10 novembro 2006

Maboazuda e dominação masculina

Maboazuda é uma canção que celebra a dominação masculina disfarçando-a, anestesiando-a com a emoção, com o fervor entorpecente da dança.
Já aqui um dia, numa entrada, vos recordei o belo livro de Pierre Bourdieu, justamente chamado "A dominação masculina".
Tendo em conta esse livro, defendo que o problema fundamental não é que a canção de Zico seja um exercício pleno de dominação masculina: o problema está em que as mulheres que dançam a música aceitam essa dominação. Dançá-la é aceitar, interiorizar a dominação, consciente ou inconscientemente.
Mas nós temos muitas vezes a suprema e dialéctica capacidade de estarmos hoje, como mulheres, a dançar a maboazuda e, amanhã, numa sala de conferências, a exigir solenemente um papel mais amplo para a mulher dirigente.
Estou disposto ao debate.
Estamos juntos, para dizer como o Emílio Manhique!

7 comentários:

Fátima Ribeiro disse...

Gostava, professor, que as minhas intervenções no Diário pudessem corresponder melhor ao seu nível – sempre pertinente nas questões, profundo nas análises, proactivo nas soluções, elegante na linguagem... – mas infelizmente a constante pressão dos prazos a que uma das minhas ocupações me obriga (creio ser sina dos tradutores) não me tem permitido. Também agora só entrei aqui para alguma descontracção a meio de mais um trabalho que tem de ficar pronto para ontem.
Terá, creio eu, interesse na discussão em curso ter em conta outros conteúdos temáticos que, associados a ritmos a que é difícil resistir, despertam em nós sentimentos e atitudes contraditórios. Lembro-me, por exemplo, e o professor também se lembrará, de como muitos jovens na Beira de 1975 vibravam ao cantar e dançar o “Esquecer eu não consigo/os massacres de kifangondo/Ali morreram camaradas/ali morreram angolanos” apesar de plenamente engajados na revolução e no apoio ao MPLA de então. Eu própria a dançava, e creio que a revolta que era suposto a canção despertar ficava totalmente ofuscada pela grande magia do ritmo. Hoje também eu também me interrogo porquê.
Espero não estar a desviar a discussão.

Fátima Ribeiro disse...

É possível que a memória me tenha traído na entrada anterior e já não me esteja a referir propriamente a 1975. Talvez seja um período um pouco posterior. Já lá vai tanto tempo!

Carlos Serra disse...

Olá, Fátima, não desvia não, nunca desviará. Sim, lembro-me. Oh, esta coisa do subconsciente, do eclipse da razão, tudo isso é crucial. Terei certamente de escavar melhor esse submundo. Volte sempre, por favor!

PL disse...

Até 2004, antes de me interessar sociologicamente pela educação, estudava as identidade(s) masculina(s) e Bourdieu foi e continua a ser o meu maior referêncial teórico. Do texto que C.S faz referencia parafraseo de memória o seguinte:
“ Desejo feminino da dominação masculina”
P.L
CPT

Carlos Serra disse...

Justamente PL!

PL disse...

Zicoismo e Zumaismo!

Alguém pensara nas similaridades?
A partida, parece que um não tem nada a ver o outro.
Mas, em contextos distintos, os dois têm fãs devido a sua postura de “macho”.
Enquanto um se tornou popular pela música o outro popularizou, ainda mais, o ‘Machine-gun’. Hoje, são as duas músicas ‘rings’ da massiva industria telemóvel. Até agora, foi mais com mulhres que ouvi o son do Maboazuda e do Machine-gun soar nos celulares. Claro que muitos homens tambem os usam.
Imagino Zuma interpretando Zico : - “até sero-positiva leva”!
Aqui na RSA a conotação do ‘machine-gun’ não se ficou pela arma que os guerilheiros do ANC empunharam para expulsar o apartheid. O ‘Machine-gun’ passou a ter nas cuecas a sua coleira!
Eis materia prima para os sociólogos e não só. Que tipo de sociodade é essa que produz Zumas e Zicos?
Do feminismo (ideologico e academico) já vieram algumas respotas. A androgénia e o modelo de dominação assente no patriarcalismo é a principal. Estamos satisfeitos? Ou devemos radicalizar ainda mais as nossas dúvidas?

Carlos Serra disse...

Excelentes, excelentes, excelentes questões levanta, PL! Pode fazer um pequeno artigo sobre as machine-guns para amplicar o debate aqui?