10 novembro 2006

Voltarei à "Maboazuda" hoje

Na sequência do que o Savana tem publicado sobre Maboazuda, a famosa canção de Zico, retomarei aqui hoje a letra, aprofundando o processo de desqualificação que, em meu entender, a permeia por inteiro.

4 comentários:

Anónimo disse...

Aguardemos...

Aut disse...

Não seria possível publicar no blog a análise do jurista Carlos Serra Jr. para que a ela tenham acesso e prossigam no debate os leitores que não moram em Moçambique?

PL disse...

Aconteceu o que previa. O texto de CS.jr é um excelente exercício de legalidade, melhor, de ‘legalismo’ jurídico. Segundo artigo x, y e z a letra de Zico é ofensiva aos direitos de outrem e segundo o artigo H, J e P o cantor exerce seus direitos de cidadão Moçambicano. Fiquei, ‘ficamos’, a conhecer um pouco mais o quadro juridico-legal no qual nossas acções se devem conformar, melhor, enquadrar. Concordo com todas as observações de C.S. Jr no aspecto legal da argumentação.

Mas fica a inquiétação. Fico a saber menos sobre o tipo de sociedade que produz Zicos? Sobre o porquê da “normalidade” Maboazudiana? Porque milhares de concidadãos se contorcem em passos malabarísticos - para-cima, para baixo - nas pistas de dança Maputense e não só- fazendo vista grossa a tão desqualificativa letra? Podereis me dizer que as pessoas não dançam a letra, dançam ao son/ritmo da música. Concordarei! Mas que não o fizessem, principalmente elas, as coisificadas, mesmo em forma de protexto contra a blásfémia Ziconiana. Restam duas assumpções. Todos/ todas andam ‘fora-da- lei’, por desconhê-la (?) ou são todos/ todas um desqualificadores do outro.

Por isso, questionava em comentário anterior neste blog, se Zico não eramos NÓS próprios? Nós, em tudo o quanto a letra representa de negativo. Negativo na observância do direito dos outros, na falta de respeito, enfim, na falta de uma ‘atitude civilizacional’.

Uma atitude civilizacional é aquela que conduz os individuos a interiorizar a existência e respeitar a dignidade do outro. Assim, ao agir civilizadamente, controlamos os instintos que nós fariam desfazermo-nos do aperto da urina na primeira esquina ou árvore da cidade. O motorista do chapa iria pensar que transporta gente antes de fazer o conta kilometros atingir os 120. Cada um iria pensar antes de jogar lixo pela janela ao passeio.
Fariamos tudo isso, porque levariamos a consideração o ‘mal’ que nossa acção representaria para outrem pelos efeitos derivados da nossa acção. Enfim a música de Zico releva acima de tudo uma atitude civilizacional. O estado civilizacional em que se encontra a nossa sociedade.

Se a letra de Zico não fosse a letra que é, nós não seriamos nós? Moçambique não seria o Moçambique que é. Maboazuda não seria Maboazuda. Mas por que é que nós somos nós, assim como o somos? Infelizmente, acho que uma abordagem Juridico-legalista não nos levaria além daquilo que C.S.Jr fez com mestria.

Outros possíveis!

A explicação que ensaiei, brevemente e hipotéticamente, sobre o estado civilizacional da nossa sociedade é apenas um outro possível.

Outro possível é a explicação Goffmaniana da produção social do stigma. Goffman num acto ‘brilhante’ de imaginação sociológica, tentou explicar a origem social da desqualificação ou do stigma se quiserdes. Para aquele sociólogo o stigma, surge da discrepância entre a identidade real (aquela que cada um de nós reclama para si, e que projecta uma imagem positiva do indivíduo) e a identidade virtual (aquela que nós é imposta pelos outros). Não existe stigma positivo, mas aquele pode ser- pelas supostas vítimas- manipulado positivamente a seu favor. Portanto, fazer uso positivo de qualidades ‘negativizadas’. Recordo-me assim, de um cego que todas as manhãs passava pela minha casa no Xai-Xai, onde passei boa parte da infância e gritava lá para dentro do quintal: “Não é ninguem, é o ceguinho esta pedir esmola”.
Não estaremos todos nós fazendo o papel do ceguinho a medir pela aceitação que a música parece ter?

Não procurei dar resposta alguma, levantei apenas mais problemas. Mas para que serveria a sociologia se não para questionar o “ prontos” as “coisas são assim e prontos”; mesmo quando as coisas são legalmente assim?

PL, CPT

Carlos Serra disse...

PL, veja a sequência na entrada analítica.