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6. O pineu: lógica federadora e catarse
"Tornar o mais fraco dos argumentos o mais forte" (Aristóteles, Retórica, II, 24, 1402A)
Chega a noite. A noite é o medo, o risco do assalto, o perigo da emboscada, a possibilidade do roubo ou da morte, o espectro das possibilidades doentias.
Há nos bairros como que uma doença, uma doença social prolongada, formada por sucessivos problemas encavalitados uns nos outros, com coeficientes diferentes, mas todos confluindo para uma mesma situação de mal-estar profundo. Já não basta viver com dificuldades de sobrevivência: mesmo essas dificuldades são motivo de assalto, de pilhagem.
A espoliação, física e moral, espreita cada cidadão. A doença social indiferencia toda a gente, qualquer pessoa está à mercê da doença, reina um profundo eclipse cultural. A suspeita está em cada ponto, em cada poro. Existe como que a consciência ao mesmo tempo súbita e perene da perda do social, das regras, da moral, o mesmo está em todo o lado e o mesmo é o crime, o medo, a insegurança. Cada morador sente que existe uma poluição social, poluição contra a qual não há defesa pois o vazio institucional é evidente, a polícia não protege, o Estado está nas ruas iluminadas, lá longe, no bem-estar.
Uma noite alguém surpreende uma tentativa de roubo. Ou alguém vê passar outro alguém cujos sinais exteriores lhe parecem suspeitos. Esse alguém está casado com a noite. Se a noite é suspeita, ele também é suspeito. É ninja e pronto.
E surge um grito súbito: Ladrão!!!!!
Imediatamente, como molas rapidamente distendidas por contágio, um bocado de todos os lados, todos berrando, todos exigindo punição, os moradores, sem distinção de sexo e de idade, saem das suas casas de blocos, armados com tudo o que puderam encontrar, catanas, paus, enxadas, não importa o quê. Está rapidamente formada a multidão linchadora e mimética.
O ladrão ou o suposto ladrão é interceptado. Tentar impedir isso representa imediato risco de vida. A multidão age sem freio.
Segue-se o linchamento. Agride-se duramente, todos agridem, todos querem agredir, é fundamental agredir, é como se uma necessidade vital, da natureza estrangeira ao social e à razão, coloca-se um pneu no pescoço da vítima já semi-consciente, chega-se-lhe petróleo, alguém acende um fósforo. O linchado é queimado vivo, por todo o lado se berra.
É a conclusão sacrifical, a catarse, a purificação, a libertação dos males acumulados, da poluição social. Não importa se a vítima é ou não culpada, o que conta é que ela representa o bode expiatório que deve receber toda a mágoa social acumulada, ela é a peça vicária fundamental.
Os moradores julgam, dessa forma, que o social foi restabelecido, que a identidade foi recuperada, que o mesmo deu, de novo, lugar à diferença, a diferença entre a segurança e a insegurança.
Mas a sua mensagem é polissémica: eles advertem os governantes de que também são capazes de violência e de punição, de que também têm leis alternativas, de que são capazes de reorganizar as suas vidas, de que são capazes de encontrar soluções quando as normais não chegam de onde deviam chegar.
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A reconstituição do cenário linchatório foi feita com uma adaptação da grelha teórica de René Girard:
__Des choses cachées depuis la fondation du monde/Entretiens avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978;__ Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982.
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Aguardo que comentem o texto, que sugiram, que critiquem, etc.