várias ocasiões, por motivos diversos, em vários dos distritos da província, por vezes em sítios recôndidos, perdido muitas vezes, sem qualquer sentido de orientação geográfica, tive de perguntar a camponeses onde ficava o sítio xis.
E a resposta era, invariavelmente, a mesma: um dedo apontando a estrada e um breve "Ali, siô". E, não menos invariavelmente, eu perguntava: "É longe?"
Uma vez mais, invariavelmente, a resposta era: "É perto mas não é perto" (ni pafupi koma pafupi). E, aqui e acolá, o acréscimo: "Não precisa pressa, há-de de chegar ao destino. Obrigado" (Bzinfunika lini kankulumize uti ufike ulendo bwako. Ndatenda).
O que representa o oxímoro "É perto mas não é perto"? Uma contradição? A falta de um relógio? Uma contabilidade temporal distinta?
É possível dar uma resposta pronta-a-vestir a cada uma dessas perguntas. Mas, ao fim destes anos todos, cheguei a uma conclusão por via da alma: "É perto mas não é perto" é uma forma de nos cumprimentar, de nos saudar, de nos suavizar as agruras das viagens, de trazer o longe para perto e o tornar familiar.
Mesmo que não aceitem a minha conclusão, nada podereis fazer contra a minha alma, porque ela é a minha emoção contra a vossa razão, a emoção que os embondeiros de Tete ensinam.

11 comentários:

Anónimo disse...

Eu aceito e emociono-me.

prozina disse...

nunca mais saio daqui

jovem da patria amada disse...

Bom dia! mecanico da oficina de sociologia.
entrei na tua oficina,apanas para dizer que acabei de postar, no meu blog (patria amada), um texto, que em meu parecer,faz uma homenagem parcial a um grande pai da sociologia em Mocambique.


Bom fim de semana!
se for adepto de benfica, nao deixe de vibrar com as emocoes que os gloriosos vao, certamente, trazer.

jovem da patria amada disse...

Bom dia! mecanico da oficina de sociologia.
entrei na tua oficina,apanas para dizer que acabei de postar, no meu blog (patria amada), um texto, que em meu parecer,faz uma homenagem parcial a um grande pai da sociologia em Mocambique.


Bom fim de semana!
se for adepto de benfica, nao deixe de vibrar com as emocoes que os gloriosos vao, certamente, trazer

Egidio Vaz disse...

Ha quem diga que o tempo africano nao existe. Ele faz-se.
Portanto, a distancia e longa enquanto nao caminha-la.
Ela e curta depois de percorre-la.
Que belo relogio africano!

Wetela disse...

é perto mas nao é perto....é bem ralativo acho eu.Lembro me que em Quissico(onde estao minhas raizes),as pessoas estao abituadas a fazer 10 a 15Km a pé para buscar um balde de agua e quando lhes perguntas dizem "...e perto" mas eu digo "nao é perto". Talves seja o que o Egidio diz que o tempo nao existe para o africano e dai acrescento a distancia....

Carlos Serra disse...

Espero que ganhem o Benfica e o Chingale da minha terra...

Carlos Serra disse...

Ah, é verdade, obrigado pelo elogio, fico feliz em saber que os estudantes vão criando blogs. Parabéns.

Anónimo disse...

Aqui em Minas Gerais, interior do Brasil, recebemos a seguinte resposta à essa pergunta: "Fica a um 'tirinho' daqui". Depois de léguas caminhadas, passamos a estranhar a potência do tiro. A resposta delicada parece ter o mesmo objetivo: não nos deixar esmorecer!
Tens uma sensibilidade inebriante, professor!

Fátima Ribeiro disse...

Venho aqui apenas juntar à frase que deu origem ao post três outras frases para algum eventual estudo do modo como é concebido e expresso o tempo, neste caso particularmente no português falado em Moçambique. Ouso dizer que são frases que ouvimos de diversos falantes com diversas línguas moçambicanas como língua materna.
1. É perto mas não é perto.
2. A viagem demora seis horas de tempo.
3. Ele chegou aqui naquela hora das nove.
4. Chegou a minha casa enquanto eu não estava lá.
Aliando-me às interrogações do professor quanto à frase 1, quer-me parecer que esta questão do tempo (e o mesmo se poderia dizer da distância, como referem o Egídio e o Wetela) se trata de uma interessante área de trabalho conjunto para linguistas e sociólogos.

Carlos Serra disse...

Sem dúvida, Fátima!