As leis do mercado vão estimular o florescimento de toda uma vasta gama de
doutores cura-tudo, que oferecem às pessoas curas e remédios para tudo, literalmente para tudo. O
cura-tudismo pertence, agora, ao reino das mercadorias, à competição, à inovação das receitas e dos campos de aplicação.
Tenho por hipótese que os verdadeiros
médicos sociais, os herbanários (
por mim referidos num dos números desta série), perderam terreno em favor dos adivinhos de todos os azimutes e crescentemente chegados de países estrangeiros, habitando em particular o mundo urbano e péri-urbano.
E creio que, ontem como hoje, vale a pena reflectir no que um dia Marx escreveu: “A angústia religiosa é, por um lado, a expressão da angústia real e, por outro, o protesto contra a angústia (…). Exigir que [o povo] renuncie às ilusões é exigir que ele renuncie a uma situação que precisa de ilusões."
Com tanta pobreza multilateral, lá onde a insegurança é permanente, onde cada amanhã é uma incerteza, não surpreende que as pessoas tenham tanta fé em forças que as transcendem. Os cura-tudo, mas também os pastores das inúmeras igrejas evangélico-salvacionistas que inundam o mercado da crença, tornaram-se os seus intelectuais orgânicos, aqueles que contribuem para a hegemonia do grupo social dominante através de um consenso plural (calibrado pelo medo, pelo amortecimento que a contra-sociedade representa e pela promessa de um além diferente), que pedem a quem deles carece diariamente que se conformem com as relações sociais existentes para que, um dia, espíritos e Deus os recebam e os redignifiquem.
Pretender que não tenham ilusões é exigir que renunciem a uma situação que delas carece.
A condição social daqueles para quem cada dia é um ponto de interrogação torna-os prisioneiros irremediáveis de um duplo constrangimento: por um lado, a vulnerabilidade perante os fenómenos da natureza e a insegurança do seu modo de vida catapulta-os para a interpretação emocional e antropomórfica da vida; por outro, esta visão reforça a vulnerabilidade e a insegurança.
Os milhares de pessoas, regra geral de origem humilde, que consultam adivinhos cura-tudo e/ou que acorrem aos cultos milagreiros esperando que espíritos e Deus os ajudem a libertarem-se dos flagelos que as perturbam, criam novos espaços identitários, encontram aí um sentido para a vida, neles recebem solidariedade, aí é-lhes assegurada uma recompensa extra-humana para os males terrenos caso creiam sem reservas na tutela espírita ou na justiça divina.
Mas no preciso momento em que isso acontece, ocorre a evicção completa do projecto de modificação real das condições de vida.
Com efeito, ao aceitarem que todos os males são obra dos "maus espíritos" (Igrejas Zione, adivinhos cura-tudo) ou do "diabo" (Igreja Universal do Reino de Deus), as pessoas acabam por ver transferida (com a sua adesão, afinal) para entidades sobre-humanas a responsabilidade social na génese da miséria e da violência. Perdido o sentido crítico, trocado que é pelo sentido das crenças, eles parecem evacuar o desafio humano de uma transformação social genuína.
Aqui temos, afinal, um exercício de despersonalização trágica.
Nota: claro que mesmo as classes médias não desdenham usar os serviços referidos. Mas isso será motivo de um futuro trabalho.