Chamo efeito corvo à estrutura de raciocínio que consiste em partir da constatação de que, por exemplo, dois corvos da Inhaca são negros, para induzir que todos os corvos da Inhaca são negros. Uma preposição implícita contamina as preposições explícitas do enunciador. Vejamos a formalização:
1. Até aqui os corvos que contei na Inhaca são negros
2. [É muito natural que todos os corvos da Inhaca tenham a mesma cor]
3. Os corvos da Inhaca têm a mesma cor
4. Todos os corvos da Inhaca são negros
Portanto, com este tipo de indução não provamos nada: limitamo-nos a voltar ao que teria de ser provado. Trata-se de um pensamento circular que filia a «prova» na confiança acordada à premissa 2 (hipotética e não consciente), pensamento tão exemplarmente estudado por Simmel.
Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
25 abril 2006
Fórmula
A » Fenómeno
B » Pergunta(s) de partida
C » Hipótese (s)
D » Problemática
E » Método e técnicas
F » Pesquisa
G » Possível solução
Chama-se método de investigação o percurso que vai de A a G.
Creio que o termo fórmula é excelente e gentil. Obrigado pela sugestão, Yla.
B » Pergunta(s) de partida
C » Hipótese (s)
D » Problemática
E » Método e técnicas
F » Pesquisa
G » Possível solução
Chama-se método de investigação o percurso que vai de A a G.
Creio que o termo fórmula é excelente e gentil. Obrigado pela sugestão, Yla.
24 abril 2006
Bolos de areia
Na periferia da cidade de Maputo há mulheres que fabricam bolos de areia. Esses bolos parecem ser preferencialmente consumidos por mulheres grávidas, eventualmente carentes de sais minerais. Mas tenho informação de que também há quem coma esses bolos porque tem fome. Alguém é capaz de investigar este fenómeno?
Os motejos dos jovens dos dumba-nengues
Nos dumba-nengues das cidades do nosso país é interessante conhecer as formas pels quais os jovens motejam das mulheres, dos mais velhos, etc. A forma de ataque é verbal na maior parte do casos. O discurso dos jovens é raramente argumentativo (não fazendo recurso a partículas de ligação com valor temporal, notações cronológicas rudimentares ou frases de ligação do género "então", "e", "porque", "dado que", "uma vez que", "se não fosse assim", etc.), ele é especialmente informativo, classificativo (de um classificativo rude e metafórico) e disjuntivo; é um discurso que não generaliza com categorias ou com classes abstractas de acções ("Cruz Vermelha", "organizações não governamentais", "sociedade", "desenvolvimento", "fazer trabalho de campo"), mas que, fazendo-o, dá origem a fórmulas singulares; é um discurso que tem os pés bem assentes num pequeno mundo, local, mundo vivido, pessoal, que já tem conclusões à partida, que é profundamente normativo, que pouco se importa com as contradições; é um discurso cheio de chistes, de epigramas, de neologismos, de vocabulário relexicalizado, misto (palavras de línguas maternas entrelaçados com termos portugueses e ingleses do género pá, nice, ok, yes, brother), de insultos permanentes jogando com o sexo, a força, o incomum e o ridículo; é um discurso frequentemente acompanhado de arremedos de força física, de simulacros das cenas de carate dos filmes estrangeiros (termo ninja é corrente), de exibição de camisetas com fotos estampadas de cantores estrangeiros (Bob Marley, Michael Jackson, etc.) ou, até, de Jesus Cristo e, aqui e acolá, de botas com os fios desapertados como nos vídeos americanos de rap; é, finalmente, um discurso inovador que se populariza rapidamente: em Nampula, por exemplo, bolos de farinha de trigo sem fermento são chamados "cinco putos" devido a um filme de carate de origem chinesa cujos actores principais eram cinco jovens; ou, como em Maputo, diz-se "chinelos pipocas" quando os chinelos, comprados nos dumbas, são de má qualidade e se gastam depressa.
Euclides Gonçalves
A propósito da minha entrada com o título “o chefe tradicional”, Euclides Gonçalves, mestrado pela Universidade do Cabo e investigador do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM, mandou-me 2 belos textos em língua inglesa. Terei de pensar como proceder. Um forte abraço, Euclides. E apareça sempre!
Pintura
É nas cidades e no novo mundo da rua reinventada e refeita deste país onde tem curso um permanente exercício de violência catárquica, onde gerações de modestos big men fazem diariamente o ritual da prova de força e da rixa corsária, onde a virulência dos protestos sociais e da crítica política é simultaneamente aguda nas palavras, nos gestos, na dança, no canto, nos provérbios urbanos e no chiste e amortecida pelo universo da informalidade (a qual afinal, é exemplarmente formal) e das redes de solidariedade, é nas cidades onde jovens adolescentes transformam os corpos em micro-empresas de aluguer de sexo pondo em causa o império dos homens atentos à tradição e à masculinocracia decisional, onde, como nas barracas e nos dumba- nengues, actores das periferias se cruzam com actores do centro, aqueles sobrevivendo, estes acumulando.
O tempo antropológico das nossas cidades
A fugacidade que escorre da agitação do mundo febril dos chapas, dos dumbas, das barracas, etc., das nossas cidades, é constantemente violada e compensada pela produção do tempo antropológico. Na verdade, milhares de pessoas investem diariamente no diálogo, nas horas que perderam o perímetro, no tempo que rompe os relógios, nos espaços a um tempo afectivos e belicosos, rudes e doces, confiantes e trágicos. Cerimónias fúnebres, repastos, bula-bula de esquina, inter-ajuda de bairro, solidariedades religiosas, festas populares: tudo isso passa e pára, avança e recua, encurta e alonga, perpassa e sustém. No tempo que pressiona enxerta-se o tempo grávido do cosmos. Ao relógio da física clássica sucede a nuvem popperiana, complexa, aleatória, sempre mutante; a porta da vida cede lugar à ponte simmeliana: aquela pode fechar-se, esta dá sempre passagem.
Ruas e linhas férreas
O mundo entrópico da rua na cidade de Maputo: de lugar de encontros fugazes, a rua é reorientada e convertida à civilização do contacto calórico, das sociabilidades intensas, de uma geometria fractal que subverte as lógicas do espaço simétrico herdado da cidade colonial. Nem as linhas férreas são poupadas por essa invasão das lógicas populares.
As línguas da mestiçagem urbana
No mundo urbano em bifurcação permanente (falo das nossas cidades), as línguas, crioulizadas, estão cheias de duplicidade, de oxímoros, de antónimos, de quiasmos, elas são uma subversão contínua dos mundo identitário dos verbos, dos predicados, dos substantivos e dos advérbios. Os verbos estão constantemente a regastar o devir, bloqueando o ser dos substantivos. O oxímoro e a inversão argumentativa são correntes: "Está mal mas não está mal", "é verdade mas não é verdade", etc.
Mundo urbano misto
É nas cidades onde os actores estão num vaivém incessante e contraditório entre o mundo de fora e o mundo de dentro: os meios de comunicação e o cosmopolitismo urbano tornam-nos cidadãos do planeta e dos seus heróis, mas a procura de pontos de referência e as dificuldades de sobrevivência social fá-los reciclar e reinterpretar a região de origem, recriar a solidariedade étnica (o "somos todos primos" dos dumba nengues, por exemplo), leva-os a dar nova cor aos heróis epónimos. Estão cada vez mais na economia-mundo sem poderem abandonar a economia local e vice-versa: é este a sua double contrainte. Quanto mais dificuldades sociais no mundo de fora, mais estreitos os laços e as fronteiras do mundo de dentro. Se por um lado não existem já verdadeiramente nem tradição nem modernidade, por outro vai-se àquela para modernizar esta e a esta para tradicionalizar aquela consoante os momentos, os processos e as cristas das tensões sociais. O presente é encarado com os olhos do passado, o passado com os olhos do presente. Oscila-se, como um pêndulo, à procura da vertigem do futuro ao mesmo tempo que se faz marcha-atrás à busca das âncoras de todos os dias, subvertem-se hábitos, acomodam-se subversões. Este é, afinal, um mundo misto, polissémico, do entre-dois, transfronteiriço, lábil, onde em lugar de estados há transições, onde não se é nunca mas se está a ser constantemente, ele é, finalmente, um mundo anfibológico.
Excluídos
É nas cidades onde surgem e se consolidam, cada vez mais, em todas as regiões intersticiais, figuras e associações anómicas de excluídos da sociedade civil de bem-estar, como mendigos, viajantes dos chapas, crianças da rua, recolhedores de lixo nas latas e nas lixeiras públicas, vendedores ambulantes, desmobilizados, deficientes físicos, doentes mentais, prostitutas, passadores de droga, traficantes de moeda estrangeira, diferentes tipos de gangs, etc., todos constituindo ao mesmo tempo um universo diversificado de "desviantes" um pluri-modelo normalizado de contra-sociedade e um centro caleidoscópico de mestiçagem cultural com as suas formas compósitas de linguagem e de representação social.
Todos estão, como num turbilhão, entre um quadro social em rápida decomposição (com os seus rostos colonial, revolucionário, rural e tradicional) e um quadro que se constrói (o neo-liberal). São, a esse propósito, profundamente anómicos, num meio excludente.
Todos estão, como num turbilhão, entre um quadro social em rápida decomposição (com os seus rostos colonial, revolucionário, rural e tradicional) e um quadro que se constrói (o neo-liberal). São, a esse propósito, profundamente anómicos, num meio excludente.
Lixeiras
É nas lixeiras das cidades, como na do bairro de Hulene em Maputo, que todo um complexo processo de luta pela vida está organizado em torno de um mundo heteróclito de regras, de hierarquias e de gestão dos múltiplos objectos jogados fora pelas categorias sociais de bem-estar, com desempregados (entre os quais desmobilizados de guerra) tentando sobreviver, empregados ensaiando melhorar as suas condições de vida e crianças reinventando lazer e brincadeira como quando, por exemplo, na cidade de Pemba, transformam preservativos "Jeito" em bolas para os seus jogos ou quando, na cidade de Nampula, procuram imitar caratecas cinematográficos chineses enquanto esgaravatam o lixo com paus à procura do que vender e viver.
Trabalhar mais
Chegamo-nos às populações e dizemos-lhes:
- Compatriotas, vocês precisam de trabalhar mais, muito mais. Só assim sairemos da pobreza absoluta e prepararemos a estrada da riqueza absoluta.
Mas quem disse que as populações não trabalham? E se não trabalham mais é porque não querem?
Não seria bem mais sensato saber, em profundidade, quais são os obstáculos que impedem as populações não só de trabalharem quanto de trabalharem mais? E, depois, combater esses obstáculos com seriedade?
E, já agora, não sabem as ditas populações que uns trabalham pouco e enriquecem depressa?
- Compatriotas, vocês precisam de trabalhar mais, muito mais. Só assim sairemos da pobreza absoluta e prepararemos a estrada da riqueza absoluta.
Mas quem disse que as populações não trabalham? E se não trabalham mais é porque não querem?
Não seria bem mais sensato saber, em profundidade, quais são os obstáculos que impedem as populações não só de trabalharem quanto de trabalharem mais? E, depois, combater esses obstáculos com seriedade?
E, já agora, não sabem as ditas populações que uns trabalham pouco e enriquecem depressa?
Onde termina o tradicional e começa o não tradicional?
Um dia, no fim de um dos meus cursos abertos, coisa que durante alguns anos fiz, uma senhora epistemologicamente aflita chegou-se ao pé de mim e perguntou-me o seguinte: “Oiça, professor, onde acaba o tradicional e começa o que não é tradicional?”
Terrível pergunta.
A imagem topológica da senhora pode ser mostrada assim, com este exemplo de fronteiras: chegamos à fronteira com a África do Sul em Ressano Garcia. Até à fronteira existe Moçambique, depois da fronteira aparece a África do Sul.
Como um dia escreveu Henri Bergson, todas as nossas maneiras de falar, de pensar, de perceber implicam a existência da imobilidade e da imutabilidade como estados de direito aos quais o movimento e a mudança vêem juntar-se como acidentes, vêem juntar-se a coisas que, por elas mesmas, não se movem e em elas mesmo é suposto não mudarem.
A chave cognitiva disso está, afinal, em Aristóteles: o julgamento opera pela atribuição de um predicado ao sujeito. O sujeito é invariável. A variabilidade reside na sucessão de estados que do sujeito afirmamos e que se sucedem numa dada substância.
Nos anos quarenta do século XX, os colonizados começaram a pedir vinho aos administradores coloniais para fazerem as suas cerimónias mágicas. Os espíritos tinham começado a modernizar-se: do pombe passavam ao vinho. Estávamos ainda na tradição? Não, a tradição modernizava-se, digamos assim, transformava-se, mudava.
Num dumba-nengue de Maputo, por exemplo no Xiquelene, encontramos teias de redes familiares e étnicas bem estruturadas, costumes aparentemente antigos, etc. Diremos: aqui está a tradição, encontrámo-la, ela é ainda sólida, agarremo-la. Mas os carris sobre os quais roda essa dita tradição pertencem ao salve-se quem puder, aos interstícios do que vários chamam capitalismo periférico. E as regras aqui são bem complexas. O que há no Xiquelene tem a estrutura multiforme de uma liga.
Urge penetrar melhor no coração das coisas, explorar mais dialecticamente a sua composição labiríntica, furtarmo-nos à ortodoxia aristotélica-cartesiana, ao pensamento binário.
Naveguemos no misto. A sociologia deve ser irremediavelmente alotrópica.
P.S. Acho que voltarei a este texto.
Terrível pergunta.
A imagem topológica da senhora pode ser mostrada assim, com este exemplo de fronteiras: chegamos à fronteira com a África do Sul em Ressano Garcia. Até à fronteira existe Moçambique, depois da fronteira aparece a África do Sul.
Como um dia escreveu Henri Bergson, todas as nossas maneiras de falar, de pensar, de perceber implicam a existência da imobilidade e da imutabilidade como estados de direito aos quais o movimento e a mudança vêem juntar-se como acidentes, vêem juntar-se a coisas que, por elas mesmas, não se movem e em elas mesmo é suposto não mudarem.
A chave cognitiva disso está, afinal, em Aristóteles: o julgamento opera pela atribuição de um predicado ao sujeito. O sujeito é invariável. A variabilidade reside na sucessão de estados que do sujeito afirmamos e que se sucedem numa dada substância.
Nos anos quarenta do século XX, os colonizados começaram a pedir vinho aos administradores coloniais para fazerem as suas cerimónias mágicas. Os espíritos tinham começado a modernizar-se: do pombe passavam ao vinho. Estávamos ainda na tradição? Não, a tradição modernizava-se, digamos assim, transformava-se, mudava.
Num dumba-nengue de Maputo, por exemplo no Xiquelene, encontramos teias de redes familiares e étnicas bem estruturadas, costumes aparentemente antigos, etc. Diremos: aqui está a tradição, encontrámo-la, ela é ainda sólida, agarremo-la. Mas os carris sobre os quais roda essa dita tradição pertencem ao salve-se quem puder, aos interstícios do que vários chamam capitalismo periférico. E as regras aqui são bem complexas. O que há no Xiquelene tem a estrutura multiforme de uma liga.
Urge penetrar melhor no coração das coisas, explorar mais dialecticamente a sua composição labiríntica, furtarmo-nos à ortodoxia aristotélica-cartesiana, ao pensamento binário.
Naveguemos no misto. A sociologia deve ser irremediavelmente alotrópica.
P.S. Acho que voltarei a este texto.
Os rurais
É muito difícil ir a uma comunidade rural sem levarmos na nossa caixa de ferramentas um ficheiro étnico, um rótulo de atraso e uma mão de pai providencial: com o primeiro orientamo-nos nas picadas das chamadas especificidades, com o segundo distribuímos a modernidade e com a terceira fornecemos receitas de primeiros socorros. Se nos acontece escrevermos, muitas vezes limitamo-nos a escrever sobre o que, afinal, já sabíamos. É assim que muitos projectos se limitam a ser confirmados.
Shubi Ishemo
Muito obrigado pela tua mensagem e pelas tuas palavras de incentivo em relação ao blog. A luta continua!
23 abril 2006
Ir para trás, regressar à frente
Foi entre 1974 e 1975, tempo parturiente da revolução.
Mas eu, destemido professor de história (com o arrojo de ter introduzido no liceu onde leccionava a história de África e de Moçambique contra a douta guerrilha da chefe da disciplina de História, que me dizia que isso não era história), eu, por razões que ignoro, ia para trás.
Na altura deslocava-me todos os fins-de semana a Manica, com alunos, pesquisava a serra do Vumba, estudava as pinturas rupestres, escavava a terra à procura de indícios dos misteriosos homens pré-históricos, de artefactos líticos, de esqueletos. Doce e confortável arqueologia.
A revolução a chegar, no ir para a frente, e eu a ir para trás, para a pré-história.
Mas o destino tem sempre coisas interessantes, capazes de repor o movimento para a frente.
Um dia, num domingo, eu e quatro dos meus alunos fomos duramente interceptados por uma patrulha de guerrilheiros da Frelimo. Momento duro esse: fomos acusados de estar ao serviço das forças rodesianas de Ian Smith. Andávamos ali, trazíamos picaretas, binóculos, facas de mato, etc., tudo sinais evidentes da nossa pertença ao inimigo.
Foi difícil sair daquele imbróglio, mesmo com a guia de marcha da sede da Frelimo na Beira. Até porque o primeiro guerrilheiro que nela pegou a tentou ler de forma invertida.
Mas, finalmente, lá nos pudemos libertar. Por outras palavras: eu ia para trás, para a pré-história, e a revolução obrigava-me a ir para a frente.
Mas eu, destemido professor de história (com o arrojo de ter introduzido no liceu onde leccionava a história de África e de Moçambique contra a douta guerrilha da chefe da disciplina de História, que me dizia que isso não era história), eu, por razões que ignoro, ia para trás.
Na altura deslocava-me todos os fins-de semana a Manica, com alunos, pesquisava a serra do Vumba, estudava as pinturas rupestres, escavava a terra à procura de indícios dos misteriosos homens pré-históricos, de artefactos líticos, de esqueletos. Doce e confortável arqueologia.
A revolução a chegar, no ir para a frente, e eu a ir para trás, para a pré-história.
Mas o destino tem sempre coisas interessantes, capazes de repor o movimento para a frente.
Um dia, num domingo, eu e quatro dos meus alunos fomos duramente interceptados por uma patrulha de guerrilheiros da Frelimo. Momento duro esse: fomos acusados de estar ao serviço das forças rodesianas de Ian Smith. Andávamos ali, trazíamos picaretas, binóculos, facas de mato, etc., tudo sinais evidentes da nossa pertença ao inimigo.
Foi difícil sair daquele imbróglio, mesmo com a guia de marcha da sede da Frelimo na Beira. Até porque o primeiro guerrilheiro que nela pegou a tentou ler de forma invertida.
Mas, finalmente, lá nos pudemos libertar. Por outras palavras: eu ia para trás, para a pré-história, e a revolução obrigava-me a ir para a frente.
A inflação dos sentimentos revolucionários
Creio que foi na transição de 1974 para 1975 ou, mesmo, em 1975, não estou certo.
Mas estou certo de que aconteceu.
Entre as várias frentes da revolução nascente então, surgiu a campanha anti-mosca. E lá, naquele liceu deste país onde eu era professor de História, foi dada a palavra de ordem por zelosos revolucionários: é preciso matar moscas.
E todo o mundo se pôs a matar moscas, esse flagelo contra-revolucionário. Houve, recordo-me bem, estudantes que bateram recordes.
Eu não matei moscas, mas a minha memória diz-me que fui profundamente hostil às burguesas moscas de então.
Fantástica esta inflação dos sentimentos nos momentos de nervosismo colectivo, para usar palavras de Georg Simmel.
Mas estou certo de que aconteceu.
Entre as várias frentes da revolução nascente então, surgiu a campanha anti-mosca. E lá, naquele liceu deste país onde eu era professor de História, foi dada a palavra de ordem por zelosos revolucionários: é preciso matar moscas.
E todo o mundo se pôs a matar moscas, esse flagelo contra-revolucionário. Houve, recordo-me bem, estudantes que bateram recordes.
Eu não matei moscas, mas a minha memória diz-me que fui profundamente hostil às burguesas moscas de então.
Fantástica esta inflação dos sentimentos nos momentos de nervosismo colectivo, para usar palavras de Georg Simmel.
Os camaradas de 1975
Há palavras cuja genealogia devia um dia ser imperativamente feita. Por exemplo, a palavra camarada.
Estávamos em 1975, o nacional tempo nascente dos camaradas. Foi uma altura generosa, na qual, parece, todos éramos camaradas, mesmo os carrascos e os desempregados.
A 2 de Agosto desse ano, por exemplo, um comandante militar da Zambézia apresentou uma lista de pessoas acusadas de vários delitos contra-revolucionários, entre os quais “cinco camaradas da PIDE” (sic, Polícia Internacional de Defesa do Estado, polícia política portuguesa).
Num relatório de 2 de Setembro do mesmo ano, foi a vez de um administrador distrital da mesma província escrever sobre os “camaradas desempregados que por aqui proliferam”.
Estávamos em 1975, o nacional tempo nascente dos camaradas. Foi uma altura generosa, na qual, parece, todos éramos camaradas, mesmo os carrascos e os desempregados.
A 2 de Agosto desse ano, por exemplo, um comandante militar da Zambézia apresentou uma lista de pessoas acusadas de vários delitos contra-revolucionários, entre os quais “cinco camaradas da PIDE” (sic, Polícia Internacional de Defesa do Estado, polícia política portuguesa).
Num relatório de 2 de Setembro do mesmo ano, foi a vez de um administrador distrital da mesma província escrever sobre os “camaradas desempregados que por aqui proliferam”.
A teoria da conspiração
É muito frequente atribuirmos aos outros a responsabilidade do que nos acontece.
A nível político isso é prática corrente: quando surgem problemas, quando há greves, comoções sociais agudas ou quando membros do partido X desertam para o partido Y, temos sempre à mão de semear os estrangeiros, os serviços secretos do partido no poder, etc. São as famosas “manobras dilatórias”.
A nível político isso é prática corrente: quando surgem problemas, quando há greves, comoções sociais agudas ou quando membros do partido X desertam para o partido Y, temos sempre à mão de semear os estrangeiros, os serviços secretos do partido no poder, etc. São as famosas “manobras dilatórias”.
O espírito do deixa-andar
Vamos todos combater o espírito do deixa-andar! Mesmo todos! Assim nos pedem.
O problema é que nos pedem para combater o espírito do deixa-andar justamente quando se mantêm intactos o corpo e o espírito desse deixa-andar.
Citando Hegel, Marx escreveu um dia que os grandes acontecimentos se repetem duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.
O problema é que nos pedem para combater o espírito do deixa-andar justamente quando se mantêm intactos o corpo e o espírito desse deixa-andar.
Citando Hegel, Marx escreveu um dia que os grandes acontecimentos se repetem duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.
Made in Mozambique
Como tantos outros slogans que preenchem agora o imaginário político da elite política dominante, o Made in Mozambique ganha cada vez mais ressonância a par da luta contra a chamada pobreza absoluta (como se a pobreza, absoluta, relativa ou o que quer que seja, pudesse ser eliminada com o capitalismo de dumba-nengue, especulativo, que é o nosso).
Eu ouvi há dias um ministro dizer que era preciso termos orgulho naquilo que produzimos, por exemplo no açúcar, no tomate, na cerveja e coisas assim.
Mas, realmente, o que é que nós, Moçambicanos, produzimos sem ser matéria-prima? Existe uma indústria genuinamente moçambicana? Claro que não. Ter orgulho em produzir tomate e açúcar? Que imodéstia! E de quem é o capital das indústrias transformadoras de açúcar no país? Nosso não é. Cerveja? A cerveja pertence aos sul-africanos. Cigarros? Tudo sul-africano. E mesmo que as indústrias de cigarros e de cerveja fossem nossas, que pobreza absoluta a nossa com semelhante tipo de indústria!!
O que mais resta? Tomate, arroz, milho, etc.
Puseram um dístico nos aviões da LAM com o glorioso Made in Mozambique. Desde quando os Boeings são feitos em Moçambique? E faz algum sentido usar semelhante sinete de fábrica para dizer que a companhia é nossa?
E assim vamos caminhando, neste país onde chamamos parceiros a quem nos empresta o dinheiro.
O que somos nós? Mozal, dumba-nengues e chapas, isto num país onde os antigos e musculados arautos do socialismo são hoje accionistas nas empresas dos parceiros.
P.S. Talvez volte a este tema.
Eu ouvi há dias um ministro dizer que era preciso termos orgulho naquilo que produzimos, por exemplo no açúcar, no tomate, na cerveja e coisas assim.
Mas, realmente, o que é que nós, Moçambicanos, produzimos sem ser matéria-prima? Existe uma indústria genuinamente moçambicana? Claro que não. Ter orgulho em produzir tomate e açúcar? Que imodéstia! E de quem é o capital das indústrias transformadoras de açúcar no país? Nosso não é. Cerveja? A cerveja pertence aos sul-africanos. Cigarros? Tudo sul-africano. E mesmo que as indústrias de cigarros e de cerveja fossem nossas, que pobreza absoluta a nossa com semelhante tipo de indústria!!
O que mais resta? Tomate, arroz, milho, etc.
Puseram um dístico nos aviões da LAM com o glorioso Made in Mozambique. Desde quando os Boeings são feitos em Moçambique? E faz algum sentido usar semelhante sinete de fábrica para dizer que a companhia é nossa?
E assim vamos caminhando, neste país onde chamamos parceiros a quem nos empresta o dinheiro.
O que somos nós? Mozal, dumba-nengues e chapas, isto num país onde os antigos e musculados arautos do socialismo são hoje accionistas nas empresas dos parceiros.
P.S. Talvez volte a este tema.
22 abril 2006
O sentido da história
Os deserdados da terra não fazem história: sofrem-na. Deserdados tristes não vão geralmente para a frente, mas para trás. O verdadeiro sentido da história não está nos museus, mas nos actos que ainda não vieram. Não contes amanhã o que viste, mira agora o que virá.
Sandwich de sociologia
Um dia pedi aos meus alunos da Cadeira de Metodologia de Investigação que levassem as cadeiras da sala de aulas, as pusessem em frente ao edifício do Centro de Estudos Africanos, lá onde agora há uma quase terminal de chapas (ganhos académicos, claro) e, sentados, registassem o que viam e ouviam.
Por ali passavam estudantes, professores, viaturas. Havia e há lá todo um mundo aparentemente uniforme, o mundo de todos os dias, um mundo que, de tão igual, certamente levaria a ter 65 estudantes com um quadro de observação igual, apenas diferindo nos pormenores.
Enganei-me, espantei-me do meu espanto, o que é bem saudável.
Com efeito, praticamente cada estudante registou de forma distinta o que viu, ora com um registo auditivo mais intenso, ora com um registo visual mais profundo.
O resultado da experiência, colectivamente discutido, foi o de quão difícil é gerir a diferença humana e social.
O espanto acaba, afinal, por vencer o hábito, todos os dias, nos solavancos da vida.
Escutai: a sociologia é uma sandwich feita com espanto, amor e desconfiança, temperada com um pouco de paciência, a que uns juntam estatística e outro apenas o coração.
P.S. Voltarei a este texto.
Por ali passavam estudantes, professores, viaturas. Havia e há lá todo um mundo aparentemente uniforme, o mundo de todos os dias, um mundo que, de tão igual, certamente levaria a ter 65 estudantes com um quadro de observação igual, apenas diferindo nos pormenores.
Enganei-me, espantei-me do meu espanto, o que é bem saudável.
Com efeito, praticamente cada estudante registou de forma distinta o que viu, ora com um registo auditivo mais intenso, ora com um registo visual mais profundo.
O resultado da experiência, colectivamente discutido, foi o de quão difícil é gerir a diferença humana e social.
O espanto acaba, afinal, por vencer o hábito, todos os dias, nos solavancos da vida.
Escutai: a sociologia é uma sandwich feita com espanto, amor e desconfiança, temperada com um pouco de paciência, a que uns juntam estatística e outro apenas o coração.
P.S. Voltarei a este texto.
Frigorificação
Padre João dos Santos, 1609:
“Os cafres desta terra firme de Moçambique são macuas gentios, muito bárbaros e grandes ladrões”.
Padre Gérard, 1941:
“Todo o indivíduo, quer homem, quer mulher pertence a um nihmo [clã, segundo Gérard] e ninguém pode mudar de nihimo”.
Misionário Francisco Martinez, 1989:
“O homem, na sociedade macua, quando se encontra longe do povo sente-se desorientado, sem força nem entusiasmo. De facto a sua força está na sociedade e sem ela ou longe dela sente-se alienado”.
Há coisa mais digna do que esta espantosa capacidade para homogeneizar, colectivizar e congelar o ser humano em comportamentos imutáveis?
P.S. Reveja o meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Imprensa Universitária, 2003, 2.ª ed., passim.
“Os cafres desta terra firme de Moçambique são macuas gentios, muito bárbaros e grandes ladrões”.
Padre Gérard, 1941:
“Todo o indivíduo, quer homem, quer mulher pertence a um nihmo [clã, segundo Gérard] e ninguém pode mudar de nihimo”.
Misionário Francisco Martinez, 1989:
“O homem, na sociedade macua, quando se encontra longe do povo sente-se desorientado, sem força nem entusiasmo. De facto a sua força está na sociedade e sem ela ou longe dela sente-se alienado”.
Há coisa mais digna do que esta espantosa capacidade para homogeneizar, colectivizar e congelar o ser humano em comportamentos imutáveis?
P.S. Reveja o meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Imprensa Universitária, 2003, 2.ª ed., passim.
Tradições
O que são tradições senão fenómenos que julgamos imunes à mudança? O que são tradições senão fenómenos que se opõem à mudança?
O senso-comum está cheio de estereótipos do seguinte tipo: “Nyanjas gostam de se elevar”; “o Bitonga é cacata, agarrado, não gosta de repartir”; “os Machope comem chifototo (cobra); “os Mandau são ladrões”; “mulheres menstruadas no Norte do país não podem tocar no sal”; “os homens devem tratar bem as sogras em Nampula e Zambézia senão o casamento pode terminar”; “o casamento exige o pagamento do lobolo no sul do país para ser um real casamento”. Etc.
Claro, o discurso dos antropólogos tradicionais é, naturalmente, bem mais refinado, bem mais elegante do que o discurso do senso-comum, mas a essência é, afinal, a mesma: quadriculam o país, dividem-no em etnias, em grupos linguísticos, gramáticas culturais, hábitos, costumes, etc. Junta-se o perfume de um relatório ou de um workshop* e pronto, o prato tradicional está pronto a servir.
Se perguntarmos a um antropólogo o que acontece na região xis, ele dirá imediata e maquinalmente algo como: olhe, na região xis temos a etnia tal, o grupo linguístico tal, o casamento é matrilocal e por aí fora. Tudo com a precisão de um relógio e a solidez robusta das crenças.
É como se o país fosse um frigorífico onde cada prateleira guarda uma tradição definida, imutável. De vez em quando retira-se o produto para se provar um pouco, para se lhe acrescentar um detalhe, após o que o recolocamos lá onde deve estar, na imobilidade protegida contra os assaltos deletérios da mudança e da história.
*Aqui está um espectáculo magnífico: desaprendemos de dizer seminário e agora workshopamos por tudo e por nada, por tudo e por nada há um workshop neste país, com tudo muito organizado, mais a água mineral, o café, os bolos secos e coisas assim.
O senso-comum está cheio de estereótipos do seguinte tipo: “Nyanjas gostam de se elevar”; “o Bitonga é cacata, agarrado, não gosta de repartir”; “os Machope comem chifototo (cobra); “os Mandau são ladrões”; “mulheres menstruadas no Norte do país não podem tocar no sal”; “os homens devem tratar bem as sogras em Nampula e Zambézia senão o casamento pode terminar”; “o casamento exige o pagamento do lobolo no sul do país para ser um real casamento”. Etc.
Claro, o discurso dos antropólogos tradicionais é, naturalmente, bem mais refinado, bem mais elegante do que o discurso do senso-comum, mas a essência é, afinal, a mesma: quadriculam o país, dividem-no em etnias, em grupos linguísticos, gramáticas culturais, hábitos, costumes, etc. Junta-se o perfume de um relatório ou de um workshop* e pronto, o prato tradicional está pronto a servir.
Se perguntarmos a um antropólogo o que acontece na região xis, ele dirá imediata e maquinalmente algo como: olhe, na região xis temos a etnia tal, o grupo linguístico tal, o casamento é matrilocal e por aí fora. Tudo com a precisão de um relógio e a solidez robusta das crenças.
É como se o país fosse um frigorífico onde cada prateleira guarda uma tradição definida, imutável. De vez em quando retira-se o produto para se provar um pouco, para se lhe acrescentar um detalhe, após o que o recolocamos lá onde deve estar, na imobilidade protegida contra os assaltos deletérios da mudança e da história.
*Aqui está um espectáculo magnífico: desaprendemos de dizer seminário e agora workshopamos por tudo e por nada, por tudo e por nada há um workshop neste país, com tudo muito organizado, mais a água mineral, o café, os bolos secos e coisas assim.
O chefe tradicional
Anos atrás fui co-director de um projecto bi-nacional de estudo da administração da justiça no país, projecto que abandonei a seis meses do fim quando já tinha demasiadas úlceras gástricas por e para aturar certas e imperiais e caseiras coisas.
Uma das janelas do projecto consistia em estudar as justiças alternativas e, nesse sentido, tornou-se imperativo o estudo de como os chefes tradicionais (com frequência chamados régulos) administravam a justiça.
Um régulo que habita na periferia da cidade da Beira foi um dos escolhidos por mim.
Algum tempo depois, descobri, com os meus colegas, que esse chefe era menos tradicional do que se dizia. Na realidade, ele era bem moderno.
Assim, tinha um bem montado arquivo no seu gabinete de atendimento. De tudo ele sabia no seu regulado, cada movimento dos seus súbditos era observado e registado. Cobrava impostos, aplicava penas pecuniárias, tinha um cárcere privado e dois tipos de polícia: uma, de jovens, para deter jovens; outra, de idosos, para deter idosos.
A sua sala de julgamentos estava invariavelmente cheia todos os dias. As pessoas chegavam informalmente, sentavam-se e assim o chefe chegava a ter três ou quatro problemas a resolver ao mesmo tempo, problemas e sentenças que o seu escrivão criteriosamente anotava em cadernos escolares. A sua conhecida gestão dos espíritos simultaneamente atraía e atemorizava.
Acresce que o chefe possuía um cemitério privado, o único que não alagava no período das chuvas. Para cada morto, uma taxa a pagar.
No dia em que lá fui, com alguns colegas, foi feita a cerimónia de apaziguamento dos espíritos em nossa honra. Para o efeito, o chefe colocou junto a uma das paredes de um compartimento da sua sede, duas bolachas Maria, uma coca-cola, dois cigarros SG, um copo com vinho, uma cerveja namíbia e um pouco de pombe. Foi com essas coisas que o chefe invocou os espíritos, espíritos naturalmente exigentes e também bem modernos e multifacetados.
Perfeitamente interessante este chefe, que se vangloriava de gerir 17 espíritos, um dos quais renitente, porque muçulmano.
P.S. Mais tarde, foram publicados dois grossos livros com o estudo. O texto que eu redigira sobre esse chefe apareceu com vários nomes de autores, menos o meu. Certamente foi o espírito recalcitrante do espírito indomável do chefe quem assim o quis. Paz à sua alma.
Uma das janelas do projecto consistia em estudar as justiças alternativas e, nesse sentido, tornou-se imperativo o estudo de como os chefes tradicionais (com frequência chamados régulos) administravam a justiça.
Um régulo que habita na periferia da cidade da Beira foi um dos escolhidos por mim.
Algum tempo depois, descobri, com os meus colegas, que esse chefe era menos tradicional do que se dizia. Na realidade, ele era bem moderno.
Assim, tinha um bem montado arquivo no seu gabinete de atendimento. De tudo ele sabia no seu regulado, cada movimento dos seus súbditos era observado e registado. Cobrava impostos, aplicava penas pecuniárias, tinha um cárcere privado e dois tipos de polícia: uma, de jovens, para deter jovens; outra, de idosos, para deter idosos.
A sua sala de julgamentos estava invariavelmente cheia todos os dias. As pessoas chegavam informalmente, sentavam-se e assim o chefe chegava a ter três ou quatro problemas a resolver ao mesmo tempo, problemas e sentenças que o seu escrivão criteriosamente anotava em cadernos escolares. A sua conhecida gestão dos espíritos simultaneamente atraía e atemorizava.
Acresce que o chefe possuía um cemitério privado, o único que não alagava no período das chuvas. Para cada morto, uma taxa a pagar.
No dia em que lá fui, com alguns colegas, foi feita a cerimónia de apaziguamento dos espíritos em nossa honra. Para o efeito, o chefe colocou junto a uma das paredes de um compartimento da sua sede, duas bolachas Maria, uma coca-cola, dois cigarros SG, um copo com vinho, uma cerveja namíbia e um pouco de pombe. Foi com essas coisas que o chefe invocou os espíritos, espíritos naturalmente exigentes e também bem modernos e multifacetados.
Perfeitamente interessante este chefe, que se vangloriava de gerir 17 espíritos, um dos quais renitente, porque muçulmano.
P.S. Mais tarde, foram publicados dois grossos livros com o estudo. O texto que eu redigira sobre esse chefe apareceu com vários nomes de autores, menos o meu. Certamente foi o espírito recalcitrante do espírito indomável do chefe quem assim o quis. Paz à sua alma.
Touraine e Bourdieu
Um dia tive o prazer de almoçar com Alain Touraine num restaurante do boulevard Raspail, em Paris. Eu estava desejoso de fazer algumas perguntas.
Quando senti que tinha chegado a altura, perguntei:
-Professor, o que o distingue de Pierre Bourdieu?
Imediatamente Touraine ficou nervoso. Comeu algo e respondeu, célere:
-Bourdieu está do lado dos determinismos, eu do lado da liberdade.
Vocês sabem: Bourdieu foi sempre acusado de manietar o homem nos determinismos e Touraine sempre defendeu, dizem muitos, o “actor” livre.
O que Touraine disse é rigorosamente falso: Bourdieu estudava os homens (atenção: termo genérico que não exclui as mulheres, claro) para melhor os libertar (quanto mais conscientes estamos daquilo que nos determina, mais livres podemos ser), a sociologia de Touraine mostra com frequência o peso desses determinismos.
E, já agora, deixem-me contar a forma como Touraine começou a lição inaugural de um curso seu na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais:
-A mulher não existe, é uma criação masculina.
Ora, “ A dominação masculina” é, exactamente, o título de um dos livros mais belos e controversos de Bourdieu.
Quando senti que tinha chegado a altura, perguntei:
-Professor, o que o distingue de Pierre Bourdieu?
Imediatamente Touraine ficou nervoso. Comeu algo e respondeu, célere:
-Bourdieu está do lado dos determinismos, eu do lado da liberdade.
Vocês sabem: Bourdieu foi sempre acusado de manietar o homem nos determinismos e Touraine sempre defendeu, dizem muitos, o “actor” livre.
O que Touraine disse é rigorosamente falso: Bourdieu estudava os homens (atenção: termo genérico que não exclui as mulheres, claro) para melhor os libertar (quanto mais conscientes estamos daquilo que nos determina, mais livres podemos ser), a sociologia de Touraine mostra com frequência o peso desses determinismos.
E, já agora, deixem-me contar a forma como Touraine começou a lição inaugural de um curso seu na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais:
-A mulher não existe, é uma criação masculina.
Ora, “ A dominação masculina” é, exactamente, o título de um dos livros mais belos e controversos de Bourdieu.
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