14 abril 2007

Xenofobia: a canibalização do Outro (2) (continua)



Em 1999 dirigi uma pesquisa sobre racismo e etnicidade em cinco cidades do país (Lichinga, Tete, Beira, Inhambane e Maputo)*. Entre as técnicas utilizadas, figurou a administração de um questionário, com 33 questões e cinco variáveis, a 525 pessoas distribuídas por sete categorias: camponeses, operários, professores do ensino secundário, estudantes da 12.a classe, vendedores "informais", atletas federados e jornalistas.
Em relação às percepções sobre etnicidade, havia a seguinte frase para os inquiridos avaliarem numa escala de graduação (concordo/discordo/tenho dúvidas/não sei): devemos receber e tratar bem os refugiados africanos de outros países.
Os resultados mostraram uma elevada percentagem de concordância: 91%. A média de discordância foi de 6%, a de dúvida de 1% e a de desconhecimento de 2%. Num quadro de grande homogeneidade, os naturais de duas províncias que têm muitos refugiados de guerra (Niassa com 100% e Tete com 96%), as pessoas com o "primário incompleto" e "universitário incompleto" (ambos com 97%), os estudantes (96%) e os atletas federados (99%) obtiveram os níveis mais elevados de concordância.
Na altura, escrevi o seguinte: "Estes resultados mostram um extraordinário potencial de modernidade e de abertura ao Outro, apesar de 20% dos camponeses (especialmente da Beira, como veremos) discordarem."
Certo: o objectivo do questionário não foi o de estudar práticas, mas o de estudar atitudes correntes entre os Moçambicanos[i]. Uma atitude é uma predisposição à prática.
Seja como for, os resultados foram interessantes, se tivermos em conta os potenciais de recusa do Outro em outros níveis do questionário (consulte a obra mais abaixo).
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*Serra, Carlos (dir), Racismo, etnicidade e poder. Um estudo em cinco cidades de Moçambique. Maputo: Livraria Universitária, 2000, pp. 20-22.

2 comentários:

Alzira Simões disse...

Caro colega, deixe que assim o trate! pois sou igualmente uma aprendiz do tentame da compreensão e interpretação do real social, quer nas suas relações sociais - socióloga - quer nos seus objectos culturais - antropóloga; deixe que lhe dê os parabéns pelo seu blog e acredite vou vê-lo mais vezes e divulgar pelos pelos alunos aqui em Luanda-Angola. Continuação!

Carlos Serra disse...

Obrigado, Alzira, volte sempre e mantenhamos o contacto.
Um abraço e, como aqui dizemos, estamos juntos!