07 setembro 2006

Saborosas reinterpretações da história

Sabeis que a 7 de Setembro de 1974 se assinaram em Lusaka, Zâmbia, os acordos de paz entre o governo português e a Frelimo, após dez anos de luta armada. Hoje é feriado aqui por isso mesmo.
E também sabeis que em 1992 se assinou em Roma o acordo de paz entre a Frelimo e a Renamo, após uma sangrenta guerra civil que durou 16 anos.
Ora, ontem à noite a Rádio Moçambique entrevistou vários jovens e perguntou-lhes se conheciam o significado do 7 de Setembro. Uns não sabiam, mas outros sabiam à sua maneira. Saliento de memória duas respostas:
  • Foi a ida da [sic] Lusaka a Roma
  • Foi o dia dos acordos de Lusaka em Roma

7 comentários:

Anónimo disse...

Não ouvi o programa da RM, mas não surpreende muito o género de respostas dadas por essa fasquia dos jovens moçambicanos! Sabemos que, apesar dos esforços de alargamento da rede escolar, a educação permanece um privilégio para uns...outros tantos não acedem a esse serviço básico do Estado!
Um outro problema, muito mais sério, é dos que, mesmo tendo acesso a educação mostram ignorância relativamente ao significado das datas históricas. Não direi que o problema é tipicamente nosso. Em outras sociedadas bem mais "desenvolvidas", também impera o desinteresse relativamente a esses temas. Talvez esteja tudo no âmbito da queda dos níveis de politização das pessoas. Tanto quanto se tem tentado avançar, já não são somente os recursos cognitivos que contam para a politização, ou seja, para o interesse por temas públicos!

Anónimo disse...

Nao me expanto em nada com o que aconteceu, tendo em vista que cada vez mais nos "jovens" nos afastamos da historia do nosso pais, nas escolas ela e nos ensinada como se nao nos pertencesse, torna-se o passado apenas didactico e pouco patriotico, devemos apenas decorar para tirar boas notas no teste e quanto ao que aconteceu, prefiro sentar-me ao lado do meu pai e ouvir a cada 7 de Setembro a mesma historia e sentir que faz parte de mim tambem e nao apenas do livro de historia. Bjs Tuchamz

Carlos Serra disse...

Partilho as vossas posições, CMD e Tucha. Aqui, a minha intenção não foi a crítica da ignorância histórica, mas, antes, o registo de uma forma singular de mostrar que, afinal, em termos de relevância e proximidades históricas, Roma está mais bem perto de nós do que Lusaka. Abraço.

Anónimo disse...

Sem dúvida, caro prof.
Na memória de todos nós, sobretudo dos mais jovens, Roma é bem mais recente, e, por sinal, mais significativo. Não só porque a guerra civil foi mais abrangente (e provavelmente mais atróz),mas também porque foi entre moçambicanos.
Tal como os entrevistados pela RM, tudo o que eu sei sobre Lusaka é pelos livros. Na ingenuidade da minha da adolescência festejei vibrei com os acordos...e foi desde essa altura que passei a ler jornais e a ouvir noticiários. Afinal o primeiro grande provcesso político-diplomático que segui pelos media terminou numa grande prenda para mim e para a maioria dos moçambicanos.
CMB

Fátima Ribeiro disse...

E se os jovens de hoje não sabem que 7 de Setembro foi o dia da assinatura do acordo de paz entre Portugal e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), nós próprios que o vivemos também não sabemos o que foi no país em geral. Tudo tem sido apresentado como limitando-se a Lusaka e Lourenço Marques, mas a Beira, Nampula, Quelimane, Tete, Vila Cabral, Moçambique inteiro tem a sua história, que ainda está por recolher e escrever.
Daquela simultaneamente feliz e dolorosa data da nossa história, cada um de nós tem as suas vivências, e acho que as devíamos tentar reunir. A minha é a do emissor da Zambézia, onde fui chamada a fazer a locução naqueles dias: a resistência a transmitir em cadeia com Lourenço Marques o que o Movimento de Moçambique Livre dizia e pretendia obrigar os emissores distritais e regional a fazerem. Resistência também à pressão de organizações, grupos e citadinos então influentes. Recordo aqui José Manuel Lopes Pereira, então capitão do exército português em Quelimane, que corajosamente montou com os seus homens a protecção física do emissor e do pequeno pessoal que ali se aguentou, e nos foi comunicando as poucas notícias possíveis (que recebia do chamado Sector D) sobre o que de facto se passava no resto do território. Muitas foram as ameaças – inclusivamente de bombas - que ali recebemos até ao “Galo, galo, galo amanheceu” do dia 9, que tudo amainou. Pouco depois, surgia uma nota corrigindo o “Aqui Portugal, Moçambique, fala-vos o Rádio Clube de Moçambique..., para “Aqui Moçambique, fala-vos o Rádio Clube de Moçambique...”. Das outras cidades e do resto do país, como nunca se fala deles, vou pouco a pouco esquecendo o pouco que já soube.

Carlos Serra disse...

Tem completa razão, Fátima.

Wetela disse...

Vejam a "A Transição Política em Moçambique" de Elisio Macamo, de certa forma ele aborda de uma forma simples e clara esta questão da nossa história...