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21 outubro 2008

Mais desemprego e pobreza no mundo

Devido à crise capitalista mundial, o número de desempregados em todo o mundo poderá atingir os 210 milhões até finais de 2009 - 20 milhões mais do que em 2008. Enquanto isso e segundo as Nações Unidas, cerca de três mil milhões de pessoas, quase metade da população mundial, vive com menos de dois dólares por dia.
Observação: é sempre confortante pensar na pobreza enquanto estado natural, produto da incúria e da preguiça ou do crescimento populacional enquanto variável independente das relações sociais. Ou, então, dirão os mais sofisticados da praça, trata-se de um "ponto de vista", em última análise de "pobreza mental". Bem mais difícil é ver a pobreza como produto dos processos capitalistas de acumulação. Enquanto isso, noticiou a TVM que a Via Campesina "reprova a Revolução Verde e considera que esta não é a única saída para resolver os problemas da crise alimentar que afecta vários países do mundo. Reunidos em Maputo, os membros desta organização internacional afastam qualquer hipótese de sucesso vindo da Revolução Verde. Sustentam a sua crítica dizendo que esta revolução só vai dar comida hoje aos esfomeados e que depois haverá fome para sempre." Já agora e a propósito da conferência internacional da Via Campesina, recorde a posição da União Nacional de Camponeses de Moçambique, aqui.

01 fevereiro 2015

O jeito perverso do poliglota

Acontece, muitas vezes, que quanto mais viajados e mais permeados pelo mundo e pelo bem-estar somos, mais tendência temos para defender a aldeia que já não habitamos (se é que algum dia a habitámos mesmo) e para tentarmos convencer os outros de que existem tradições rígidas, com fronteiras nítidas, impermeáveis às mediações. É o jeito perverso do poliglota viajado que tenta convencer os camponeses da sua aldeia natal (que já esqueceu ou que nunca habitou) de que não devem desaprender a língua local e que devem manter uma postura campesina íntegra e imaculada.

14 abril 2019

Os perversos

Acontece, muitas vezes, que quanto mais viajados e mais permeados pelo mundo e pelo bem-estar somos, mais tendência temos para defender a aldeia que já não habitamos (se é que algum dia a habitámos mesmo) e para tentarmos convencer os outros de que existem tradições rígidas, com fronteiras nítidas, impermeáveis às mediações. É o jeito perverso do poliglota viajado que tenta convencer os camponeses da sua aldeia natal (que já esqueceu ou que nunca habitou) de que não devem desaprender a língua local e que devem manter uma postura campesina íntegra e imaculada.

30 maio 2007

Identidade moçambicana - o problema de Olívia (2) (continua)

"Hoje, vivo nesta múltipla realidade, em que um pouco de cada coisa do mundo disputa lugar nas minhas preferências, incluindo as deste país."
Foi desse forma que a jornalista Olívia Massango situou, de forma áticamente dialéctica, o problema da identidade e, no caso vertente da nacionalidade, o plebiscito de cada dia que é uma nação, como observou um dia Renan.
Não é nada fácil termos da vida uma concepção tão moderna e tão ampla quanto a de Olívia. Acontece, muitas vezes, que quanto mais viajados e mais permeados pelo mundo e pelo bem-estar somos, mais tendência temos para defender a aldeia que já não habitamos (se é que algum dia a habitámos mesmo) e para tentarmos convencer os outros de que existem tradições rígidas, com fronteiras nítidas, impermeáveis às mediações. É o jeito perverso do poliglota viajado que tenta convencer os camponeses da sua aldeia natal (que já esqueceu ou que nunca habitou) de que não devem desaprender a língua local e que devem manter uma postura campesina íntegra e imaculada.
Ora, tenho por hipótese de que vivemos com o espírito da picada. Alguém um dia passou num sítio, a seguir passou mais alguém, depois passaram outros e por aí fora. Já ninguém se lembra de quando surgiu a picada nem de quantos variados e desencontrados pés a pisaram. Mas, claro, sempre aparece alguém a defender os primórdios dos seus pés.
É sempre difícil isolar realidades móveis como tradição e modernidade.
Na verdade, "Se por um lado não existem já verdadeiramente nem tradição nem modernidade, por outro vai-se àquela para modernizar esta e a esta para tradicionalizar aquela consoante os momentos, os processos e as cristas das tensões sociais. O presente é encarado com os olhos do passado, o passado com os olhos do presente. Oscila-se, como um pêndulo, à procura da vertigem do futuro ao mesmo tempo que se faz marcha-atrás à busca das âncoras de todos os dias, subvertem-se hábitos, acomodam-se subversões. Este é, afinal, um mundo misto, polissémico, do entre-dois, transfronteiriço, lábil, onde em lugar de estados há transições, onde não se é nunca mas se está a ser constantemente, ele é, finalmente, um mundo anfibológico."
Nem as línguas são tradicionais ou modernas. "Crioulizadas, estão cheias de duplicidade, de oxímoros, de antónimos, de quiasmos, são uma subversão contínua dos mundo identitário dos verbos, dos predicados, dos substantivos e dos advérbios. Os verbos estão constantemente a regastar o devir, bloqueando o ser dos substantivos. O oxímoro e a inversão argumentativa são correntes. Está mal mas não está mal", "é verdade mas não é verdade", etc."
Se calhar a vida vive-se melhor com o espírito aberto de Olívia do que com o espírito fechado do estetas das tradições frigorificadas.
Peguemos na marrabenta, por exemplo.
"É o ritmo estrangeiro? Ou moçambicano? Creio que hoje ainda se discute isso. Estamos, aí como em outras coisas, confrontados com a angustiante questão das origens, da matriz placentária das coisas, da busca desenfreada da substância única, da identidade unívoca.
E se a nossa bela marrabenta fosse, o que certamente é, a diagonal de uma mestiçagem? Um produto das minas sul-africanas e das terras pastorais de Gaza?
Sabeis, já os pitagóricos adoravam o Uno indivisível, a igualdade perfeita consigo própria, a mónada irredutível. Que risco é a indeterminação, a alteridade!
Escutai, ó gentes do Uno: marrabentanizemo-nos, deixemos os pitagorismos locais, dancemos, meneemos as ancas livremente, cantemos com Dilon Ndjindji, eventualmente o pai da marrabenta (....). Ou foi, antes, Pfani Mpfumo? Ou foram vários? Olhem: aberta a picada, alguém se lembra de quem a abriu?"

11 abril 2017

Notas sobre a normalização política do corpo [6]

6. Número anterior aquiA era colonial foi profundamente marcada pelo escamoteamento do corpo da mulher. Se analisarmos a documentação portuguesa a partir do princípio do século XX, veremos a preocupação colonial (completamente masculina) em vedar a nudez campesina. Por todo o lado se multiplicaram os interditos de exposição da nudez, muito especialmente da nudez feminina. Foi literalmente imposto, um bocado por todo o lado, o uso de determinados tipos de vestuário "decente" (termo que aparece em muitos relatórios).

18 maio 2016

Jeito perverso

Acontece, muitas vezes, que quanto mais viajados e mais permeados pelo mundo e pelo bem-estar somos, mais tendência temos para defender a aldeia que já não habitamos (se é que algum dia a habitámos mesmo) e para tentar convencer os outros de que existem tradições rígidas, com fronteiras nítidas, impermeáveis às mediações. É o jeito perverso do poliglota viajado que tenta convencer os camponeses da sua aldeia natal (que já esqueceu ou que nunca habitou) de que não devem desaprender a língua local e que devem manter uma postura campesina íntegra e imaculada.

12 dezembro 2007

Pois é: afinal há mesmo desmatação!

O governador de Inhambane está preocupado com o saque da nossa madeira e com o perigo da "desmatação total" em Inhambane: "Num encontro com exploradores de madeira na província, administradores distritais e fiscais dos serviços provinciais de Florestas e Fauna Bravia na província para discutir e aprovar um pacote de medidas adicionais para corrigir a situação de corte de madeiras, bem como de estacas de várias espécies, o dirigente de Inhambane alertou que a província está a correr o risco de registar um desastre ecológico, que é ficar sem floresta principalmente por ausência de iniciativas concretas para a reposição das espécies."
A vida é sempre uma coisa muito curiosa. Na verdade, quando o ano passado aqui comecei uma campanha - escrevendo, inclusive, uma carta para o presidente da República - denunciando o saque impedioso da nossa madeira, mosqueteiros de vários azimutes atacaram-me pelos mais variados meios e das mais variadas maneiras. Chegaram a dizer que eu e outros estávamos ao serviço de obscuros interesses estrangeiros em troco de dólares ou euros, tal com escreveu o jornalista Lázaro Mabunda. Houve, até, vejam lá, algumas académicas cabeças cheias de hermenêutica sapiência que discutiram longamente o sexo madeireiro dos anjos dizendo que não havia desmatação, que tudo se resumia a coisas "aludidas". E certos técnicos apareceram e ainda aparecem, inabaláveis, na imprensa, a atribuir às "queimadas descontroladas" e à irresponsabilidade campesina o grosso do que se está a passar.
Agora até um governador diz o que qualquer um de nós sabe há muito. Basta sobrevoarmos de avião algumas das províncias para nos apercebermos do que se está a passar.
Volto ao aviso: se não tivermos cuidado, dentro de dez, quinze anos, teremos uma situação dramática no país.

19 julho 2007

Hipóteses sobre o pimbismo

Creio que existe já uma espécie de protesto robusto contra a música pimba.
Deixem-me lá avançar aqui algumas hipóteses frustes, bem canhestras, para explicar o pimbismo.
1. É hoje difícil criar e tocar com um conjunto clássico, isso custa dinheiro;
2. O playback é bem mais fácil e barato;
3. As empresas produtoras e comercializadores de cds preferem coisas baratas, rápidas e bem ao gosto popular.
4. Quanto mais fácil, provocante, de intimismo rapidamente exposto e digerível, for a música, mais facilmente se vende;
5. A concepção não é exterior ao pimbismo mundial: clown, marketing de imagem vip-popular, abundante condimento rapista (o rap não exige nem imaginação nem boa voz; e a orquestração é baratíssima), produção de histórias sensacionais de amor-pronto-a-servir, apelo aos sentidos mais imediatos e vorazes.
6. A música moçambicana clássica (campesina e ligeira de há 10/20 ano) atrás corre o risco de rápida pimbação. Fanny Mpfumo pode morrer de vez.
Que tal? Vamos lá discutir.

21 julho 2011

A proibição das saias curtas (em Lichinga?) (7)

Toda a história de mulheres foi feita por homens (Simone de Beauvoir, O segundo sexo)
O sétimo e último número da série, com o título modificado face ao que o nosso leitor A. Katawala aqui comentou ontem. Termino a quarta ideia apresentada no segundo número, com mais algumas hipóteses. É no século XIX que as burguesias reinantes europeias consolidam a ideia de sistematicamente prevenir o desvio social, seja contra o que chamavam "classes perigosas" (operários e colonizados), seja contra os protótipos de "desvio social" (doenças mentais, sexualidade, alcoolismo, etc.). Estatística, prisões, hospícios, casas de correcção: todo um mundo de disciplinarização social. Se o homem se mantém em seu papel público, à mulher continuou reservado o papel privado, o do lar. Saltar fora deste perímetro era colocar em causa a ordem "natural" das sociedades, era, afinal, como se a mulher fizesse uso das saias curtas de hoje e desta maneira fizesse perigar a ordem androcêntrica. No nosso país, a era colonial foi profundamente marcada pelo escamoteamento do corpo da mulher. Se analisarmos a documentação portuguesa a partir do princípio do século XX, veremos a preocupação colonial (completamente masculina) em vedar a nudez campesina. Por todo o lado, multiplicaram-se os interditos de exposição da nudez, muito especialmente da nudez feminina. Foi literalmente imposto, um bocado por todo o lado, o uso de determinados tipos de vestuário "decente" (termo que aparece em muitos relatórios). Os administradores e chefes de posto (que todos eram homens) desencadearam massivas campanhas de destruição das árvores das quais se extraía a entrecasca que permitia o fabrico de "tangas" (na Zambézia, isso feito em relação ao "muroto"). Por outro lado, nas cidades e ainda nos anos 60/70, mesmo nos prostíbulos urbanos (o caso da Rua Araújo, aqui em Maputo) a nudez era vigiada e proibida, ainda que as jeans e, especialmente, as então boca-de-sino, fossem toleradas. Quando chegamos à independência, surgem as campanhas de purificação de valores e fazem-se rusgas para apanhar as prostitutas e encaminhá-las para campos de reeducação. As mini-saias foram severamente desaconselhadas, muitas vezes por decisão espontânea de pessoas que se auto-designaram curadoras da moral pública. E não menos vezes eram as mulheres mais velhas que mais severas eram para com a exposição do corpo feminino. Ao longo do período revolucionário, era muito difícil encontrar as nossas jovens vestidas com roupas que exaltassem o seu corpo e a sua sexualidade. Os anos 90 são, creio, um marco importante para a subversão dos valores androcêntricos que exigiam e exigem a sobriedade e o resguardo. Penso que se casam, então, nas cidades, o desejo feminino de libertação corporal e a exaltação neo-liberal do sexismo. A disseminação da televisão, o surgimento em massa do vídeo, tudo isso trás consigo a visão de espaços de comparação e de aparente emancipação, espaços que passam a fazer parte da vida e do imaginário das nossas mulheres urbanas. A tchuna-baby, por exemplo, foi e é, apenas, um dos produtos desse casamento ainda não estudado, se a minha hipótese puder ser tida em conta. Ora, há alguns anos que se sucedem as vozes de pessoas clamando por um retorno à sobriedade, ao recato, que exigem um combate contra o que chamam costumes dissolutos. São homens e mulheres que se se queixam, entre outras coisas, de que a criminalidade sexual tem como uma das causas a nudez feminina. O seu ponto de comparação é o passado, que dizem ter sido bem melhor, um tempo - argumentam - no qual havia respeito. Em meio a esta angústia geracional, um dos alvos é a novela brasileira. Anos atrás, membros da Organização da Mulher Moçambicana chegaram, já, a pedir ao presidente da República a elaboração de uma lei que repusesse ordem no porte e no vestuário.
(fim)

16 outubro 2008

Camponeses criticam biocombustíveis e revolução verde

A União Nacional de Camponeses de Moçambique afirma estar a chamar a atenção do governo para a necessidade de se promovorem modelos que assegurem a segurança alimentar e evitem os riscos dos biocombustíveis e da revolução verde. A União propõe um modelo do tipo "Soberania alimentar". A posição foi defendida na 5.ª Conferência Internacional da Via Campesina, que hoje começou na Matola. Os participantes chamaram a atenção para um relatório divulgado a semana passada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, no qual dizem ser feita uma crítica aos biocombustíveis, por não melhorarem o ambiente e contribuirem para o aumento dos preços dos alimentos sem melhorar a segurança alimentar (semanário "Savana" desta semana, p. 15).

04 fevereiro 2007

Regiões de alta saturação sexual e o controlo político da sexualidade (2)


Quando estudamos a dominação, é para mim menos importante a dominação em si (o "poder" de induzir a determinados comportamentos), do que a sua aceitação. A aceitação da dominação é um tema fascinante herdado da sociologia de Pierre Bourdieu. E poderá dar origem a pesquisas admiráveis.
A dominação masculina, para retomar o título de um dos seus livros mais controversos, tem muitas veredas. Longe mim tratar delas aqui e agora.
Aqui, o propósito é bem modesto. Pretendo apenas deixar hipóteses para analisar as decisões do ministro da Educação.
No caso concreto que está na origem desta postagem, temos a hipótese de agregar numa mesma família de entidades "perigosas", subvertoras, a exposição do corpo através das tchuna-babies.
Nesta segunda parte, vou deixar aqui mais algumas possibilidades de pesquisa, em breves notas.
A era colonial foi profundamente marcada pelo escamoteamento do corpo da mulher. Se analisarmos a documentação portuguesa a partir do princípio do século XX, veremos a preocupação colonial (completamente masculina) em vedar a nudez campesina. Por todo o lado se multiplicaram os interditos de exposição da nudez, muito especialmente da nudez feminina. Foi literalmente imposto, um bocado por todo o lado, o uso de determinados tipos de vestuário "decente" (termo que aparece em muitos relatórios). Os administradores e chefes de posto (que todos eram homens) desencadearam massivas campanhas de destruição das árvores das quais se extraía a entrecasca que permitia o fabrico de "tangas" (na Zambézia, isso feito em relação ao "muroto"). Por outro lado, nas cidades e ainda nos anos 60/70, mesmo nos prostíbulos urbanos (o caso da Rua Araújo, aqui em Maputo) a nudez era vigiada e proibida, ainda que as jeans e, especialmente, as então boca-de-sino, fossem toleradas.
Quando chegamos à independência, surgem as campanhas de purificação de valores e fazem-se rusgas para apanhar as prostitutas e encaminhá-las para campos de reeducação. As mini-saias foram severamente desaconselhadas, muitas vezes por decisão espontânea de pessoas que se auto-designaram curadoras da moral pública. E não menos vezes eram as mulheres mais velhas, especialmente aquelas ligadas à Organização da Mulher Moçambicana ou ao geral do partido Frelimo, que mais severas eram para com a exposição do corpo feminino.
Ao longo do período revolucionário, era muito difícil encontrar as nossas jovens vestidas com roupas que exaltassem o seu corpo e a sua sexualidade.
Os anos 90 são, creio, um marco importante para a subversão dos valores androcêntricos que exigiam e exigem a sobriedade e o resguardo.
Penso que se casam, então, nas cidades, o desejo feminino de libertação corporal e a exaltação neo-liberal do sexismo. A disseminação da televisão, o surgimento em massa do vídeo, tudo isso trás consigo a visão de espaços de comparação e de aparente emancipação, espaços que passam a fazer parte da vida e do imaginário das nossas mulheres urbanas. A tchuna-baby é, apenas, um dos produtos desse casamento ainda não estudado, se a minha hipótese puder ser tida em conta.
Ora, há alguns anos que se sucedem as vozes de pessoas clamando por um retorno à sobriedade, ao recato, que exigem um combate contra o que chamam costumes dissolutos. São homens e mulheres que se se queixam, entre outras coisas, de que a criminalidade sexual tem como uma das causas a nudez feminina. O seu ponto de comparação é o passado, que dizem ter sido bem melhor, um tempo - argumentam - no qual havia respeito. Em meio a esta angústia geracional, um dos alvos é a novela brasileira. E, finalmente, membros da organização da Mulher Moçambicana chegaram, já, a pedir ao presidente da República a elaboração de uma lei que reponha ordem no porte e no vestuário.
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Aqui fica a segunda parte. Verei, mais tarde, se prossigo.

08 outubro 2006

Fogo que devora Sofala, dinheiro queimado e ordens dos espíritos


O fogo devasta vários distritos nas província de Sofala há cerca de 15 dias, com estragos dramáticos, não existindo meios adequados para combate aos incêndios florestais. Por exemplo, o fogo destruiu já dinheiro que os camponeses têm por hábito guardar em casa. De acordo com Maria Augusta, chefe dos Serviços Provinciais de Florestas e Fauna Bravia, as queimadas têm a ver com mentalidade campesina: "Temos pessoas que dizem que estão a cumprir ordens dos espíritos, que lhes mandam queimar. São questões que não estão ligadas à ciência como tal. São aspectos sociológicos que temos de continuar a investigar, mas asseguro-lhe que não é falta de sensibilização" ("Domingo" de hoje, o8/10/06, p. 3.)

28 setembro 2006

John veio do John

Lá em Gaza, numa aldeia, atravessando campo e bois, alterando o sempre-foi-assim, John, o mineiro, chegou do John. Carrinha atulhada, coisas de todos os tipos, para comer, para vestir, para vender, para fazer casa, o fantástico subverte a rotina campesina. A família, a alegria, a vitória sobre o igual e a privação.
Cupalha para agradecer aos espíritos benfazejos.
O mineiro tem os pulmões estragados e veste um grosso casacão apesar do calor.

18 abril 2006

Nova curta sociologia das cidades moçambicanas

As cidades moçambicanas são uma subversão permanente da visão de uma África natural, tradicionalizada, metida para sempre no frigorífico da história (1). De facto, elas são constantemente ruralizadas, com reagrupamentos simbólicos e mestiçados abundantes, numa cultura de bricolagem ainda mal conhecida (2). É nelas onde os actores estão num vaivém incessante e contraditório entre o mundo de fora e o mundo de dentro: os meios de comunicação e o cosmopolitismo urbano tornam-nos cidadãos do planeta e dos seus heróis, mas a procura de pontos de referência e as dificuldades de sobrevivência social fá-los reciclar e re-interpretar a região de origem, recriar a solidariedade étnica (o "somos todos primos" dos mercados e dos comes-e-bebes informais, por exemplo) e reciclar os heróis epónimos (3). Estão cada vez mais na economia-mundo sem poderem abandonar a economia local e vice-versa: é este o seu double bind. Quanto mais dificuldades sociais no mundo de fora, mais estreitos os laços e as fronteiras do mundo de dentro. Se por um lado não existem já verdadeiramente nem tradição nem modernidade, por outro vai-se àquela para a modernizar e a esta para a tradicionalizar consoante os momentos, os processos e as cristas das tensões sociais. Esgrime-se a etnicidade quando estão em causa os recursos de poder locais, o racismo defensivo quando estão em causa os recursos de poder dos estrangeiros. O presente é encarado pelos olhos do passado, o passado pelos olhos do presente. A aspirina casa-se com a efusão do curandeiro. Este é, afinal, um mundo mestiço de entre-dois, um mundo anfibológico, fractal, um mundo onde o mesmo e a diferença são permanentemente canibalizados e reestruturados.

1 Mas o campo também: um exemplo é a penetração crescente dos estilos musicais do tipo beat, rap ou zook, juntamente com a Coca-Cola. É hoje frequente vermos crianças sub-nutridas bebendo Coca-Cola.
2 Por isso é falsa a visão tradicional campo/cidade. Mesmo os quintais das casas de alvenaria e os descampados das cidades são aproveitados para a produção de milho e de mandioca, sendo lavrados pelas mulheres com a pequena enxada curta campesina.
3 Os grupos de "crianças da rua" (expressão corrente nas cidades), rapazes e raparigas, que pululam um bocado por todo o lado, erigem como seus heróis e seus locais de habitação nomes como Rambo, Charles Taylor e Tchetchenia, por exemplo.

Curta sociologia das cidades moçambicanas

As cidades moçambicanas, por exemplo, são uma subversão permanente dessa visão1. De facto, elas são constantemente ruralizadas 2, com reagrupamentos simbólicos e mestiçados abundantes, numa cultura de bricolagem ainda mal conhecida. É nelas onde os actores estão num vaivém incessante e contraditório entre o mundo de fora e o mundo de dentro: os meios de comunicação e o cosmopolitismo urbano tornam-nos cidadãos do planeta e dos seus heróis, mas a procura de pontos de referência e as dificuldades de sobrevivência social fá-los reciclar e re-interpretar a região de origem, recriar a solidariedade étnica (o "somos todos primos" dos mercados e dos comes-e-bebes informais, por exemplo) e reciclar os heróis epónimos 3. Estão cada vez mais na economia-mundo sem poderem abandonar a economia local e vice-versa: é este o seu double bind. Quanto mais dificuldades sociais no mundo de fora, mais estreitos os laços e as fronteiras do mundo de dentro. Se por um lado não existem já verdadeiramente nem tradição nem modernidade, por outro vai-se àquela para a modernizar e a esta para a tradicionalizar consoante os momentos, os processos e as cristas das tensões sociais. Esgrime-se a etnicidade quando estão em causa os recursos de poder locais, o racismo defensivo quando estão em causa os recursos de poder dos estrangeiros. O presente é encarado pelos olhos do passado, o passado pelos olhos do presente. A aspirina casa-se com a efusão do curandeiro. Este é, afinal, um mundo mestiço de entre-dois, um mundo anfibológico, fractal, um mundo onde o mesmo e a diferença são permanentemente canibalizados e reestruturados.

1 Mas o campo também: um exemplo é a penetração crescente dos estilos musicais do tipo beat, rap ou zook, juntamente com a Coca-Cola. É hoje frequente vermos crianças sub-nutridas bebendo Coca-Cola.
2 Por isso é falsa a visão tradicional campo/cidade. Mesmo os quintais das casas de alvenaria e os descampados das cidades são aproveitados para a produção de milho e de mandioca, sendo lavrados pelas mulheres com a pequena enxada curta campesina.
3 Os grupos de "crianças da rua" (expressão corrente nas cidades), rapazes e raparigas, que pululam um bocado por todo o lado, erigem como seus heróis e seus locais de habitação nomes como Rambo, Charles Taylor e Tchetchenia, por exemplo.