As leis do mercado estimularam o florescimento em Moçambique de toda uma vasta gama de doutores "cura-tudo", que oferecem às pessoas curas e remédios para tudo, literalmente para tudo.
Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
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28 julho 2019
02 abril 2019
Soluções definitivas
Quanto mais recentes as nações, quanto mais jovens os Estados, quanto mais prementes os problemas, mais tendência têm as pessoas para procurar lenitivos e soluções no apelo a líderes do tipo messiânico-populista. Na verdade, confrontados com os problemas do dia-a-dia, as pessoas apelam à intervenção de uma espécie de messias instantâneo, imploram os milagres cura-tudo, as soluções decisivas, definitivas, convencidas de que os defeitos estruturais de sistema podem ser resolvidos com intervenções fortes e pessoais de ocasião.
31 outubro 2018
Cura-tudo
As leis do mercado e a pobreza estimularam o florescimento em Moçambique de toda uma vasta gama de "doutores cura-tudo", que oferecem às pessoas curas e milagres para tudo, literalmente para tudo.
25 janeiro 2018
Messias de primeiros socorros
04 janeiro 2018
Precariedade e crença
20 dezembro 2016
O apelo messiânico
Na verdade, confrontados com os problemas do dia-a-dia, as pessoas apelam à intervenção de uma espécie de messias de primeiros socorros, imploram os milagres cura-tudo, as soluções decisivas, definitivas, convencidas de que os defeitos estruturais de sistema podem ser resolvidos com intervenções fortes e pessoais de ocasião.
Assim, por exemplo, em certos círculos espera-se que o Presidente da nação consiga com a varinha mágica eliminar todos os males e implantar o bem total. Ele apenas, só por si. O que se deseja nesses círculos é o papel único do demiurgo e não o das instituições do Estado, é o indivíduo e não o colectivo. E se as instituições não funcionam ou funcionam mal, a cura é suposta depender infalivelmente da generosidade e da disposição do demiurgo.
Com a alma ajoelhada no altar da esperança, as pessoas buscam, afinal, um deus pessoalizado e permanente.
06 janeiro 2016
Intervenções fortes de ocasião
27 abril 2014
Gulosa de deuses profanos e de arbítrios
Confrontados com todo o género de problemas e de mazelas na vida do dia-a-dia, apelamos desesperadamente à intervenção imediata de messias redentores, de deuses profanos, imploramos os milagres cura-tudo, as soluções decisivas, definitivas, convencidos de que os defeitos estruturais de sistema podem ser resolvidos com intervenções fortes de ocasião. O que está em causa não é o problema X na área da saúde, o problema Y na actuação policial ou o problema Z no rendimento laboral. O que está em causa é um conjunto de sérios problemas de governação que se estende da ostentação despesista ao cultivo da heroicidade de recurso. Não poucas vezes, certa imprensa salienta o esforço heróico do dirigente A ou B na resolução de problemas locais, como se assim o sistema ficasse curado de suas mazelas estruturais. Não poucas vezes publicita-se em parangonas quanto o dirigente A ou B fica pesaroso com os problemas que encontrou em suas visitas, tomando de imediato medidas profilácticas. A nível popular, não poucas vezes aparece a exigência imediata do herói A ou B para resolver problemas. Hipótese a testar: quanto mais uma sociedade estiver penetrada pelas redes parentais ou étnicas, pelo clientelismo político e pela cultura do fala como homem, mais ela está à mercê do apelo à emergência e ao herói providencial. Uma sociedade sem instituições consolidadas é uma sociedade gulosa de deuses profanos e de arbítrios.
26 janeiro 2014
22 julho 2013
O curandeiro do sorriso, do racha e de mais coisas
O cartaz em epígrafe encontra-se num poste em pleno coração do Bairro Polana Cimento A, cidade de Maputo, Avenida Julius Nyerere, em frente ao prédio do "Polana Center". Foto minha ontem tirada.
26 abril 2013
A cova não está em Muxúnguè (9)
Nono número da série, tendo como guia a Paz de Aristófanes, nesta série aqui e aqui, com base neste sumário. Prossigo no primeiro número: 1. Introdução: o jogo dos lugares-comuns. No número anterior escrevi que entre as imagens, entre os clichés, entre os estereótipos correntes, está este tipo de formulação: a Frelimo não conhece a democracia porque é comunista; a Renamo não conhece a democracia porque só pensa na guerra. É certamente possível encontrar múltiplas variações desta formulação. Por outro lado, temos as boas e recorrentes vontades expressas na sugestão permanente de diálogo. A ideia é esta: dialoguemos e tudo acabará bem. O diálogo surge como contendo em si, só por si, as virtudes terapêuticas da desejada cura da mútua intolerância.
(continua)
Adenda às 6:49: distribuição - melhor dito, redistribuição - de recursos de poder, eis um tema frequente nas análises políticas que faço neste diário. Entretanto, leia este trabalho da "Rádio Moçambique" aqui.
Adenda 2 às 12:26: sobre o nosso país e a propósito do que se passou em Muxúnguè, importe um trabalho com o título "Recursos naturais e um desafio à ordem política estabelecida", no Stratfor, Global Intelligence, aqui. Agradeço ao RC o envio da referência.
Adenda 3 às 6:39 de 26/04/2013: novo encontro Governo/Renamo previsto para segunda-feira, mas com um aparente impasse no tocante ao local. Aqui.
Adenda 2 às 12:26: sobre o nosso país e a propósito do que se passou em Muxúnguè, importe um trabalho com o título "Recursos naturais e um desafio à ordem política estabelecida", no Stratfor, Global Intelligence, aqui. Agradeço ao RC o envio da referência.
Adenda 3 às 6:39 de 26/04/2013: novo encontro Governo/Renamo previsto para segunda-feira, mas com um aparente impasse no tocante ao local. Aqui.
03 abril 2013
Precariedade e crença
A condição social dos habitantes da sociedade civil precarizada torna-os prisioneiros de um duplo constrangimento: por um lado, a vulnerabilidade perante os fenómenos da natureza e a insegurança do modo de vida catapulta-os para a interpretação emocional e antropomórfica da vida; por outro, esta visão reforça a vulnerabilidade e a insegurança. É isso que permite o extraordinário florescimento de certo tipo de organizações milagreiras e de consultórios cura-tudo.
Milhares de pessoas, regra geral de origem humilde, que acorrem aos cultos milagreiros e aos consultórios dos curandeiros cura-tudo, esperando que Deus e os bons espíritos ajudem a libertarem-se dos flagelos, criam novos espaços identitários, encontram um sentido para a vida, recebem solidariedade, é-lhes prometida uma recompensa celestial para os males terrenos ou o apoio revigorado dos espíritos propiciados e acalmados.
Mas no preciso momento em que isso acontece, ocorre a expulsão completa do projecto de modificação real das condições de vida.
Com efeito, ao aceitarem que todos os males são obra de entidades consideradas maléficas como os maus espíritos e o diabo, as pessoas acabam por ver transferida - com plena crença e adesão - para entidades sobre-humanas invisíveis a responsabilidade social na génese da miséria e da violência. Perdido o sentido crítico, trocado que é pelo sentido das crenças, evacuam o desafio humano de uma transformação social genuína. Aqui temos, afinal, um exercício de despersonalização trágica.
Milhares de pessoas, regra geral de origem humilde, que acorrem aos cultos milagreiros e aos consultórios dos curandeiros cura-tudo, esperando que Deus e os bons espíritos ajudem a libertarem-se dos flagelos, criam novos espaços identitários, encontram um sentido para a vida, recebem solidariedade, é-lhes prometida uma recompensa celestial para os males terrenos ou o apoio revigorado dos espíritos propiciados e acalmados.
Mas no preciso momento em que isso acontece, ocorre a expulsão completa do projecto de modificação real das condições de vida.
Com efeito, ao aceitarem que todos os males são obra de entidades consideradas maléficas como os maus espíritos e o diabo, as pessoas acabam por ver transferida - com plena crença e adesão - para entidades sobre-humanas invisíveis a responsabilidade social na génese da miséria e da violência. Perdido o sentido crítico, trocado que é pelo sentido das crenças, evacuam o desafio humano de uma transformação social genuína. Aqui temos, afinal, um exercício de despersonalização trágica.
11 julho 2012
17 outubro 2011
Segundo "O País": UEM acaba com modelo de Bolonha
Editorial do "Notícias" de 2009: "O reitor da UEM diz que isso é bom para o país e para os estudantes, mas em momento algum nos é dado a saber por que é que isso é bom para o país e para os estudantes. Não nos dizem se isso resulta, sobretudo, de uma conclusão estrutural sobre o modelo do Ensino Superior que, como país, queremos, ou é produto do seguidismo global, independente do contexto."
Com destaque, o jornal digital "O País" reporta hoje que a Universidade Eduardo Mondlane vai regressar no próximo ano às licenciaturas de quatro anos (sete para Medicina), eliminando o modelo de Bolonha de três anos introduzido há três anos. Aqui.
Observação: neste diário existem várias postagens sobre a mentalidade de Bolonha. Recorde aqui, aqui e aqui. Recorde duas séries minhas, uma inacabada, com o título Processo de Bolonha e cursos macdonald, aqui; outra intitulada O risco do ensino superior cura-tudo, aqui.
Observação 2 às 6:19: sejam quais forem os ângulos de análise e crítica que adoptarmos, tenho para mim que a decisão é acertada.
Observação 3 às 6:48: talvez não fosse má ideia fazer-se um estudo de percepções e resultados obtidos com o modelo de Bolonha.
Com destaque, o jornal digital "O País" reporta hoje que a Universidade Eduardo Mondlane vai regressar no próximo ano às licenciaturas de quatro anos (sete para Medicina), eliminando o modelo de Bolonha de três anos introduzido há três anos. Aqui.
Observação: neste diário existem várias postagens sobre a mentalidade de Bolonha. Recorde aqui, aqui e aqui. Recorde duas séries minhas, uma inacabada, com o título Processo de Bolonha e cursos macdonald, aqui; outra intitulada O risco do ensino superior cura-tudo, aqui.
Observação 2 às 6:19: sejam quais forem os ângulos de análise e crítica que adoptarmos, tenho para mim que a decisão é acertada.
Observação 3 às 6:48: talvez não fosse má ideia fazer-se um estudo de percepções e resultados obtidos com o modelo de Bolonha.
07 agosto 2011
O fantástico cura-tudo "Dr Samungue"
Anúncio colocado num dos jornais editados em Maputo. A propósito: há dezenas de entradas neste diário concernentes aos cura-tudo e ao cura-tudismo. Há, também, séries. Por exemplo, esta.
Questões: são os "doutores" do género Samungue possuidores de autorização para exercerem a sua actividade? São os produtos cura-tudo colocados na rua portadores de inspecção e de autorização sanitária? Quem controla as farmácias cura-tudo?
06 agosto 2011
Postagens na forja
* Genéricos: Dossier "Savana" (5) (Edição de 29/07/2011); Famílias da nomenklatura e sociedades com empresas públicas; O fantástico cura-tudo "Dr Samungue"
* Séries pessoais: Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (8); Uns pensam melhor do que outros? (6); Por que brilha o capitalismo? (5); Mudar sem mudar (12); Sobre ritos de iniciação feminina à maturidade em Moçambique (22); Ditos (13); À mão a comida tem melhor gosto (11); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (58); África enquanto produção cognitiva (30); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (9); Ciências sociais e verdade (12); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)
* Séries pessoais: Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (8); Uns pensam melhor do que outros? (6); Por que brilha o capitalismo? (5); Mudar sem mudar (12); Sobre ritos de iniciação feminina à maturidade em Moçambique (22); Ditos (13); À mão a comida tem melhor gosto (11); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (58); África enquanto produção cognitiva (30); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (9); Ciências sociais e verdade (12); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)
27 julho 2011
Mais um milagreiro
O mercado da credulidade está em constante crescimento no nosso país, especialmente na cidade de Maputo. No "Notícias" um enorme e colorido anúncio dá conta da presença na cidade de mais um milagreiro, o Sr. Dilkumar, do Sri Lanka, dito pastor fundador da King's Revival Church, anunciando espectáculos milagreiros na Praça da Paz.
Nota: ao lado dos cura-tudo africanos (nossos e estrangeiros), temos os milagreiros estrangeiros do grande espectáculo de palco e das fés circences, ambos frequentemente referidos neste diário, uma galeria multifacetada atribuindo a demónios e maus espíritos as causas dos males e assegurando curas para tudo, mesmo para o nada. Os poderes podem dispensar polícias e soldados com semelhante tipo de soporíferos.
Nota: ao lado dos cura-tudo africanos (nossos e estrangeiros), temos os milagreiros estrangeiros do grande espectáculo de palco e das fés circences, ambos frequentemente referidos neste diário, uma galeria multifacetada atribuindo a demónios e maus espíritos as causas dos males e assegurando curas para tudo, mesmo para o nada. Os poderes podem dispensar polícias e soldados com semelhante tipo de soporíferos.
30 maio 2011
Histeria colectiva por causa de uma mezinha cura-tudo
Um velho pastor fez saber que tinha descoberto uma planta capaz de curar SIDA e outras doenças. O homem vive em Leliondo, a cerca de 400 quilómetros da capital tanzaniana, Arusha. Agora saiba o que sucedeu, aqui, aqui e aqui. Para traduzir, aqui. Agradeço ao Ricardo o envio da referência (creio já ter abordado o fenómeno neste diário, mas não me ocorre quando nem como).
20 maio 2011
O fantástico cura-tudo em sua peculiar linguagem cura-tudista
Folheto distribuído na cidade de Maputo. Recordo que este diário está pejado de entradas sobre o cura-tudismo. Clique sobre a imagem com o lado esquerdo do rato para ampliá-la.
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