01 setembro 2006

Espanto

Interessante, muito interessante. Um blogue começado e abandonado no mesmo ano, 2004. Nele, uma socióloga queixou-se amargamente do facto de num país europeu um dado sociólogo passar por ser o emblema de referência na sociologia local. E escreveu: "Ele não trouxe nada de novo". Etc.
Eis o velho problema: a crença de que precisamos de ter coisas novas para sermos sociólogos, de ter formas novas, teoricamente novas, de estudarmos e analisarmos o social.
Todavia, em meu entender não são as novas teorias e os novos métodos que, em última instância, nos fazem ler melhor esse social, mas, antes, a nossa capacidade permanente de espanto perante o que sempre parece repetir-se.
O social esgota-se quando o espanto desaparece.
A sociologia é espanto enxertado nos fenómenos.

6 comentários:

Wetela disse...

...Concordo plenamente consigo Professor, afinal, perdemos muito tempo à procura de novas teorias e métodos para nos afirmarmos como sociólogos.Penso que esta situação estaja relacionada com a grande duvida que paira sobre muitos jovens sociólogos moçambicanos." O que é ser sociólogo"? É trazer novas teorias, novos métodos? Novos conceitos de abordagem? Creio que não! Penso que seja algo muito mais "simples",e como bem diz o Professor, criar desafios e desnudar fenómenos sociais que se repetem e que aparentemente se apresentam como situações "normais".

Saudações Acadêmicas

M.Wetela

Carlos Serra disse...

Veja a nova entrada.

Wetela disse...

A que se refere a nova entrada Professor?

Carlos Serra disse...

"Espanto e holofotes cognitivos".

Wetela disse...

A sociologia pensa a sociedade deixando entre parênteses sua concepção da Natureza em geral e da natureza humana em particular. Com poucas excepções, os sociólogos arrepiam os cabelos quando ouvem falar da hipótese da existência de uma natureza humana. Quase que reivindicando o relato do Gênese, onde os primeiros seres humanos (pelos delitos associados de Eva, Adão e Caim) são violentamente colocados para fora da Natureza primitiva e condenados a depender exclusivamente de seus próprios esforços vivendo em sociedade, a sociologia pretende também substituir ou transformar a natureza humana em algo eminentemente social cujos resíduos naturais pouco importam. Porém, para deixar em claro que é uma disciplina secularizada, a sociologia inverte o mito do Gênese num aspecto essencial. Se na mensagem bíblica a sociedade aparecia ligada indissociavelmente à “queda” do Paraíso, para a sociologia é o inverso. Se na Bíblia a salvação está fora da sociedade, para a sociologia a salvação estará dentro, ela nos induz a pensar que a sociedade é progressivamente boa e que a Natureza é apenas um obstáculo a ser superado no caminho do progresso e aperfeiçoamento social. Assim sendo, os seres humanos teriam tudo a ganhar esquecendo sua natureza humana e concentrando-se apenas na sua condição social.

Carlos Serra disse...

Existem textos capitais em Edgar Morin a propósito do que o Wetela chama "natureza humana" e ele, "complexidade humana".