06 abril 2009

Ditos curandeirais de Aurélio Morais

Usar órgãos humanos é corrente na nossa sociedade em casos de feitiçaria - afirmou Aurélio Morais, curandeiro, para quem os verdadeiros médicos tradicionais curam através de plantas e de ervas. O Sr. Morais disse, ainda, ser capaz de fazer alguém não dormir colocando uma raíz no quarto. Confira aqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.

05 abril 2009

O problema político de Nacala-Porto

A Rádio Moçambique (RM) dedicou hoje bastante tempo ao problema da gestão municipal de Nacala-Porto no seu noticiário das 19:30. Amanhã, perante Lucas Chomera, ministro da Administração Estatal, é a cerimónia de investidura do novo edil, Chales Ossufo do partido Frelimo, que substitui Manuel dos Santos da Renamo. Enquanto isso, membros séniores deste partido na oposição continuam a afirmar que o município não será entregue à Frelimo e, hoje, em conferência de imprensa em Nacala, porta-vozes seus afirmaram que ninguém da Renamo vai amanhã tomar posse. Hoje ainda realizou-se na cidade de Nampula uma manifestação dita da "sociedade civil" para, de acordo com a RM, protestar contra a posição de Afonso Dhlakama, presidente da Renamo, segundo a qual fixou residência em Nampula "para salvar o povo macua da escravatura". Por seu lado, um representante da Renamo considerou a manifestação obra da Frelimo e disse que Dhlakama não era apenas salvador de Nampula, mas de todo o país. Finalmente, um jornalista da RM afirmou que o ambiente de Nacala-Porto é calmo, mas a cidade - acrescentou - está fortemente policiada, com a presença de carros de assalto da Força de Intervenção Rápida.

Mapeando linchamentos (5)


Conforme prometido, eis o mapa de Moçambique actualizado com os linchamentos ocorridos em Tete.

Zimbabwe: diamantes de sangue

Saiba dos roteiros e dos usos dos diamantes de sangue no Zimbabwe, através de um relatório datado do mês passado, aqui. Enquanto isso, um organismo internacional ordenou o banimento do comércio de diamantes com a parte oriental do Zimbabwe, na sequência da violação dos direitos humanos nas minas situadas em Maranje. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio das referências.

04 abril 2009

Bauman e a crise financeira

Sociólogo Zygmunt Bauman falando sobre a crise financeira mundial: "Eu não vejo nenhuma tentativa séria de elaborar uma solução global para a crise. Ao contrário, vejo uma tendência para ressuscitar o protecionismo, que parecia ter morrido com a globalização. O primeiro-ministro britânico disse recentemente: emprego britânico para trabalhadores britânicos. É como voltar ao período pré-guerra. Não tenho ouvido coisas assim há muito tempo. Vinte países vão se reunir em Londres. Dezassete já introduziram medidas protecionistas. E eles estão se reunindo em Londres para discutir medidas conjuntas que podem ser aplicadas a todos os países." Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.

Zimbabwe: viva os WaBenzi!

No Zimbabwe empobrecido, mas onde o governo tem 71 ministros e vice-ministros, os militantes do MDC de Morgan Tsvangirai - agora primeiro-ministro - condenavam o uso parasítico de Mercedes feito pela elite governamental da ZANU-PF de Robert Mugabe. Mas agora eles são ministros e cada um tem um Mercedes E280 de 50 mil dólares, no país onde Mugabe tem um S600L de 500 mil. Assim temos o MDC na clique dos WaBenzi.
Sugestão: sugiro-vos a leitura do trabalho com o título The WaBenzi of Africa, da autoria de Jared Odero, aqui.

03 abril 2009

Deviz torna amigos dois inimigos

É verdadeiramente impressionante, em meu entender, o que se está a passar no município da Beira faz muito tempo já, com Frelimo e Renamo coligadas no combate a Deviz Simango - na imagem -, um combate sem mercê, de todos os tipos, por todos os lados, com todas as armas. O vencedor pela segunda vez das eleições autárquicas da Beira e presidente de um novo partido político (MDM), o eng. Deviz Simango, incomoda verdadeiramente, politicamente. Confrontados com um novo inimigo, dois antigos inimigos políticos podem tornar-se amigos e coligarem-se. É o que sucedeu e sucede no Chiveve.

Notas sobre xenofobia (3)

Vamos lá prosseguir um pouco mais esta série.

Defendo que o quadro anteriormente apresentado, da autoria de Michel de Certeau, é muito rico. Formar um grupo é criar, ao mesmo tempo, estrangeiros. Lembram-se?
Mas esse quadro de nada servirá se não for determinado. Com efeito, o efeito semáforo (o verde para os nossos, o vermelho para os outros) só tem validade caso entrem em jogo as infra-estruturas sociais que produzem e reproduzem pelo imaginário a unidade interna face ao outro, ao exterior, ao distante, ao desconhecido, ao atemorizante.
Não somos nós face a outros em si, não nascemos nós contrapostos a outros em si, não há uma substância ab initio chamada xenofobia. É na interacção social e na disputa de determinados recursos que produzimos e reproduzimos o que Certeau chamou lei do grupo. E toda a lei do grupo é, ao mesmo tempo, excludente.
(continua)

Negócios em Moçambique


Leia os cabeçalhos do Africa Intelligence - frequentemente referido neste diário - e aperitive o mundo dos negócios em Moçambique. Aqui.

Linchamentos também na cidade de Tete (dois este ano)

De acordo com o "O País", um jovem aparentando ter 25 anos, acusado de ser ladrão, foi linchado por espancamento e uso de materiais contundentes na madrugada de quarta-feira pelos habitantes do Bairro Filipe Samuel Magaia, unidade de Nhamabira, periferia da cidade de Tete, sendo este o segundo caso este ano naquela zona residencial. Uma fonte do jornal afirmou que "esta atitude é resultado do descontentamento da população para com os agentes da PRM, a quem suspeitam de soltar assaltantes". O secretário do bairro, Lúcio Saize, condenou o acto, mas acrescentou que aumentaram os assaltos em residências na unidade Nhamabira, local "que se encontra infestado por um número considerável de jovens desempregados" (p. 9).
Comentário: nunca antes na história do nosso país os linchamentos tiveram tão rápida e ampla disseminação. Entretanto, logo que puder, actualizo o mapa dos linchamentos em Moçambique.
Adenda a 04/04/09: veja a versão online do "O País", aqui.

O que exportamos

Saiba do que o país exporta e dos respectivos pesos, aqui.

A "hora do fecho" no "Savana"

Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "A hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com "A hora do fecho" desta semana, da qual vos dou, desde já, um aperitivo:

Justiça privada prossegue

Adenda: recorde aqui e aqui.

Uma vergonha nacional

Na sua coluna semanal no "Savana" e com o título em epígrafe, Machado da Graça analisa o debate havido na Assembleia da República a propósito dos mortos de Mongincual: " O debate na Assembleia da República sobre os presos mortos na cadeia de Moginqual foi uma verdadeira vergonha nacional. Um escândalo de enormes proporções."

Cólera, boato, politização e realidade social

De um relatório da Liga dos Direitos Humanos, citado pelo semanário "Savana" desta semana: "Para a LDH, as manifestações populares havidas em Sangaje contra os activistas da Cruz Vermelha de Moçambique, quando estes colocavam cloro nas fontes de água, tiveram como resultado a falta de interacção entre os voluntários e os líderes tradicionais que deveriam preparar a comunidade sensibilizando-a sobre o uso daquela substância química e não questões politicas. Alguns políticos e analistas da praça estabelecem uma relação de causa-efeito entre as mortes e cores partidárias. É que consta que a maioria dos detidos são membros e simpatizantes do maior partido da oposição em Moçambique, a Renamo. Esta situação, segundo explica a Liga, criou desinformação no seio da comunidade que “ao ver os activistas a deitarem cloro nos poços de água consideraram que estavam a colocar o vibrião da cólera”. Devido a politização do caso, “agentes da PRM dispararam contra cidadãos indefesos tendo-se registado um número indeterminado de óbitos e 38 indivíduos detidos na cadeia distrital”. Porém, avança a LDH, “apenas oito destes tinham alguma ligação com as manifestações”, refere o documento." (p. 10).
Enquanto isso, o "Notícias" de hoje tem um extenso trabalho sobre Mongincual, do qual extracto a seguinte passagem: "Em Mogincual falta quase tudo, situação que castiga severamente os seus pouco mais de 131 mil habitantes, dos quais apenas 628 é que têm emprego garantido nas diferentes instituições da função pública."
Por outro lado, recorde as afirmações do Sr. Mucanheia, secretário permanente de Nampula, muito criminalizador, aqui.
Comentário: já no meu livro "Cólera e catarse" (2003) eu tinha chamado a atenção para a necessidade imperiosa de se ter em conta realidades que o facilismo da imputação política ("é desinformação da Renamo") ou o comodismo das etiquetas bárbaras ("o povo é supersticioso") não deixavam e não deixam ver. Confira aqui e aqui.

02 abril 2009

Uma delícia goudaniana


Recebi hoje um queijo Gouda, com piripiri e alho, uma delícia polivalente que pessoa amiga me trouxe do Chimoio, lá onde um antigo farmeiro zimbabweano, Brendon Evans (à direita na foto à esquerda), produz também leite.
O queijo é fabricado com auxílio holandês. Aqui em Maputo também o podemos comprar.

Os Bismarcks não são moçambicanos

E, assim, vamos ampliando a nossa alma exportadora, o nosso coração matéria-primal. Exportamos e exportaremos (melhor: fazem-nos exportar), em parcerias assentes, do nosso lado, em réditos fiscais, mordomias redentoras e modestos salários pagos aos trabalhadores. Não se vislumbra qualquer intenção de favorecer a burguesia nacional, de a estimular, de a levar à industrialização, de a proteger. Decididamente os Bismarcks não são moçambicanos. Parecemos ser definitivamente recolectores, recolhemos impostos e mordomias, construímos as estradas e as pontes para o que vamos exportar. A mentalidade produtora e transformadora, essa fica com os outros. Os nossos genes são feitos de circulação, não de produção industrial endógena. Mas para não perdermos muito a nossa auto-estima - deixem-me usar o guebuziano termo da moda -, cá temos o capitalismo comercial do ou-vai-ou-racha do chapa 100, do dumba nengue, do import-export de Xiquelene. E os camarões e as amêijoas e os carangueijos e os leões e os búfalos para turistas que podem pagar pacotes de cinco mil dólares deliciados com o exótico africano. E no que ao conforto toca, sentamo-nos nos sofás que importamos depois de termos desalmadamente exportado a nossa rica madeira. E se não podemos sentar-nos nos sofás, sentamo-nos no senta-abaixo bebendo cerveja produzida por capitalistas estrangeiros orgulhosos do selo "made in Mozambique".
Passamos horas em workshops (esquecemos até o termo seminários), criamos mestrados por atacado para formação em economia, convidamos excelsas cabeças pensantes para nos ensinarem como se fazem negócios, convidamos todos e sobretodos para virem investir no nosso país, estabelecemos parcerias inteligentes não importa com quem.
Mas algum dia se fez neste país um workshop a sério, prolongado, sobre como erguer e ajudar a manter a indústria moçambicana? Sobre como proteger a nossa burguesia? Sobre como financiar os nossos empresários, não os empresários com mentalidade chapa 100, mas os empresários que queiram investir na produção a sério? Sobre como assegurar facilidades bancárias e juros preferenciais? Sobre como travar o acesso dos produtos estrangeiros que fazem colapsar os nossos? Sobre como sermos um Estado forte ao serviço de uma indústria forte, genuinamente moçambicana?
Não: não fizemos, nem fazemos. Por quê? Porque estamos a juzante, porque somos matéria-primados, orgulhosos por exportamos o que os outros transformam para seu benefício. Não é a amêijoa saborosa? Não está o camarão produzido pela natureza? E não é carvão definitivamente carvão? E que importa se dentro de 35 anos apenas restar o choro final dos embondeiros da minha terra, se, entretanto, não tiverem dado cabo deles (consta-me que os abatem)?

As delícias de Victoria Falls

Dirigido por Robert Mugabe, o governo zimbabweano vai passar um fim-de-semana em Victoria Falls à procura de um plano de acção, são 71 ministros e vice-ministros, mais os secretários permanentes. O país vive momentos dramáticos, mas há dinheiro para Victoria Falls. Enquanto isso, o primeiro-ministro Morgan Tsvangirai vai tentando convencer os financiadores de que as coisas mudaram e são sérias no Zimbabwe.

O poder de poder podendo

Sei que a coisa já se passou há dias. Mas como eu recordava o que se passou há dias (estive ausente e doente), achei bem aqui dar conta disso. Disso o quê? Da sombria ameaça do governador de Tete, Idelfonso Muanathatha, contra o jornalista Bernardo Carlos. Citando o "Notícias", que deu conta de um comunicado do Misa-Moçambique:

"(...) “a verdade tem o seu preço, tem as suas consequências”. Em tom enfático, dirigiu-se (o governador, C.S.) ao jornalista perguntando: “Queres que um dia eles venham a sofrer pelo resultado do que escreves? Sabes o que aconteceu com o jornalista Carlos Cardoso? Não te admires se um dia acordares sem o braço que estás a usar para me acotovelares”. Já na manhã do dia seguinte (17 de Março), o Governador de Tete voltou à “carga”, dirigindo-se aos jornalistas acima referidos, para retomar as ameaças da noite anterior ao nosso correspondente. “Você me acotovelou bem e para saberes bem, eu não quis falar-te disso em privado. Preferi aqui na presença dos teus colegas e quero ver o que vais escrever depois desta visita. Cuidado com o sabor das verdades”, terá frisado Muananthatha, citado pelos jornalistas que presenciaram o facto em contacto com o MISA-Moçambique."

Adenda: leia a posição da organização Repórteres sem Fronteiras, aqui. Sobre Carlos Cardoso, recorde aqui.

Banalização da morte em celas nampulenses

O "Notícias" de hoje trata da morte de 15 reclusos em Angoche - fenómeno já reportado pelo "Canal de Moçambique" de ontem. É suposto terem morrido de cólera, muitos foram enterrados em vala comum, crê-se fazerem parte do grupo que escapou à morte por asfixia em Mongincual. Sugiro-vos que leiam o texto do jornal, aqui, há muita coisa para analisar.
Comentário: um problema grave este, muito grave, o da banalização da morte em celas nampulenses, ora por asfixia, ora por cólera. Um problema do Estado que deve interrogar-se sobre o seu estado.
Adenda: confira o que a Liga dos Direitos Humanos - citada pelo "Canal de Moçambique" - constatou em Mongincual.

01 abril 2009

Zambézia: não há operadores florestais, mas ladrões de madeira

Não há operadores florestais, mas ladrões de madeira - afirmou o director provincial de Agricultura da Zambézia, Mahomed Valá, citado pelo "Magazine Independente" desta semana. O director reagia a críticas de vários sectores da sociedade zambeziana, preocupados com o saque da floresta e afirmou que os problemas eram vários, desde fiscais corruptos, a alianças com Chineses e a pessoas "incontroláveis". Mas por quê "incontroláveis"? Resposta-extracto do jornal: "Porquê, Valá não disse, mas supõe-se que, como sempre, ele se quis referir a figuras da praça e, mesmo, do governo de Guebuza, que têm na Zambézia, concessões de exploração florestal, as quais não pagam nenhuma contribuição ao estado e, muito menos ainda, beneficiar as populações daquelas zonas."(p. 10)
Adenda: quero crer que os leitores sabem quanto este diário tem, faz muito já, dado conta do saque da floresta nacional. Quero crer, ainda, que os leitores sabem quanto vários cavaleiros andantes têm tentado (agora menos, claro) escamotear a realidade cruel do saque, escudando-se em números e margens oficiais de corte. Agora é um director provincial a pegar o touro pelos cornos, coisa impensável meses atrás. Entretanto, data de Janeiro a última referência ao saque da madeira na Zambézia, recordem aqui.

Nampula e Marínguè: trovoada social?

A página 3 do semanário "Magazine Independente" de hoje tem dois trabalhos ruidosos, cheios de trovoada social, com cheiro castrense e com os seguintes antetítulos e títulos a contar de cima: "Só em Nacala estão estacionados 58 jagunços de Dhlakama/SISE confirma 300 homens armados da Renamo em Nampula" (autoria de Vasco da Gama) e "De Marínguè, para evitar a iminente tomada da base de Massala pelo governo/Dhlakama ordena a seus guerrilheiros para repelirem a FIR (Força de Intervenção Rápida, C.S.)" (autoria de Isaías Natal).
Adenda 1: o trabalho de Vasco da Gama é curioso, não só por mostrar que o autor está em contacto com a segurança do Estado quanto por usar o termo "jagunços" referindo-se aos "homens armados" da Renamo.
Adenda 2: na página 22, o mesmo jornal tem uma extensa peça da autoria de Aida Matsinhe com o título "Desmobilizados de guerra ameaçam sabotar eleições". O problema está no não pagamento de pensões, segundo Hermínio dos Santos, presidente do Fórum dos Desmobilizados de Guerra de Moçambique.

Políticos africanos: novos senhores de escravos?

Vem no The African Executive um trabalho com o título em epígrafe. Confira aqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.
Adenda: já agora, passe os olhos por outros trabalhos concernentes ao nosso continente, especialmente por este sobre o possível peso da China no Zimbabwe e por este alusivo à forma como a União Africana actuou de forma diferente para com Zimbabwe e Madagáscar.

Tete: os desvios dos sete milhões

A peça tem antetítulo e título fascinantes no "Notícias": "Sete milhões"/Desvios disparam em Tete - segundo a PGR naquele ponto do país". E é aí, nessa província, que anda gente preocupada em usar o fundo - destinado a combater a fome e a gerar emprego - para reabilitar a residência do administrador de Mutarara, obra orçada em dez milhões de meticais, tal como há tempos aqui reportei. Entretanto, sabem os leitores que este diário está cheio de postagens alusivas aos desvios (confira, por exemplo, aqui), um eufemismo sempre elegante. Imagem reproduzida daqui.

300 imigrantes africanos morrem ao tentarem chegar à Itália pelo Mediterrâneo


A Organização Internacional para a Migração calcula que 300 imigrantes africanos morreram afogando-se na costa da Líbia, na sequência de um naufrágio, quando tentavam atingir a Itália. Confira aqui. E recorde uma impressionante colecção de 34 fotos de imigrantes africanos aqui.

Mazionando o Índico


É um espectáculo impressionante, singular: na marginal de Maputo, um pouco depois do supermercado Game, para quem vai para o Costa do Sol, centenas de crentes mazione, fundamentalmente mulheres humildes, oram, fazem suas abluções, pedem a quem os oiça na vida extra-humana uma vida melhor. O Índico está evangélico. Ao longo da praia, podem ver-se pessoas ajoelhadas (regra geral mulheres) na areia, mirando o Índico, mãos levantadas e/ou cruzadas ao alto ou no peito, orando; grupos de mulheres orientadas por um pastor ou por uma pastora fazem o baptismo e a lavagem das coisas impuras. Lamento ter-me esquecido de levar quer o celular quer a máquina fotográfica. Foto reproduzida daqui. Recorde postagens com referência aos mazione aqui, aqui e aqui.

Pergunta banal

Comentário: num país pobre como o nosso e com crescentes desigualdades sociais, atribuir estatuto de ministro e de vice-ministros ao presidente e aos vice-presidentes da CNE tem muito que se lhe diga. Mas há uma coisa para mim ainda mais importante, é uma pergunta banal, a saber: qual a razão por que semelhantes cargos foram atribuídos a quem dirige as eleições no país, logo quando estamos em ano eleitoral? Entretanto, de acordo com o suplemento "Economia&Negócios" do "Notícias" (edição de 27 de Março, última página), a primeira-ministra Luisa Diogo afirmou que urge promover "hábitos de poupança por parte dos trabalhadores" face aos efeitos da crise financeira internacional.

Segundo CM: 15 reclusos morreram em Angoche

Em texto de Bernardo Álvaro e Aunício da Silva, o "Canal de Moçambique" de hoje reporta a morte de 15 reclusos na cadeia de Angoche, província de Nampula. Confira aqui.

Mistérios de Inharrime e consultas governamentais

O "Notícias" de hoje tem um delicioso texto assinado por Victorino Xavier. Do que se trata? Trata-se de que é suposto andar gente a sumir no rio Inharrime. E o que fez ou faz o governo perante tão inquietante, mágico fenómeno? Consultou ou consultou cientistas? Não, segundo o jornal: "As autoridades locais estão neste momento a se desdobrar em consultas aos anciões e até aos praticantes da medicina tradicional e curandeiros, com vista a desvendar o segredo ou fenómeno maligno que está a dizimar banhistas."
Adenda: já agora, recorde os mistérios da lagoa de Pembe, também em Inhambane, aqui.

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (11)

Bem, vamos lá prosseguir um pouco mais esta série.
Quando confrontados com problemas graves, procuramos sempre encontrar um responsável, algo ou alguém - regra geral alguém - que de nós receba a fúria e a catarse purificadoras.
Dois exemplos entre muitos outros, exteriores no espaço e no tempo a Moçambique.
Na Inglaterra, em 1832, quando a cólera se disseminou no país e fez milhares de mortos, vários médicos foram acusados de assassinato deliberado dos doentes "para pôr em prática técnicas de dissecação de cadáver e aprimorar seus conhecimentos de anatomia".
Em 1969, na cidade de Orléans, interior da França, começou a circular o boato de que judeus proprietários de lojas de roupas raptavam raparigas francesas para as vender como escravas após drogarem-nas em gabinetes de provas. À noite, era suposto as raparigas serem deportadas em submarinos para um destino tenebroso. Círculos parisienses chegaram mesmo a atribuir à esquerda francesa a responsabilidade do boato, tal como entre nós círculos de Maputo atribuem à Renamo os boatos da chuva amarrada ao céu e da cólera introduzida através do cloro.
O último caso foi estudado pelo sociólogo Edgar Morin e sua equipa e divulgado num excepcional livro em 1971 com o título "O boato de Orleáns", num modelo de pesquisa que me foi muito útil quando em 2003 fiz publicar "Cólera e catarse - infra-estruturas sociais de um mito nas zonas costeiras de Nampula".
Prosseguirei.