22 fevereiro 2007

Ó Sr. Cumbe: não seria melhor fundar a Igreja da Salvação Política e dos Dízimos Misericordiosos?




A inteligência política é sempre coisa de apoiar. Assim, o Sr. Leonardo Cumbe, fundador do Partido Unido de Moçambique da Liberdade Democrática (PUMILD), ontem publicamente apresentado em Maputo, afirmou estar disposto a coligar-se com o maior partido da oposição, a Renamo-União Eleitoral, para concorrer às próximas eleições, porque desde o Acordo Geral de Paz “só temos visto os partidos políticos da oposição a se aliarem à Renamo”.

Enganei-me, portanto, quando ontem aqui vaticinei que o Sr. Cumbe se coligaria com o vistoso político dos turbantes, o Sr. Yá-Qub Sibindy.

Entretanto, Cumbe sabe também que a democracia é uma coisa complicada. Por isso, com a rapidez das chitas, estendeu logo a mão: "Temos falta de computadores, cadeiras, estantes para arquivo e bandeiras. Fazemos este pedido a todos aqueles que amam e querem que a democracia continue em prol dos interesses de todos os moçambicanos” - disse.

Tanto quanto a minha memória me diz, esta é a primeira vez que um político pede bandeiras publicamente. De outros partidos já ouvi pedidos de muitas e politicamente necessárias coisas. Mas de bandeiras é a primeira vez.

21 fevereiro 2007

Sobre as minhas cartas ao presidente da República


Como sabeis, já escrevi duas cartas ao presidente da República, a primeira chamando a atenção para a depredação das nossas florestas, a segunda sugerindo a designação de uma reitora para a Universidade Eduardo Mondlane.
Nos dois casos, pelos mais variados motivos e meios, gente houve e há que entendeu e entende que isso era e é desnecessário e irrelevante. Existem outras formas bem mais consistentes de colocar problemas e de os resolver - tentaram e tentam convencer-me.
Tudo isso é muito reconfortante.
Porém, a minha consciência diz-me que não procedo erradamente.
Assim, sempre que o cidadão ou o sociólogo que em mim habitam ou ambos ao mesmo tempo (o que é e será salutar) sentir (em) necessidade de escrever (erem) ao presidente, a carta será escrita.
Aqui, neste modesto espaço.
Trata-se e tratar-se-á, se quiserdes, de uma espécie de Força de Intervenção Rápida da minha consciência.
Abraço amigo a todos, neste Dia Internacional da Língua Materna.

Outro reitorável?


Circula também nos bastidores o nome de Rogério Utui. É o único físico nuclear que o país possui. Um excelente cientista, um homem firme e probo, se me for permitido expressar esta opinião.

Quem será a (o) futura (o) dirigente da UEM?


A imprensa tem dado a conhecer nomes de possíveis reitoráveis.
Eis alguns outros possíveis reitoráveis, cujos nomes correm nos bastidores: Ana Monjane (directora científica), Benigna Zimba (chefe do Departamento de História), Orlando Quilambo (vice-reitor académico) e Armindo Ngunga (director da Faculdade de Letras e Ciências Sociais).
Entretanto, quero acreditar que haverá sensibilidade política suficiente para se não se pensar politicamente sobre a (o) futuro (a) dirigente da UEM.
Quero acreditar que quem for escolhido reunirá pelo menos as seguintes três condições, entre outras: ser da UEM há, pelo menos, 15 anos; ter o grau de Doutor; e posssuir obra científico-pedagógica reconhecida.
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Tenho, por hipótese, que mexidas na direcção das outras universidades públicas poderão ocorrer.

Cumbe cria um partido

O número dos nossos partidos polítios cresce.
Assim, Leonardo Cumbe, antigo oficial das Forças Armadas, que sabe estarem próximas as eleições, criou um partido, que se deve apresentar hoje na capital e que se chama Partido Unido de Moçambique da Liberdade Democrática. Entre o leque dos seus objectivos, está a luta contra a pobreza. O criador disse "não estar contra o partido no poder." E afirmou: “Todos nós nascemos do partido Frelimo”.
Acredito que Yá-Qub Sibindy terá em Cumbe um fiel aliado.

20 fevereiro 2007

"Patriarcalismo" e violência

Sobre "patriarcalismo" e violência doméstica, importe e leia, em língua inglesa, aqui, aqui e aqui.
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Agradeço o envio desse material ao autor de bosses.

"Os cientistas são homens" (frase de uma criança)


A propósito do acesso das mulheres à carreira científica, leia aqui, em português, o provocante "O âmago da questão", de Douglas Curran-Everett.
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A gravura pertence a esse trabalho.

Mulheres, universidades e a teoria do Sr. Nathieu


Até ao século XV há, na Europa, registo de mulheres médicas e especialmente obstetras, trabalhando em casa com base numa mistura de magia e de conhecimento ervanário. Quando se institucionaliza a universidade europeia, a sua frequência passou a ser um pré-requisito para o exercício da medicina. Com a caça às bruxas, a arte feminina de curar tornou-se crime de feitiçaria. Acrescente-se que nos trezentos anos da Santa Inquisição (1450/1750), foram mortos nove milhões de “bruxos”, 80% por cento dos quais mulheres e, também, crianças.
A universidade passou a ser um território exclusivamente masculino. As mulheres continuaram em casa, arcando com os velhos mitos criados desde Platão (que escreveu que as mulheres eram uma reencarnação perversa dos homens que, na primeira encarnação, se tinham portado mal ou covardemente) e de Aristóteles (que defendeu que as mulheres não tinham alma) em torno delas: poderes e fluidos maléficos dos ovários, vaginas denteadas e vorazes, furor uterino, cérebro mais pequeno do que o do homem, prisioneiras das hormonas, etc.
Há cerca de cem anos, o reitor da Universidade canadiana de Laval, Sr. Olivier Nathieu, disse o seguinte, quando da entrega do primeiro diploma da instituição a uma mulher: “ As mulheres são demasiado inteligentes para saber que devem ser como as flores que não exalam o seu perfume senão na sombra." - recorde a data desta postagem aqui.

Cientistas sociais: engajados ou desengajados? [2]


I
A história das ciências sociais nas universidades é uma longa e curiosa história de rigor e de amputação.
Os nossos antepassados foram, pouco a pouco, produzindo o rigor da razão em luta contra o senso comum, contra o pensar habitual, contra os saberes respeitáveis, religiosos, iconais.
Esse rigor virou-se contra a poesia, a filosofia, o devaneio, a emoção, o sonho. Tudo isto foi considerado anti-científico.
II
A lei das ciências da natureza instalou-se entre muitos dos nossos antepassados, entre aqueles cuja missão era (e continua a ser) a de estudar o que outros seres humanos fazem e pensam.
Regras precisas foram introduzidas, década após década, na sua actividade: forma de escrita, análise temática, provas permanentes, ritos de ascensão à maturidade científica.
O cientista-professor, operário do pensamento, ganha a respeitabilidade de um deus profano. A toga é o seu cartão de identidade.

19 fevereiro 2007

Cientistas sociais: engajados ou desengajados? [1]


Prometi escrever algo a propósito das críticas aos cientistas sociais interventores, engajados (se calhar estes são adjectivos singularmente irritantes). Vamos lá, então, começar. Por curtas partes. Em jeito de notas, de hipóteses simples.

I
A pré-história do cientista reside no pensador desligado da produção "material" propriamente dita. A sua função não é mais a de assegurar o sustento trabalhando a terra ou exercendo outro mister qualquer. A sua função é a de pensar.
Ele pensa, então, sobre o que outros fazem ou pensam. Mas fá-lo isoladamente, exterior a regras institucionais.
II
A proto-história do cientista pertence às instituições religiosas ou às antecâmaras dos príncipes e dos reis. Aí, o pré-cientista está a meio caminho entre o pensador isolado e o pensador institucionalizado universitário. Escribas, clérigos e mandarins viajam para a história.
III
A história nasce com as universidades, com os espaços institucionais que, pouco a pouco, transformaram o pensamento em actividade regulamentada, não directamente produtiva. A sociedade foi dividida em compartimentos e é nestes compartimentos que produzem e se reproduzem os cientistas sociais.
A sua função é a de pensar de forma sistemática, em grupo, investigando o que os outros seres humanos fazem e pensam. São pagos para isso.

Ainda sobre a sucessão de Mazula


Hoje, o Canal de Moçambique, a Imensis, o Diário de Notícias e a estação televisiva STV referiram-se à sucessão de Brazão Mazula, actual reitor da Universidade Eduardo Mondlane.
O Diário de Notícias até me colocou como reitorável, mas descartável...Credo, logo eu, um completo prof-jeans!
Entretanto, circulam mensagens nos celulares, ventilam-se reitoráveis, existe um interessante clima de debate.
Espero mesmo que possamos mesmo ter uma reitora! A ver vamos.
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N.B. - Quando aqui escrevi sobre a depredação das nossas florestas e postei uma carta nesse sentido ao presidente da República, surgiu a concepção de que eu estava ao serviço de um tenebroso plano nacional e internacional para contrariar a presença chinesa. Espero que desta vez, na segunda carta ao presidente e a propósito da minha proposta de nomeação de uma reitora ao fim de quase 32 anos de reitorado masculino na Universidade Eduardo Mondlane, não surja a acusação de que estou ao serviço de um tenebroso plano nacional...anti-masculino.

De novo Sandra Muendane





Há tempos falei-vos aqui da nossa estilista, a Sandra Muendane, dei-vos conta do seu admirável trabalho aproveitando motivos da nossa arte rupestre para modelos de vestuário.
Hoje falei hoje telefonicamente com ela e espero nos próximos dias dar-vos conta, com mais profundidade, da sua actividade.
Apreciem, entretanto, mais alguns aspectos da sua criatividade.

18 fevereiro 2007

Carta para o Senhor Presidente da República, Armando Emílio Guebuza


Senhor Presidente

Permita-me que lhe escreva esta nova carta.
Presidente: a si competirá designar o novo reitor da Universidade Eduardo Mondlane.
Mas, como sabe, ao longo destes quase 32 anos de independência apenas tivemos reitores homens, quatro ao todo.
Presidente: a nossa universidade possui professoras e investigadoras doutoradas não apenas de grande nível e prestígio internacionais, mas, também, de grande competência técnico-profissional.
O mundo científico é ainda hoje, não importa onde neste planeta, um mundo vincadamente masculino. O mundo dos reitores é, ele também, vincadamente androcêntrico.
Por isso, Presidente, sugiro-lhe que nomeie uma reitora, sugiro-lhe que a escolha entre as professoras e as investigadoras que referi e que tanta dignidade dão à nossa Pátria.
Perdoe-me tê-lo incomodado e peço-lhe que não se aborreça caso, vez que vez, lhe escreva cartas neste modesto local.
Respeitosos cumprimentos.
A luta continua.
Carlos Serra
Centro de Estudos Africanos
Universidade Eduardo Mondlane

17 fevereiro 2007

Milengas da rotina


Sou um sociólogo nómada no preciso momento em que a estabilidade das coisas me atrai. Circulo entre todos os mundos, com as milengas da rotina em meio à vertigem do que não compreendo e apenas sinto como num jogo de espelhos.

Todo o homem honesto é um ser plural, escreveu um dia Montaigne.

Todo o sociólogo é um filósofo enxertado na empiria, a cavalo num ponto de interrogação, escrevo eu.

Já repararam como as borboletas odeiam a clausura?

Sociologia do corpo em Moçambique: piercingazação e outras coisas identitárias



O sociólogo francês David Le Breton tem feito um admirável trabalho na sociologia do corpo*.
Por exemplo, ele defende que, face a um mundo agressivo e pouco hospitaleiro que faz sofrer a juventude, as auto-mutilações, as tatuagens, os piercings, etc., servem como que mecanismos de reequilíbrio psico-social.
Então, as ténis, as t-shirts e os piercings poderão ser uma tentativa de recalibração anímica num mundo em permuta constante.
Não é mais a velha alma que serve de pretexto original ao novo processo identitário: o próprio corpo tornou-se alma.
Tenho para mim que a dor causada, momentânea, pode servir para melhor dela nos defendermos, para melhor nos afirmarmos, para melhor esclarecermos a nossa identidade protectora.
É como se precisássemos de uma perspectiva homeopática para nos sentirmos bem.
Em Moçambique, Maputo, que é uma cidade de grande porosidade cultural, tatuagens e piercings são cada vez mais frequentes, numa galeria que incorpora, ainda, as bermudas, a cabeça rapada (há dois anos disseram-me que esta era uma das características identitárias dos estudantes universitários zambezianos em Maputo), as sapatilhas com os atacadores desapertados, etc.
Tanto quanto julgo saber, não existem ainda no país casos de despigmentação da pele, visando branqueá-la (veja, a propósito, uma entrada minha de 02 de Maio de 2006 aqui).
Mas, entre nós, será que o processo de recalibração identitária do corpo tem a ver com sofrimento? Não terá, antes, a ver com alegria?
Há todo um mundo de perguntas e de pistas a explorar.
Este ano ano irei trabalhar nisso com os meus estudantes na Cadeira de Metodologia de Investigação. E, também, sobre as mechas das nossas raparigas.
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*Veja, por exemplo, Le Breton, David, La sociologie du corps. Paris: P.U.F., Que sais-je ?, 1992, 127 pp.

Os bons malandros do nosso futebol em seus malandros ditos doutos


Antes do jogo da primeira mão na primeira eliminatória de acesso à qualificação para os jogos olímpicos Beijing-2008, no qual perdemos hoje com a Argélia por 3/0, aqui em Maputo, no campo do 1.º de Maio, o Sr. Miguel Chau, treinador da nossa seleção nacional de futebol feminino, lamentou "o facto de a equipa nacional não ter tido tempo suficiente de preparação". Foram apenas "uma média de duas semanas de preparação" - disse ("Notícias" de hoje, 17/02/07, p. 10; a versão online é omissa sobre isso).
Depois, aos 30 minutos de jogo, o locutor da RM do jogo afirmou que "alguma coisa falta à equipa nacional" e, aos 40, já com as Argelinas a ganhar por 3/0, observou que estávamos perante "um resultado que não interessa de certa forma".
Felizmente que ninguém no fim do jogo decidiu embarcar nas habituais justificações que exibimos quando perdemos: vento, cansaço, mão conspiratória do árbitro, etc.
Mesmo assim, de certa forma estamos cheios de bons malandros nos improvisos futebolísticos deste país e, especialmente, nesta média de duas semanas.

UEM vai ter novo reitor


A Universidade Eduardo Mondlane vai ter novo reitor, após quase 12 anos de reinado de Brazão Mazula (na foto). Logo que souber quem é, aqui direi.

A sabedoria de Victor Machirica


A sociologia precisa de alimento permanente. Felizmente há sempre uma boa alma para o fornecer. O exemplo está no jornalista Victor Machirica e no seu veemente manifesto androcêntrico:

"Verdade é que os homens, para quem os conhece melhor e sobretudo nesta sociedade, são, sem sombras para dúvidas, eminentemente mais dados que as mulheres. Talvez ressalvar aqui as mulheres do antigamente e das zonas rurais. O que é um facto inteligível e que todos devem estar recordados é que antigamente as mulheres jovens, quando estivessem a namorar eram mais simpáticas que as actuais jovens ou até mulheres adultas." - Vitor Machirica

Estado ainda não sabe quantos funcionários possui

Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação (João Cabral de Melo Neto)

Pela primeira vez vez, desde a independência do país, o Estado quer saber quantos funcionários possui.
Foram, certamente, mais de 30 anos de reflexão sobre como levar a cabo tão singular recenseamento.

16 fevereiro 2007

Uma espantosa fotografia


Reproduzida da última página do semanário "Savana" de hoje. Presumo que a fotografia foi tirada no aeroporto internacional de Maputo.

O modelo Janus da nossa vida


O "O País" apresenta na sua edição online de hoje a notícia de que um cidadão sul-africano apresentou facturas passadas por funcionários dos Município de Inhambane de compra da parcela 189 na praia do Tofo, parcela que teria sido já anteriormente vendida a uma cidadã moçambicana.

Essa notícia só tem importância para mim se me der à saga de me interrogar sobre o modelo Janus da nossa vida: o modelo formal, o das leis, o das regras; e o modelo informal, o das contra-leis, o das anti-regras, que são, afinal, também elas, leis e regras. Ali oferecemos o discurso público e damos origem a notáveis discursos moralizadores quando existem "desvios"; aqui podemos estar diante de um dos canais mais poderosos de enriquecimento de uma parte das nossas elites.

E até já nem falo dos canais normais de "reequilíbrio" salarial. Pensava, neste caso, nos livros escolares à venda nos dumba-nengues.

E, numa escala mais acrescentada, nem falo nos cabos eléctricos que somem dos camiões pesados estacionados junto ao comando da polícia da cidade de Maputo, como noticiou o "Notícias" da sua edição de 13 deste mês (p.15).

De facto não vou hoje interrogar-me sobre o modelo Janus da nossa vida. Pelo menos hoje.

Igreja Universal do Reino de Deus: o negócio da fé em Moçambique


Conforme prometido, eis aqui, em ficheiros pdf, o trabalho de Dowyvan Gabriel Gaspar. Está divididos em seis partes. Importe: capa, resumo e introdução, cap. 1, cap. 2, cap. 3, cap. 4 e anexos.
O colega Gaspar é agora membro da Unidade de Diagnóstico Social, cujo portal teve de ser recriado devido a um problema técnico surgido. Confira aqui.

Igreja Universal do Reino de Deus em Moçambique


Hoje postarei o trabalho de Dowyan Gaspar, previamente anunciado. Aguardem, vale a pena.

A histeria conspiratória e um artigo de fundo do jornalista Fernando Gonçalves


A histeria conspiratória, da mão estrangeira, a propósito das nossas florestas, mereceu do editor do "Savana", Fernando Gonçalves, o artigo de fundo, acima reproduzido, constante da edição do semanário de hoje.

15 fevereiro 2007

Formalização do grande pensamento do complô conspiratório


Atletas da grande conspiração, do complô, da mão estrangeira, caçadores de bruxas singulares têm uma uma forma de pensar sensatamente circular, mas de uma eficiência cognitiva vital. Tomam essa bela forma circular de pensar por uma forma linear, sem mácula.
Vejamos como podemos formalizar essa regra de pensar velha de milénios:

1. Há provas claras de uma campanha internacional anti-Chinesa
2. [Isto sugere a conjectura de que em Moçambique há também provas]
3. Cidadãos denunciam exploração chinesa da madeira em Moçambique
4. Estes cidadãos fazem parte da campanha internacional anti-Chinesa

A premissa 1 é conjectural, logo a quarta também. A confiança dada ao enunciado 3 é fundada sobre as premissas 1 e 2. Aceitando como real a conjectura implícita 2, ignoramos o carácter conjectural da conclusão 4, que tomamos por tão sólida quanto a preposição 1.
Com algum piripiri, damos ao quadro conspiratório o selo histérico de uma caça às bruxas no modelo mackartista.
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Encontrais estudos dessa forma de pensar em Georg Simmel, Charles Peirce, Karl Popper e Raymond Boudon.
A caricatura do lado esquerdo, do agente 007 de Ian Fleming, foi tirada daqui.

IURD em Moçambique: um trabalho a postar nas próximas horas


Nas próximas horas um trabalho sobre a Igreja Universal do Reino de Deus em Moçambique será postado no portal da Unidade de Diagnóstico Social.

Amemos o patrão seja ele quem for


Não importa quem é o patrão, seja Guebuza ou Mc Roger, alto, baixo, negro, branco, respeitemo-lo, com passarela vermelha e tudo.

Esse o tema de uma canção do jet set rapista moçambicano Mc Roger (abnegado utente de carro de luxo, óculos escuros e postura americanizada) que toca regulamente na Rádio Moçambique, que corre nos parties, não importa onde, que a malta ouve e dança.

E coitado do José Mucavel retrogadado que, em programa da Anabela Adrianoupolos na STV sobre música moçambicana, chamou pimba à música do Roger e recebeu em resposta a afirmação de que ele, Roger, era um cantor das massas, querido, amado, respeitado.

Ó Mucavel, o tempo está para o rap pimbado, não para a música de raíz e das raízes que você com denodo busca e interpreta, está a ver?

Línguas de Moçambique


"A língua materna mais frequente em Moçambique é o emakhuwa (26.3%). Em segundo lugar está o xichangana (11.4%) e em terceiro o elomwe (7.9%)". Confira aqui.

O bem-amado Yá-Qub Sibindy


No noticiário das 20 horas da TVM de ontem, o vistoso presidente do PIMO, da Oposição Construtiva e da Fundação Luta contra a Pobreza, Sr. Yá-Qub Sibindy, surgiu a afirmar, em entrevista, que deseja uma "articulação científica" (sic) com o Governo.
Certamente não estão longe os tempos em que os beneméritos esforços do elegante homem do turbante e das capulanas finas serão recompensados com um assento no Parlamento, onde irá, claro, discursar construtivamente.
Acresce que o Sr. Sibindy nunca esqueceu o almoço que teve um dia com o presidente da República. Leia, a propósito, aqui.

14 fevereiro 2007

De novo a síndrome da mão estrangeira


O síndrome da mão estrangeira continua na ordem do dia a propósito da saúde florestal no país. O que se segue constitui, em minha opinião, um excelente conteúdo para as aulas de sociologia.

Em artigo de opinião hoje publicado no jornal "Notícias" e a propósito dos "supostos amigos das florestas", o Sr. Adelino Buque pediu ao presidente da República que ficasse calmo e continuasse "com a sua carregada agenda de combate à pobreza", pois a carta que lhe escreveram (a minha, claro) "não passa de um falso texto com cheiro a xenofonia". Fazendo uso de dados oficiais sobre o bem-estar florestal do país, o Sr. Buque afirmou que tudo foi preparado de forma a "abalar as autoridades locais na cooperação" com a China e a propósito da visita do presidente chinês a Moçambique. A campanha anti-chinesa "usou" (sic) "pessoas com créditos firmados na praça em termos de análise dos assuntos da sociedade, pessoas do mundo da academia e também instituições de cooperação". Porque o plano exigia presteza "e o exercício tinha de ser feito muito rapidamente, não se deram tempo para análises muito mais cuidadas e desprezaram detalhes que definitivamente põem em causa as suas teorias sobre o perigo de desertificação."

O Sr. Buque escreveu ainda que importa "pôr ordem na casa", impedir que se ponha "a sociedade de costas viradas contra o seu Governo" e "reequacionar o papel de algumas organizações que actuam em Moçambique".

O Sr. Buque recordou que, quando era criança, se falava do "perigo de chineses porque estes comiam pessoas, de preferência crianças, e as pessoas eram educadas pelo sistema colonial a olhar para os chineses com desconfiança".

Para ler na íntegra este notável exercício da mestria complotária e da síndrome da mão estrangeira, clique aqui.