
Quando estudamos a dominação, é para mim menos importante a dominação em si (o "poder" de induzir a determinados comportamentos), do que a sua aceitação. A aceitação da dominação é um tema fascinante herdado da sociologia de Pierre Bourdieu. E poderá dar origem a pesquisas admiráveis.
A dominação masculina, para retomar o título de um dos seus livros mais controversos, tem muitas veredas. Longe mim tratar delas aqui e agora.
Aqui, o propósito é bem modesto. Pretendo apenas deixar hipóteses para analisar as decisões do ministro da Educação.
No caso concreto que está na origem desta postagem, temos a hipótese de agregar numa mesma família de entidades "perigosas", subvertoras, a exposição do corpo através das tchuna-babies.
Nesta segunda parte, vou deixar aqui mais algumas possibilidades de pesquisa, em breves notas.
A era colonial foi profundamente marcada pelo escamoteamento do corpo da mulher. Se analisarmos a documentação portuguesa a partir do princípio do século XX, veremos a preocupação colonial (completamente masculina) em vedar a nudez campesina. Por todo o lado se multiplicaram os interditos de exposição da nudez, muito especialmente da nudez feminina. Foi literalmente imposto, um bocado por todo o lado, o uso de determinados tipos de vestuário "decente" (termo que aparece em muitos relatórios). Os administradores e chefes de posto (que todos eram homens) desencadearam massivas campanhas de destruição das árvores das quais se extraía a entrecasca que permitia o fabrico de "tangas" (na Zambézia, isso feito em relação ao "muroto"). Por outro lado, nas cidades e ainda nos anos 60/70, mesmo nos prostíbulos urbanos (o caso da Rua Araújo, aqui em Maputo) a nudez era vigiada e proibida, ainda que as jeans e, especialmente, as então boca-de-sino, fossem toleradas.
Quando chegamos à independência, surgem as campanhas de purificação de valores e fazem-se rusgas para apanhar as prostitutas e encaminhá-las para campos de reeducação. As mini-saias foram severamente desaconselhadas, muitas vezes por decisão espontânea de pessoas que se auto-designaram curadoras da moral pública. E não menos vezes eram as mulheres mais velhas, especialmente aquelas ligadas à Organização da Mulher Moçambicana ou ao geral do partido Frelimo, que mais severas eram para com a exposição do corpo feminino.
Ao longo do período revolucionário, era muito difícil encontrar as nossas jovens vestidas com roupas que exaltassem o seu corpo e a sua sexualidade.
Os anos 90 são, creio, um marco importante para a subversão dos valores androcêntricos que exigiam e exigem a sobriedade e o resguardo.
Penso que se casam, então, nas cidades, o desejo feminino de libertação corporal e a exaltação neo-liberal do sexismo. A disseminação da televisão, o surgimento em massa do vídeo, tudo isso trás consigo a visão de espaços de comparação e de aparente emancipação, espaços que passam a fazer parte da vida e do imaginário das nossas mulheres urbanas. A tchuna-baby é, apenas, um dos produtos desse casamento ainda não estudado, se a minha hipótese puder ser tida em conta.
Ora, há alguns anos que se sucedem as vozes de pessoas clamando por um retorno à sobriedade, ao recato, que exigem um combate contra o que chamam costumes dissolutos. São homens e mulheres que se se queixam, entre outras coisas, de que a criminalidade sexual tem como uma das causas a nudez feminina. O seu ponto de comparação é o passado, que dizem ter sido bem melhor, um tempo - argumentam - no qual havia respeito. Em meio a esta angústia geracional, um dos alvos é a novela brasileira. E, finalmente, membros da organização da Mulher Moçambicana chegaram, já, a pedir ao presidente da República a elaboração de uma lei que reponha ordem no porte e no vestuário.
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Aqui fica a segunda parte. Verei, mais tarde, se prossigo.