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30 agosto 2019

Evacuação da história

Há como que um consenso elitário em torno de uma africanidade essencial, biologizada e a-histórica, agindo homeostaticamente em todos os Africanos, operando a modos de um tropismo ou de um reflexo pavloviano. Nas palavras de Balandier, como se fixadas num eterno presente etnográfico. Um bom e recorrente exemplo é o de muitos de nós dizermos, serena e quantas vezes publicamente, que a norte do Zambeze as populações são matrilineares e a Sul, patrilineares, como se só esse pudesse ser o fatal e congelado destino dos Moçambicanos.

31 maio 2019

Propaganda eleitoral

"O grande actor político comanda o real pelo imaginário", assim escreveu um dia Georges Balandier . Comandar o real pelo imaginário e fazer levedar o real com o símbolo e a utopia, tentar persuadir as pessoas de que é possível ser-se outramente ou de que é possível ver-se outramente, enfim produzir a imagem, a crença, a vertigem da "instituição imaginária da sociedade" (expressão de Cornelius Castoriadis), bem como os reflexos adequados - tal é o objectivo central do conjunto de técnicas da propaganda eleitoral. A propaganda eleitoral visa seduzir e dirigir a opinião pública. O seu fundamento não é o real, mas a imagem que as pessoas constroem desse real.

09 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [17]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
17. Número anterior aqui. Porém, a forma como um bom programa é aceite, premiado ou punido pelo voto depende de múltiplos factores, entre os quais a capacidade popular de avaliação do povo, capacidade que raramente é aceite pelos políticos. Quando os programas são expostos em praça pública, no fervor da compita, esse povo avalia muita coisa. Avalia, por exemplo, a distância entre o prometido futuro do programa e a realidade do dia-a-dia, entre a história local e a história criada pelo político, entre o inferno e o paraíso.

08 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [16]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
16. Número anterior aqui. Importa ser prudente no tocante à eficácia absoluta da engenharia política. Por exemplo, existe a crença tenaz de que o povo precisa de ser guiado, ensinado, monitorado, de que é um quadro virgem onde se deve e pode escrever o que o candidato e seu partido pretendem. Por isso parte-se do princípio de que um bom programa deverá, racionalmente, ser aceite. Por quê? Porque – argumenta-se de forma veemente - é um bom programa, um programa racional, um programa de futuro, um programa que leva em seu bojo as aspirações populares. 

07 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [15]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
15. Número anterior aqui. A engenharia política conta no seu arsenal com o recurso aos curandeiros e às forças do invisível. Os candidatos procuram munir-se de uma cesta de facilitadores mágicos de campanha. Quanto mais precavido se é, mais poder se tem na gestão das forças do invisível - assim se crê. A este nível, o curandeiro é bem mais do que um gestor das crenças e das expectativas populares, é um elemento político fundamental na antecâmara dos corredores do poder desejado.

06 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [14]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
14. Número anterior aqui. A direção do voto pode também ser influenciada por múltiplos fios identitários. Esses fios identitários podem começar na família, passar pelos locais de trabalho, recreação e culto e terminar em unidades mais vastas do tipo etnia ou região.
Importantes podem ser, também, os fios de certos acontecimentos históricos – vitórias militares, tradições de resistência a invasores, etc.

05 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [13]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
13. Número anterior aqui. Quanto mais gente estiver presente no comício mais o líder se convence de que tem a seus pés a nação inteira em formato concentrado. A gestão cerimonial está intimamente associada a um certo tipo de relato jornalístico que acentua a presença de multidões felizes e faz passar a ideia forte de que o líder é amado por muitas pessoas. Capacidade de juntar muitas pessoas é vista como produto de legitimidade política.

04 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [12]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
12. Número anterior aqui. A multidão é o desejo veemente do líder, grande ou pequeno, falando na capital cosmopolita ou na modesta sede do posto administrativo. Nos comícios, o líder tem a seu pleno cargo lúdico a gestão cerimonial - panorâmica e vertical - dos súbditos presentes, ele num estrado ou num palanque rodeado de assistentes e convidados com ar respeitoso, súbditos em baixo, de pé regra geral, expectantes, surpresos, fascinados com o espectáculo. Gestão cerimonial meticulosamente preparada por uma corte de funcionários partidários. 

03 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [11]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
11. Número anterior aqui. Os candidatos tentam ser puro espectáculo, produtores de esperança e euforia, mecanismo compensatório para a mesmice e os horizontes tacanhos. E sendo isso, eles-próprios se sentem outros em seu messianismo, em suas promessas de parusia terrena, eles-próprios acreditam no que tentam fazer acreditar, eles-próprios se sentem multidão. Por isso acreditam que vencerão as eleições, que até já as venceram antes de se realizarem.

02 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [10]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
10. Número anterior aqui. Quando mais pequenas as terras, quanto menos povoadas de espectáculos, mais gente aflui aos comícios, lá onde o candidato se multiplica na produção de palavras, de promessas, de gestos e de símbolos, num quadro cerimonial feérico. Saídas do espectáculo de um candidato, as sequiosas gentes logo passam a outro, sempre transversais, rodando de candidato em candidato, de espectáculo em espectáculo, das camisetes de um aos bonés de outro, dos sacos plásticos de um aos porta-chaves de outro.

01 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [9]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
9. Número anterior aqui. Um candidato será avaliado pelo seu estatuto (tese forte: em terra pobre pessoa rica impressiona mais facilmente do que pessoa pobre), por aquilo que antes fez ou tentou fazer em prol dos outros, pela honestidade, pela clareza do que diz, pela exequibilidade do programa eleitoral, pela exposição do poder de poder. Sobre si recairá o ónus dos êxitos e inêxitos dos antecessores. Mas não só. Em certos meios com uma memória viva ainda de um passado de luta, o potencial de força, de heroicidade em feitos de guerra, poderá ser um atributo importante.

31 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [8]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
8. Número anterior aqui. As avaliações populares variam em função de muitas variáveis. Mas, dado que a maioria do nosso povo é camponesa, qualquer candidato será avaliado mais por aquilo que nele é colectivo (partido, por exemplo) do que por aquilo que nele é pessoa, individualidade. Quanto menor for a escolaridade e quanto mais rural for a comunidade, maior será a tendência para avaliar o partido X e não a pessoa Y. Nas cidades e em meios escolarizados, o programa do partido em si tem menor êxito, tanto menor quanto maior for a taxa de escolaridade. O que importa é a pessoa em si.

30 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [7]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
7. Número anterior aqui. Avaliar o desempenho do governo constitui a coluna vertebral das campanhas eleitorais, seja através do partido governante, seja através dos partidos da oposição. Mas o que é governo? Aqui está uma pergunta cuja resposta provavelmente nada tem a ver com a imagem ao mesmo tempo múltipla e unificada que formamos e difundimos no conforto urbano dos gabinetes e dos artigos de jornal. Governo é uma coisa cujo significado pode variar localmente, regionalmente, péri-urbanamente, urbanamente, ruralmente.

29 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [6]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
6. Número anterior aqui. As zonas que foram ou são epicentros de conflito armado podem fazer a balança das preferências inclinar-se para um dado rumo, em função de lealdades castrenses consolidadas, da memória de sevícias sofridas, do registo magnificado de epopeias heróicas, da produção de heroísmos de luta, etc.
As pessoas podem ser meros veículos de determinações que subjugam e ultrapassam a sua independência e inutilizam a eficácia da engenharia política.

28 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [5]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
5. Número anterior aqui. A patronagem, o clientelismo, a ameaça e o medo não podem ser excluídos da análise dos factores que influenciam e muitas vezes determinam o lado votal escolhido, mesmo a nível urbano, onde a gestão dos recursos de poder é uma arma eficaz para assegurar e monitorar lealdades.

27 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [4]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
4. Número anterior aqui. Quanto menor for a escolaridade e mais forte o peso das tradições e da palavra dos guardiões do pensamento local, mais forte é a tendência para seguir o que é dito, proposto ou imposto. Chefes comunitários, caciques políticos e curandeiros podem jogar um papel fundamental nesse campo.

26 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [3]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
3. Número anterior aqui. A avaliação popular de candidatos e programas em tempo eleitoral e, por consequência, a direção do voto, dependem muitas vezes da engenharia política. A engenharia política é tão mais eficiente quanto menor for (1) o conjunto de recursos de sobrevivência diária, (2) a escolaridade, (3) a rede de contactos dos eleitores e (4) a distância dos eleitores em relação aos meios de comunicação.

25 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [2]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
2. Número inaugural da série aqui. Engenharia política é o conjunto de meios e de artefactos (do aparato circulante ao showmício, passando pelas prendas especiais) destinados a criar nos eleitores a convicção de que o político e/ou o partido proponente são capazes de resolver problemas sociais e dessa maneira melhorar a vida dos cidadãos. Espectáculo, teatralização e símbolo dão-se mãos nas campanhas de persuasão.

24 março 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [1]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
1. Aproximam-se os anos eleitorais do país, 2018 e 2019. Eis por que me parece oportuno propor algumas hipóteses sobre engenharia política, mas sem identificar partidos e pessoas.