12 janeiro 2007

Inhambane: a terra do bom Godot


O jornalista José Belmiro do "Canal de Moçambique" esteve em Inhambane e lá tentou obter informações sobre vários temas. Mas tal como no À espera de Godot de Becket quem se espera nunca chega, em Inhambane nenhuma informação chegou ao Belmiro. Leia a odisseia.

11 janeiro 2007

Hoje: mais um banco assaltado em Maputo


O Standard Bank (foto, do "Canal de Moçambique), em plena 25 de Setembro, é o segundo banco a ser assaltado (hoje de manhã) em menos de uma semana na cidade de Maputo. Veja aqui.

A pequena corrupção na Educação em Moçambique

Um trabalho do Centro de Integridade Pública a conferir aqui.

As melhores regras: novos aforismos

1. A melhor regra em valores nacionais puros consiste em fazer publicamente a apologia das especificidades locais enquanto privadamente se consomem até à exaustão as iguarias da mundialização ocidental.
2. A melhor regra em economia local consiste em criticar o neo-liberalismo do import no interior de um 4/4 enquanto se defende bucolicamente as virtudes distritais da produção.
3. A melhor regra do purismo linguístico no mercado local consiste em defender as línguas nacionais para os outros e em falar-se bem as línguas estrangeiras que se finge condenar em artigos fogosos de imprensa ou de workshop.
4. A melhor regra em saúde primordial consiste na defesa apaixonada das virtudes curativas da chamada medicina tradicional num digno workshop para, no dia seguinte, se fazer um checkup na mais cara clínica biomédica de Joanesburgo.
5. A melhor regra no exercício do patriotismo senta-abaixo consiste num discurso vigoroso com tradutor diante de centenas de membros da "população" defendendo que na promoção da riqueza absoluta todos somos chamados a participar.
6. A melhor regra em prol do conforto pessoal consiste em defender, por todos os lados, o eufemismo de que tudo está bem ou caminha bem na terra, quando os "defendidos" sabem perfeitamente que quem está bem é quem defende isso.

Corrupção e enriquecimento elitário em Moçambique

A análise da Global Integrity salienta o seguinte em relação a Moçambique:

"Corruption in Mozambique is made possible by the very nature of the Mozambican state, where the power of the ruling party overlaps with the state machinery. Despite massive fraud, especially in the privatization process, no senior government representative has ever been convicted, so corruption continues with impunity. In this small African country, pledges to strengthen transparency and integrity are easier said than done.The history of how Mozambique's political elites have enriched themselves has been amply documented. It essentially resulted from the country's calamitous privatization projects and the squandering of bank resources. More than 10.4 trillion meticais (US$400 million) disappeared from the banking system in the 1990s. The state was forced to repay the money."

Quero crer que vozes haverá aqui que escolherão, agora, um dos cinco comentários seguintes (ou deles farão combinações proteicas): (1) o país não está preparado para discutir a corrupção; (2) os critérios de avaliação são vagos; (3) há coisas mais importantes do que discutir corrupção; (4) eles deviam antes preocupar-se com a corrupção dos chamados países desenvolvidos; (5) corrupção é sintoma de desenvolvimento.

10 janeiro 2007

Pangolim gera alvoroço no Ferroviário em Maputo

Um pangolim* gerou ume enorme controvéria e a aglomeração de centenas de pessoas desde que entrou na noite de segunda-feira na cozinha da família Chaúque, no Bairro Ferroviário, cidade de Maputo. O animal só saiu da casa após a realização de uma cerimónia** dirigida pelo régulo Mahotas. A Polícia de Protecção teve de intervir. Leia aqui.
__________________________
*Mamífero (Manis spp.) que vive em zonas tropicais da Ásia e da África. Há sete espécies diferentes, as únicas representantes da família Manidae e ordem Pholidota. Tem o corpo coberto de escamas. Quando ameaçado, enrola-se como um ouriço-cacheiro. Não possui dentes e alimenta-se sobretudo de formigas que captura dentro dos formigueiros com a sua longa língua viscosa, estando filogeneticamente mais próximo dos carnívoros do que os papa-formigas sul-americanos. Trata-se de um caso de evolução convergente, em que espécies de grupos distintos evoluíram para morfologias semelhantes.
** Trata-se da kuphahla, que significa invocação dos espíritos dos antepassados.

Homoíne nas mãos das mulheres



Em crónica de viagem a Homoíne, província de Inhambane, o jornalista José Belmiro, do "Canal de Moçambique", escreveu uma saborosa crónica, com o título em epígrafe, da qual extractámos o seguinte, especialmente interessante sobre o domínio feminino na vila (empobrecida, segundo Belmiro) de Homoíne, bem longe, ao que parece, do mundo sem glória da cozinha ilustrado pela caricatura da imagem:

"Numa visita de cortesia que fizemos em tempos a administradora do Distrito, encontramos lá um quadro pendurado na parede do seu gabinete com os seguintes dizeres “Homoíne nas mãos das mulheres”! Perguntámos o significado daquele quadro e ela sem papas na língua afirmou: “é porque a maior parte dos membros do governo distrital são do sexo feminino, e um artista em reconhecimento a este feito fez este quadro e ofereceu ao governo distrital”.
De facto, desde a administradora, as direcções de Agricultura, da Educação, da Saúde; Electricidade, Polícia, hospital, …, estas instituições são dirigidas por “camaradas do sexo feminino”.
A comandante distrital da polícia para mostrar o poder feminino sobre o masculino, decretou no dia 24 de Dezembro, um “recolher obrigatório na vila” gorando a possibilidade de diversão aos amantes da noite nas poucas discotecas e barracas, pois ela ordenou o seu encerramento a partir das 22 horas." -leia todo o relato aqui.

Já disponível relatório da Global Integrity


Já está disponível o relatório da Global Integrity. Veja as posições de Moçambique.
Se quiser, também pode consultar aqui.

09 janeiro 2007

À mercê dos Big Brothers do planeta


Google Earth: um programa que nos permite viajar por todo o mundo via satélite, que nos permite saber onde moramos, em que cidade, rua e prédio. Uma coisa bela. Mas, ao mesmo tempo, pensei quão frágeis somos, quão à mercê estamos dos Big Brothers deste planeta, quão actual continua a ser o 1984 de George Orwell.

Amanhã: Moçambique avaliado em relatório sobre integridade


O nosso país é um dos 43 países que será avaliado em termos de indicadores integridade quando amanhã a Global Integrity (GI) anunciar o seu relatório. Poderá lê-lo aqui, no portal do CIP ou, ainda, no portal da própria GI, logo que disponível.

Uma vez mais os aforismos

1. O importante para muitos intelectuais é mudar as mentalidades rebeldes e não a situação onde essas mentalidades operam. O importante é mudar o rio, não as margens que tornam o rio permanentemente rio. Acções-aspirina, nas palavras de Paulo Freire.
2. Quando um grupo político tem sistematicamente um comportamento violento, os intelectuais almofadados pensam que o grupo não pertence à história dos homens, mas à história das aberrações biológicas eternas. No fundo pensam que há, ab initio, um curto-circuito nas suas sinapses.
3. Intelectuais com ideias diferentes e socialmente críticas podem sempre correr o risco de passar por enfermos, por neuróticos, por estrangeiros, quando os produtores oficiais de opinião defendem que tudo está socialmente bem.
4. Nada provoca mais acidez gástrica nos intelectuais comprometidos com o Poder do que a linguagem comprometida com a crítica social. O seu ideal nefelibata é sempre o equilíbrio, o belo, a razão, a elegância comportamental, o perfume do consenso.
5. A uma sociedade dividida em classes, em grupos sociais antagónicos, os intelectuais da "globalização" opõem as virtudes horizontais e anestesiantes do pluralismo.
6. De tanto defendermos publicamente os nossos prejuízos acabamos por nos convencer de que eles são o produto racional e paciente do que investigámos.
7. Com frequência, as chamadas campanhas de "empoderamento" de grupos sociais considerados vulneráveis visam menos mudar a sociedade que gera desigualdades do que dotar esses grupos dos mesmos meios de que dispõem outros para as manter.

08 janeiro 2007

Escapou sábado ao linchamento no Alto Maé


O indivíduo da foto, de identidade não apurada, de mãos e pernas amarradas e com um pneu na cintura, escapou sábado de manhã ao linchamento com pneu e combustível, no bairro do Alto Maé (em plena grande Maputo), depois que foi supostamento descoberto a roubar faróis de uma viatura. De acordo com o "Notícias", a intervenção de um grupo de pessoas idosas evitou que jovens ateassem fogo ao pneu e linchassem o acusado.

07 janeiro 2007

Tsohgola xamuali Zeferino Madeira!

No Matundo, em Tete, junto à margem do rio Rovubuè, um dos maiores afluentes do Zambeze, e a 800 metros deste, Zeferino Madeira tem em construção uma unidade turística, a Quinta Brisa, que comportará sala de conferências, restaurante, bar, esplanada, piscina e quartos para hóspedes, obra orçada em dois milhões de meticais.
Funcionário da Mozambique Leaf Tobaco, onde é gerente, Zeferino Madeira também se dedica à criação de aves e de gado caprino e bovino, para além da produção de hortícolas. É ainda proprietário de uma frota de camiões que transporta tabaco das zonas produtivas para a fábrica da Mozambique Leaf Tobaco.
Assim é que é, Zeferino Madeira: capitalismo a sério, nada de capitalismo de dumba-nengue para vender apenas capende. Que o espírito da nossa tetense Tsato (você sabe que ela habita algures num rochedo no Matundo) o proteja. Pode ter a certeza de que irei visitar a sua Quinta Brisa e comer um belo pende. Em frente, amigo, tsohgola xamuali!

05 janeiro 2007

Sobre os valores morais

É frequente, a todos os níveis, ouvirmos pessoas dizer que os valores morais estão em decadência.
Falamos dos valores morais como se fossem algo que sempre tivesse existido com uma determinada estrutura e que, a partir de uma certa altura, começasse a desaparecer de forma perversa e alarmante.
Porém, os valores morais mudam consoante as etapas históricas, as sociedades, os grupos sociais. Por muitos e variados factores.
Não há valores morais eternos feitos de uma única "substância". A certos valores sucedem outros.
E se, quando confrontados com esses outros valores, ficamos chocados por eles nos magoarem, por serem o contrário dos nossos valores (que consideramos sempre puros, íntegros, os únicos), apenas acontece que estamos diante de uma nova etapa histórica (ou de uma transição) que não compreendemos, que não aceitamos, que condenamos, etapa que tem outros valores, tão morais quanto os nossos.
Os valores morais são princípios e normas de conduta e integração sociais que só são "eternos" se admitirmos a sua transformação. Mas, regra geral, é difícil aceitar a transformação.

Saddam: Vamos agora acusar os cúmplices

"Num julgamento espectáculo cujo clímax teatral foi claramente aprazado para promover George W. Bush nas eleições intercalares americanas, Saddam Hussein foi condenado e sentenciado à forca. Disparates acerca do "fim de uma era" e de "um novo início para o Iraque" foram promovidos pelos habituais falsos contabilistas morais, os quais não pronunciaram nem uma palavras acerca de levar os cúmplices do tirano à justiça. Por que estes cúmplices não estão a ser acusados pela sua ajuda e apoio a crimes contra a humanidade?" - John Pilger. Leia o texto completo aqui.
____________________
Na foto, antigo secretário norte-americano da Defesa Donald Rumsfeld cumprimenta Saddam Hussein.

Como se forma a mentalidade submissa

"Mobilizando recursos científicos nas disciplinas mais diversas (sociologia, estudos de opinião, psicologia, politologia, relações públicas, estudos comportamentais e motivacionais, teoria da comunicação, etc), consegue construir-se um pensamento em modelos pré-formatados. Uma maneira de pensar que, para além do mais, reforça a aparência de que se está a agir livremente. Sob a cobertura de uma suposta liberdade de expressão, os poucos que dela realmente dispõem, quer dizer, as minorias que detêm os meios para a expressar, tentam moldar sistematicamente as consciências de milhões de pessoas, condenando-as à menoridade intelectual, educando-as para a docilidade, para suportar, sem críticas, o sistema de dominação e exploração vigente, e para considerar como próprios os falsos ideais deste mesmo sistema. As actuações e condutas daí resultantes são apresentadas como "livres decisões", autodeterminadas, quando na realidade são induzidas, heterodeterminadas." - Vicente Romano. Leia o texto completo aqui.

Pequena sociologia do caso SOICO

No dia 28 de Dezembro, sexta-feira, funcionários judiciais entraram na sede do Grupo SOICO com auto de penhora dos bens do jornal "O País", passado pelo juíz da 9.ª secção (laboral) do Tribunal Judicial da cidade de Maputo, Pedro Chambal, na sequência de um processo intentado pela senhora Flávia Celeste Neto Alexandre dos Santos. Nesse dia e também a 29, duas viaturas e vários computadores foram levados.
Imediatamente, o grupo desencadeou através da estação televisiva STV, sua pertença, uma campanha de denúncia do acto, explorando inteligentemente dois fenómenos: (1) o facto de a queixosa ser irmã de Virgínia Matabele, ministra da Mulher e Acção Social (2) o facto de a penhora ter sido efectuada em pleno período de festas.
"Querem silenciar-nos", foi o mote de defesa e ataque.
Portadora de um grau de audiência invejável na cidade de Maputo, servida por uma equipa jovem e agressiva de jornalistas, a STV, apoiada pelo jornal "O País", em versão escrita e online na net, transformou o seu caso em notícia permanente, explorando bem um fenómeno que sempre surte efeito: a vitimização. A propósito dos outros, falou de si, ampliou ainda mais a atenção e a rede dos telespectadores (e não só).
Ao mesmo tempo, esse jornalismo de ponta foi apoiado pela intervenção solidária de organizações e pessoas singulares de vários quadrantes, designadamente os presidentes da Liga dos Direitos Humanos, do MISA e da Associação Comercial da cidade de Maputo, respectivamente Alice Mabota, Tomás Vieira Mário e Adriano Buque; o jornalista e presidente do Conselho de Administração da Mediacoop, Fernando Lima; vendedores da Malanga; representantes dos partidos PDD, Renamo e Ecologista, respectivamente Raúl Domingos, Fernando Mazanga e João Massango; o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama; a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA); e religiosos, com o porta-voz em Dinis Matola, secretário-geral do Conselho Cristão de Moçambique.
O caso estava generalizado e politizado (cerceamento da liberdade de imprensa tornou-se a ideia matriz). A sede do grupo SOICO passou a ser uma espécie de lugar de peregrinação. E passou a ser propriedade simbólica do público, que igualmente se tornou parceiro, jogador, interveniente, opinador.
Entretanto, entrou em cena o juiz Augusto Paulino, figura mediática, na qualidade de juiz-presidente do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo. Em entrevista à Rádio Moçambique, o juiz condenou a STV e falou em "espectáculo gratuito". Se a STV tivesse agido em tempo útil nos trâmites judiciais, não teria existido o espectáculo.
Ontem, a presidente da Associação Moçambicana de Juízes, Vitalina Papadakis, acompanhada de outros dois juizes, Osvalda Joana e Pascoal Jussa, fez uma veemente crítica ao grupo SOICO, afirmando em conferência de imprensa que o grupo SOICO manipulou de forma inaceitável a opinião pública no sentido de colocar-se acima da lei ao denegrir o juiz da causa, Pedro Chambale.
Em nome da associação, Vitalina solidarizou-se com os seus colegas Pedro Chambale e Augusto Paulino.
Um caso inédito na história da magistratura nacional: o espírito de corpo publicamente mostrado, um espírito de combate. A vinda a terreiro da AJM mostra imediatamente duas coisas: (1) a força do impacto público do discurso do SOICO: (2) a busca de audiência e de solidariedade públicas por parte dos juízes, entrando clara e decididamente nos carris fabricados pelo SOICO (de outra forma, os juízes teriam permanecido no rigor processual - e digamos silencioso - dos corredores judiciais).
Enquanto isso, o grupo SOICO multiplica e amplia sem descanso a sua defesa na STV e no "O País". Um jornalismo de combate, um saber-fazer notícia a todo o momento, um saber trazer para o debate e para a solidariedade o público consumidor.
Temos, assim, uma luta entre dois grupos e duas linhas: de um lado um grupo empresarial de jornalismo variado, transformando habil e politicamente em notícia uma ordem judicial e explorando bem a vitimização, apoiado por advogado inteligente; do outro, um corpo de juízes, defendendo a lei, o direito positivo, neutral, silencioso, a concentração do caso nos corredores dos tribunais e criticando com severidade o seu aproveitamento público.
Por palavras mais simples, uma luta entre Capital e Estado, entre os meandros públicos da comunicação de massa e os meandros que se pretendem silenciosos da justiça.
Mais profundamente ainda: uma luta entre fazer o cidadão partilhar coisas e evitar que o cidadão partilhe coisas.
Uma luta entre dois discursos, duas interpretações, duas formas de solidariedade, entre duas formas de ver a vida, entre dois processos de qualificação do que bom e do que é mau, do que deve ser dito e do que não deve ser dito.
Mas um luta que, ao fim e ao cabo, mostra, também, que a democracia é possível no país. Quando ela assim acontece, espontaneamente, mesmo se buliçosa (e ainda bem que buliçosa), sem necessidade de a enunciarmos, estamos, por hipótese, no bom caminho. Com efeito, quando exigimos democracia é porque ela não existe. Como afirmou o linguista americano Noam Chomsky, "quanto maior é a necessidade de falar em democracia, menos democrático é o sistema".
Mas, afinal e a terminar, o que está verdadeiramente em causa?
Talvez Rogério Sitoe, director do diário "Notícias", tenha encontrado a chave em crónica hoje publicada.
Depois de se referir aos "elos fracos da injustiça da Justiça" e aos "Cidadãos anónimos, longe do apoio de elites e da mediatização televisiva", Sitoe escreveu:
"Até provas em contrário, é sobre o mau funcionamento dos tribunais que deve ser exercida toda a pressão, para que a Justiça funcione correctamente. É contra a atitude pouco profissional, estranha e por vezes suspeita e abusiva de alguns juízes que a sociedade civil, as elites devem agir como forças activas para que a Justiça funcione correctamente e com transparência neste país, e dissocie-se dos fantasmas políticos."
______________________
Deixei prepositadamente de lado um enorme conjunto de fenómenos que preenchem o caso SOICO.

Sociologia do caso SOICO


Aguardem nas próximas horas um apontamento meu com o tema em epígrafe.

"Savana" avaliou desempenho do Conselho de Ministros

Na habitual avaliação anual do desempenho do Conselho de Ministros e numa escala de 0 a 10, o semanário "Savana" atribuiu um nove ao ministro da Saúde, Ivo Garrido, sete oitos entre os quais o presidente da República, a ministra do Trabalho, Helena Taibo e o ministro da Ciência e Tecnologia, Venâncio Massinhe. Com a nota mais baixa, um dois, ficou o ministro da Coordenação da Acção Ambiental, Luciano de Castro (edição de hoje, 05/01/07, pp. 2/3.

04 janeiro 2007

Caso SOICO: Associação Moçambicana de Juízes vem a público defender dois colegas


I
Segundo o jornal da noite da Rádio Moçambique, às 19.30 horas de hoje, a presidente da Associação Moçambicana de Juízes (AMJ), Vitalina Papadakis (foto acima), afirmou em conferência de imprensa que o grupo SOICO manipulou de forma inaceitável a opinião pública no sentido de colocar-se acima da lei ao denegrir o juiz da causa, Pedro Chambale.
Condenando o desrespeito do sistema judicial do país, Vitalina Papadakis solidarizou-se com os seus colegas Pedro Chambale (juíz da 9.ª Secção - laboral -do Tribunal Judicial da cidade de Maputo) e Augusto Paulino, presidente desse tribunal.
Entretanto, no seu noticiário das 20 horas de hoje, a STV transmitiu a citada conferência de imprensa, na qual Vitalina Papadakis estava acompanhada pela inspectora judicial e membro da AMJ, Osvalda Joana, que também tomou a palavra, e de Pascoal Jussa. A STV reproduziu igualmente a sessão de perguntas e respostas que se seguiu à intervenção de Vitalina Papadakis (que afirmou por duas vezes que a devolução dos bens penhorados há dias ao grupo SOICO foi feita a título provisório). Após o relato da conferência, o grupo SOICO colocou em debate na estação um dos seus administradores e o advogado da causa, Abdul Gani.
À hora do fecho desta postagem, o jornal "O País" do grupo SOICO ainda não estava actualizado com a informação acima deixada.

II
Por um lado a forma como o SOICO luta através da STV e do "O País" (transportando em permanência para o público um problema jurídico-laboral) e, por outro, a intervenção pública e condenatória de juízes (defendendo o tratamento do caso em instâncias judiciais e não em público), para além do alinhamento de várias instituições e pessoas singulares solidárias com o Grupo SOICO, mostra bem quanto este caso complexo e mediático é novo na história do país. E pela primeira vez na história do país, também, dois membros de AMJ saíram a terreiro para defenderem publicamente dois colegas.
A democracia é, em meu modesto entender, isto mesmo: um debate, um confronto de ideias, uma ágora.
E finalmente: sejam quais for as críticas que se façam ao grupo SOICO, a sua STV apresenta em Moçambique um padrão televisivo invulgar, uma modernidade interventiva única e imediata.
_______________________________
Adenda: o "Savana" de hoje (05/01/07) dedica ao caso toda a página 4; o diário "Notícias", também de hoje, ocupa seis colunas claramente pró-AMJ na p.6; o director do diário, Rogério Sitoe, escreveu, porém, uma bela crónica e procurou mostrar que o ponto central a ter em conta é o mau funcionamento dos tribunais (p. 5); o secretário do partido Frelimo para a Informação e Propaganda reagiu; o "O País" actualizou a sua página online; finalmente, o Sindicato Nacional de Jornalistas promove hoje na sua sede, em hora não indicada, um debate com o tema "Que lições tirar desta situação?"


Os bem-amados fumos seiscentistas

"(...) o tempo q lhe concedem, q não he mais senão emq.to tem que gastar (...)"

Escrevendo para o rei português em 1648, o então capitão de Sena, Francisco Figueira de Almeida, afirmou que no antigo Império de Muenemutapua (ou Mwenemutapwa ou Munhumutapwa, como queiram, escolhei a grafia), as povoações (muzindas) tinham chefes chamados fumos ou encosses, todos dependentes de um mambo.
Os fumos eram eleitos entre os que mais posses tinham localmente. O seu reinado durava enquanto tivessem com que gastar com a comunidade. Eram obrigados a tudo gastar: comida, pombe, jóias, tecidos, etc. Quando nada mais lhes restasse, eram distituídos e passavam a pertencer ao grupo dos grandes por mérito, com direito ao uso de um chapéu de palha e de um bordão.
Imaginai se a história se repetisse e se os nossos chefes actuais, certamente de bem mais posses que os fumos, fossem obrigados a inscrever-se na regras seiscentistas das antigas muzindas.
____________________________
Consulte: Almeida, Francisco Figueira de, Carta q Franc.co Figr.ª de Almeida, Capitam de Sena, esvreeuo ao Governador Dom Nunes de Alues, dando lhe conta do q hia obrando, acerca da guerra, in Gomes, Antonio, Viagem q fez o Padre Ant.º Gomes, da Comp.ª de Jesus, ao Imperio de de (sic) Manomotapa: e assistencia q fez nas ditas terras de Alg´us annos (séc. XVII), 3, 1959, separata, p. 205.

A história segundo Afonso Dhlakama

Decididamente a história terá de ser revista se fizermos fé nas palavras do Sr. Afonso Dhlakama, presidente do partido Renamo, citado pelo "O País". Com efeito, Dhlakama que falava em Quelimane no congresso constitutivo da Associação dos Antigos Combatentes da Luta pela Democracia, realizado nos dias 29 e 30 de Dezembro, terá afirmado que a Frelimo foi mais criminosa do que o regímen colonial. Confira aqui.

03 janeiro 2007

A grande festa da carne do elefante


I
Século XVII, vale do Zambeze

Elefante morto, século XVII, algures no vale do Zambeze, descrição feita por Francisco de Almeida, então capitão de Sena:

"(...) mandão chamar as molheres, filhos, e mais gente de sua pouação, fazem aly suas casas, começa cada hu cõ sua faca a cortar no Elefante, hus da banda de dentro, outros de fora, e as vezes se encõtrão, e se cortão hus, aos outros, e não se vão daly, athe q não deixão tudo limpo (...) (Almeida, Francisco Figueira de, Carta q Franc.co Figr.ª de Almeida, Capitam de Sena, esvreeuo ao Governador Dom Nunes de Alues, dando lhe conta do q hia obrando, acerca da guerra, in Gomes, Antonio, Viagem q fez o Padre Ant.º Gomes, da Comp.ª de Jesus, ao Imperio de de (sic) Manomotapa: e assistencia q fez nas ditas terras de Alg´us annos (séc. XVII), 3, 1959, separata, p. 58.

II
Século XXI, Matola-Gare, província de Maputo

Dois elefantes abatidos, século XXI, Dezembro de 2006, Matola-Gare, província de Maputo, descrição do diário "Notícias":

"(..) assistiu-se a uma verdadeira festa da carne do elefante. Um verdadeiro assalto a um donativo raro por alturas da grande festa. Sem que nenhuma ordem tivesse sido dada, gente de todas as idades entre crianças e adultos, homens e mulheres, empunhando catanas e outros instrumentos assomaram ao matadouro de circunstância, ida de diversos sítios (...) E naco a naco, a carne dos dois elefantes que poderia ser acima de uma tonelada foi esgotada num período de aproximadamente duas horas." ("Notícias", 02/01/07, p.2)
___________________
Foto do "Notícias".

AEMO e escritores

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) lançou uma colectânea de poesia com o título “Esperança e Certeza –I”, com 20 autores de sete províncias do país.
A "Nota IntrodutóriO» (sic) afirma que há falta "gritante" de "criadores literários" para renovar "os nomes já sobejamente conhecidos".

Caso SOICO: advogados em liça

Em entrevista ontem dada à Rádio Moçambique, o juiz-presidente do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, Augusto Paulino, atacou o grupo SOICO e afirmou que a STV não agiu em tempo útil. Entretanto, reagiram já os advogado Abdul Gani (do SOICO) e Simeão Cuamba e o grupo SOICO. Confira aqui.

02 janeiro 2007

Devolvidos os bens penhorados ao SOICO

Por despacho da 9.ª secção (laboral) do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, foram devolvidos hoje ao grupo SOICO os bens penhorados há dias, entre os quais duas viaturas e computadores.
Enquanto isso, o processo corre os trâmites normais.
Ume sensata decisão do juiz diante de uma enorme e influente pressão pública nacional.

Irmãos gémeos

Citada pelo "Notícias", a Sra. Cremilda Sabino, chefe da bancada do partido Frelimo, partido minoritário na Assembleia Municipal da Beira, acusa esta de mau desempenho por usar "arrogância e força de voto para a aprovação de leis muitas das quais hoje são publicadas em detrimento dos munícipes (...)" (edição de 02/01/07, p. 3). Força de voto do partido Renamo, claro, partido maioritário. Ora, esse exactamente o mesmo argumento usado pelo partido Renamo contra a maioritária Frelimo na Assembleia da República.

Ditos DOUtos: um novo blogue

Veja aqui.

01 janeiro 2007

Com Noam Chomsky a propósito do Iraque e de Saddam Hussein

Creio que o linguista americano Noam Chomsky é incontornável quando se trata de analisar a política estrangeira dos Estados Unidos.
É a propósito disso e não do enforcamento de Saddam Hussein (que não vou analisar) que me permito convidar-vos a ler (1) uma entrevista com ele no foro de Amesterdão em 2003, Rádio Netherlands (a qualidade da tradução para português é sofrível, mas penso que se lerá bem): (2) uma segunda entrevista , em 2004, na qual Chomsky fala de uma alternativa à "educação domesticadora".
___________________
Foto AP.

Penhora de bens do grupo SOICO: Religiosos e CTA tomam posição

Além de religiosos, com o porta-voz em Dinis Matola, secretário-geral do Conselho Cristão de Moçambique, tomou também posição a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) em favor do SOICO.
A CTA considerou que a penhora de bens do grupo, neste diário várias vezes reportada, representa "um golpe ao ambiente de negócios e um revés ao fortalecimento das empresas".

Este é um caso que assumiu e assume rapidamente contornos de natureza vária.
Para além dos aspectos judiciais, judiciários e políticos, duas coisas me parecem importantes salientar desde já: primeiro, a "vigilância" de vários quadrantes do que nos habituámos a chamar "sociedade civil"; segundo, o interesse que a STV, por exemplo, suscita em Maputo (tenham-se em conta as inúmeras mensagens de solidariedade que estão a afluir à estação e que esta dá a conhecer aos seus telespectadores).