A apresentar mensagens correspondentes à consulta balandier ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta balandier ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

29 maio 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (17)

O décimo sétimo e último número da série, que no seu título usa um termo de Georges Balandier, teatrocracia.
Procurei sugerir-vos várias modalidades da gestão do poder, essa coisa que parece viver dela mas que, afinal, vive intimamente de relações, destas é produto permanente.
Poder que é a gestão do aparato, do Estado-espectáculo (para usar, uma vez mais, uma expressão de Balandier), poder que é manipulação de ambiguidade e aparência, poder que vai muito para além da racionalidade económica. O novo estádio de futebol do Zimpeto ou os enormes edifícios do judiciário na cidade de Maputo são exercícios de ritualização do imaginário e do espectáculo, de afirmação de grandiosidade, de "busca de adesão por efeito do espectáculo" (uma vez mais Balandier).
Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(fim)

12 outubro 2014

Eleições 2014 em Moçambique: a sedução das multidões (10)

Décimo e último número da série. Termino o último ponto do sumário proposto aqui, a saber: 5. Espectáculo, euforia e compensação. Escreveu um dia o antropólogo Georges Balandier: "O poder estabelecido unicamente sobre a força ou sobre a violência não controlada teria uma existência constantemente ameaçada; o poder exposto debaixo da iluminação exclusiva da razão teria pouca credibilidade. Ele não consegue manter-se nem pelo domínio brutal, nem pela justificação racional. Ele só se realiza e se conserva pela transposição, pela produção de imagens, pela manipulação de símbolos e sua organização num quadro cerimonial." [Balandier, GeorgesLe pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, pp.15-16]. É exactamente aí que habita o espectáculo que o comício representa. Não importa de onde venha o candidato presidencial, ele é havido como vindo de fora, o candidato é aquele que traz a boa nova, aquele que quer mudar o mundo e a vida, aquele que transporta a diferença, o novo, o espantoso. Quando mais pequenas as terras, quanto menos povoadas de espectáculos, mais gente aflui aos comícios, lá onde o candidato se multiplica na produção de palavras, de promessas, de gestos e de símbolos, num quadro cerimonial feérico. Saídas do espectáculo de um candidato, as sequiosas gentes logo passam a outro, sempre transversais, rodando de candidato em candidato, de espectáculo em espectáculo, das camisetes de um aos bonés de outro, dos sacos plásticos de um aos blocos de apontamentos de outro. Na verdade, Nyusi, Dhlakama e Simango têm sido puro espectáculo, produtores de esperança e euforia, todos eles têm sido, afinal, um mecanismo compensatório para a mesmice e os horizontes tacanhos. E sendo isso, eles-próprios se sentem outros em seu messianismo, em suas promessas de parusia terrena, eles-próprios acreditam no que tentam fazer acreditar, eles-próprios se sentem multidão. Por isso acreditam que vencerão as eleições, entendem não precisar de votos para nutrir e justificar a crença (imagem reproduzida daqui).

06 outubro 2016

Faleceu Georges Balandier

Aos 95 anos, faleceu ontem o etnólogo e sociólogo francês Georges Balandier, grande especialista de África, antigo director da Escola de Altos Estudos em Ciências  Sociais, frequentemente citado neste blogue [recorde aqui]. Paz à sua alma.

23 abril 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (2)

O segundo número da série.
Acho uma boa ideia situar melhor a ideia central da série recorrendo a Georges Balandier que escreveu o seguinte a propósito do que chamou teatrocracia: "Todo o sistema de poder é um dispositivo destinado a produzir efeitos, entre os quais os que se comparam às ilusões criadas pelo teatro. (...) O poder estabelecido unicamente sobre a força ou sobre a violência não controlada teria uma existência constantemente ameaçada; o poder exposto debaixo da iluminação exclusiva da razão teria pouca credibilidade. Ele não consegue manter-se nem pelo domínio brutal, nem pela justificação racional. Ele só se realiza e se conserva pela transposição, pela produção de imagens, pela manipulação de símbolos e sua organização num quadro cerimonial" (Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, pp.15-16) (imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(continua)

04 maio 2006

Pavlovização

O fundamental a reter é digamos que o consenso elitário em torno de uma africanidade essencial, biologizada e a-histórica, agindo homeostaticamente em todos os Africanos, operando a modos de um tropismo ou de um reflexo pavloviano[1]. Nas palavras de Balandier, como se fixadas num eterno presente etnográfico[2]. Um bom e recorrente exemplo é o de muitos de nós dizermos serena e quantas vezes publicamente que a norte do Zambeze as populações são matrilineares e a Sul, patrilineares, como se só esse pudesse ser o fatal e congelado destino dos Moçambicanos. Na realidade, abunda, tenaz, a «afrociência» do tipo «é assim que as coisas são em África». Como na ideia finalista das «disposições estabelecidas pela natureza», diria Engels, muitos de nós defendemos que os Africanos foram feitos para serem tradicionais, tal como «os gatos foram criados para comer os ratos, os ratos para serem comidos pelos gatos, e o conjunto da natureza para testemunhar a sabedoria do criador»[3].
_______________________________
[1]Na minha modesta carreira de professor universitário, tenho encontrado com frequência um tipo de estudante para quem a sociedade africana não tem outra alternativa senão a de repetir-se. Por exemplo, ao escolherem ritos iniciáticos como temas dos seus trabalhos, vários alunos metem-nos invariavelmente numa camisa de forças cujos elos de ligação são os verbos no presente, do género: «Na minha terra, os ritos de iniciação são constituídos da seguinte maneira...». Será interessante estudar um dia este congelamento ao qual não escapam, mesmo e sobretudo, certos doutos professores da antropologia cá da terra, os teorizadores. Se lhes disserdes que «por trás» de um rito iniciático existe uma permanente e frequentemente invisível convergência de feixes de historicidade e temporalidade diversas, olharão para vós com ar de incredulidade. Claro: cometeis uma heresia e estragais a tranquilidade das calmas águas antropológicas.
[2]Balandier, Georges, Sens et puissance. Les dynamique sociales. Paris: Quadrige/ Presses Universitaires de France, 1986, 3e éd, p. 37.
[3]Engels, Friedrich, Dialéctica da Natureza. Lisboa: Editorial Presença/ Livraria Maria Fontes, 1974, p. 17.

02 junho 2009

Teatrocracia política

Não temos ainda no país um estudo da teatrocracia, do poder político posto em cena. Tenho algumas pistas lançadas no meu livro "Eleitorado incapturável" de 1999, mas isso é quase insignificante. O poder como ditadura do espectáculo, como conjunto de técnicas destinadas a produzir ilusões de óptica social, a camuflar a realidade pelo prodígio, pela exibição do poder de poder fazer espectáculos, do poder de transformar o real no imaginário, de procurar adesão pela magia do espectáculo, de gerir a ambiguidade. O poder não se conserva nem pela dominação brutal nem pela justificação racional - escreveu um dia o antropólogo francês Georges Balandier. Na verdade - observou ele -, o poder não se faz nem se conserva senão pela transposição, pela produção de imagens, pela manipulação de símbolos e pela sua organização num quadro cerimonial. A real chave do poder político está na teatralidade.
Tudo isso é ignorado quando analisamos o poder político em Moçambique. Ficamo-nos exclusivamente - e com muito fervor ético - nos pormenores clássicos: programas, programas cumpridos ou não, escuta dos eleitores, resolução dos seus problemas, militância, legitimidade histórica, etc.
Tentemos estudar a teatralidade política nas eleições desde ano. Aliás, já há indicadores deles um bocado por todo o lado nas pré-campanhas de certos líderes.

29 abril 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (8)

O oitavo número da série, que no seu título usa um termo de Georges Balandier, teatrocracia.
Prossigo no terceiro ponto do sumário que vos propus, refiro-me ao poder comicial, agora escrevendo sobre o terceiro subponto sugerido, a gestão do espectáculo.
O espectáculo puro do poder político dando-se a conhecer e procurando causar efeitos ópticos prolongados - eis o tecto do poder comicial, iniciado logo que o líder surge com grande aparato. O líder mostra que foi capaz de deixar o centro do sagrado decisional e de descer à periferia do comum dos mortais, ao povo, inutilizando temporariamente a distância e o resguardo, mostrando que é capaz de se equiparar aos súbditos, dando no fim da sua intervenção a palavra a pessoas escolhidas previamente pelo protocolo local para falarem, para estarem em empatia com o sagrado que ele representa. Mas isso é apenas uma parte do espectáculo (de resto variado, incluindo oferendas locais), porque o estrado ou o palanque assinalam ao mesmo tempo e permanentemente a distância vertical indissolúvel, reforçada pelos acompanhantes respeitosos, pelas autoridades tradicionais garbosamente fardadas e pelos atentos agentes de segurança.
Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(continua)

31 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [8]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
8. Número anterior aqui. As avaliações populares variam em função de muitas variáveis. Mas, dado que a maioria do nosso povo é camponesa, qualquer candidato será avaliado mais por aquilo que nele é colectivo (partido, por exemplo) do que por aquilo que nele é pessoa, individualidade. Quanto menor for a escolaridade e quanto mais rural for a comunidade, maior será a tendência para avaliar o partido X e não a pessoa Y. Nas cidades e em meios escolarizados, o programa do partido em si tem menor êxito, tanto menor quanto maior for a taxa de escolaridade. O que importa é a pessoa em si.

28 abril 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (7)

O sétimo número da série, que no seu título usa um termo de Georges Balandier, teatrocracia.
Prossigo no terceiro ponto do sumário que vos propus, refiro-me ao poder comicial, agora escrevendo um pouco sobre a gestão da oratória.
Somos um país rico em oratória, em discursos, em palavras de comícios. Os comícios são, faz já muitos anos, um enorme viveiro discursivo, lá onde o líder - grande ou pequeno, em meio urbano ou rural, após um aparatosa chegada de carro, helicóptero ou avião, vindo da capital, da sede provincial ou da sede distrital - vai falar ao povo expectante e sedento de novidade. Palavras todos nós usamos, mas palavras para comícios são do uso exclusivo dos gestores do poder político e estatal, uso livre no caso do partido no poder, mediante autorização policial no caso da oposição. E são esses gestores da palavra comicial que, por tempo indeterminado, falam às populações (termo eufórico e despolitizador) sobre o que fizeram, sobre o que farão e sobre o que esperam o povo faça, são esses gestores que trazem a espectacularidade das promessas, o desenho axiomático de um futuro que só eles conhecem, o mundo que dizem novo no mastro das palavras veementes. Os comícios são um programa permanente de avaliação e controlo políticos e a discursividade age através de uma cadeia piramidal de chefes que se revezam em visitas de inspecção e mobilização política.
Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(continua)

09 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [17]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
17. Número anterior aqui. Porém, a forma como um bom programa é aceite, premiado ou punido pelo voto depende de múltiplos factores, entre os quais a capacidade popular de avaliação do povo, capacidade que raramente é aceite pelos políticos. Quando os programas são expostos em praça pública, no fervor da compita, esse povo avalia muita coisa. Avalia, por exemplo, a distância entre o prometido futuro do programa e a realidade do dia-a-dia, entre a história local e a história criada pelo político, entre o inferno e o paraíso.

14 dezembro 2011

Eleições 2011 e produção de futuro (6)

O sexto número desta série. Entro no terceiro ponto do sumário proposto, a saber:
3. Espectáculo, teatrocracia eleitoral e bicicletismo. Qual foi a característica central das eleições autárquicas, realizadas apenas em três cidades? Foi o espectáculo, desde 1994 que assim é. A imprensa mostrou partidos e candidatos a edis exibindo a sua musculatura prestigial em desfiles, comícios e recursos como viaturas, bicicletas, claques, instrumentos de sopro e percussão, cartazes, panfletos, etc. "O grande actor político comanda o real pelo imaginário", escreveu um dia o antropólogo francês Georges Balandier.
(continua)

26 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [3]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
3. Número anterior aqui. A avaliação popular de candidatos e programas em tempo eleitoral e, por consequência, a direção do voto, dependem muitas vezes da engenharia política. A engenharia política é tão mais eficiente quanto menor for (1) o conjunto de recursos de sobrevivência diária, (2) a escolaridade, (3) a rede de contactos dos eleitores e (4) a distância dos eleitores em relação aos meios de comunicação.

02 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [10]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
10. Número anterior aqui. Quando mais pequenas as terras, quanto menos povoadas de espectáculos, mais gente aflui aos comícios, lá onde o candidato se multiplica na produção de palavras, de promessas, de gestos e de símbolos, num quadro cerimonial feérico. Saídas do espectáculo de um candidato, as sequiosas gentes logo passam a outro, sempre transversais, rodando de candidato em candidato, de espectáculo em espectáculo, das camisetes de um aos bonés de outro, dos sacos plásticos de um aos porta-chaves de outro.

24 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [1]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
1. Aproximam-se os anos eleitorais do país, 2018 e 2019. Eis por que me parece oportuno propor algumas hipóteses sobre engenharia política, mas sem identificar partidos e pessoas.

07 dezembro 2013

Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (4)

Quarto número da série. Entro no segundo ponto do sumário proposto aqui. 2. Dois paradigmas de propaganda eleitoral. É frequente socorrermo-nos de termos e de estruturas analíticas prontas-a-consumir do género "simpatia", "juventude", "desejo de mudança", "programa governamental bem elaborado", "seriedade", "passado", "confiança no futuro", etc., para explicarmos vitórias e derrotas eleitorais. Por que razão o partido A venceu? Porque as pessoas querem mudança - esta é uma explicação interessante mas que nada explica. Muitas vezes tão abnegado conjunto de ferramentas mais não faz do que explicar as causas da vitória pela vitória e as da derrota pela derrota. Lembrando Durkheim, é como querer explicar os efeitos do ópio pelas suas virtudes dormitivas. Há, ainda, o problema das absolutizações, das totalidades unitárias das quais são eliminadas as diferenças entre os indivíduos: a partir de que tipo médio é construída a unidade de um grupo (partido, eleitores)? A partir da maioria dos membros do grupo? A partir dos "processos psíquicos" dos dirigentes? A partir de que efectivo os desviantes seguros ou prováveis podem ser tomados como quantidade negligenciável? Em que medida o carácter mais ou menos rigoroso da "interdependência funcional" ligando os membros do grupo autoriza ou interdita tratar a informação lacunar de que dispomos como caução da unidade psíquica do conjunto? (recorde aqui). Acresce (este é para mim um ponto fundamental) que desejamos, regra geral, explicar o fenómeno político em geral e o fenómeno eleitoral em particular pelas virtudes do que Balandier chamou um dia "iluminação exclusiva da razão", esquecendo-nos do que, ao nível do poder, ele chamou "transposição, pela produção de imagens, pela manipulação de símbolos e sua organização num quadro cerimonial." Com algum humor: acho ser necessário ponderar nos imponderáveis.
(continua)

04 maio 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (12)

O décimo segundo número da série, que no seu título usa um termo de Georges Balandier, teatrocracia.
Agora o ponto seis do sumário que vos propus, refiro-me ao poder decisional, o último do nível visibilidade.
A vida está, naturalmente, cheia de decisões, somos permanentes produtores de decisões. Mas há certas decisões que só certas pessoas podem tomar, essas pessoas são as gestoras do poder político-estatal.
Mas não é tanto o poder de poder tomar decisões que é aqui importante, quanto o poder de poder mostrá-las, de poder exibi-las, de poder fazer delas um momento comemoracional-cerimonial. Quanto mais alto o escalão dirigente, mais livre está o gestor do poder de poder tomar e exibir decisões. Exibir o poder de poder tomar decisões, orais e/ou escritas, é tão importante para os gestores quanto os outros poderes já anunciados. A este nível, uma decisão é como que um vistoso e imponente 4x4 último modelo das palavras, da propriedade da palavra oficial e decisional. Mas não só: momento conexo à exibição decisional, é o anúncio prévio, feito pela imprensa acompanhante, de que o dirigente descobriu que algo estava ou não estava bem, anunciando os jornalistas em grandes parangonas que o dirigente sentiu, viu, avaliou, ficou contente ou ficou triste, após o que louvou ou tomou a decisão correctiva e, pode acontecer, punitiva. A exibição decisional é sublinhada pela fala peremptória, fala decisiva, fala sagrada, fala última. Do topo à base, vive-se uma pirâmide decisional múltipla, exposta como um espectáculo.
Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(continua)

27 abril 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (6)

O sexto número da série, que no seu título usa um termo de Georges Balandier, teatrocracia.
O terceiro ponto do sumário que vos propus é o que chamei poder comicial.
Este é um ponto fulcral na história política do nosso país, ponto que não vou encerrar nesta postagem.
Ponto fulcral com três tipos de gestão: gestão de multidões, gestão da oratória e gestão do espectáculo.
Vamos ao primeiro tipo de gestão. A multidão é o desejo veemente do líder, grande ou pequeno, falando na capital cosmopolita ou na modesta sede do posto administrativo. Nos comícios, o líder tem a seu pleno cargo lúdico a gestão cerimonial - panorâmica e vertical - dos súbditos presentes, ele num estrado ou num palanque rodeado de assistentes e convidados com ar respeitoso, súbditos em baixo, de pé regra geral, expectantes, supresos, fascinados com o espectáculo. Gestão cerimonial meticulosamente preparada por uma corte de funcionários. Quanto mais gente estiver presente mais o líder se convence de que tem a seus pés a nação inteira em formato concentrado. A gestão cerimonial está intimamente associada a um certo tipo de relato jornalístico que acentua a presença de multidões felizes e faz passar a ideia forte de que o líder é amado por muitas pessoas. Capacidade de juntar muitas pessoas é vista como produto de legitimidade política.
Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(continua)

05 novembro 2013

Diário de campanha (1)

"O grande actor político comanda o real pelo imaginário", escreveu um dia Georges Balandier. A propaganda eleitoral visa seduzir e dirigir a opinião pública, levá-la a acreditar no imaginário oferecido, a tomá-lo pelo real imediato ou futuro. O seu fundamento assenta na imagem que as pessoas são levadas a construir desse real. Para isso, uma das estratégias dos programadores da teatrocracia eleitoral consiste em levar os leitores potenciais a acreditar e a aceitar o poder do candidato, o seu prometido poder de poder. Para gente carenciada, a propaganda-espectáculo é potencialmente hipnótica (imagem do CIP).
(continua)
Adenda às 7:52: "Temos indicação que em vários municípios desde os primeiros minutos desta terça-feira começaram a ser colados cartazes de campanha."
Adenda 2 às 9:52: Podemos considerar dois tipos candidatos eleitorais: o candidato-aspirina e o candidato-antibiótico. O que é um candidato-aspirina? Um candidato-aspirina é aquele que não tem qualquer intenção de alterar o coração e as regras de funcionamento de um país ou de uma cidade, propondo, apenas, medidas destinadas a remendar ou a melhorar o que já existe, aspirinas para suavizar a febre social, acalmar pequenas dores. Quanto mais aspirínica for a alma, mais o seu candidato socorrer-se-á de lemas pomposos do género "Comigo o país será outro"; quanto mais dependente de um partido, menos inovador será.
Adenda 3 às 9:55O que é um candidato-antibiótico? Um candidato-antibiótico é aquele cuja intenção primordial é a de alterar o coração e as regras de funcionamento de um país ou de uma cidade no sentido genuíno de melhorar a condição social dos seus habitantes, especialmente dos mais carenciados, o que significa também melhorar o meio-ambiente. Em lugar de ser pensado, o candidato-antibiótico pensa; em lugar de ser o peão vegetativo de um partido, é uma mais-valia pensante para esse partido; em lugar de favorecer colegas, amigos, companheiros de jornada e parentes, favorece os que não têm quem os favoreça e defenda; em lugar de ser a voz dos poderosos, torna-se a voz dos deserdados e esquecidos. Isso significa que o candidato-antibiótico tem de ser íntegro e corajoso.
Adenda 4 às 11:36: o "@Verdade" criou um portal eleitoral, aqui. Apreciação: excelente.
Adenda 5 às 11:38: temos, já, a "guerra" dos panfletos.
Adenda 6 às 20:55: se o candidato da Frelimo na cidade de Maputo promete construir um metro de superfície, o candidato do MDM em Chimoio promete não fazer comícios e estar lá onde está o povo.

13 setembro 2009

Encenação da legitimidade

Vez que vez uso aqui Georges Balandier. Pois então e com base nele, creio valer a pena ler um trabalho de André Azevedo da Fonseca com o título "A imaginação no poder, o teatro da política na encenação da legitimidade", na íntregra aqui.

04 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [12]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
12. Número anterior aqui. A multidão é o desejo veemente do líder, grande ou pequeno, falando na capital cosmopolita ou na modesta sede do posto administrativo. Nos comícios, o líder tem a seu pleno cargo lúdico a gestão cerimonial - panorâmica e vertical - dos súbditos presentes, ele num estrado ou num palanque rodeado de assistentes e convidados com ar respeitoso, súbditos em baixo, de pé regra geral, expectantes, surpresos, fascinados com o espectáculo. Gestão cerimonial meticulosamente preparada por uma corte de funcionários partidários.