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21 maio 2010

Quisse Mavota

Adenda: temos aí um exemplo de um modelar conflito de saberes: aos espíritos são opostos o medo, a ansiedade e o pânico. Oportunamente prossigo a minha série com o título "Os desmaios femininos na Quisse Mavota", em cujo último número reportei fenómenos de psicose colectiva ocorridos em 2006 na Libéria e na Inglaterra e no México em 2007, aqui.
Adenda às 9:21: o quadro sintomatológico apresentado por Lídia Gouveia, chefe do Departamento de Saúde Mental, aponta para um outro fenómeno a estudar: o da associação histórica entre desmaios frequentes+epilepsia e indicação para a iniciação do nhamussoro. Com efeito, há vanhamussoro (a que chamo psiquiatras populares) epilépticos, sendo a epilepsia considerada uma manifestação de espíritos.
Adenda 3 às 9:32: o caso da Escola Secundária de Muelé na periferia da cidade de Inhambane passou quase despercebido, mas o de Quisse Mavota está a ter uma visibilidade extraordinária.
Adenda 4 às 9:37: um jornalista acabou de me informar de um litígio por causa de um terreno entre as famílias Magaia e Panguene. Não tenho confirmação.

15 junho 2010

"Quisse mavotismo" no Brasil


Confira aqui. E continue a seguir a minha série Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui. Obrigado ao leitor que me chamou a atenção para a histeria colectiva ocorrida no Ceará.
Adenda: uma vez mais, sugiro a leitura de documentos relacionados com fenómenos de histeria colectiva na Libéria em 2006, na Inglaterra também nesse ano e no México em 2007.
Adenda 3 às 6:42: sobre Quisse Mavota e Ndlavela em Moçambique, leia ou recorde a série Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares, aqui.
Adenda 3 às 8:17: a propósito de Quisse Mavota, um porta-voz da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique, Hermínio Morais, afirmou há tempos: "Somos Africanos, temos outras lógicas de pensamento". Os exemplos de histeria colectiva na Libéria, na Inglaterra, no México - acima referidos - e, agora, no Brasil, mostram quão globalizados, transnacionais, andam, afinal, os espíritos…

05 junho 2010

Quisse Mavota no CEA





Concorrido esteve ontem o seminário organizado pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane no anfiteatro 2001 do campus, sob direção do Professor Armindo Ngunga, director do centro (ao meio na foto de cima). Estudantes e professores debateram os "desmaios" ocorridos na Escola Secundária Quisse Mavota, com a presença da psiquiatra Lídia Gouveia (à direita na foto de cima), da Senhora Olga, vice-presidente da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (a esquerda na foto de cima) e do Sr. Artur Dombe, director da escola Quisse Mavota (à direita na segunda foto a contar de cima, com duas psicólogas do lado esquerdo). Uma parte significativa das intervenções dos estudantes foi marcada pela preocupação com as tradições africanas e com a necessidade de a ciência as respeitar. Continue a seguir a minha série com o título Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui.

24 maio 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (7)

Mais um pouco da série.
Nos dois últimos números propus-vos definições de pensamento simbólico, pensamento simbólico do tipo analógico e pensamento simbólico do tipo mágico.
Falta, agora, falar-vos de forma breve sobre o pensamento simbólico do tipo alegórico.
Pensamento simbólico do tipo alegórico é aquele que consiste em tomar à letra expressões que, na ralidade, são formas de comunicação simbólica.
(continua)
Adenda às 6:11: com grande destaque, o "Notícias" online de hoje ostenta o seguinte título: "Caso "Quisse Mavota": quedas poderão ser sanadas via tradição". Aqui.
Adenda 2 às 6:14: em 2006 ocorreram desmaios na escola desde que a direcção se reuniu com estudantes para preparar uma visita do presidente Quebuza. Pessoas da comunidade local e guardas da escola disseram que os desmaios eram provocados pelo espírito do vovô Quisse. Eis a parte final de uma postagem minha de 5 de Julho de 2006: "O director alegou que a imputação causal é falsa, os alunos desmaiados também (argumentaram que já desmaiavam muito antes da preparação da visita do presidente), uma socorrista atribuiu o fenómeno à asma e a deficiências alimentares, mas a comunidade de Zimpeto e os guardas da escola estão firmes e dizem que o responsável pelo fenómeno é o zangado espírito do vovô Quisse (“Notícias” de hoje, p.15)."
Adenda 3 às 6:26: complicada é a gestão dos espíritos, sempre omnipresentes na crença popular. Por exemplo, recorde a posição das Igrejas Zione sobre as mechas, consideradas portadoras dos maus espíritos, em postagem minha aqui.
Adenda 4 às 6:47: creio que de forma cada vez mais clara e sistemática, a AMETRAMO torna-se a instância decisiva de explicação de determinados fenómenos sociais, totalmente apoiada no pensamento simbólico do tipo analógico. E isso está a dar-se numa escola do ensino secundário. Aqui e acolá e a propósito dos "desmaios", há sinais evidentes de desvalorização do pensamento científico. Num caso como o da Quisse Mavota, ostentá-lo pode dar origem ao estigma. A teoria de Hermínio Morais: "Somos Africanos, temos outras lógicas de pensamento" (adenda 4 aqui). A este propósito (sobre a "metafísica da diferença", como escreveu um dia Achille Mbembe), talvez não seja má ideia conhecer as ideias de Hegel.

08 junho 2010

Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares (5)


Terminando a série, com extractos de um relatório datado de 24 de Maio sobre a Quisse Mavota:
"No primeiro dia de actividades, dia 17 de Maio, realizou-se uma sessão de grupo com as alunas que tiveram crises de pânico orientada pela psiquiatra e dois psicólogos clínicos. Durante esta sessão, as alunas tiveram a oportunidade para relatar o que tinha ocorrido na primeira pessoa o que permitiu a equipe traçar o perfil sintomático das crises relatadas.
O perfil sintomático delineado nesta sessão apontava para perturbação dissociativa (Histeria) induzida. Foram identificadas no grupo os focos de stress ou indução das crises dissociativas.
Paralelamente, a equipe técnica procurou esclarecer as alunas sobre o que aconteceu com elas do ponto de vista psicológico, abordando a questão do medo como factor de stress, os sintomas de ansiedade mais comuns e a caracterização das crises dissociativas.
(...)
Foram também dadas as alunas orientações sobre como gerir melhor as crises dissociativas e/ou de ansiedade. Estas aprenderam algumas técnicas de relaxamento e de controlo da respiração de modo a prevenir as crises caracterizadas pela perda de controlo da respiração (hiperventilação), sensação de sufoco, aperto no peito, fraqueza muscular, cãibras, suores frios, tremores e calafrios que foram indicados pela maioria das alunas como sintomas que precediam a queda, quando esta acontecesse.
(...)
No dia 21 de Maio realizou-se uma sessão de grupo com professores onde estas foram esclarecidos sobre o fenómeno, em particular sobre os sinais e sintomas apresentados pelas alunas. Os professores receberam orientações sobre como lidar com as crises das alunas e apoia-las no sentido de reduzir os sintomas de ansiedade.
Os professores apresentaram a necessidade de serem formado para situações de emergência similares pelo que a equipe de saúde decidiu organizar semanalmente sessões de treino com os professores para gestão de crise com intervenções breves e sessões de relaxamento.
(...)
Importa realçar que as crises dissociativas têm estado a diminuir e na quita feira só se registou 1 caso sem queda. Durante a sessão de grupo algumas alunas verbalizaram o facto de terem sentido coragem de ir a escola mesmo contra a vontade dos pais."
O meu obrigado à equipa médica que me permitiu o acesso ao material extractado. Entretanto, continue a seguir a minha série com o título Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui.
(fim)

05 junho 2010

Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares (2)


Mais um extracto de um relatório, datado de 17 de Maio, de uma visita preliminar realizada à Escola Secundária Quisse Mavota por uma equipa do Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde. A equipa teve uma sessão de grupo com as 63 alunas que alegadamente tinham desmaiado na escola. Entretanto, continue a seguir a minha série com o título Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui.
(continua)

06 junho 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (14)

Atitude científica

Mais um pouco da série.
Escrevi anteriormente que não devemos confundir os protocolos de conhecimento e de procedimento pré-científicos e científicos. E acrescentei: a medula do conhecimento científico não assenta em hipóteses de pesquisa do género As raparigas da Quisse Mavota desmaiam porque os espíritos dos Magaias estão zangados. Os factores, as causas e a estrutura dos fenómenos sociais são procurados no social e não fora dele.
Mas não devemos, igualmente, confundir as instâncias de actuação dos protocolos de conhecimento e procedimento. Somos livres de acreditar no que quisermos, dos deuses aos espíritos, somos merecedores de respeito a esse nível, somos tão racionais quanto aqueles que nos apelidam de irracionais e obscurantistas. Nas escolas e nas universidade não devemos ter receio de ostentar as nossas crenças. Mas, salvaguarde-se de imediato, esse tipo de crenças não é do tipo científico e, assim, em instâncias como escolas e universidades, ele não pode ser usado como critério de interrogação e pesquisa, como critério de validação das causas e das consequências dos problemas sociais. Se não quisermos aceitar isto, faltará apenas - permitam-me uma ironia - entregar a gestão do ensino secundário e superior à Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique.
A terminar: outros aspectos devem ser considerados, tal como procurarei mostrar no próximo número.
(continua)
Adenda: continue a seguir a série com o título Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares, aqui.

28 maio 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (11)

Avanço mais um pouco na série, pegando na primeira das cinco instâncias por mim sugeridas no número anterior.
Aceitar que existem vários tipos de racionalidade cognitiva e comportamental talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida.
O que entendemos ser a nossa racionalidade parece ser amiúde acompanhado da crença na irracionalidade de outras formas de pensamento e de comportamento.
Acreditar que os desmaios (há quem prefira chamar-lhes quedas) ocorridos entre estudantes da Escola Secundária Quisse Mavota são provocados por espíritos irados, pode ser considerado irracional por vários de nós.
Porém, essa crença é racional, faz sentido para quem a aceita e partilha, bem mais sentido do que aquele que consiste em explicar o problema com a tensão nervosa e com os efeitos psicosomáticos em cadeia gerados pela proximidade dos exames.
E quem fala dessa crença na Escola Secundária Quisse Mavota, fala, também, da crença nos espíritos havidos como irados na Escola Secundária de Muelé, Inhambane.
O que entendemos ser a irracionalidade dos outros é, apenas, a sua racionalidade e, ao mesmo tempo, produto da nossa ignorância enquanto produtores do labelo.
Avanço para a segunda instância no próximo número, afinal uma parente desta.
(continua)
Adenda às 10:35: confira o “Canal de Moçambique” aqui.

05 junho 2010

Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares (1)


"1. As alunas têm crises de pânico movidas pelo medo provocado pelos desmaios das colegas, pelas histórias que justificam os referidos desmaios, e pela crença instalada sobre o fenómeno que envolve apenas os alunos do sexo feminino;
2. Foram presenciadas durante o encontro duas situações de suposto desmaio em que duas alunas literalmente se jogaram no chão aparentando perder os sentidos e uma delas com movimentos que evidenciavam uma tentativa por parte desta em exibir um quadro de transe ou possessão. Como não havia evidência de redução dos sinais vitais, ninguém interveio para as apoiar tendo o suposto desmaio passado por si e as referidas alunas se recuperado após alguns minutos. Entretanto, as restantes alunas ficaram impressionadas com o acto o que foi rapidamente controlado pela equipe impedindo-as de se aproximarem das colegas ou de tomarem qualquer atitude protectora ou de fuga.
3. Foram identificadas quatro líderes naturais que aparentemente fomentam as crises de pânico alegando que têm ajudado as colegas que desmaiam com orações. Uma delas referiu que de certo modo “sente que tem um poder de combater os espíritos que as possuem com a sua grande fé e que se sente como uma profetisa” (sic). Importa referir que duas das líderes do grupo relatam que cresceram juntas e já rezam desde crianças na mesma igreja “católica”.
De referir que notou-se a existência de dois grupos que disputam a liderança e protagonismo dos eventos."
Extracto de um relatório, datado de 17 de Maio, de uma visita preliminar realizada à Escola Secundária Quisse Mavota - na periferia da cidade de Maputo - por uma equipa do Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde. A equipa teve uma sessão de grupo com as 63 alunas que alegadamente tinham desmaiado na escola. Entretanto, continue a seguir a minha série com o título Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui.
(continua)

06 junho 2010

Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares (4)

"As restantes alunas apontam como causa provável das suas crises o facto de terem ajudado as colegas e terem associado o que estava a acontecer com estas, as ocorrências da Escola Secundária Quisse Mavota pelo facto do fardamento ser igual, o que exacerbou os seus medos. Este facto, adicionado aos sintomas relatados, leva a conclusão de que se tratou de Perturbação dissociativa induzida.
As psicólogas esclareceram as alunas sobre o que lhes acontecera e apesar de algumas acreditarem nos fenómenos culturais como possível causa do problema, começaram a perceber melhor o sucedido e a fazer uma análise mais lógica do problema.
No final todas pediram alta por considerarem que não havia necessidade de tratamento médico para a sua situação."
Entretanto, continue a seguir a minha série com o título Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui. Clique sobre a imagem com o lado esquerdo do rato para a ampliar.
(continua)

05 junho 2010

Quisse Mavota e Ndlavela: extractos de relatórios médicos preliminares (3)


"Durante a sessão constatou-se que a 1ª rapariga que “desmaiou” (sic), havia faltado a escola dia anterior por “desmaio” (sic) em casa e está há quase 1 mês em tratamento médico. As alunas fizeram uma exposição sobre os sinais e sintomas que tiveram durante a crise bem como as circunstâncias que as antecederam. Foram descritos especificamente os seguintes sintomas:
Falta de ar
Sensação de sufoco
Aperto no peito
Aceleração dos batimentos cardíacos
Tremores
Calafrios
Tontura
Cãibras
Muito medo
Boca seca
Náuseas
Desta exposição constatou-se que 3 das alunas envolvidas tiveram episódios de desmaios previamente. Estas alunas em particular relatam as seguintes causas para os seus desmaios:
Aluna 1: asma e problemas cardíacos
Aluna 2: problemas emocionais – esta aluna apresenta sinais evidentes de perturbação do humor (depressão) tendo relatado que já pensou em suicidar-se.
Aluna 3: sensibilidade a situações emocionais extremas alegando que tem sempre desmaios em cerimónias fúnebres
Dos 2 alunos que não estavam na sessão de grupo, apuraram-se as seguintes causas:
Aluna 4: tem problemas de saúde que incluem anemia grave e anorexia e esta a ser medicada há algum tempo com sal ferroso e complexo vitamínico “Nova Power”.
Aluno 5: estava acamado e sedado porque teve agitação psicomotora grave e foi medicado com 20 mg de diazepan IM, sem efeito sendo posteriormente medicado com fenobarbital. Foi realizada uma sessão com a mãe que referiu não haver antecedentes que justifiquem a crise. Entretanto, as colegas referem que em outra ocasião o aluno em questão tivera uma crise semelhante embora em menor proporção. Numa entrevista breve com o aluno depois deste ter acalmado, este relatou que tem antecedentes familiares de epilepsia."
Prosseguindo a série.
A 20 de Maio, uma equipa do Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde, acompanhada pelo director nacional de Saúde Pública, deslocou-se à Escola Secundária de Ndavela, para uma sessão com oito meninas e um rapaz, com sintomas semelhantes aos surgidos na Quisse Mavota (aqui e aqui). Acima está um extracto do relatório preliminar. Entretanto, continue a seguir a minha série com o título Os desmaios femininos na Quisse Mavota, aqui. Clique sobre a imagem com o lado esquerdo do rato para a ampliar.
(continua)

21 janeiro 2009

Os deliciosos mistérios da Quisse Mavota

Segundo a TVM: "Em termos de aproveitamento dos exames da segunda época, a nível das escolas públicas, soubemos junto do Chefe do Departamento Pedagógico na Direcção de Educação e Cultura da Cidade de Maputo, Armindo Muthimba, que na Escola Secundária Quisse Mavota foram submetidos a exames 625, dos quais 621 foram aprovados. Na Escola Secundária de Malhazine apenas quatro reprovaram, dos 475 examinandos."
Como se explicam tão exaltantes resultados positivos (similares, de resto, aos da Escola Secundária de Malhazine) que, certamente, nem os deuses conseguem alcançar?
A notícia da TVM não fala disso, mas tem um primeiro parágrafo do seguinte teor: "Quatro professores da Escola Secundária Quisse Mavota, cidade de Maputo, foram afastados do processo de exames da segunda época da 12ª classe, por suspeita de seu envolvimento numa fraude académica em que terão aceite receber dinheiro dos estudantes de modo a facilitá-los a passagem de classe."
Nota: obrigado ao leitor Kimmanel que desde ontem me alerta para a escola referida, que fica ali no Zimpeto, periferia da cidade de Maputo.

04 junho 2010

Postagens na forja

Eis alguns dos temas de postagens que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Dossier "Savana"; Quisse Mavota no CEA
* Séries: Cientistas sociais são sacerdotes? (4); Os desmaios femininos na Quisse Mavota (14); É nas cidades do país (
8); Os vasos capilares do poder político (12); Ciências sociais e verdade (8); Santos de casa não fazem milagres? (10); Já nos descolonizámos? (9); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (8); Moçambique dentro de 30 anos (série) (5) (recordar aqui e aqui)

27 maio 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (10)

Mais um pouco da série.
A pergunta deixada no último número: que papel devem jogar os cientistas sociais em relação aos que uns chamam desmaios e outros, quedas, na Escola Secundária Quisse Mavota, periferia da cidade de Maputo?
Tenho para mim que a resposta mais simples deve ser a mais complexa.
Proponho que essa resposta passe por cinco instâncias:
1. A consciência de que existem vários tipos de racionalidade;
2. O respeito por protocolos de conhecimento e procedimento que não são os científicos;
3. A não confusão entre protocolos de conhecimento e procedimento pré-científicos e científicos;
4. A permanente busca de ética em todos os protocolos de conhecimento e procedimento pré-científicos e científicos;
5. A humildade permanente exigindo que estudemos os fenómenos em profundidade, jamais confundindo opiniões e divagações com resultados de pesquisa.
(continua)

23 maio 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (6)

Mais um pouco da série.
No número anterior propus-vos duas definições: a de pensamento simbólico e a de pensamento simbólico de tipo analógico.
Um segundo tipo de pensamento simbólico é do tipo mágico. Em que consiste? Consiste na crença de que é possível exercer um poder directo, maléfico ou benéfico, sobre a realidade natural e social.
(continua)
Adenda às 7:34: segundo a Imensis, citando a Lusa, o Sr. Hermínio Morais, porta-voz da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique, já absolutamente sabe por que razão desmaiam as raparigas da Quisse Mavota: trata-se de uma reivindicação dos espíritos pelo facto de o Estado ter desrespeitado a tradição.
Adenda 2 às 7:42: creio que cada vez o recurso ao contacto com os espíritos dos antepassados surge como instância protectora e/ou ajuizadora dos problemas sociais, mesmo a nível universitário, como há dias aconteceu no Instituto Superior de Artes e Cultura.
Adenda 3 às 7:54: a moldura causal (recorde a adenda 2 aqui) torna-se cada vez mais complexa. Assim, Judite Chipenembe entende que exames devem ser feitos "à estrutura do edifício, para detectar eventuais produtos tóxicos, e também à alimentação usual das alunas."
Adenda 4 às 8:26: emblemática posição a do Sr. Hermínio Morais, identificado como "médico tradicional": "É preciso respeitar os locais, onde sabemos que havia ossadas. Somos africanos, temos outras lógicas de funcionamento".

26 maio 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (9)

Mais um pouco da série.
Estamos, então, confrontados com um conflito denso de interpretações, de crenças, de busca de sentido para a vida, para o dia-a-dia. Tenho para mim que todo o saber é uma crença, uma linha férrea em direcção ao conhecido na luta contra o desconhecido.
No tocante a Quisse Mavota, há os defensores da visão supra-social do fenómeno, os defensores da visão social e os defensores de visão acima de tudo e todos.
Uns defendem a racionalidade do saber simbólico, especialmente analógico. Somos Africanos, dizem. Os espíritos são a nossa cultura.
Outros, a racionalidade do saber científico. Somos cientistas, dizem. A razão é a nossa cultura.
Outros, a racionalidade da estética. Estamos acima de vós, dizem. A verdade aérea sem grilhetas é a nossa cultura.
Mas, vamos lá a uma pergunta: que papel devem jogar os cientistas sociais neste imbróglio? Aguardem a continuidade da série.
(continua)

10 junho 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (16)

Mais um pouco da série.
No número dez, no tocante à pergunta "(...) que papel devem jogar os cientistas sociais em relação aos que uns chamam desmaios e outros, quedas, na Escola Secundária Quisse Mavota, periferia da cidade de Maputo?", propus que tivessemos em conta cinco instâncias, a última das quais é a seguinte: "
A humildade permanente exigindo que estudemos os fenómenos em profundidade, jamais confundindo opiniões e divagações com resultados de pesquisa."
Efectivamente nem sempre é fácil tranpor o fértil e teimoso campo das nossas opiniões e penetrar com rigor na pesquisa, nem sempre é fácil evitarmos confundir opiniões e pesquisa, nem sempre é fácil abolirmos os preconceitos, é absolutamente difícil o estudo à dentista, penetrando com uma sonda na cavidade das coisas, separando o nervo da raíz.
(continua)

22 junho 2010

Os desmaios femininos na Quisse Mavota (20)

O fim da série.
Durante algumas semanas aqui fui colocando algumas ideias, ideias que procurei nada tivessem a ver com condenações ou com apologias veementes de crenças, de crentes e de oficiantes.

Se quisermos abandonar as nossas aderentes almas de cidadãos e procurarmos fazer um pouco como os dentistas - penetrando com uma sonda na cavidade das coisas, separando o nervo da raíz -, talvez sejamos capazes de compreender (tentarmos ser Outros) e analisar (decompor fenómenos e recompô-los de uma forma distinta) seja aqueles que pensam diferentes de nós, seja aqueles que pensam como nós (bem mais difícil esta tarefa do que a primeira).
Pouco a pouco, deveremos esforçar-nos (1) por não tomarmos a crítica ou a adesão moral por análise científica e (2) por não confundirmos saberes simbólicos e saberes científicos.
Fenómenos de crença e histerias colectivas como os ocorridos em Moçambique (escolas Quisse Mavota e Muelé), na Libéria, na Inglaterra, no México e no Brasil nada têm de excepcional, são absolutamente normais e racionais.
Normais e sistemáticas devem ser, também, a compreensão e análise, independentemente de gostarmos ou não dos fenómenos, independentemente de os resultados da compreensão e da análise nos agradarem ou não.
Já agora, leia ou recorde algumas posições minhas sobre pesquisa, aqui.
(fim)

20 setembro 2013

Alunas desmaiaram no Khongolote

Desmaiaram alunas na Escola Comunitária 1º de Maio, bairro Khongolote, município da Matola, província de Maputo, as aulas estão paralizadas. Confira aquiaqui. Lembre 2011 aqui.
Adenda 1: recorde um texto meu intitulado "Desmaios na Quisse Mavota", aqui.
Adenda 2: recorde um dossier de 2010 sobre Quisse Mavota contendo, também, relatórios médicos, aqui.