06 novembro 2013

Diário de campanha (2)

Segundo número da série. Segundo o portal da "Rádio Moçambique": "No showmício, em que ele foi apresentado publicamente como candidato da Frelimo para a Presidência de Maputo, Simango afirmou-se confiante na vitória e disse que irá ganhar de forma esmagadora e convincente." A palavra "esmagadora" merece ser estudada em profundidade, clinicamente, em todo o seu sentido darwiniano. (imagem do CIP).
(continua)
Adenda às 17:27: o jornal "Faísca" digital do Niassa esteve dois meses interrompido, mas felizmente regressou. Segue-se abaixo um extracto da edição 628 com data de hoje (amanhã trago mais):

Cenários pós-Santungira (16)

Décimo sexto número da série. No segundo dos cinco pontos do sumário proposto no número inaugural, com a indicação expressa de que em todos eles apenas terei em conta pequenas hipóteses que, absolutamente, precisam ser testadas. 2. O cenário da guerrilha líquida de baixa intensidade. Tudo o que é sólido se desfaz, escreveram Marx e Engels há mais de 150 anos. No nosso caso, o que parecia sólido (apesar de inúmeros escolhos) em termos de gestão de rivalidades políticas através do parlamento e das eleições, desfez-se, os tiros estão novamente à solta, as mentes rearmaram-se, os mortos e os feridos regressaram, os carros queimados reapareceram. Por outras palavras: passámos da “paz sólida” para a “paz líquida”, volátil, irregular, para adaptar expressões do sociólogo polaco Zygmunt Bauman (“modernidade sólida”/”modernidade líquida”). Se não se importam, prossigo amanhã.
(continua)
Adenda às 15:37: o "CanalMoz"/Facebook" reporta um ataque hoje em Manica, troço Muxúngué/Inchope, aqui. Por agora, parece ser o único órgão de informação digital a fazer referência ao ataque.
Adenda 2 às 16:08: um trabalho da "LUSA" sobre o "reapetrechamento das forças armadas", aqui.

05 novembro 2013

Risco de caos social

Sucedem-se os ataques na Estrada Nacional n.º 1, província de Sofala, regressam os horrores da guerra civil terminada em 1992. Sucedem-se, também, os raptos, especialmente em Maputo. Duas dimensões de um mesmo ataque e rapto da moçambicanidade. Incerteza, medo, risco de caos social. Esta é uma situação que exige uma postura urgente e frontal do nosso governo. Absolutamente.
Adenda às 20:09: falando para a estação televisiva STV, jornal da noite das 20 horas, o ex-presidente Joaquim Chissano afirmou que, em relação à Renamo, é necessário haver um diálogo sério sem imposições e uma abertura do governo.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Diário de campanha (2); Cenários pós-Santungira (16); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (27); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (68); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Nota: a pouco e pouco tentarei abandonar a modalidade das séries, combinando textos/cabeçalhos curtos aqui e textos longos aqui, método que já comecei a ensaiar. 

Cenários pós-Santungira (15)

Décimo quinto número da série. Termino o primeiro e inicio o segundo dos cinco pontos do sumário proposto no número inaugural, com a indicação expressa de que em todos eles apenas terei em conta pequenas hipóteses que, absolutamente, precisam ser testadas. 1. O significado de Santungira. Escrevi que Santungira era produto dos fenómenos propostos aqui. Mas não só: esta terra da Gorongosa era, também, simbolicamente, um processo compensatório e um manifesto extremo contra o efeito halo. Compensatório, no sentido em que pelo sacrifício, pela frugalidade, pela heroicidade e pela fidelidade, a liderança da Renamo pretendia mostrar que estava em sintonia com a pobreza do povo, que vivia como esse povo. Partido conservador, partido da direita, a Renamo tem procurado, em linha com o populismo mais moderno, apresentar-se como vanguarda das aspirações e das críticas populares. A este nível, Santungira foi preparada para ser mais do que uma base guerrilheira, foi cenicamente organizada para ser um retorno político vistoso às origens rurais. Como escreveu um dia Georges Balandier, "Todo o sistema de poder é um dispositivo destinado a produzir efeitos, entre os quais os que se comparam às ilusões criadas pelo teatro." Por outro lado, Santungira era, também, um manifesto extremo contra o efeito halo, no sentido em que, criminalizada em permanência em função do seu passado, não importando o que fizesse ou faça, a Renamo procurou e procura, pela retoma da guerrilha, pelo resgaste da história castrense, mostrar que protestava definitivamente contra a lógica política da soma-zero.  2. O cenário da guerrilha líquida de baixa intensidade. Segue-se, agora, o segundo ponto do sumário. Mas, se não se importam, prossigo amanhã.
(continua)
Adenda às 6:28: o presidente Guebuza convidou Dhlakama para um encontro dia 8, na cidade de Maputo. Confira aqui.
Adenda 2 às 14:48: o "@Verdade/Facebook" reporta um novo ataque esta manhã na região de Vandúzi, confira aqui.
Adenda 3 às 19:31: notícia preocupante aqui. No seu noticiário das 19:30 da "Rádio Moçambique", há o registo de 16 feridos.

Diário de campanha (1)

"O grande actor político comanda o real pelo imaginário", escreveu um dia Georges Balandier. A propaganda eleitoral visa seduzir e dirigir a opinião pública, levá-la a acreditar no imaginário oferecido, a tomá-lo pelo real imediato ou futuro. O seu fundamento assenta na imagem que as pessoas são levadas a construir desse real. Para isso, uma das estratégias dos programadores da teatrocracia eleitoral consiste em levar os leitores potenciais a acreditar e a aceitar o poder do candidato, o seu prometido poder de poder. Para gente carenciada, a propaganda-espectáculo é potencialmente hipnótica (imagem do CIP).
(continua)
Adenda às 7:52: "Temos indicação que em vários municípios desde os primeiros minutos desta terça-feira começaram a ser colados cartazes de campanha."
Adenda 2 às 9:52: Podemos considerar dois tipos candidatos eleitorais: o candidato-aspirina e o candidato-antibiótico. O que é um candidato-aspirina? Um candidato-aspirina é aquele que não tem qualquer intenção de alterar o coração e as regras de funcionamento de um país ou de uma cidade, propondo, apenas, medidas destinadas a remendar ou a melhorar o que já existe, aspirinas para suavizar a febre social, acalmar pequenas dores. Quanto mais aspirínica for a alma, mais o seu candidato socorrer-se-á de lemas pomposos do género "Comigo o país será outro"; quanto mais dependente de um partido, menos inovador será.
Adenda 3 às 9:55O que é um candidato-antibiótico? Um candidato-antibiótico é aquele cuja intenção primordial é a de alterar o coração e as regras de funcionamento de um país ou de uma cidade no sentido genuíno de melhorar a condição social dos seus habitantes, especialmente dos mais carenciados, o que significa também melhorar o meio-ambiente. Em lugar de ser pensado, o candidato-antibiótico pensa; em lugar de ser o peão vegetativo de um partido, é uma mais-valia pensante para esse partido; em lugar de favorecer colegas, amigos, companheiros de jornada e parentes, favorece os que não têm quem os favoreça e defenda; em lugar de ser a voz dos poderosos, torna-se a voz dos deserdados e esquecidos. Isso significa que o candidato-antibiótico tem de ser íntegro e corajoso.
Adenda 4 às 11:36: o "@Verdade" criou um portal eleitoral, aqui. Apreciação: excelente.
Adenda 5 às 11:38: temos, já, a "guerra" dos panfletos.
Adenda 6 às 20:55: se o candidato da Frelimo na cidade de Maputo promete construir um metro de superfície, o candidato do MDM em Chimoio promete não fazer comícios e estar lá onde está o povo.

No prelo

Observar, sentir e analisar: a caixa negra do social - eis o título do meu próximo livro.

04 novembro 2013

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Cenários pós-Santungira (15); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (27); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (68); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Nota: a pouco e pouco tentarei abandonar a modalidade das séries, combinando textos/cabeçalhos curtos aqui e textos longos aqui, método que já comecei a ensaiar. 

Cenários pós-Santungira (14)

Décimo quarto número da série. Prossigo no primeiro dos cinco pontos do sumário proposto no número inaugural, com a indicação expressa de que em todos eles apenas terei em conta pequenas hipóteses que, absolutamente, precisam ser testadas. 1. O significado de Santungira. Entro, agora, no último dos nove pontos propostos aqui, com a seguinte formulação - Nampula e Santungira: aposta política no sacrifício, na frugalidade, na heroicidade e na fidelidade.  O conjunto dos fenómenos anteriormente apresentados está na origem da transformação primeiro de Nampula e depois de Santungira, em centros da recondução da Renamo ao aguilhão do seu nascimento e da sua vida castrense. O clímax estava a ser Santungira, lá onde o seu presidente tinha criado uma espécie de palácio governamental sombra, de governo político alternativo, lá onde dava conferências de imprensa, lá onde se abria ao mundo das parangonas, lá onde repetia que sem Renamo não era possível a vida política do país, lá onde, opondo-se ao fausto de Maputo, vivia numa casa modesta protegido pela sua guarda pretoriana trajada de verde. Mas tudo isso não dizia unicamente respeito ao resgaste da história, pois era, também, um processo compensatório e uma luta contra o efeito haloSe não se importam, termino amanhã este nono ponto, para entrar no segundo ponto do sumário geral, com a seguinte formulação: 2. O cenário da guerrilha líquida de baixa intensidade.
(continua)

Adenda às 15:00: "TIM/Facebook" e "@Verdade/Facebook" referem um novo ataque no troço Save/Muxúngué. Aqui e aqui.
Adenda 2 às 15:05: nenhuma referência, ainda, na "Rádio Moçambique".
Adenda 3 às 16:29: "Até agora, as condições de segurança estão lá, existem, mas se nos dias antecedentes à votação não houver condições de segurança ou acontecerem ataques, os eleitores não se sentirão seguros, estarão inquietos, e aí as eleições podem ser adiadas", disse Abdul Carimo."
Adenda 4 às 20:20: segundo a estação televisiva "STV" no jornal da noite das 20 horas, no ataque mencionado na adenda 1 ficaram feridos um moçambicano e um sul-africano.

A "nobre mentira" de Platão

Generosos e sistemáticos anúncios nos jornais e nas televisões do país, dão conta da existência de estabelecimentos de ensino primário e secundário privados oferecendo excepcionais meios de ensino, aprendizagem e recreação. Sem dúvida que essa aposta na qualidade deve alegrar-nos muito. O problema começa quando comparamos o que privadamente é oferecido no mercado com o que existe nas escolas estatais. Uma diferença pungente que faz evocar a "nobre mentira" de Platão.
De acordo com uma história aparentemente fenícia citada por Platão, haveria que ensinar nas escolas a «nobre mentira» (sic) de que os seres humanos vieram ao mundo todos irmãos mas feitos de metais diferentes, a saber: o ouro para os que deviam comandar, uma mistura de ouro e de prata para os auxiliares e uma mistura de ferro e de bronze para os trabalhadores. Como a vida se poderia encarregar de misturar os metais, haveria, então, que vigiar todo o processo de montante a juzante e pôr rapidamente cobro a qualquer tipo de alteração da ordem social. [Platon, La République. Paris: GF-Flammarion, 1966, pp. 166-167].

Morte da história urbana

Como cogumelos, prédios enormes vão crescendo na cidade de Maputo, com a mesma velocidade com que cresciam os seus antepassados nos anos 60 e 70 da Lourenço Marques colonial. Velhas casas, velhas mansões, velhos edifícios (alguns creio que de entre 1920 e 1950) vão sendo destruídos, dando lugares a vistosos edifícios destinados a lojas, bancos, apartamentos e parques de estacionamento. Ao mesmo tempo, as zonas verdes vão sendo ocupadas com luxuosas vivendas e luxuosos condomínios. Daqui a mais alguns anos, se o ritmo de construção civil assim prosseguir, a cidade de Maputo ter-se-á esquecido da história urbana. Nenhuma história se mantém se não for desejada e respeitada.

Sobre corrupção

No CIPNewesletter 19 deste mês, Baltazar Fael e Edson Cortez procuram mostrar que o "Controlo da corrupção não foi prioridade na agenda da governação no período 2005-2013". A conferir aqui.

Moçambique 233

Vários temas da actualidade no Moçambique 233 editado por Joseph Hanlon, aqui.

03 novembro 2013

Campanha eleitoral começa terça-feira

Confira o Boletim sobre o processo político em Moçambique n.º 35, com data de hoje, aqui.
Adenda às 19:07: citando a Agência de Informação de Moçambique, um portal noticia novo ataque hoje, contra alvos civis, desta vez na ponte sobre o rio Púnguè, a 15 quilómetros da sede de Gorongosa, província de Sofala. Aqui.
Adenda 2 às 19:12: depois de amanhã, na minha série Cenários pós-Santungira, confira no número 15 o ponto intitulado O cenário da guerrilha líquida de baixa intensidade.
Adenda 3 às 19:18: o ataque relatado pela TIM, aqui.
Adenda 4 às 19:31: o ataque não consta das manchetes da "Rádio Moçambique" no seu noticiário das 19:30.
Adenda 5 às 19:59: uma equipa de reportagem da STV estava no local (deu conta do ataque no jornal da noite das 20 horas), no momento em que se ouviam tiros, cerca das 6 horas de hoje, sobre a ponte do Rio Púngué, a 160 quilómetros da cidade da Beira. O condutor de um camião teve ferimentos ligeiros, o camião foi seriamente danificado. O condutor disse que foram cinco homens os autores do ataque, homens que o mandaram parar antes de chegar à ponte, mas ele não obedeceu e daí o tiroteio. Por baixo da ponte uma brigada da Força de Intervenção Rápida respondeu com tiroteio intenso, mas os atacantes já se tinham posto em fuga.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Cenários pós-Santungira (14); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (27); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (68); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Nota: a pouco e pouco tentarei abandonar a modalidade das séries, combinando textos/cabeçalhos curtos aqui e textos longos aqui, método que já comecei a ensaiar. 

Cenários pós-Santungira (13)

Décimo terceiro número da série. Prossigo no primeiro dos cinco pontos do sumário proposto no número inaugural, com a indicação expressa de que em todos eles apenas terei em conta pequenas hipóteses que, absolutamente, precisam ser testadas. 1. O significado de Santungira. Escrevi no número anterior em relação ao ponto oito dos nove propostos aqui que recursos naturais são recursos de poder extremamente desejados e que a Renamo aspira a partilhá-los. Essa é uma das razões por que Santungira é (talvez fosse melhor dizer "era"), também, a expressão física dessa vontade. Os recursos de poder desse tipo permitem alimentar múltiplas redes clientelistas alicerçadas na fidelidade pessoal e política. Ora, num país no qual as elites seguem com extrema atenção as revelações do grande Capital internacional sobre as riquezas existentes em terra e mar, a Renamo não tem com que assegurar em permanência, autonomamente, a fidelidade dos seus membros e dos seus apoiantes, para além, ao que parece, do fundo de cerca de três milhões de meticais que recebe anualmente do Estado por ser um dos partidos com assento na Assembleia da República. Se não se importam, prossigo amanhã.
(continua)
Adenda às 6:57: uma boa notícia aqui.

No "Savana" 1034 de 01/11/2013, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do semanário "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei.
Adenda: também agora na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

Uma posição sobre o Estado em África

02 novembro 2013

Dados de um jornal da noite

Alguns dados do jornal da noite das 20 horas da STV - milhares de pessoas fizeram em Nampula o que outros milhares tinham feito em Maputo, Beira e Quelimane: protestar contra a violência, a prepotência, a corrupção e o assalto à segurança das pessoas. Entre as várias intervenções na manifestação, houve esta: "Não é matando um líder que vão acabar com o descontentamento do povo" (sic). Sobre a violência, o chefe da brigada do Partido Frelimo em Nampula, José Pacheco, disse que as mensagens sobre esse tema deveriam ser endossadas à Renamo. Entretanto, pessoas ouvidas em Muxúnguè (onde reina um clima de medo), província de Sofala, disseram que viram dois helicópteros sobrevoar a serra da Gorongosa. Por outro lado, um porta-voz da Renamo na cidade da Beira afirmou que o seu partido vai processar judicialmente a Força de Intervenção Rápida pela invasão ontem da sua sede e das suas residências, onde - asseverou - foram destruídos muitos pertences. Finalmente, o general na reserva Raimundo Pachinuapa disse na Matola que o país corre o risco de um retorno à guerra civil.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Cenários pós-Santungira (13); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (27); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (68); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Nota: a pouco e pouco tentarei abandonar a modalidade das séries, combinando textos/cabeçalhos curtos aqui e textos longos aqui, método que já comecei a ensaiar. 

Cenários pós-Santungira (12)

Décimo segundo número da série. Prossigo no primeiro dos cinco pontos do sumário proposto no número inaugural, com a indicação expressa de que em todos eles apenas terei em conta pequenas hipóteses que, absolutamente, precisam ser testadas. 1. O significado de Santungira. No número anterior escrevi um pouco sobre os pontos 6 e 7 dos nove propostos aqui. Passo agora ao penúltimo ponto, o oitavo. Vivemos no país a euforia dos recursos minerais, multiplicam-se, ao mais alto coturno, os interesses, as ofertas, as parcerias de negócios, as empresas de serviços, as royalties. Recursos naturais são recursos de poder extremamente desejados. A Renamo não está desatenta e aspira a partilhá-los. Falar de Santungira equivale, então e também, a falar da aspiração a esses recursos, abundantes, por exemplo, na província de Tete. Se não se importam, prossigo amanhã.
(continua)
Adenda às 7:00: eis o que terá dito Luís Magaço, presidente da Política Financeira da Confederação das Associações Económicas Moçambicanas, sobre a busca ontem efectuada a sedes e em residências da Renamo, segundo a "Rádio França Internacional", aqui.
Adenda 2 às 7:05: despacho da "Deutsche Welle", aqui.
Adenda 3 às 7:22: confira os despachos do jornal digital zimbaweano "The Herald", aqui.
Adenda 4 às 7:25: segundo o portal da "Rádio Moçambique": "O chefe das operações do Comando da PRM, Guilherme Chauque, disse à Imprensa que acção foi levada a cabo em cumprimento de uma ordem judicial que, entretanto, não foi tornada pública." Aqui.
Adenda 5 às 8:14: "Entretanto, algumas embaixadas em Maputo contactadas pela Voz da América colocaram muitas hesitações em acolher o líder da Renamo, a menos que seja com uma comunicação do Governo moçambicano, já que isso pode ser interpretado política e diplomaticamente muito mal." Aqui.
Adenda 6 às 12:35: os portais da "TIM" e da "@Verdade"/Facebook dão conta de mais um ataque que terá acontecido ontem à noite na Estrada Nacional n.º 1. Aqui e aqui.
Adenda 7 às 12:41: nenhuma referência no noticiário da "Rádio Moçambique" das 12:30.

Nenhum rio é violento quando as margens não o comprimem

"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem." - uma extraordinária fórmula extraída de um poema de Bertolt Brecht, fórmula que tenho usado com frequência aqui e em livros meus.
Permiti-me adaptá-la da seguinte maneira: nenhum rio é violento quando as margens não o comprimem.
Vem isso a propósito das manifestações que se realizaram quinta-feira em Maputo, Beira e Quelimane. Nessas manifestações as pessoas expressaram de forma directa, sem rodeios, o que sentiam em relação à sua segurança e aos seus sonhos. Mais: deram ao país e ao mundo um extraordinário exemplo de civismo, de educação.
Provavelmente teríamos tido um quadro sombrio caso os gestores do poder tivessem tentado proibir ou perturbar as manifestações. Mas felizmente isso não sucedeu.
Por outras palavras: nenhum rio é violento quando as margens não o comprimem, nenhum povo é violento quando o poder político não os oprime, nenhuma manifestação é violenta quando não se atribui malevolência a quem se manifesta.

Edição 1034

A África desde o fim da Guerra Fria

Com o título em epígrafe, um texto divulgado em 2009 da autoria de Ricardo Soares de Oliveira, aqui.

01 novembro 2013

Polícia busca e apreende em sede e residências da Renamo na Beira

Segundo a "Rádio Moçambique" no jornal da noite das 19:30, sob mandato do Tribunal Judicial de Sofala a polícia efectuou esta manhã uma busca e apreensão de material bélico na sede da Renamo na cidade da Beira, na residência de Afonso Dhlakama localizada no Bairro Macúti e na residência de um ex-deputado da Renamo. Segundo o chefe de operações da polícia, foram detidos nove ex-guerrilheiros, apreendidas 494 munições e recolhido fardamento. Não houve troca de tiros, acrescentou o locutor da rádio, mas a polícia disparou para o ar.
Adenda às 20:16: segundo a estação televisiva STV no jornal da noite das 20 horas, nenhuma arma foi encontrada pela polícia. Pessoas ouvidas junto à sede da Renamo disseram que as portas da sede foram arromabadas e houve agressões. Os detidos, em número de sete, foram libertos algumas horas depois.
Adenda 2 às 20:19: intervindo numa instituição de ensino superior do país sobre a situação política do país e em registo da STV, Tomaz Salomão afirmou que era preciso encontrar bom senso mesmo lá onde ele não existe (sic).
Adenda 3 às 20:22: em relação ao ataque feito a uma coluna militar na zona de Muxúnguè, a STV informou que o condutor morreu e a viatura foi queimada. Recorde a adenda 4 desta postagem aqui.
Adenda 4 às 20:27: a propósito do ataque, o jornalista Francisco Mandlate da STV disse que as pessoas que moram perto da Estrada Nacional nº.1 na região de Muxúnguè, não abandonam as suas residências e os seus locais de trabalho, apesar de apreensivas. O jornalista deixou as seguintes perguntas: será que apoiam a Renamo e a protegem? Será que são eles os atacantes que depois se disfarçam de residentes pacíficos?
Adenda 5 às 20.45: a ofensiva anti-Renamo tem, certamente, muitas arestas causais. Provavelmente a proximidade das eleições autárquicas é uma delas. Por outras palavras: a ofensiva pode querer bloquear na Renamo a capacidade de impedi-las ou de perturbá-las.
Adenda 6 às 6:44 de 02/11/2013: "Garantiu que as forças de Lei e Ordem estão preparadas para garantir que as eleições municipais naquela região do país decorram sem qualquer perturbação." - uma aparente prova do que escrevi na adenda anterior. Aqui.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Cenários pós-Santungira (12); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (27); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (68); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Nota: a pouco e pouco tentarei abandonar a modalidade das séries, combinando textos/cabeçalhos curtos aqui e textos longos aqui, método que já comecei a ensaiar. 

Nenhum rio é violento quando as margens não o comprimem

Amanhã edição 1034 neste diário

Cenários pós-Santungira (11)

Décimo primeiro número da série. Prossigo no primeiro dos cinco pontos do sumário proposto no número inaugural, com a indicação expressa de que em todos eles apenas terei em conta pequenas hipóteses que, absolutamente, precisam ser testadas. 1. O significado de Santungira. No número anterior escrevi um pouco sobre os pontos 4 e 5 dos nove propostos aqui. Passo agora aos pontos 6 e 7. Todas as propostas de discussão ou de alteração de não importa que campo institucional e/ou legal da vida do país, apresentadas pela Renamo, têm sido sistematicamente recusadas na Assembleia da República, ano após ano, através do voto maioritário da Frelimo, com base nos mais variados argumentos. Este é um campo de desgaste da auto-estima (permitam a palavra da moda política) do partido. Mas não só. As constantes promessas de manifestações de protesto e desobediência civil prometidas por porta-vozes do partido há vários anos têm sido constantemente adiadas, desgastando a sua credibilidade. Por outras palavras: a Renamo tem sido vítima de um duplo constrangimento, para si própria quando actua na civilidade parlamentar e não logra vencer, para outrem quando promete trazer e não traz para as ruas o que chama protestos populares. Se não se importam, prossigo amanhã nos restantes pontos.
(continua)
Adenda às 6:13: leia no "Mail&Guardian" um pequeno texto intitulado "Renamo de Moçambique: uma curta história" da "Agence France-Presse", aqui.
Adenda 2 às 6:18: leia um texto de Isabel Pinto Machado intitulado "Moçambique viveu as maiores manifestações de sempre de crítica ao governo", na "Rádio França Internacional", aqui.
Adenda 3 às 6:27: "Não haverá guerra civil", assegura o presidente Armando Guebuza, confira um pequeno vídeo aqui.
Adenda 4 às 16:02: Segundo a "Rádio Moçambique" no noticiário das 16 horas, a polícia de intervenção rápida ocupou hoje a sede da Renamo na cidade da Beira, tendo o comandante da corporação afirmado que irá pronunciar-se sobre isso mais tarde. Confira também aqui. Entretanto, uma pessoa morreu ontem na Estrada Nacional n.º 1 num ataque contra um camião, que, segundo a rádio, foi incendiado por homens armados da Renamo. Este é o terceiro ataque numa semana na região de Muxúnguè, província de Sofala.
Adenda 5 às 17:04: versão do "Verdade", aqui.

O desafio de 5 de Novembro

Começa formalmente no dia 5 deste mês a campanha eleitoral para as eleições autárquicas que se realizarão no dia 20, com apenas dois partidos concorrendo nos 53 municípios, designadamente Frelimo e MDM, sob ameaça de boicote por parte da Renamo. Um enorme desafio face à turbulência político-militar e à ansiedade que se vive no país.