31 outubro 2006

Pineu! Deita pineu (7)


6. O pineu: lógica federadora e catarse

"Tornar o mais fraco dos argumentos o mais forte" (Aristóteles, Retórica, II, 24, 1402A)

Chega a noite. A noite é o medo, o risco do assalto, o perigo da emboscada, a possibilidade do roubo ou da morte, o espectro das possibilidades doentias.
Há nos bairros como que uma doença, uma doença social prolongada, formada por sucessivos problemas encavalitados uns nos outros, com coeficientes diferentes, mas todos confluindo para uma mesma situação de mal-estar profundo. Já não basta viver com dificuldades de sobrevivência: mesmo essas dificuldades são motivo de assalto, de pilhagem.
A espoliação, física e moral, espreita cada cidadão. A doença social indiferencia toda a gente, qualquer pessoa está à mercê da doença, reina um profundo eclipse cultural. A suspeita está em cada ponto, em cada poro. Existe como que a consciência ao mesmo tempo súbita e perene da perda do social, das regras, da moral, o mesmo está em todo o lado e o mesmo é o crime, o medo, a insegurança. Cada morador sente que existe uma poluição social, poluição contra a qual não há defesa pois o vazio institucional é evidente, a polícia não protege, o Estado está nas ruas iluminadas, lá longe, no bem-estar.
Uma noite alguém surpreende uma tentativa de roubo. Ou alguém vê passar outro alguém cujos sinais exteriores lhe parecem suspeitos. Esse alguém está casado com a noite. Se a noite é suspeita, ele também é suspeito. É ninja e pronto.
E surge um grito súbito: Ladrão!!!!!
Imediatamente, como molas rapidamente distendidas por contágio, um bocado de todos os lados, todos berrando, todos exigindo punição, os moradores, sem distinção de sexo e de idade, saem das suas casas de blocos, armados com tudo o que puderam encontrar, catanas, paus, enxadas, não importa o quê. Está rapidamente formada a multidão linchadora e mimética.
O ladrão ou o suposto ladrão é interceptado. Tentar impedir isso representa imediato risco de vida. A multidão age sem freio.
Segue-se o linchamento. Agride-se duramente, todos agridem, todos querem agredir, é fundamental agredir, é como se uma necessidade vital, da natureza estrangeira ao social e à razão, coloca-se um pneu no pescoço da vítima já semi-consciente, chega-se-lhe petróleo, alguém acende um fósforo. O linchado é queimado vivo, por todo o lado se berra.
É a conclusão sacrifical, a catarse, a purificação, a libertação dos males acumulados, da poluição social. Não importa se a vítima é ou não culpada, o que conta é que ela representa o bode expiatório que deve receber toda a mágoa social acumulada, ela é a peça vicária fundamental.
Os moradores julgam, dessa forma, que o social foi restabelecido, que a identidade foi recuperada, que o mesmo deu, de novo, lugar à diferença, a diferença entre a segurança e a insegurança.
Mas a sua mensagem é polissémica: eles advertem os governantes de que também são capazes de violência e de punição, de que também têm leis alternativas, de que são capazes de reorganizar as suas vidas, de que são capazes de encontrar soluções quando as normais não chegam de onde deviam chegar.
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A reconstituição do cenário linchatório foi feita com uma adaptação da grelha teórica de René Girard:
__Des choses cachées depuis la fondation du monde/Entretiens avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978;__ Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982.
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Aguardo que comentem o texto, que sugiram, que critiquem, etc.

Por que me interesso pelos actos humanos?

"Curavi humanas actiones, non ridere non lugere, neque detestari, sed intelligere" - "Interessam-me os actos humanos, não para rir-me deles, nem para deplorá-los, nem sequer para os detestar, mas simplesmente para os compreender".
- Baruchi Spinoza
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Uma bela coisa, sem dúvida, um extraordinário manifesto de neutralidade axiológica. Mas digam-me lá, companheiros desta cruzada cognitiva: podemos realmente meter em quarentena as nossas crenças normativas, somos nós efectivamente capazes de ser spinozistas, de não rir, de não deplorar, de não detestar os actos humanos, para unicamente os compreender enquanto cientistas sociais? Creio que não. Vejam a paixão que Zico em nós despertou.

Houve fraude nas eleições presidenciais de 2004 segundo AWEPA

Citando um boletim da AWEPA (Associação dos Parlamentares Europeus para África), o "Canal de Moçambique" (CM) afirma que a União Europeia reconhece ter havido fraude nas eleições presidenciais de 2004, com problemas em mais de duas mil assembleias de voto (16%) das 12.807 existentes. Segundo o CN, o boletim da AEWPA afirma que "Armando Guebuza teve 70 mil votos frutos da introdução de votos fictícios nas urnas e Afonso Dhlakama teve igualmente 70 mil votos a menos porque os seus apoiantes foram impedidos de votar”. Em 1999 a diferença oficial entre Chissano e Dhlakama foi apenas de 200 mil votos.
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http://www.canalmoz.com/default.jsp?file=ver_artigo&nivel=1&id=6&idRec=1115

30 outubro 2006

Maboasudas: uma canção que desqualifica


Maboasudas - eis o nome de uma canção famosa (mistura de marrabenta e de rap) que está a dar um pouco por todo o lado neste país, cantada por Zico, com a letra que vos mostro. Prestem bem atenção ao "até albina".
Ninguém pode ser desqualificado por ser albino.
Esta é a segunda vez que me refiro neste diário a essa canção, como estais recordados.
Sobre a mediocridade da letra e da música, permito-me não entrar em pormenores. Mas o tempo está cool para este tipo de criatividade calórica.
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Deverá sair brevemente no semanário "Savana" uma análise jurídica e ética da canção, escrita por Carlos Serra Jr (jurista). A letra pertence a esse trabalho.

Pineu! Deita pineu! (6)


5. Principais problemas sociais

O principal problema é o desemprego, disseram-me os entrevistados. A vida assume, por isso, para milhares de pessoas em busca de sentido na vida, a feição generalizada do desenrasca, do salve-se quem puder. Se não há emprego local ou na grande Maputo (serralharias, padarias, como no Bairro Polana Caniço A), as pessoas enveredam pelo comércio informal, ambulante ou fixo em dumba-nengues, cujos ganhos são modestos e contigentes. E/ou pelo roubo.
Quando a noite chega, chegam também o tormento e a inquietação. Os meliantes espreitam os incautos, chegam, em grupos, a bater à porta das casas.
O roubo campeia. Dentro das casas os alvos preferidos são as aparelhagens e os aparelhos de televisão; fora delas, nos becos, nas ruelas, são os celulares e o dinheiro.
Bairros preocupantes nesse campo são, por exemplo, os bairros Ferroviário e Saul.
Os moradores queixam-se à polícia dos roubos. Mas, segundo os meus depoentes, os ladrões são pouco tempo depois soltos pelas famílias a troco de dinheiro.
Acresce que, segundo ainda os depoentes, as pessoas estão cansadas, também, da polícia comunitária, a quem acusam de corrupção e de maldade.
Mas a noite é, também, a noite das barracas e das aparelhagens com o som no máximo prolongando-se até altas horas, em meio ao álcool e à suruma.
Deixados à sua sorte, vítimas de uma violência multilateral (do desemprego ao roubo), não confiando na polícia, os moradores estão psicologicamente preparados, eles-também, para serem violentos. Basta uma pequena faísca para que essa violência tome curso.
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Aguardo comentários, correcções, críticas dos leitores. Eu tenho estado a fazer algumas correcções diariamente. Esta diário é uma oficina na qual, afinal, o produto está sempre a ser montado num trabalho sem fim. Entretanto, chamo a vossa atenção para o texto brilhante de "la strega" (creio que é antropóloga) que aparece nos comentários a esta entrada.

29 outubro 2006

Pineu! Deita pineu! (5)


3. Morfologia dos bairros

Os bairros são formados por um imenso casario de blocos, aqui e acolá por choupanas de caniço. Estreitas ruelas atravessam as casas muito juntas umas às outras. Estas têm regra geral iluminação, os moradores tudo fizeram e fazem para que um ramal de energia lhes chegasse e lhes chegue a casa. Porém, à noite não existe iluminação externa. Os bairros ficam mergulhados na escuridão. A electricidade está distante, nas estradas de grande circulação, como, por exemplo, a estrada nacional n.º 1, a Avª Vladimir Lenine, a Avª de Moçambique, lá onde passam à noite os polícias.
As barracas preenchem o quotidiano das pessoas. À noite as aparelhagens fazem-se ouvir até muito tarde.
Nesses bairros existem regra geral postos policiais (mas o da Zona Verde, por exemplo, não tem) , mas poucos são os que têm polícia comunitária. Contudo, segundo os nossos depoentes os postos policiais são insuficientes e de poucos meios logísticos dispõem. Não têm, por exemplo, viaturas.


4. Características sociais

Nos bairros moram milhares de pessoas, que foram afluindo desde a guerra civil e procedendo a uma ocupação regra geral desordenada.
Os agregados familiares são enormes, existindo famílias com mais de nove membros ocupando uma mesma casa. Um dos nossos entrevistados falou mesmo em famílias com 15 membros.
Parte significativa dos moradores está desempregada ou vive de biscatos, como, por exemplo, do comércio informal. Além dos vendedores informais, morram nos bairros professores, operários, encarregados de limpeza, modestos trabalhadores dos serviços do Estado, etc.
O chapa é o meio de transporte, apanhado regra geral nas vias de grande circulação.
Os bairros populares da cintura de Maputo são procurados pelos pastores de igrejas diversas, regra geral protestantes. Por todo o lado, quase, há pequenas igrejas. Um dos nossos depoentes disse: "Igrejas aqui é mato!" (bairro Polana Caniço A). As igrejas zione, por exemplo, estão povoadas por mulheres - "as que mais problemas sociais têm", disse uma moradora do bairro Ferroviário das Mahotas. Os curandeiros perderam terreno face a essas igrejas, que surgem como cogumelos face à necessidade local de sentido para a vida.
À noite, as barracas enchem-se, bebe-se e, muitas vezes, fuma-se suruma; à noite, também, regressam a casa trabalhadores e estudantes.

28 outubro 2006

Pineu! Deita pineu! (4)


2. Limites do diagnóstico

Foram ouvidas 10 pessoas, com distribuição igual por género, moradoras nos seguintes bairros:
-Polana Caniço A (2)
-Polana Caniço B (1)
-Inhagoi (2)
-Ferroviário (1)
-Ferroviário das Mahotas (1)
-Congolote T3 (1)
-Zona Verde (1)
-Infulene (1)

Não foram ouvidos representantes da polícia, dos secretariados de bairro, das chefias de quarteirão, dos tribunais comunitários e das igrejas, o que seria indispensável num estudo em profundidade.
Estamos, portanto, conscientes dos limites deste rápido diagnóstico.
Todavia, os testemunhos recolhidos, em entrevista colectiva semi-dirigida e em situação de empatia dado os inquiridos conhecerem o inquiridor, constituem uma primeira aproximação indispensável.

27 outubro 2006

Retrato

Jovem, 32 anos, mãe de três filhos, moradora no Bairro Ferroviário das Mahotas, chegava da escola, noite, interceptada por três homens, apalpada minuciosamente na busca de celular e dinheiro, três horas de espera, três horas de angústia. Mas chegou a casa, sem lesão física. Apenas ficou a lesão moral. Deixou de estudar à noite.

Pineu! Deita pineu! (3)





1. Sobre a sociologia

Existem muitas definições de sociologia.
Eu forneço a seguinte: sociologia é o estudo das lógicas não visíveis do funcionamento de uma sociedade, de como ela se constrói e se mantém produzindo e reproduzindo práticas e imaginários.
O que se vê é apenas um conjunto de indicadores (práticas, crenças, imaginário social). Mas esses indicadores são meros factos sociais. Os factos sociológicos obtêm-se pela construção teórica. A construção teórica decompõe o magma de senso-comum e de mitos que permeiam os factos sociais.
O produto final da construção teórica é uma sociedade cujas lógicas de funcionamento nem sempre correspondem às lógicas quer da consciência imediata dos actores sociais em geral, quer da consciência interessada dos produtores oficiais de opinião.
Por isso nem sempre a construção sociológica agrada às lógicas de uns e de outros.

Diário de um amante das palavras

Sabem, por vezes sinto-me como na prisão de Comte (passou a vida a escrever mal para ser melhor cientista), vigiando as palavras para lhes sugar a emoção e o sentimento e, dessa maneira, ficarem decentemente científicas.
Por isso abri um novo diário, herege, subvertor, com a seguinte referência:
http://diarioamante.blogspot.com

Pineu! Deita pineu (2)


Falei-vos na entrada anterior sobre o meu diálogo esta manhã com moradores de bairros periféricos da cidade de Maputo.
Com base nos seus testemunhos, escreverei um pouco, repito, um pouco (apenas) sobre o pineu. E decidi que seria sensato elaborar um sumário da intervenção, precedido de uma curta tentativa para explicar o que é sociologia. Eis o sumário:

1. Sobre a sociologia
2. Limites do diagnóstico
3. Morfologia dos bairros
4. Características sociais
5. Principais problemas sociais
6. O pineu: lógica federadora e catarse
7. Justificações para o pineu
8. Soluções para evitar o pineu
9. Razões por que o pineu não existe na cidade central
10. Conclusões

Se me permitirem, serei livre de alterar este sumário caso sinta necessário fazê-lo.
Abraço sociológico.

Pineu! Deita pineu! (1)


Sabeis que tenho escrito sobre linchamentos. Outros sabem que tenho estado a intervir na televisão, na rádio e nos jornais locais sobre isso.
Mas tenho escrito e tenho falado sempre com a dúvida de nada saber sobre linchamentos para além das hipóteses que tenho lançado. Não tenho a bela capacidade de certas pessoas que sobre linchamentos falam e escrevem sem precisar de os estudar porque já tudo sabem.
Acontece que hoje dialoguei mais de três horas com trabalhadores e moradores de vários bairros populares de Maputo para perceber melhor o fenómeno.
Linchamentos que nos bairros populares se convertem em palavras que todos percebem lá: "pineu" (forma de dizer pneu) ou "Deita pineu!". Tal como não se diz tráfico de seres humanos, mas, antes, "tatá papá, tatá mamã".
Sinto-me agora um pouco mais à vontade para falar e escrever sobre o fenómeno do pineu.
Aqui o farei se possível ainda hoje e também o farei na TVM, domingo, às 11.30.
Aguardem.
Estamos juntos.

26 outubro 2006

É perto mas não é perto

Sempre me fascinou uma coisa, desde a minha meninice, lá na minha terra, vasta, que é Tete: o oxímoro.
Em várias ocasiões, por motivos diversos, em vários dos distritos da província, por vezes em sítios recôndidos, perdido muitas vezes, sem qualquer sentido de orientação geográfica, tive de perguntar a camponeses onde ficava o sítio xis.
E a resposta era, invariavelmente, a mesma: um dedo apontando a estrada e um breve "Ali, siô". E, não menos invariavelmente, eu perguntava: "É longe?"
Uma vez mais, invariavelmente, a resposta era: "É perto mas não é perto" (ni pafupi koma pafupi). E, aqui e acolá, o acréscimo: "Não precisa pressa, há-de de chegar ao destino. Obrigado" (Bzinfunika lini kankulumize uti ufike ulendo bwako. Ndatenda).
O que representa o oxímoro "É perto mas não é perto"? Uma contradição? A falta de um relógio? Uma contabilidade temporal distinta?
É possível dar uma resposta pronta-a-vestir a cada uma dessas perguntas. Mas, ao fim destes anos todos, cheguei a uma conclusão por via da alma: "É perto mas não é perto" é uma forma de nos cumprimentar, de nos saudar, de nos suavizar as agruras das viagens, de trazer o longe para perto e o tornar familiar.
Mesmo que não aceitem a minha conclusão, nada podereis fazer contra a minha alma, porque ela é a minha emoção contra a vossa razão, a emoção que os embondeiros de Tete ensinam.

PT lança inquérito sobre criminalidade

Segundo o presidente do pequeno Partido Trabalhista (PT), Miguel Mabote, o seu partido vai organizar uma campanha chamada "crime zero", ouvindo cidadãos através de um modelo de inquérito elaborado pelo seu Gabinete de Estudos e Planificação, com margem de erro de 15%, nas províncias de Maputo, Sofala e Nampula, com vista a conhecer percepções populares sobre a criminalidade no país. Estarão em acção - afirmou- 670 brigadistas distribuídos por 134 brigadas.
De acordo com Mabote, o resultado do inquérito será entregue ao Governo.
Como cidadão, louvo plenamente a iniciativa.
Como sociólogo, tenho dúvidas de que esta iniciativa pró-governamental e de que este evidente casamento com a Frelimo, partido no poder, traga qualquer benefício para o PT, ainda que a busca de dividendos políticos me pareça ser o desejo escondido de Mabote, cujo partido não teve até agora, nos pleitos eleitorais, qualquer representatividade nacional, mínima que fosse ou seja ("Notícias", edição de hoje, 26/10/06, p. 3).

Máximo Dias ficou furioso

O deputado e advogado Máximo Dias, da bancada parlamentar da Renamo-União Eleitoral, zangou-se há momentos na enorme sala da Assembleia da República, protestando pelo facto de o debate sobre a criminalidade no país ter descambado, pelo lado da Frelimo, partido no poder, para uma crítica politizada ao "terrorismo" estrutural da Renamo. E pediu para abandonar a sala.
O deputado tinha e tem razão. Estou a ouvir a transmissão da sessão pela Rádio Moçambique. Nenhuma vontade por parte dos deputados da Frelimo em verdadeiramente apresentarem uma visão séria da criminalidade e dos linchamentos.

Estado é responsável pelos linchamentos segundo Salomão Moyana


Até ao momento em que escrevo, nenhum jornal publicou um trabalho de investigação sobre os linchamentos que ocorrem na cidade e na província de Maputo.
Na Assembleia da República sucedem-se as intervenções ruidosas condenando os linchamentos ou, no caso da oposição, condenando o Estado por não agir.
Entretanto, hoje, em editorial vigoroso, o director do semanário "Zambeze", Salomão Moyana, ataca violentamente o Ministério do Interior, onde, segundo ele, existem polícias mais ricos do que os empresários. De acordo com Moyana, o verdadeiro responsável pelos linchamentos é o Estado e quem é linchada é a legalidade. O maior terror é da responsabilidade dos polícias ("Zambeze", edição de hoje, 26/10/06, p. 7).
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Os crocodilos mágicos do rio Púnguè


De acordo com a edição do "Notícias" de hoje, apenas o administrador do Parque Nacional da Gorongoza (PNG) não acredita que os crocodilos não sejam domesticados para fins mágicos nas margens do rio Púnguè, mais concretamente em Madlangua, distrito de Nhamatanda, província de Sofala. Esses crocodilos, supostamente comandados à distância, comem especialmente mulheres e crianças. Quando os caçadores do PNG os querem abater, eles não aparecem. O chefe tradicional da terra, fumo Base Saringo, tem, porém, uma dúvida: ele não sabe se, ultimamente, a acção dos crocodilos se deve à feitiçaria ou à acção dos espíritos dos antepassados. Os espíritos podem estar zangados pois, segundo Saringo, agora as pessoas vão tomar banho ao rio e aí até fazem amor, além de lavarem panelas, o que afronta os espíritos ("Notícias", edição de hoje, 26/1o/o6, p.2).
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Foto reproduzida do seguinte portal:
http://www2.uol.com.br/fluir/destaque_mes/239_rio_zambeze.shtml
Recordo, ainda, a entrada neste diário sobre os leões, considerados mágicos, de Muidumbe, província de Cabo Delgado, 20/04/06.

25 outubro 2006

Sapato satírico

Um dos 250 deputados da Assembleia da República disse esta manhã, em plena sessão, referindo-se ao norte da província da Zambézia, que os polícias têm tão poucos meios que andam nas bicicletas dos ladrões.
Um sapato satírico para um eventual pé real.

Dois tipos de sociólogos com pedigree

Existem, na praça, dois tipos de sociólogos com pedigree: os perguntadores e os respondedores.
O primeiro tipo é constituído por aqueles que passam a vida a fazer perguntas aos outros sem nunca dizerem quais as suas respostas.
O segundo tipo é constituído por aqueles que passam a vida a dar respostas a tudo sem precisarem de perguntas.
Elegantes cultivadores do espírito, nenhum deles precisa de investigar e de sujeitar os pneus da teoria à estrada dos factos.

A teoria cristalina do barão de Münchhausen


Tenho quase a certeza de que a técnica do barão de Münchhausen consistindo em sair do pântano puxando pelos seus cabelos só podia surtir efeitos caso ele tivesse uma teoria cristalina como a seguinte:
-Quase todas as semanas temos linchamentos
-Mas por quê?
-Porque a polícia não é eficiente
-E que provas tem disso?
-Porque quase todas as semanas temos linchamentos

Perguntas e perguntas às perguntas


Passamos a vida a querer saber as causas dos fenómenos. Se existe o fenómeno B tem de haver necessariamente uma causa A.
E se os fenómenos nos parecem extraordinários, fora do comum, então as nossas perguntas tornam-se desesperadamente etiológicas, somos encaminhados para o reino das causas das doenças sociais.
Por exemplo: qual a causa ou quais as causas dos linchamentos?
Nos últimos dias dezenas de pessoas preocupadas têm estado na rádio e na televisão martelando, a maior parte delas, numa causa linear, simples, pronta a vestir: os linchamentos são actos de pessoas cansadas da falta de protecção policial. Alguns, mais etiológicos, avançam logo teorias vastas do género: os linchamentos são produto da anomia social.
Depois, surge a terapêutica. Quase todos estão de acordo: é preciso punir severamente os linchadores, é preciso uma acção policial enérgica, é preciso punir os assassinos, julgá-los.
Resumindo, o quadro é este:
-Fenómeno: linchamentos
-Causa: polícia incapaz
-Solução: polícia enérgica, tribunais actuantes
Como reparam, tudo isso é claro, nada opaco. Estamos perante a fascinante situação de sabermos tudo a montante e a jusante do fenómeno, nada falha entre a causa e a solução.
E como somos dotados da rara qualidade de sabermos sem necessidade de sabermos, até nem precisamos de nos perguntar se sabemos o que sabemos e fazemos saber.
Fazer perguntas, todos as fazemos. Fazer perguntas às perguntas já é um pouco mais difícil.
Por exemplo: Por que razão a senhora, o senhor diz o que diz? A senhora, o senhor estudou o fenómeno? Quanto tempo o esteve a estudar? Onde? Que métodos usou? Falou com moradores? Com quantos? Quais os seus perfis sociais? Teve a oportunidade de falar com linchadores? Com quantos? Por quanto tempo? Qual a amostra de bairros que estudou? Quais as suas características sociais? Falou com a polícia? Que perguntas fez e que respostas obteve? Tem a certeza de que tudo se resume a um protesto contra a ausência da polícia ou contra a sua ineficácia ou contra a sua corrupção? Previu outro tipo de fenómenos? Por que propõe uma acção policial enérgica? O que exactamente significa isso? Avaliou as consequências do que propõe? De que maneira?

24 outubro 2006

Professor Staffan Bergström, Morten Nielsen e João Feijó

Conto proximamente incluir neste diário trabalhos do Professor Staffan Bergströom, ginecologista sueco (Chair, International Health, Division of International Health, Karolinska Institutet, Stockholm, Sweden), cujo trabalho com outros colegas em África muito vos deverá certamente interessar; do doutorando dinamarquês Morten Nielsen, investigador associado do Centro de Estudos Africanos; e do antropólogo português, João Feijó.

Linchamentos e histerias


Os linchamentos são o exercício total da histeria popular. Habitantes de bairros convenceram-se de que a justiça chegará com a morte dos bodes expiatórios.
Mas, por outro lado, já tem curso um outro tipo de histeria: a dos que advogam o uso "drástico" dos meios policiais, convencidos de que assim a onde linchatória terminará.
A uma violência se opõe outra em meio a um eclipse da razão.
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Sugiro a leitura do seguinte portal:
http://www.prometeu.com.br/mat-soc-linch.htm

Linchamentos: hipótese e variantes de explicação


O que é uma hipótese: uma hipótese é uma relação entre dois ou mais fenómenos. Preposição provisória, destina-se a ser testada na investigação. Aqui, é confirmada ou infirmada. A hipótese que se segue é grande, mas não me preocupei por agora em torná-la mais sintética. O fundamental para mim foi tornar claras algumas ideias. A hipótese é acompanhada por duas variantes.

Hipótese para os linchamentos: moradores dos bairros periféricos da cidade de Maputo vivem um conglomerado de problemas entre os quais a criminalidade. Exasperados com a ausência de protecção, confrontados com uma polícia que não lhes inspira confiança, decidem fazer justiça por suas próprias mãos. O linchamento surge como o exutório natural, como a despoluição, como a válvula de escape que permite evacuar temporariamente a tensão e a cólera sociais. O linchado é o bode expiatório, ele tanto pode ser criminoso como inocente. Mas o linchado simbólico é a polícia. Através do linchamento, da violência brutal, sumária, os moradores passam dos sentimentos hostis a uma acção terapêutica. Esta acção terapêutica, catárquica, dá aos moradores o sentimento da justiça finalmente feita e permite adormecer temporariamente outros problemas sociais que os apoquentam, derivados da dificuldade crescente de sobrevivência social. E se interrogados, em únissono, cúmplices, solidários, dirão que nada sabem, nada viram, nada ouviram.
(Esta hipótese salvaguarda a autenticidade popular do fenómeno)

Hipótese tornada mais complexa
Variante A: esse fenómeno genuíamente popular pode, no entanto, estar a ser ampliado pela acção de agitadores com intenção não política, destinada a criar condições para fenómenos como: ajustes de contas de natureza e amplitude a estudar, delimitação de territórios de acção futura das gangs, etc.
(Esta variante não é de natureza complotária e por isso não retira ao movimento a sua matriz popular, endógena)

Variante B: esse fenómeno genuínamente popular pode estar a ser ampliado pela acção de agitadores com uma intenção política, mas disfarçada, com o intuito de retirar dividendos políticos, igualmente de natureza e amplitude a investigar, a médio ou longo prazo.
(Esta segunda variante também não é complotária e por essa razão não subtrai ao fenómeno a sua raiz popular genuína)
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Estou completamente aberto a um debate.

Mais um linchamento


Um cidadão de nome Armando Magaia foi esta madrugada morto, após ter sido queimado com um pneu incendiado, no bairro CMC, rua 9, nas Mahotas (informação que me foi prestada por um jornalista da TVM esta manhã).

23 outubro 2006

A propósito da festa linchatória


Há uns anos atrás, quando analisei em livro os linchamentos que ocorriam nos bairros periféricos da cidade de Maputo nos anos 90, referi-me ao que então chamei "festa linchatória", à alegria dos moradores dos bairros ante a morte brutal dos linchados, à crença de que os linchamentos eliminavam o que então intitulei "poluição social".
Hoje, em conferência de imprensa, num intervenção onde falou da perda de valores morais numa cidade a contas com o crime e com as armas, a presidente da Liga dos Direitos Humanos, Alice Mabota, mostrou o seu profundo desagrado pelo facto de crianças assistirem aos linchamentos, de fazerem disso uma festa.
Como cidadão, junto-me a Alice Mabota, condeno veementemente o que se está a passar.
Mas como sociólogo, vejo-me obrigado a ir mais longe do que um pedido urgente de medidas policiais drásticas e do que uma condenação não menos drástica dos linchadores.
O problema para mim é bem mais complexo, tem um rosto poliédrico, já aqui nesta diário levantei várias questões e por isso não me parece errado colocar mais duas:
(1) O que leva pacatos cidadãos a tornarem-se repentinamente assassinos?
(2) Por que razão os linchamentos suscitam alegria?
Se se quiser, governamentalmente falando, responder a essas questões, entre outras, através de um estudo sério, talvez seja possível termos um quadro bem mais terapêutico a longo prazo.
Em meu entender, o que mais falta faz no país é a produção de trabalhos sérios que permitam, nos momentos certos, diagnosticar com profundidade as razões que estão à retaguarda de comportamentos que tanto nos ferem.
Isso é, para mim, bem mais urgente do que responder à violência com a violência na violência de deixarmos a violência inexplicada num país que já viveu e vive violência a mais.

Linchamentos prosseguem: enterrados e queimados vivos com capim e petróleo em Marracuene



"Só uma violenta tempestade pode iluminar um céu tão negro" (Shakespeare)

Dois indivíduos, suspeitos de serem cadastrados, foram na sexta-feira de manhã interceptados num bairro de Marracuene, a cerca de 30 quilómetros a norte da cidade de Maputo, e enterrados e queimados vivos com capim e petróleo (método que substitui o pneu da cidade de Maputo), de acordo com um despacho no sábado da estação televisiva STV.
Os dois linchados não viviam no bairro referido.
Como eu previa, o fenómeno dos linchamentos amplia-se agora para fora da cidade de Maputo.
As pessoas parecem estar confrontadas com um enorme vazio institucional e viver uma catarse punidora sem precedentes na história do país.
Estamos sem saber se os linchados são efectivamente criminosos. Por outro lado e por hipótese, os polícias podem também ser alvo de linchamento caso procurem intervir. Podemos mesmo prever a eventualidade futura de linchamento de polícias, acusados de não deter os criminosos.
Este é fenómeno que não requer apenas medidas policiais, mas, também e especialmente, um estudo em profundidade das causas, um diagnóstico sério.
Os linchamentos parecem assumir, de forma cada vez mais vincada, a morfologia de válvulas de segurança, de estabilizadores da intranquilidade e da saturação sociais. A busca de bodes expiatórios poderá agravar-se consideravelmente.
Um mesmo fio condutor parece atravessar a história da humanidade no tocante a fenómenos com morfologias diferentes, mas com uma mesmo anseio de catarse social, de purificação social: desde a peste que atacava Tebas e que, no mito de Édipo de Sófocles, tornou Édipo responsável por ter morto o pai; passando pelo massacre de Judeus acusados de introduzir a peste negra na França do século XIV segundo o poema escrito pelo obscuro poeta Guillaume de Machaut; até à histeria em massa na Costa do Marfim em 1996, quando catorze supostos feiticeiros foram assassinados por multidões, dois em Abidjan e doze no Gana, porque jovens haviam ficado desesperados acreditando que os seus pénis haviam desaparecido (ou encolhido) depois de estranhos terem usado um aperto de mão "enfeitiçado" - assim se acreditou - para cumprimentá-los.
Os linchamentos em Maputo, cidade e província agora, possuem o mesmo sinete de inquietação social perante o eclipse do social e do cultural que o crime representa, diante da indiferenciação gerada, face à impotência em que as pessoas se encontram. A descarga em vítimas sacrificiais representa a libertação da tensão. E essa descarga tanto pode ocorrer sobre responsáveis identificados como autores da inquietação, como sobre vítimas de substituição, sobre inocentes. Entretanto, segundo o "Notícias", 300 moradores no bairro do Zimpeto na periferia de Maputo condicionaram sábado o fim dos linchamentos no bairro à construção de uma esquadra da polícia (edição de hoje, 23/10/06, p. 19).
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Para uma visão dos linchamentos no Brasil, veja o seguinte portal:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141995000300022

22 outubro 2006

Das minissaias às tchuna-babes passando pelas melissas


Com a independência do país, em 1975, o fundamentalismo moral fez das jovens que usavam minissaias o seu alvo punidor. Casais de mão dada na rua era logo acusados de corrupção sexual.
Nos anos 80, vendiam-se na Interfranca, onde as compras se faziam em dólares, sandálias brasileiras chamadas melissas. Usá-las equivalia de imediato, para as nossas jovens, ao epíteto de prostitutas.
Lembro-me bem de ambos os fenómenos.
Ultimamente são as tchuna-babes, também brasileiras, que são motivo de inquietação para os mais velhos e obstinados guardiões da moral (leiam as cartas de leitores que, a esse propósito, frequentemente surgem no diário "Notícias"). Ajustadas ao corpo das nossas jovens, as tchuna (=bonito) deixam entrever a superfície das calcinhas, ao estilo da cantora Britney Spears. Mas por quê tanta raiva pelo corpo das jovens?
"O que está em causa é, mais uma vez, o controle das mulheres, do seu corpo, a ausência dos seus direitos sexuais e reprodutivos, em nome de uma moral e de uma tradição estática e desconhecida, elaborada e reproduzida pelos que detêm o poder”, esta a posição da minha colega Isabel Casimiro.
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Portal que serviu de informação para esta entrada, incluindo a fotografia:
http://www.sida.org.mz/index.php?option=com_content&task=view&id=147&Itemid=77
Recordo que existem neste diário várias entradas referentes às tchuna-babes.


Reencantar as ciências sociais



O meu obrigado ao historiador francês Michel Cahen pela gentileza da apreciação que fez ao livro.

Sobre o conflito


Conflito e harmonia, ruptura e integração são processos indissociáveis dos sistemas sociais. Todos os missionarismos beatos e nefelibatas que se convencem de que é possível criar um mundo de harmonia absoluta fracassam inevitavelmente. E um conflito tem uma regra básica: oscilar como um pêndulo na distribuição de recursos de poder.
Existem no nosso país muitas organizações que procuram evitar ou sanar conflitos sem nunca os terem estudado e, muito menos, descoberto que a paz apenas é razoavelmente possível quando existe uma distribuição razoável de recursos de poder.
Da mesma forma, abundam por aqui os auto-ditos cientistas sociais que passam a vida a pregar a paz sem nunca terem estudado conflitos e que, tal como certas organizações pacifistas, concorrem especialmente para abrir a caixa de Pandora.
O livro à esquerda, de Lewis Coser, é um clássico da sociologia americana do conflito social, publicado pela primeira vez em 1956, que muito recomendo. O segundo, é um estudo, executado sob minha direcção, sobre racismo e etnicidade em Moçambique, publicado em 2000, que procura mostrar como a distribuição desigual de recursos de poder gera sentimentos e atitudes hostis, que são predisposições ao conflito.