12 julho 2008

As mãos africanas de Pilatos (13) (fim)

Como explicar o silêncio, a cumplicidade da quase totalidade dos membros da União Africana perante o que se passa no Zimbabwe? Coloquei, já, três hipóteses: a do companheirismo africano, a do camaradismo político e a do parceirismo da mão estrangeira. Expliquei que tentaria meter-me dentro de cada uma delas e dos seus defensores públicos e privados, coisa que me parece bastante difícil, convireis. Já apresentei as duas primeiras e a primeira metade da última. Finalizo hoje, logo de seguida, com a habitual ironia.
Então, irmão Mugabe, estamos claros sobre tudo, estamos claros de que nada do que acontece nas nossas benditas terras acontece por acaso, estamos claros de que aquilo que acontece só pode acontecer pelos espírito e pelas mãos de Cecil Rhodes. Há sempre um branco a prejudicar-nos, a perturbar o nosso sono, um calor externo para fazer sair dos ovos os pintos malfeitores.
Irmão Mugabe, os apostoleiros da desgraça nos nossos países sempre têm maneira de usar cipaios. Por exemplo, em Moçambique, veja lá estes Renamos diabólicos sempre a aborrecer-nos! Aqueles miúdos caceteiros do 5 de Fevereiro em Maputo, está a ver? Aqueles magermane, está a ver? Aquelas greves de estivadores, está a ver? Sempre há uma mão externa nisso, mas com corpo de malandro local. É como aí convosco, com esses MDCs manipulados pelos brancos das farmas e pelos imperialistas de Londres ou com esses muitos malandros que vos obrigaranm à santa Operação Murambatsvina, uma coisa higiénica unicamente destinada a pôr ordem em quase dois milhões e meio de malandros com suas casas ilegais, destruindo-as. E se não são esses malandros visíveis, é a história, ao fim e ao cabo a própria história em si é culpada, ela é branca, ela é escravocrata, não é, irmão Mugabe? Temos de estar claros ante os simplicideiros de cérebro obtuso que nada sabem mas que julgam tudo saber em suas imprensas e jogos feios de corredor desgraçadeiro.
Mas agora, irmão Mugabe, poder respirar um pouco melhor. Nós, na União Africana e na SADC, demos-lhe o nosso apoio, não somos como Pilatos, agora os nossos irmãos chineses e russos vieram em nosso auxílio contra o imperialismo diabólico dos Rhodes e dos Washingtons.
A esses miúdos do Morgan precisamos dar algum milho, uns Pageros, empoderá-los um pouquinho, uma coisinhas para eles pensarem que estão a governar, não custa nada deixar que eles comam um pouco, vai ver como ficarão felizes nos governamentos de "unidade nacional", nossa maneira de fazer algum teatro para nos deixarem tratar da nossa santa democracia como o abençoado Bongo faz no Gabão há 41 benditos anos. Mas se continuarem a fazer barulho, o irmão Augustine Chihuri sabe bem como os pôr em sentido respeitador, como fazer respeitar a pátria, a nossa sagrada terra, o espírito dos nossos antepassados. Quanto aos nossos irmãos chineses e russos, já sabe como proceder: como eles não não usam aquela apostoleira música dos direitos humanos e nos dão o dinheiro que queremos, é só deixá-los usar o vosso ouro, a vossa platina e a vossa madeira e cobrar-lhes a patriótica renda.
Finalmente, irmão Mugabe: que repousem em paz os espíritos dos nossos irmãos Idi Amin, Bokassa e Mobutu.
Nota: e assim termino a mais longa série deste diário.

2 comentários:

Xiluva/SARA disse...

Na mouche.

belmiro disse...

Brilhante professor

J.Belmiro