06 agosto 2007

"Diário de um sociólogo" de novo seleccionado

Juntamente com outro dos meus blogues, o diário de um amante das palavras, o diário de um sociólogo figura pela segunda vez entre os dez melhores blogues semanais do directório brasileiro Links&Sites.

Faife está alarmado

O Sr. Xigwai Faife (o primeiro nome é certamente inventado), criou um novo vírus, a que chamou VIDESMANOPRIC (Vírus de Destruição Massiva de nossos Princípios Culturais). O Sr. Faife está alarmado com a degradação dos valores morais no país. Está, mesmo, contra os "conceitos japoneses" (sic). Leia aqui a saborosa carta.

Jeque o adivinho, Dhlakama o messias


As assembleias provinciais vão corroer a democracia, a Frelimo irá vencer e a oposição vai entrar em descalabro - afirmou, pessimista e adivinho, o jurista e político Carlos Jeque (à esquerda). Por sua vez, o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, optimista e messias, afirmou que "esta é a oportunidade para tomarmos o Poder e salvarmos as populações. É preciso usarmos a nossa força e inteligência para conseguirmos este objectivo”.

05 agosto 2007

Sofia Barbosa e Joana Melo

Sofia Barbosa e Joana Melo cantam "Povo que lavas no rio", um trabalho que Amália Rodrigues imortalizou. Um dueto excepcional. Até amanhã!

Lea Salonga

Sabem, nunca penso com a razão, mas com a emoção; nunca programa nada, deixo-me programar pelos sentidos. Amo o que sinto, sinto o que não penso pensando. E por isso amo o belo que sinto ser belo. Todos os dias faço amor com a vertigem do belo. Por exemplo: oiçam comigo Lea Salonga, neste clássico "não chores por mim Argentina". Já ouvi muitas versões da canção, já ouvi muitos intérpretes. Mas apenas em Lea encontrei esta extraordinária interligação entre tema, canção, voz e gestão corporal, gestão ática, simples, de uma beleza sem perímetro. Reparem nas mãos, no rosto, nos lábios, nos olhos, nas sobrancelhas. Vejam se concordam comigo, neste domingo, neste abraço que vos dou.

Assim sou assim me pau-pretam



Leia este poema, em versão ainda não definitiva, a incluir no meu terceiro livro de poesia.
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Adenda a 06/08/07: divulgado hoje no "Canal de Moçambique".

Melhor consultar um curandeiro


Semanário "domingo" de hoje, última página.

04 agosto 2007

Actualizados blogues de poesia e cartas de amor


Os dois meus blogues de poesia foram actualizados. Veja aqui e aqui. As cartas de amor também.

Isabelle Boulay

Depois de Mireille Mattieu (veja abaixo), é agora a vez de outra bela voz francesa, a de Isabelle Boulay. Parle-moi=fala comigo. Uma história de amor, ainda que triste. Mesmo assim, fala comigo...

Mireille Mathieu

Aqui tendes a bela voz francesa de Mireille Matthieu(não, não é a de Edith Piaf), no seu admirável "Non je ne regrette rien" (não, não lamento nada).

Darwinismo social

É sempre possível encontrar um fio condutor para fenómenos díspares (ou aparentemente díspares). Fenómenos díspares e, frequentemente, inocentes na sua naturalidade, na forma inócua como surgem e se difundem. Ou na forma como são afirmados, na inocência firme de um mero ponto de vista.
Por exemplo, um jornalista do "Notícias" de hoje escreveu, a propósito do Moçambola 2007, que "o início da segunda volta encerra um grande significado, pois entramos numa etapa em que somente os audazes irão sobreviver." Repare-se neste tom predicativo darwinista, cuja medula é anestesiada por estar em causa o futebol.
Por outro lado, um leitor preocupado com a decadência moral, escreveu, na mesma edição do diário citado, que gente de outras províncias está em excesso em Maputo, afectando o bem-estar dos locais. Se, neste contexto, tivermos em conta a criminalidade, temos a Sra. Lina Magaia a propor a expulsão dos que, no seu entender, nada fazem na cidade de Maputo, devendo ser levados a produzir no campo, tal como se fez nos anos 80 do século passado.
Natualmente que seria possível multiplicar estes exemplos de darwinismo social (com a clássica e clara busca do bode expiatório estrangeiro, no segundo exemplo apresentado), que encontram na Sra. Magaia uma modelar pedagogia castrense.
Darwinismo social que carece de ser percebido, de ser analisado em função do sistema de que é arauto e homologador.

Pelo calçado avalias o relevo social


Anteontem coloquei aqui a foto de uma pessoa que usava como calçado metades de garrafas plásticas de água mineral (esquerda). Ora, o leitor Alberto Santos mandou-me a segunda foto aqui exibida (direita), a de uma criança que, em 2003, no Alto-Molócuè, Alta Zambézia, usava como calçado corda de casca de árvore e folhas. Será sempre fascinante ver no que parece banal o roteiro de histórias sociais naturalizadas, normalizadas, cujo interesse muitas vezes apenas reside na diferença, na mera diferença de opções de vida. Os mais optimistas falarão na criatividade racional. E, depois, estimados leitores deste sábado, não tem tudo isto o perfume anestésico do fait-divers, do folclore, do inusitado que domesticamos com o espanto prazenteiro e inócuo?

Os corredores empresariais do Poder em Moçambique

A sempre actualizada Indian Ocean Newsletter (edição de 25/07/07) mostra quem caminha no mundo dos negócios em Moçambique, com figuras conhecidas de ex-governantes, governantes ou próximas de governantes. Vale a pena ler, especialmente quando nos damos a discutir democracia de forma platónica, docemente pura:

Após ter deixado o BCI-Fomento vendendo as suas acções ao Grupo Insitec, o antigo ministro das Finanças, Abdul Magid Osman, está numa nova aventura empresarial. Assim, no início de Julho participou na criação de uma nova empresa, a Epsilon Investimentos SA, cuja missão consiste em adquirir quotas em outras companhias para depois revendê-las com lucro. O antigo ministro será o presidente da nova companhia, que criou com o sul-africano Faheem Tayob e o moçambicano nascido da Guiné-Bissau, Arnaldo Joaquim Lopes Pereira, engenheiro civil e membro do board da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), encabeçada por Graça Simbine Machel. Duas companhais nacionalizadas figuram na administração: Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) e Aeroportos de Moçambique (ADM). Além de Faheem Tayob, figuram ainda Victória Dias Diogo, presidente da Autoridade da Função Pública e irmã da Primeira-Ministra, Luisa Diogo; Ângelo António Macuácua, vice-reitor da Universidade Eduardo Mondlane; Moisés Rafael Massinga, empresário de pescas e accionista da Ripple Fish Mozambique Lda (ex-Unagi Mozambique); e Mavimbi Lda, em cuja companhia está o Presidente da República, Armando Guebuza. No board, presidido pelo pintor Malangatana Valente Ngwenya, está Américo Magaia, da FACIM. O presidente do board de supervisão é Abdul Carimo Mohamed Issa, jurista, ex-membro da Assembleia da República pela bancada da Frelimo e actualmente membro do board da FDC (e com intervenção em várias outras companhias).
Por outro lado, um grupo de oficiais moçambicanos na reserva criou em Abril uma companhia cujo objectivo é o teste técnico e a inspecção de automóveis, a Moçambique Laser Inspecção. Trata-se de uma joint venture com quatro accionistas, incluindo oficiais e civis trabalhando para o Ministério da Defesa. Há, assim, o tenente-coronel na reserva João Francisco Bias, presidente do Comité de Amizade Moçambique-Cuba; Sérgio Manuel Fernando, Justino Ernesto Tonela (conselheiro jurídico do Ministério da Defesa) e Joaquim Zacarias Mataruca, coronel na reserva e porta-voz do Ministério da Defesa.
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Síntese e tradução da minha lavra. O meu obrigado ao FM por me ter enviado o conteúdo da revista do dia 25 de Julho.

03 agosto 2007

Ela Só Quer

Como estamos com a alma já no fim-de-semana, vamos lá "dançá" este leve e fresco forró do nordeste brasileiro com o grupo "O Karaiva"....

Gabriela Mendes

A caboverdeana Gabriela Mendes canta "Tradição".

Ensino bilingue em Moçambique - um trabalho de Fátima Ribeiro (2) (continua)

"ENSINO BILINGUE EM MOÇAMBIQUE:
PREOCUPAÇÕES QUE DEVIAM SER DE TODOS

Por Fátima Ribeiro

O que está em causa
Não são necessários profundos estudos para se constatar o que há anos venho afirmando: em Moçambique, nos moldes em que está concebido e com os recursos que possuímos e podemos garantir e desenvolver, note-se bem, o modelo de ensino bilingue em aplicação não é sustentável, nem oferece a garantia de um mínimo de qualidade que justifique o tremendo esforço despendido e a despender, sobretudo em tempos de resposta ao HIV/SIDA e de honrar o compromisso de educação para todos.
São diversos os documentos que atestam o estado actual do sector da educação. Segundo o relatório do UNICEF A Pobreza na Infância em Moçambique: uma Análise da Situação e das Tendências, no período compreendido entre 1992 e 2005 triplicou o número de alunos no subsistema de ensino primário, tendo passado de aproximadamente 1,3 milhões para mais de 3,8 milhões, enquanto o número de alunos no secundário aumentou de cerca de 45.000 para 245.000.[4] Posteriormente, e apenas em 2006, conforme declarações prestadas recentemente pelo Ministro da Educação e Cultura[5], perto de um milhão de crianças entraram pela primeira vez na escola. Não obstante esta impressionante vaga de acesso, urge ainda acomodar no curto prazo, para além das que forem atingindo a idade escolar, o meio milhão de crianças que se encontram fora do sistema[6].
Baseando-se em vários documentos oficiais de referência, diz o relatório do UNICEF atrás citado que o rápido aumento nas matrículas não foi acompanhado por um maior investimento na qualidade de ensino ou por estratégias adaptadas aos aumentos massivos do número de estudantes, tendo os indicadores de eficiência interna e qualidade, como a percentagem de professores com formação e o rácio professor/alunos, por exemplo, sofrido agravamentos. Em 2005, no primeiro nível do ensino primário havia, em média, um professor para 74 alunos. O Plano Estratégico do Sector da Educação, 2005 (PEE II) reconhece que os professores estão deficientemente equipados para lidar com alguns dos desafios que o novo sistema coloca, tais como a realidade de um ensino ministrado a pessoas com diversas idades em turmas grandes e em turmas com diferentes classes, a falta de material didáctico, a disparidade de género e o HIV/SIDA. Por sua vez, o Inquérito sobre a Força de Trabalho (IFTRAB) de 2004/2005[7] revelou que 47% dos inquiridos se mostravam insatisfeitos com a sua escola local, e que era grande a diferença entre respondentes de áreas urbanas e rurais (28% e 61%[8], respectivamente). As principais causas de insatisfação apresentadas foram a falta de materiais (31%); as fracas condições das instalações escolares (29%); a falta de livros (17%); a falta de professores (6%) e o pagamento de subornos (1,5%). Um grande obstáculo à qualidade de ensino frequentemente citado foi a falta de livros, estimando-se que apenas 25% dos alunos possuíam todos os manuais necessários.[9]
Assim era a situação em 2005, visivelmente mais grave está em 2007. Por toda a parte, e até na capital, proliferam as escolas com turmas de uma centena de alunos, sem salas de aula, sem livros, sem professores suficientes ou com professores sem preparação. “Milhares de alunos das escolas primárias da cidade de Maputo continuarão, até ao final do presente ano, a assistir às aulas sentados no chão, devido à falta de carteiras nos estabelecimentos de ensino onde estudam, segundo as autoridades locais da Educação e Cultura. Desconhece-se a data em que o défice de carteiras será ultrapassado”, informa o jornal Notícias[10]. E se assim é presentemente, vigorando à escala nacional apenas o ensino monolingue, quando ao grande choque de acesso se juntarem os impactos da expansão do ensino bilingue, nos moldes em curso, a toda a área rural do país, isto é, daqui a escassa meia dúzia de anos, terá a Educação em Moçambique alguma dignidade outra para além do patriótico orgulho de termos introduzido as línguas moçambicanas no ensino?

NOTAS
[4] UNICEF, A Pobreza na Infância: Uma Análise da Situação e das Tendências, Maputo, Moçambique, 2006, p. 144
[5] Jornal Notícias, 30.07.2007, p. 2.
[6] Ibidem
[7] Instituto Nacional de Estatística (INE), Inquérito Integrado à Força de Trabalho (IFTRAB) 2004/2005, 2006
[8] Note-se que é nas escolas rurais que o ensino bilingue vai ser implementado.
[9] UNICEF, op.cit. p. 163-164
[10] Notícias, 20.04.2007"

Ensino bilingue em Moçambique - um trabalho de Fátima Ribeiro (1)

Pedi há tempos à Prof.ª Fátima Ribeiro que escrevesse um texto sobre o ensino bilingue em Moçambique. Ela cumpriu e por isso o publico aqui em partes:

"ENSINO BILINGUE EM MOÇAMBIQUE:
PREOCUPAÇÕES QUE DEVIAM SER DE TODOS

Por Fátima Ribeiro

Ao intervir no programa Linha Directa da Rádio Moçambique de 28.07.2007, dedicado ao tema “Ensino Bilingue – Situação Actual e Perspectivas”, uma vez mais me senti, nessa matéria, uma voz falando num deserto que sei particular: cheio de gente que vê, mas onde quase ninguém ousa dizer. Ou melhor, onde em público só fala praticamente quem, por inerência de ocupação, tem a obrigação de se pronunciar em consonância com o que se está a propor e executar: os técnicos directamente envolvidos no processo.
Decidido está e, a bem ou a mal, o programa “experimental” de educação bilingue em Moçambique, iniciado em 2003 e abrangendo presentemente 15.000 alunos em 75 escolas de todas as províncias[1], tem de ser expandido, e o quanto antes, à escala nacional. Porque “a decisão é política, ponto final”, como se ouve dizer. Porque assim recomendam também as directrizes globais para o desenvolvimento[2]. Porque já muito dinheiro foi gasto e, aos doadores, seus governos e contribuintes, tem de ser justificado. Porque a máquina está em marcha acelerada e é impossível fazê-la parar. Enfim, porque politicamente incorrecto levantar as questões que coloco.
Da minha parte fica a satisfação de, baseando-me na minha experiência de três décadas de ensino em Moçambique (no campo e na cidade, na alfabetização, no ensino secundário e superior, na formação de professores, no ensino de português língua materna, língua segunda e língua estrangeira, no Estado e no sector privado, a crianças e adultos, a turmas de mais de cinquenta e a pequenos grupos) ter vindo a alertar quem de direito, desde a primeira hora[3] - os primórdios do projecto PEBIMO, em 1991/92 - para problemas que considero fundamentais. Em mim, dizia, fica o consolo de ter posto à consideração um outro modelo que me parecia de muito mais rápida introdução e expansão, mais fácil e menos onerosa implementação. Fica ainda a esperança e ansiedade de ter vida e saúde para apreciar os resultados do processo a curto, médio e mais longo prazos, e o desejo, sincero, acredite-se, de vir a constatar que estava enganada nas minhas percepções e convicções.
NOTAS
[1] Dados fornecidos por Rafael Sendela, Coordenador do Ensino Bilingue no Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação (INDE). Cf. “Ensino Bilingue conta com 15 mil alunos”, jornal Notícias, 01.08.2007, primeira página.
[2] Cf. “Policies on the Use of Multiple Languages”, in PNUD, Human Development Report 2004, p. 60-63.
[3] Fátima Ribeiro, “Português, Língua Veicular: Algumas Reflexões sobre Modelos de Ensino (ou Carta Aberta por um Moçambique Estável e Sustentável)”, publicado no jornal Savana de 28.12.2001; “Ensino Bilingue: Uma Aposta Viável?”, in Savana 18.02.2005 e no fórum de discussão Ideias para Debate, de Machado da Graça (http://ideiasdebate.blogspot.com); “Uma Alternativa ao Ensino Bilingue Proposto pela Reforma Curricular”, in Savana 10.06.2005 e Ideias para Debate; e ainda “Relatório do Desenvolvimento Humano 2004 e Política de Línguas para o Ensino”, in Ideias para Debate, 05.06.05.

Lina Magaia reeditaria "operação produção"

Numa entrevista dada ao semanário "O País", edição de hoje, a ex-parlamentar da Frelimo, Lina Magaia, afirmou que faria uma nova "operação produção" na cidade de Maputo, caso lhe perguntassem como combater a criminalidade.
(clique duas vezes com o lado esquerdo do rato para ampliar a imagem)

Democracia 4/4

Baseado no orçamento feito para as eleições provinciais, o jornalista Lázaro Mabunda afirma no "O País" de hoje que os órgãos eleitorais precisam de:
-15 viaturas do tipo 4/4 cabine dupla
-148 do tipo 4/4 cabine simples
- aluguer de 216 viaturas (p. 2).
E são, apenas, eleições para assembleias provinciais, não são eleições legislativas.
Onde páram as muitas viaturas usadas na preparação das várias eleições realizadas desde 1994?

Mozambique é maningue nice


Aos trabalhadores da Açucareira de Mafambisse, que há dias entraram em greve, a concessionária sul-africana "Tongaat Hulett" propôs um aumento salarial equivalente a menos de metade do salário mínimo em vigor na África do Sul. A empresa "está confiante nos proventos a extrair do promissor investimento feito no nosso país. De acordo com Peter Staude, director executivo da «Tongaat Hulett», esta empresa prevê arrecadar dentro em breve lucros na ordem dos 360 milhões de randes resultantes da produção não só da Açucareira da Mafambisse como também da unidade de Xinavane."

Recenseamento e dúvidas

Diz o "Notícias" de hoje que as coisas correm bem no Censo da População e Habitação. Mas o Gabinete Central de Recenseamento defende que as pessoas não se devem alhear do processo, dado tratar-se de um “exercício de cidadania” e que por isso devemos "ficar alegres de sermos contados para dizer que estamos aqui." Em Maputo persistem dúvidas sobre o processo "com alguns cidadãos a questionarem sobre benefícios imediatos do processo para as suas vidas e a manifestarem indisponibilidade para colaborarem."

Habitantes de Chalaua não querem o chefe do posto

Segundo o "Notícias" de hoje, habitantes do posto administrativo de Chalaua, no distrito de Moma, em Nampula, pediram a substituição imediata do chefe do posto, Alfredo Carmo Mussa, que é acusado de esquecer os problemas locais em favor de enriquecimento fácil, facilitando quer o tráfico de madeira explorada em Pebane, na vizinha província da Zambézia (e escoada através de Chalaua), quer a extracção e a comercialização de recursos minerais na região de Mavuco. Um dos queixosos disse: “A casa do chefe do posto mais se parece com um monstro, sobretudo no período da noite por falta de um candeeiro e isso retira o poder ao Estado, porque um simples camponês consegue garantir a iluminação da sua residência. Para onde vai o dinheiro que o Governo atribui para as despesas do seu representante aqui em Chalaua”.

02 agosto 2007

O risco dos falsos recenseadores

Telefonemas e msgs em telemóveis avisam de um roubo de material destinado ao Recensamento Geral da População e Habitação, no momento em que foram feitos apelos veementes para a participação massiva dos cidadãos, incluindo o do Presidente Guebuza.
O porta-voz do gabinete coordenador do recenseamento, João Loureiro, desmentiu o roubo mas disse que a vigilância era necessária - o próprio Presidente da República o disse -, até porque há 117 mil agentes de campo.
Num país, numa cidade como Maputo onde os cidadãos vivem diariamente preocupados (e cada vez mais) com a segurança, o surgimento em suas casas de pessoas pretendendo saber dados sobre o que fazem, onde vivem e como vivem é motivo sério de preocupação.

Peroni, la birra meravigliosa



Linda, impoluta, cheia de coisas doces, de cores divinas, sem micaias sociais, optimista, polvilhada de fait-divers encantadores, com um elenco de colunistas de luxo, a nova revista "Positiva" anuncia, em seu número sete, em três páginas, um acontecimento emblemático: a "entrada triunfal" em Moçambique, pela porta de Maputo, da Peroni, a bela cerveja italiana, la birra meravigliosa, la diva. A Peroni Nastro Azzuro foi até, há dias, motivo de um encontro espectacular, com desfile de modas a condizer, reunindo tudo o que é bem-pensante, bem-falante e bem-trajado na cidade. E, naturalmente, como se tornou hábito por todo o lado, os nossos bons rapazes tinham de estar de camisete e boné a condizer. Não tenho qualquer dúvida de que estamos perante mais uma frente na luta contra a pobreza.

Pobreza o diabo! Desenvencilhanço racional sim!


Faz alguns anos já que, em douta discussão havida num júri das provas orais de licenciatura na antiga UFICS de um candidato cuja tese sobre a lixeira de Hulene dirigi, um extremado colega, bom leitor de Simmel e praticante atlético da sociologia profunda, disse-me que não se podia falar em pobreza na lixeira a partir do momento em que as pessoas lá sabiam desenvencilhar-se e de forma bem racional (sic). Sem dúvida que esse era e é um colega de pensamento profundo. Lembrei-me dele a propósito desta foto aqui. E, lá na lixeira do Hulene, periferia da cidade de Maputo, as garrafas plásticas de água mineral também eram e são completa e rigorosamente aproveitadas. Certamente com tampas e tudo, caso estas fossem e sejam encontradas. E, claro, a um trabalhador que fosse e seja bom cumpridor das suas tarefas laborais dar-lhe-íamos, aqui, o prémio da auto-estima desenvencilhadora.

Os mais baixos salários da SADC pagam-se em Moçambique


É em Moçambique que são pagos os mais baixos salários da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral. Naturalmente que isso é excelente para o Capital. Entre nós, ainda ninguém surgiu para analisar a forma como, à retaguarda dos discursos ditirâmbicos sobre o crescimento da macro-economia moçambicana, se produz e se reproduz uma força de trabalho explorada. Talvez venha a ser eu a fazê-lo um dia. Aliás, não é a primeira vez que o prometo.
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Imagem tirada daqui.

Assassinatos em Mocímboa da Praia: "não se trata de uma acção genuinamente moçambicana" - diz governador de Cabo Delgado


“Pelas características que nos são descritas, dá para concluir que não se trata de uma acção genuinamente moçambicana, porque se for para objectivos obscurantistas ou supersticiosos, nós, moçambicanos, não temos tais práticas." - eis afirmações do governador de Cabo Delgado, Lázaro Mathe, citado pelo "Notícias" de hoje, a propósito do assassinato em Mocímboa da Praia de mulheres a quem são extraídos os órgãos genitais.
Como se recordam, já aqui falei desse tema.
Se não é acção "genuinamente moçambicana", que outro tipo de acção pode ser? Trata-se-á de uma acção genuinamente estrangeira?
Pergunto-me, como em tantas outras coisas me tenho perguntado, se não seria uma boa altura de o Estado solicitar uma investigação ao tema feita por cientistas sociais.
Por exemplo, nós, na Unidade de Diagnóstico Social, estamos dispostos a fazer esse estudo. Que tal?

01 agosto 2007

Só faltava esta: o treinador é olheiro

Segundo o semanário "Magazine Independente" na sua edição de hoje (última página), o espanhol Alberto Blanco, treinador da selecção nacional de basquetebol sénior feminino, nunca treinou qualquer equipa em Espanha, sendo apenas olheiro da equipa de Unicaja. Segundo o semanário, a informação foi prestada pela Federação Espanhola de Basquetebol, contactada telefonicamente pelo número 0034913832050.
E andam as nossas jogadoras (vice-campeãs africanas) tristes após a derrota em Argel face a Angola.
Mas vamos lá, com alguma blancura na próxima vencemos, meninas! E olhem, aqui entre nós: eu nada percebo de basquetebol, mas se quiserem chamem-me que eu vos mostrarei que o nosso país tem excelentes treinadores.

A teoria do governador Mathe sobre morte e extracção de órgãos genitais em Mocímboa da Praia

Volto à notícia da morte de seis mulheres no distrito de Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado. Segundo a Rádio Moçambique, a essas mulheres foram extraídos os órgãos sexuais.
Ora, em conferência de imprensa, o governador da província, Lázaro Mathe, considerou três possibilidades para explicar o fenómeno, a terceira dos quais considerou a mais fiável:
1. Extração de órgãos para transplante, operação que requer cuidados especiais e implica agentes externos. Esta hipótese devia ser afastada pois não tinham sido encontradas evidências locais.
2. Produto da cultura tradicional africana para fins obscurantistas (sic). Hipótese também a rejeitar pois a cultura africana não tem práticas dessas.
3. Tentativa para perturbar o combate dos camponeses contra a pobreza (sic), seja na faina agrícola, seja na carretagem de água. Esta era e é a hipótese mais plausível - sustentou Mathe.
Evidentemente que a teoria do governador merece a nossa atenção pelo muito que encerra de chamada de atenção para mãos com desígnios obscuros. Mãos que, indirectamente, propõe serem internas.
Infelizmente para nós, existem no país indícios, actuais e antigos, da extracção de órgãos humanos para fins mágicos, indícios que surgem frequentemente relatados na nossa imprensa. E essa extracção não tem fins políticos. Mais: visa, por vezes, justamente melhorar o trabalho e, até, favorecer a riqueza.
A propósito desse fenómeno, o "Diário de Moçambique" e os livros de ocorrências nas esquadras da polícia são boas fontes de informação.

Erotismo bloguista em Moçambique (6) (continua)

Achei bem colocar aqui a opinião de Cássia, uma brasileira leitora deste diário, antes de prosseguir a teorização que procuro efectuar. Ela respondeu à seguinte pergunta, por mim feita na sequência do debate nesta série: Oiça, Cássia, deixe-me tentar meter-me no seu argumento e fazer-lhe esta pergunta: acha que caminhamos para uma espécie de era à George Orwell (no pior dos sentidos, o de "1984") e de Aldous Huxley (no melhor dos sentidos, recorde-se de "O melhor dos mundos" e de "Regresso ao melhor dos mundos") em que o erotismo à distância, de net, poderá surgir como uma espécie de pílula substituta da realidade, uma aspirina ou algo assim? Algo de tão mais forte quão mais forte se tornar a distância em relação à realidade ou a sua recusa?

"Caro Carlos, a substituição da realidade por um espaço virtual onde tudo é possível já é concreto para milhares de pessoas, pelo menos as que embarcam no Second Life (um simulador virtual em três dimensões, lançado em 2003 e que tem seus espaços construídos por seus próprios membros. Os usuários se cadastram em http://www.secondlife.com/ e podem criar personagens para viver situações baseadas na vida real).
O Second Life permite aos seus usuários viver o que a realidade não permite: aparência física ideal, superação das dificuldades de relacionamentos, enfim, recriar-se a si mesmo e viver plenamente seus desejos ocultos. O tempo real complica as possibilidades da imaginação, pois quando o signo e a coisa se transformam no mesmo, falha-se o desejo. O erotismo encontrou no mundo virtual uma forma de driblar essas dificuldades. Amparado no anonimato permite que as pessoas expressem, sem medo, sua sexualidade, oferecendo estímulo para que a fantasia se desenvolva. Como bem colocastes no post, na pornografia - ou erotismo - “o corpo em si tem de ser abolido e simbolicamente reconstruído como objecto .” O que exprime à perfeição a idealização que fazemos do outro nos relacionamentos virtuais.
Nesse mundo artificial e perfeito (a exemplo do que ocorreu nos modelos concebidos por Huxley e Orwell - lembre seu comentário), as pessoas que se sentem inadequadas no mundo real encontram satisfação plena a ponto de muitas delas desistirem dos relacionamentos reais. O modelo começa a falhar, na medida em que projetamos nossas expectativas reais - pois não há possibilidade de alienação total - e passamos a desejar a presença, o toque, da pessoa idealizada. Caso o encontro aconteça, o engano se confirma, a decepção acontece e o sofrimento nada a deixa a desejar a qualquer relacionamento do mundo real que termine em desilusão. Quanto à pergunta do post que me fez, sim, todos os seres humanos têm necessidade, em menor ou maior grau, de fantasias, de evasão, de fuga da realidade. Das superstições às religiões, do cinema à literatura, dos sonhos que temos acordados às fantasias sexuais desde sempre convivemos com realidades artificiais. O momento é das relações virtuais através da Internet, mas outros mecanismos de superação já estão nesse momento em gestação para substituir a Internet.
Cássia"