03 outubro 2007

Os "problemas fenomenais"

Segundo o director do Secretariado Técnico de Aministração Eleitoral de Manica, durante o recenseamento já aconteceu por várias vezes que as máquinas fotográficas não conseguem fotografar certas pessoas nem os aparelhos de uso recolher as impressões digitais. Mal essas pessoas são substituídas, tudo volta à normalidade. O director classificou esses problemas como "fenomenais" (Rádio Moçambique, programa "panorama político", 14.30).
Pois é: potencial risco de abstenção paranormal, fenomenal. Espero que não venham a atribuir isso à acção desestabilizadora de algum partido maléfico.

Pois é: história mata a vida

Fonte digna de crédito disse-me que se prepara a demolição dos campos de jogos de Escola da Maxaquene na cidade de Maputo para serem substituídos por um glorioso parque de estacionamento de automóveis. Esses campos têm décadas de vida, de jovens, de jogos, têm uma memória viva, táctil. Enquanto isso, na Beira, o velho edifício dos Correios está a ser demolido.
Foi Friedrich Nietzsche quem um dia escreveu, em seu belo "Considerações não actuais", que o excesso de história mata o homem e que o culto dos monumentos era uma fuga à vida. A vida, afinal, defendeu, era a riqueza de nos instalarmos "no limiar do instante" (sic). Pois é (cartoon reproduzido daqui).

Parabéns Prof. Brazão Mazula!

O Prof. Brazão Mazula, ex-reitor da Universidade Eduardo Mondlane, deu uma entrevista ao "Magazine Independente", edição de hoje. Fixei três coisas que afirmou:
1. Deixámos de fazer a auto-crítica (auto-crítica que, afinal, mesmo quando feita, acaba na auto-defesa).
2. A criminalidade existente no país é sintoma de descontentamento social. Importa conhecer as causas desse descontentamento.
3. Existe exclusão social no país (p. 4).
Em meio a tanta frase-feita e a tanto tudo-está-bem, é agradável ouvir quem pode criticamente pensar contra a corrente dos bem-pensantes.

Sabina está feliz

Cinco régulos disseram à administradora da Beira, Sra. Cremilda Sabina, que o Estado deve saber dar solução a problemas e a necessidades que o município (dirigido por Deviz Simango, da Renamo/União Eleitoral) por si só não consegue resolver. Face às preocupações dos régulos - gratos ao Governo que lhes deu bicicletas e telemóveis -, Sabina afirmou, feliz, "que foi mesmo por isso que o Executivo moçambicano idealizou a instituição da figura da representante do Estado nos municípios."

Casa do Povo onerosa

O edifício da Assembleia da República na cidade de Maputo já sofreu transformações avultadas por forma a ser, como diz o "Notícias" de hoje, uma real "Casa do Povo". Agora, surgiu a informação de que a Casa do Povo não é suficiente e que se pensa em construir uma nova. Recorde aqui e aqui como o povo da casa é caro.

02 outubro 2007

Como viver muitos anos segundo senhora com 101 anos do Búzi

Segundo o "O Paísonline", uma senhora do distrito do Búzi, província de Sofala, com 101 anos (cujo nome não foi lamentavelmente fixado) afirmou que a violação da tradição é a principal responsável da morte dos jovens de hoje. Como evitar isso? Eis a receita:
1. Nada de preocupações com as questões materiais
2. Obediência aos pais
2. Obediência aos hábitos tradicionais
3. Prevenção em relação às mulheres bonitas pois algumas têm SIDA.
Naturalmente que o administrador do distrito ficou muito feliz com semelhante receita, tendo encorajado os jovens a segui-la.

Poder (quando a alma se põe em sentido) (4) (continua)

Escrevi anteriormente que não há poder sem relação e sem consentimento. Lá onde isso não existe não existe relação de poder.
Efectivamente, um relação de poder estrangeira à minha possibilidade de recusar obedecer não é uma relação de poder, mas uma relação de violência que reduz o corpo a um objecto punível em permanência. Uma relação saturada de violência corporal ou da sua ameaça (escravatura, por exemplo), assente numa tecnologia corporal limite, não é uma relação de poder na medida em que não interpela o dominado na condição de ser que aceita ser dominado.
Se essa premissa for razoável, torna-se então necessário saber como se gera a aceitação da dominação - o dilema da obediência, como escreveu alguém -, como se introduz ela de alguma maneira no nosso inconsciente.
Prosseguirei.

Pois claro

O "Notícias" de hoje a propósito do recenseamento em Sofala: "A Frelimo não se mostra assustada pelo facto até ao momento mais de 50 por cento de um total de 270 brigadas criadas para o efeito se encontram inoperantes aliado ao facto de os materiais necessários para o registo estarem a chegar a “conta-gotas”.

Isto é nosso

"Muitos há, que chegaram à triste conclusão de que trabalhar com familiares só dá prejuízo. Porque, no lugar de se concentrarem no trabalho, fazem desmandos por confiar que o patrão é meu pai ou primo, produzindo como não, isto é nosso. (...) Todas as conversas giram à volta daquilo que cada um consegue retirar ilicitamente dos seus patrões, desde comida, dinheiro, roupa e outros bens. Outros falam das suas capacidades de manipular e mesmo de seduzirem os seus patrões."

01 outubro 2007

Recenseamento continua desrecenseador

Mantêm-se e reproduzem-se os problemas em muitos postos de recenseamento no país: computadores avariados, problemas informáticos, falta de material (Rádio Moçambique, noticiário das 19.30).

Raul Novinte ataca governantes africanos

Lá em Nampula, o bloguista Raul Novinte ataca duramente os governantes africanos a propósito do apoio que prestam a Robert Mugabe. Sobre Mugabe, recorde ainda aqui.

Samora Machel e a burguesia nacional

Entre 24 de Maio e 25 de Junho de 1975, Samora Machel percorreu o país do Rovuma ao Maputo. A 14 de Junho (11 dias antes da proclamação da independência nacional), realizou um comício na cidade da Beira. O que se segue é uma pequena parte do discurso recolhido e transcrito pelos historiadores Colin Darch e David Hedges (clique duas vezes com o lado esquerdo do rato para ampliar a imagem):

Luta política

A luta política amplia-se: um porta-voz de Renamo disse ao "Canal de Moçambique" que um militar o informou da existência de urnas, boletins de voto e material de propanda da Frelimo guardados na Casa Militar. O chefe da Casa Militar disse que isso é falso.

Calce baixo, calce baixo!

"A partir de um certo ponto não há retorno. É esse o ponto a alcançar" (Frantz Kafka)
Estamos em 1976, a independência fôra a 25 de Junho de 1975. Os passos múltiplos da revolução, do combate contra o inimigo não menos multiplamente múltiplo. Temos um Estado rizomático, atento a tudo, nada lhe escapa, nem a altura desmesurada das solas e dos saltos dos sapatos. Efectivamente, descobriu-se que solas e saltos eram demasiado altos. As alturas sapatais provocam gastos desnecessários em matérias-primas, elevando os custos de produção. Acresce que a moda também era má para a saúde. Impunha-se, então, pôr cobro à situação, pelo que várias medidas foram tomadas por despacho do então Ministério de Indústria e Energia datado de 28 de Outubro de 1976. Corações abnegados tiveram a capacidade de fixar as alturas máximas para sapatos e socas. Imagine-se quanto trabalho não foi necessário para fixar, por exemplo, em 65 mm a altura máxima dos sapatos de mulher. Outras obrigações e diversos interditos foram estabelecidos (veja o artigo 6 concernente à forragem em cabedal, salvando-se os dignos sapatos de mulher modelo Luís XV). Historiadores rigorosos, escutai: com os bons préstimos dos boletins da República pode fazer-se a história de muita coisa. Basta apenas paciência anti-sapatal. Clique duas vezes com o lado esquerdo do rato para ampliar a imagem abaixo:

Últimas políticas sobre Moçambique

Leia as últimas políticas sobre Moçambique através do boletim n.º 35 de 01 de Outubro da AWEPA, Parlamentares Europeus para África, em edição de Joseph Hanlon, jornalista e professor universitário.

30 setembro 2007

Renamo: bode expiatório sempre à mão

O editorial do semanário "domingo" de hoje consiste num violento ataque à Renamo, vista como um ser jurássico que não quer inserir-se na era digital ao propor que o recenseamento de raiz em curso se faça manualmente. Face aos graves problemas que estão a ocorrer um pouco por todo o país, o "domingo" teria prestado melhor serviço à nação se, em lugar de, uma vez mais, fazer da Renamo o bode expiatório, o pau de toda a colher, fosse investigar as causas por que esses problemas estão a ocorrer após tantos anos de aprendizagem eleitoral, devendo perguntar-se, face a tantas avarias de computadores, se, ao fim e ao cabo, a contagem antropológica (à maneira lenta da alma, velhamente manual) não seria, afinal, temporariamente, o melhor remédio para os maus espíritos que perturbam os chips da razão.

Recenseamento cada vez mais desrecenseador

Multiplicam-se os problemas com o recenseamento de raiz para as eleições provinciais. Computadores avariados, material ainda não chegado aos postos, postos que ainda não iniciaram o recenseamento. Porta-vozes da Frelimo e da Renamo afirmam a sua preocupação (Rádio Moçambique, noticiário das 19.30). Enquanto isso, quer a Comissão Nacional de Eleições quer o Secretariado Técnico de Administração Eleitoral continuam mudos sobre as causas de tão estranho e grave conjunto de problemas após tantos anos de aprendizagem eleitoral.

Poder (quando a alma se põe em sentido) (3) (continua)

Prossigo estas breves notas, breves hipóteses, esta tentativa de dar alguma disciplina ao poder de analisar o poder que é, afinal, relacional.
Coloquei como premissa do poder o facto de ele não existir salvo numa relação.
Para que o Sr. João Latsua tenha poder é preciso que eu autorize esse poder, é indispensável que eu aceite que ele induza a minha conduta, presente e futura, é fundamental que eu lhe dê o meu consentimento.
Não há poder sem relação e sem consentimento. Lá onde isso não existe não existe relação de poder. Prosseguirei.

Poder (quando a alma se põe em sentido) (2) (continua)

No número inaugural desta série, pintei-vos um quadro rápido mostrando o poder do Sr. João Latsua.
Efectivamente, nesse quadro existem artigos de poder como a viatura de luxo, o condutor, o guarda-costas, as duas empregadas, etc.
Por outro lado, nesse quadro existem manifestações instintivas de respeito para com o poder do Sr. João Latsua: a motricidade rápida e respeitadora das personagens que o rodeiam, a indicação clara de cada actor que rodeia o sr. João Latsua poder segregar indefenidamente essa motricidade em múltiplos exercícios de respeito, de acatamento de ordens.
Mas vamos lá colocar um problema: existe de facto algo como o poder, visível, tocável, mensurável, armazenável, distribuível? O Sr. João Latsua tem de facto algo como o poder?
A minha resposta nestas breves notas é que não há poder em si: apenas há poder de uns sobre os outros. O poder é da ordem das relações, não das coisas em si.
Prosseguirei.

1/23 de Outubro: júri do "The BOBs 2007" vai escolher os dez mais de cada categoria



Entre os dias 1 (amanhã) e 23 de Outubro, o júri internacional do The BOBs 2007 - composto por jornalistas independentes, pesquisadores da mídia e peritos em weblog -, nomeará dez finalistas em cada categoria do concurso. Estão inscritos cerca de 6.000 blogues. No momento em que vos escrevo, o Diário de um sociólogo (inscrito a 26/08/07), tem 764 visitas e 37 comentários registados. O continente africano continua sub-representado. Se acha que este blogue tem valor, aqui, neste continente, neste país e neste mundo, permita-me então pedir-lhe que vote em "sugerir este blog para THE BOBs 2007" e que comente em "redigir comentário" AQUI. Muito obrigado. E muito obrigado a todos aqueles que, entretanto, me deram e continuam a dar o prazer e a honra de votar em mim e de comentar este blogue.

Cada vez mais blogues inscritos aqui! Inscreva o seu também!

São cada vez mais os blogues moçambicanos. O que é excelente. Mas já me perdi a tentar dar conta de todos eles. Por isso gostaria de pedir a todos aqueles cujos portais não figuram na minha lista de elos, que deixassem as suas referências nesta postagem, pode ser? Basta escrevê-los em comentário. Muito obrigado. E, já agora, permitam-me uma sugestão: inscrevam os vossos blogues também aqui, onde já muitos de nós estão.
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Não importa se estais na diáspora, está bem? E tb não restringirei blogues que, não sendo de Moçambicanos, aqui sejam feitos ou a Moçambique sejam dedicados.

"Diário de um sociólogo" entre "50 blogs para entender o mundo"


Eis a cabeça de uma reportagem publicada num jornal brasileiro: "A reportagem selecionou 50 blogs que servem como referência para a vida política e cultural de mais de 30 países. Todos são escritos em português, inglês ou espanhol." Veja depois o quadro dos blogues seleccionados, estando este diário do lado direito na coluna de África. Clique duas vezes com o lado esquerdo do rato para ampliar a imagem.
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Adenda a 20/09/07: notícia referida no "Canal de Moçambique" de hoje.

29 setembro 2007

Duas mulheres linchadas na Matola-Rio

Uma jovem de 16 anos, grávida de uma criança de oito meses, foi linchada sábado passado na Matola-Rio, a cerca de 20 quilómetros da cidade de Maputo. Hoje, foi linchada a mãe do rapaz acusado de ter engravidado a rapariga. Os linchamentos foram por espancamento e, no caso da mãe do rapaz, seguido de empalamento. Estão detidas três pessoas relacionadas com o segundo linchamento. Uma estudante universitária agregada à equipa da UDS trabalha no caso.
Enquanto isso, 12 estudantes universitários da equipa trabalharam hoje (e prosseguem amanhã) nos bairros Inhagóia e Hulene, na periferia da cidade de Maputo.
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Parece estarmos em novo pico linchatório em Maputo e Beira. Este caso da Matola-Rio mostra dois aspectos singulares: (1) mulheres linchadas (a esmagadora maioria dos linchados que a equipa da UDS estuda é constituída por jovens do sexo masculino acusados de roubo) e (2) causas que nada têm a ver com roubo.

Mais de 200 confissões religiosas em Manica

Mais de 200 confissões religiosas estão registadas na província de Manica, centro do país (Rádio Moçambique, noticiário das 19.30). Entretanto, recorde o que há tempos aqui escrevi a propósito.

Made in Mozambique: Mecanhelas exporta ratos para o Malawi

Habitantes do distrito de Macanhelas (província do Niassa, norte do país) exportam ratos campestres para o Malawi, cuja culinária não dispensa os roedores e onde um cesto deles custa o equivalente a uma bicicleta. O problema são as queimadas descontroladas para caçar os bichinhos.

Perdemos por 3/0

Ainda não foi desta que garantimos lugar na final da Taça Castle: perdemos hoje por 3/0 com a Zâmbia. Parece ser nosso destino perder sempre com a Zâmbia. O treinador holandês estreou dois jovens jogadores de Nampula (Rádio Moçambique, relato).
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Provavelmente também a estratégia do vovô falhou. Por favor, deixem-me ter esta nota de humor.

Dois jovens linchados esta madrugada na Beira


Dois jovens aparentando ter 18 anos foram linchados até à morte por espancamento esta madrugada, na periferia da cidade da Beira. Um porta-voz da polícia disse suspeitar que os corpos foram levados para o Bairro Vaz para despiste. Os corpos foram removidos para a morgue da cidade da Beira, na expectativa de que as famílias os reclamem (fontes: (1) pessoa ligada à pesquisa sobre linchamentos da UDS e (2) jornalista da Rádio Moçambique).

Poder (quando a alma se põe em sentido) (1)

O condutor da viatura Volvo do Sr. João Latsua estaciona à entrada da garagem da vivenda do chefe, podendo ser vista da rua onde me encontro, muito perto. Imediatamente o segurança sai da viatura e vem abrir a porta da estrutura enquanto o condutor, que saíra antes, está em sentido. O Sr. João, chefe, estrutura, caminha rapidamente para casa, sem olhar nem cumprimentar. O condutor reentra e toca a buzina. Saiem a correr da vivenda duas empregadas, vestidas de bata e touca. O segurança abre a bagageira, dá ordens breves e as empregadas começam a carregar as numerosas e diversas compras para a semana do chefe.
Está o poder do chefe nele? O chefe é poder, substância de poder, poder coagulado?

Zimbábuè

Leia sobre o Zimbábuè, sobre Mugabe e sobre a lealdade (recompensada) do seu aparelho militar aqui. Foto tirada daqui. E, já agora, saiba o que pensa o arcebispo Desmond Tutu.

Poder (quando a alma se põe em sentido)


Nas próximas horas aqui começo uma breve série com o título em epígrafe.