28 março 2007

A luta contra a pobreza na pobreza da oposição


Os partidos políticos da oposição estão em crescentes dificuldades no país e, ainda por cima, os seus membros não conseguem chegar a posições de topo no aparelho de Estado, o que, segundo Máximo Dias, presidente do partido Monamo, faz com "se sintam marginalizados e frustrados, pois, tecnicamente até têm capacidade para ocupar tais postos”.
Uma tragédia tenebrosa, sem dúvida. Por isso, com as portas fechadas na casa dos recursos de poder e dos tachos prebendais, urge encontrar alternativas e procurar no mercado aquilo que é rentável. E o que é rentável já o faustoso Yá-Qub Sibindy descobriu: a luta contra a pobreza. É, agora, a vez de Máximo Dias.
Resta a Renamo, o único partido que se mantém, efectivamente, na oposição, sejam quais forem os seus deméritos. Mas ainda sem uma fundação de luta contra a pobreza (absoluta, claro).
Enquanto isso os minúsculos partidos que se dizem da oposição mas cujos programas são apenas um mau copiado parágrafo do programa da Frelimo, tentam saber ainda por que águas navegar, agora que, como as estivais formigas que ganham periodicamente asas, surgiram nas margens das eleições para serem como as rosas de Malherbe e viverem pelo menos uma breve manhã.

Saga da luta contra a pobreza: Máximo Dias, potencial rival de Sibindy




O dirigente do Monamo, Máximo Dias (primeira foto à esquerda), afirmou que o seu partido poderá transformar-se em organização filantrópica para combater a pobreza. Assim, Yá-Qub Sibindy, o político dos turbantes e das capulanas vistosas, poderá ter um rival no glorioso combate.

27 março 2007

Fotografias das explosões no paiol de Malhazine




Fotos que me foram gentilmente enviadas por António Forjaz e que agradeço.

Explosões no paiol de Malhazine: mercúrio terá sido a causa?




Leia aqui.

Tragédia de Malhazine: responda por favor ao questionário no lado direito deste portal!


Peço-lhe que participe e responda ao questionário colocado no lado direito deste portal. Basta clicar na "caixinha" situada logo abaixo do segundo mapa. Obrigado!

Tragédia de Malhazine: médico moçambicano Philippe Gagneau comenta em francês na Rádio França Internacional




Se sabe francês e a propósito da tragédia decorrente das explosões no paiol de Malhazine, oiça os comentários do médico moçambicano Philippe Gagneau, também membro da Assembleia Municipal de Maputo, em entrevista à Rádio França Internacional.

Explosões no paiol de Malhazine

Explosões no paiol de Malhazine vistas a partir do Aeroporto Internacional de Maputo, em vídeo registado por "impi1974".

117 mortos na tragédia de Malhazine


São já 117 mortos segundo o "Canal de Moçambique".

Tragédia de Malhazine: o ovo, o pinto e o calor que a comissão de inquérito terão de enfrentar (1)


Nenhum ovo dá origem a um pinto se um calor local não lhe der um empurrão (palavras minhas para uma ideia de Mao Tse Tung).

Vamos agora ver o que vai e como vai fazer a comissão de inquérito nomeada para explicar a tragédia de Mlhazine, num momento em que, entre várias coisas, a presidente da Liga dos Direitos Humanos afirmou tencionar colocar Moçambique no banco dos réus em instância internacional devido à tragédia de Malahazine, a fazermos fé no "O País".
Comissão de inquérito, três juristas (parece que ninguém pensou em sociólogos ou em antropólogos ou em historiadores, por exemplo), um problema bicudo.
Três juristas confrontados com o sempre velho problema do calor e das combustões no paiol de Malhazine.
O sempre jovem Marx diria que é necessário verificar se a impossibilidade de solução do problema não está contida nas premissas da questão tal como esta foi formulada. Frequentemente, diria ele se hoje viesse a este país, a única possível resposta consiste em criticar e eliminar a questão tal como foi colocada.
Pois é, esse o problema num problema cheio de problemas tal como a minha colega Marlene mostrou num artigo colocado na Unidade de Diagnóstico social.
Nas próximas horas aqui voltarei a propósito da difícil missão da comissão de inquérito.

A síndrome do Barão de Münchhausen em Moçambique (5)


"O grande problema das periodizações não está na ordem a pôr no passado, mas na ordem a impôr ao futuro" (aforismo pessoal evidentemente sem sentido)

O chissanismo (1986/2004, balizas imprecisas) é uma era que precisa de ser profundamente investigada. Como, afinal, a era anterior, a do samorismo. Como aliás, tudo o que, suspeitosamente, termina em ismo.
Eu não fiz a investigação e por isso, aqui, o meu propósito consiste apenas em sugerir algumas pistas, algumas hipóteses, tudo muito toscamente.
Há quatro fenómenos no chissanismo que são, para mim, marcantes:
1. A imensa avenida de possibilidades de paz formal e de aceitação do pensar diferente aberta no país com o fim da guerra civil em 1992.
2. A formação e a consolidação rápidas da burguesia nacional e o desenvolvimento sem limites do capitalismo de Estado.
3. O útil e remunerador laxismo de Jano das instituições estatais.
4. A unanimidade pública sobrevinda no seio do partido no poder quando confrontado com os partidos rivais.
Com o fim da guerra civil, torna-se possível reconstruir seja o que foi destruído nas infra-estruturas, seja a mentalidade dos Moçambicanos. O programa governamental de reconstrução não é mais baseado nos grandes slogans milenaristas samorianos. A sua tónica é, sem dúvida, a quantidade, mas é uma quantidade não mais revolucionária, é uma quantidade digamos que neutra, trabalhada no modelo das estatísticas internacionais.
No cadinho dos novos tempos - abertos, plurais, optimistas, jovens - surgem como cogumelos os partidos políticos, as igrejas, as organizações não-governamentais, as universidades e os jornais independentes, inicia-se e consolida-se a prática de ascensão ao poder por via eleitoral com toda a panóplia do teatro político e das acusações de complô e de feitiçaria fraudal, os Moçambicanos aprendem, afinal, apesar de todas as dificuldades, que pensar de forma diferente é possível. E pensam. O fusível samoriano é arrumado no passado.
Um discurso agora sem recurso ao inimigo sistemático da era samoriana toma conta do vocabulário oficial, apelando para um universalismo de oportunidades enquanto esconde a particularidade dos interesses dos emissores.
Que particularidade? As elites no poder constituem-se em burguesia fundiária, mercantil e compradora, montando um conjunto de mecanismos de acumulação e de enriquecimento rápidos, inviáveis no samorismo, de que o ex-banco Austral é um paradigma. Em meio à consolidação das faustosas dinastias capitalistas nacionais, vinga o modelo da democracia à europeia, com a sua corte de fait divers, de escândalos, de greves de trabalhadores despedidos das antigas empresas estatais, de criminalidade e de gangs em acção. O socialismo e o xinconhoca pertencem defintivamente ao passado, Samora mantém-se apenas um pouco, como redentor, na memória popular fustigada pela criminalidade galopante e nas comemorações dos heróis nacionais.
Ao mesmo tempo, procede-se a uma negociação de paz com o passado e os chefes tradicionais são recuperados enquanto cobradores de impostos e gestores das tradições, de par com toda uma apologia das virtudes das tradições e do deixa-andar rural.
Momento fundamental é a redução drástica do arbitrário samoriano, o reenvio das práticas do Estado para as leis escritas, para o direito à defesa, para o emaranhado legal e legalista, para o recurso crescente aos advogados. Ao social concede-se que ele tem uma espécie de lei natural que deve ter curso, que não deve ser entravada. A nova filosofia (que é, afinal, a velha filosofia do Capital) consiste em deixar as coisas correrem por si-próprias. Ministros nomeados ficam onde estão sem limite de tempo nem avaliação de erros. Deixa andar, deixa fazer. Se surgem cristas, conflitos, derrapagens, devem ser revolvidos nas instâncias próprias, sem alarido. A pena de morte desaparece, os campos de reeducação tornam-se memória.
Todavia, a natureza formal, diurna, do Estado, apoiada em veementes discursos de reforma optimista, é apenas uma das faces de Jano, pois a outra face é constituída pela natureza informal, nocturna, das redes familiares, clientelistas e patrimoniais. O Estado é não só, frequentemente, um prolongamento das famílias, mas, também, uma agência informal de impostos de sobrevivência. Dia e noite dão-se mãos de forma harmoniosa na mãos de actores de uma mestiçagem política impecável.
Todo esse mundo denso, diverso, dialéctico, com velocidades diferentes, viaja num combóio com carruagens cheias de novas práticas e termos: boa governação, género, HIV/SIDA, combate à pobreza.
Entretanto, manter o controle do Estado é, sempre, o êmbolo do partido vencedor da luta de libertação nacional. Ora, o surgimento de novos partidos políticos, especialmente a transformação da Renamo em partido político, leva a Frelimo a um duplo movimento: se por um lado rege e deixa reger o social digamos que democraticamente (ainda que qualquer erupção de pensar diferente mais perigoso seja motivo de uma repressão severa por parte de uma polícia de intervenção rápida acantonada nas cidades), por outro evacua publicamente dois princípios samorianos basilares: a crítica e a auto-crítica.
A Frelimo outorga-se dois direitos, cujo caução vai buscar à vitória contra o colonialismo: o de ter sempre razão e o de ser o único partido capaz de dirigir o país.
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(continua, sempre de forma artesanal, remendável. Em qualquer altura posso corrigir, reformular)

26 março 2007

Tragédia de Malhazine - um texto de Marlene Germano no portal da UDS

Sobre a tragédia motivada pelas explosões no paiol de Malhazine, leia um texto preliminar da nossa colega Marlene Germano, membro da Unidade de Diagnóstico Social do Centro de Estudos Africanos.

Tragédia provocada pelas explosões do paiol de Malhazine coberta por Global Voices


Em português e inglês, Global Voices cobriu a tragédia provocada pelas explosões do paiol de Malhazine. Confira aqui.

Explosões no paiol de Malhazine (5)

Paiol de Malhazine pelo Google Earth

Veja o paiol de Malhazine pelo Google Earth, com o zoom pode verificar a existência de dois pavilhões (chamemos-lhes assim) que desapareceram. É crível que vários outros armazéns ainda existam.
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Chamada de atenção feita por Marcelo Mosse, que coloca a seguinte questão: se a transferência do paiol se efectivar, ter-se-á de pensar no futuro daquela área como zona verde ou como reserva municipal. Eu apoio.

Hoje: funeral do escritor Fernando Pedro, vítima das explosões de Malhazine




Hoje: funeral do escritor Fernando Pedro no Cemitério de Lhanguene. Que a tua alma descanse em paz, Fernando.

Explosões no paiol de Malhazine (4)

Explosões no paiol de Malhazine (3)

Explosões no paiol de Malhazine (2)

Explosões no paiol de Malhazine (1)

25 março 2007

Horror



Foto de Alfredo Mueche, semanário "Domingo" de hoje, 25/03/07, manchete.

Estatísticas, fait divers, espectáculo


A tragédia já ocorreu, agora é a altura das estatísticas. Quantos mortos, quantos funerais, quantas brigadas da Frelimo no terreno, quantos kits de comida a distribuir amanhã, quantas crianças desaparecidas. Através da Rádio Moçambique, a directora clínica do Hospital Central de Maputo, por exemplo, afirmou há momentos que agora são 101 mortos. Um funcionário sénior do Estado afirmou que devem estar ainda desaparecidas 200 crianças. Temos, agora, a era do fait divers, do espectáculo, dos números, do amortecimento.

Mulembwe, RM e funerais


O presidente da Assembleia da República, Eduardo Mulembwe, visitando os bairros à frente de uma brigada do Partido Frelimo, surgiu na Rádio Moçambique (RM) a enumerar, com voz calma, os funerais nos quais participou hoje e nos quais vai participar amanhã, referindo os primeiros nomes das vítimas e os apelidos das famílias enlutadas (noticiário das 19.30). Os funerais constituíram o cerne do noticiário. Ainda não apareceu nenhum jornalista na RM afirmando que os funerais poderiam não ter existido se medidas preventivas tivessem sido tomadas logo a seguir às explosões de Janeiro no paiol de Malhazine. No sábado, no habitual programa de debate das 09 horas, a tragédia foi evacuada do debate em favor do dia da União Europeia.

Foi uma guerra - presidente Guebuza citado pelo "Domingo"


"O Presidente da República, em visita ao Hospital Psiquiátrico do Infulene, sob a emoção da catástrofe, desabafou: foi uma guerra e infelizmente fomos nós quem a desencadeou" (semanário "Domingo" de hoje, p. 8)

"Não vale desculparmo-nos com o calor. No banco dos réus devem ser os homens a tomar assento" (editorial do "Domingo" a 4 de Fevereiro)




Este o editorial do semanário "Domingo" de hoje (p. 8), bem mais violento do que o do "Notícias" de ontem. Temos, assim, os dois mais governamentais órgãos de informação do país a mostrarem-se excepcionalmente duros perante a tragédia nascida em Malhazine na quinta-feira.

24 março 2007

Carta para o Senhor Presidente da República, Armando Emílio Guebuza



Senhor Presidente

Permita-me que lhe escreva pela terceira vez.
Presidente: sabe bem melhor do que eu quanta dor reina no nosso belo país devido às consequências decorrentes das explosões registadas quinta-feira no paiol de Malhazine, lá onde mora muita gente.
Por isso, Presidente, uso aqui o ícone do luto.
O Presidente já afirmou, segundo o jornal "Notícias" de hoje, que o paiol vai ser encerrado. Uma justa medida.
Foi ainda nomeada uma comissão de inquérito independente para averiguar as causas das explosões. Também uma justa medida.
Mas tal como fez o "Notícias" no seu editorial de hoje, coloco-lhe, Presidente, uma pergunta que também já coloquei aqui, no meu modesto portal, a saber: se em Janeiro igualmente se registaram explosões no paiol, por que razão não foi ele encerrado, desactivado logo a seguir?
Teríamos, Presidente, evitado este luto que agora nos morde as entranhas.
Senhor Presidente: a Frelimo, a criadora da nossa Nação, é também a criadora e a herdeira de uma longa e rica tradição de crítica e de auto-crítica.
Essa crítica e essa auto-crítica têm de ser afirmadas e reafirmadas. Em permanência. Não podem nem devem nunca perder-se.
E, agora, com tanta mais coragem quanto estamos perante uma tragédia que a todos nós enlutou. E enluta. E magoa.
Perdoe-me tê-lo incomodado uma vez mais.
Respeitosos cumprimentos.
A luta continua.
Carlos Serra
Centro de Estudos Africanos
Universidade Eduardo Mondlane

Carta para o presidente da República a colocar aqui nas próximas horas


A propósito da tragédia decorrente das explosões no paiol de Malhazine, aqui colocarei nas próximas horas uma carta para o presidente da República.

Eduardo Mulembwe


O presidente da Assembleia da República, Eduardo Mulembwe, afirmou hoje, em relação às explosões, que "são coisas que acontecem" e que não devemos preocupar-nos com a busca de culpados, mas com a busca de soluções definitivas (Noticiário da Rádio Moçambique, 19.30 horas locais).

Debate sobre as explosões do paiol de Malhazine


Siga o debate aqui.

Pergunta lancinante


O presidente da República anunciou ontem que o paiol de Malhazine vai ser encerrado.

Por que razão a medida não foi tomada logo após as explosões de Janeiro deste ano?

Políticos e governantes declaram e visitam



Os políticos e os governantes continuam a multiplicar-se em declarações e em visitas aos locais e às vítimas das explosões registadas quinta-feira no paiol de Malhazine, arredores da cidade de Maputo.
Se a Frelimo se desdobrou hoje por Maputo em brigadas, a Renamo e porta-vozes de alguns pequenos partidos não ficaram atrás em visitas e declarações.
Entretanto, as eleições para as assembleias provinciais estão próximas e, naturalmente, temas como explosões, cheias e florestas, irão, entre outros, constituir material de campanha.
A terminar e a propósito, quem sabe se o livro de Ronald Kuntz, cuja foto de capa encima esta entrada, não é útil?