A apresentar mensagens correspondentes à consulta forças do invisível ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta forças do invisível ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

19 abril 2007

"Médicos sociais" em África (2)

1. A construção social da doença na "medicina" das forças do invisível opera não com as causas naturais ou orgânicas de biomedicina, mas com as causas que socialmente fazem sentido. A doença não é, por regra, um desajuste orgânico, mas um desajuste social em geral e um desajuste familiar em particular.
O mundo da biomedicina tem apenas um universo, o do doente, um universo individual. O mundo das forças do invisível tem vários universos, o da sociedade, viva e morta, na qual vive o doente. Lá é o corpo do doente que faz sentido, aqui são os objectos e as crenças associadas ao mundo escondido do invisível. Lá as coisas não têm cura quando esse é o caso, aqui sempre é possível acreditar na cura pela crença.
A construção social das etiologias localiza, assim, no maneio social e para-social, a chave das doenças e das terapias.
Mesmo ao nível dos herbanários é esse maneio que conta.

2. Tomando em conta 1) a extensão do recurso às forças do invisível, seja ao nível dos crentes, seja ao nível dos "médicos sociais" e 2) as consequêencias, jamais estudadas, da actividade desses gestores das forças do invisível (por exemplo, as consequências das acusações de feitiçaria conduzindo à morte por espancamento, como acontece com frequência na Zambézia), como é que se poder avaliar a contraparte do erro médico da biomedecina e proceder à legisperícia no caso de danos físicos e mortes? De que maneira se pode estabelecer uma avaliação pericial considerando o dano, o nexo causal ou concausal e as circunstâncias em que se verifica o equivalente aqui do erro médico?
São problemas delicados que a nossa paixão pela "cultura tradicional" raramente decide ter em conta e estudar.

20 novembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (4)

Prossigo esta série. Em epígrafe, o terceiro e último exemplo de uma guia de transferência de um processo endereçado por um órgão do Estado à Ametramo, tendo como tema a impotência sexual de um homem (recorde o exemplo apresentado pelo "Notícias", citado no primeiro número desta série), produto de uma pesquisa por mim dirigida em 2008 sobre linchamentos por acusação de feitiçaria numa província do país.
Permitam-me entrar de imediato no primeiro ponto do sumário que vos propus no número anterior.
1. Crença nas forças do invisível. É generalizada a crença popular nas forças do invisível, especialmente nas forças dos espíritos. As pessoas morrem, mas os seus espíritos continuam vivos, interferindo, para bem ou para mal, na vida dos vivos. Por regra, à retaguarda de qualquer fenómeno, especialmente dos fenómenos problemáticos, trágicos, a pergunta que as pessoas fazem não é Qual a causa deste fenómeno?, mas, antes, estoutra: Quem provocou este fenómeno? Para responder a esta pergunta personalizada, humanizada, importa interrogar não o visível, mas o invisível. A psicopatologia, a desordem surgida nas vidas, precisa de uma resposta urgente, do regresso à ordem. E a resposta só pode ser obtida no quadro da intencionalidade atribuída às forças do invisível.
Prossigo brevemente.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

23 novembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (5)

Prossigo a série, de acordo com o sumário proposto aqui.
2. Crença na intencionalidade das forças do invisível. Perante a desordem que grassa, torna-se indispensável saber quem (e não o que) a provoca. A solução do problema só pode ocorrer no quadro da intencionalidade atribuída às forças do invisível. Estas forças actuam em todos os actos dos vivos, para bem ou para mal. Que forças do invisível estão em causa? Em primeiro lugar, as forças dos espíritos; em segundo lugar, as forças desencadeadas pela acção da magia. Em qualquer dos casos, trata-se de encontrar as causas e os antídotos, trata-se de construir o processo da verdade de um circuito que, afinal, é menos do foro da psicopatologia (termo que empreguei no número anterior) do que da sóciopatologia.
Com a vossa permissão, prossigo mais tarde. Foto reproduzida daqui.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

05 dezembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (8)

Prossigo a série, de acordo com o sumário proposto aqui.
4. Crença na legitimidade dos gestores das forças do invisível. Escrevi no número anterior que a crença nas forças do invisível, designadamente espíritos, remete para os gestores dessas forças. O mundo destes gestores é complexo em seus três momentos: indagação, diagnóstico e processo de cura. Este mundo complexo envolve também as forças do visível.
O distúrbio que ocorre é colectivo no sentido de que envolve várias pessoas, envolve famílias, pode mesmo envolver comunidades. Alguém numa comunidade é portador (a) de um malefício que importa domar, malefício que pode ser um espírito rancoroso ou indisposto, malefício que pode ser provocado por uma acto à distância de um feiticeiro. Importa, então, erradicar o mal e, se possível, blindar o ambiente. Os curandeiros - médicos tradicionais na terminologia oficial - são os gestores das forças do invisível.
Com a vossa permissão, prossigo mais tarde. Foto reproduzida daqui.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

19 novembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (3)

Prossigo esta série. Em epígrafe, mais uma guia de transferência de um órgão do Estado para a Ametramo, desta feita a propósito de um reincidente caso de suposta feitiçaria.
Entretanto, regresso ao fenómeno que deu origem a esta série: um marido espírito atribuído, faz três anos, a uma jovem de 15 anos por seu avô.
Neste como em muitos outros casos, importa ter em conta pelo menos quatro fenómenos:
1. Crença nas forças do invisível
2. Crença na intencionalidade das forças do invisível
3. Crença na possibilidade de uso positivo ou negativo dessas forças
4. Crença na legitimidade dos gestores das forças do invisível
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

01 dezembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (7)

Prossigo a série, de acordo com o sumário proposto aqui.
3. Crença no uso positivo ou negativo das forças do invisível. Escrevi no número anterior que as causas da desordem sobrevinda não dizem respeito a uma determinada pessoa, que esta pessoa é apenas o passaporte, digamos que o pretexto do problema. O problema é colectivo, não individual como na biomedicina. A pergunta indagativa não é esta: o que é que provocou este desordem psicosomática na pessoa A? Mas, antes, esta: quem é que está a provocar este problema na família ou na comunidade através da pessoa A? Esta indagação reenvia para a crença no uso positivo ou negativo das forças do invisível. Por sua vez, esta crença remete para os gestores das forças. O mundo destes gestores é complexo em seus três momentos: indagação, diagnóstico e processo de cura. Este mundo complexo envolve também as forças do visível.
Com a vossa permissão, prossigo mais tarde. Foto reproduzida daqui.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

31 outubro 2010

Sobre saúde mental em Moçambique (3)

Mais um pouco da série, colocando algumas ideias, algumas hipóteses.
Tenho por hipótese que uma parte significativa do nosso povo acredita que as infelicidades, que as doenças e que as mortes que nos atingem, não são provocadas por patologias meramente físicas, por microorganismos externos, por distúrbios no organismo ou na psique, pelo orgânico em si. A causalidade do mundo patológico não habita um universo de sentido único, mas um universo de sentidos múltiplos. Acredita-se que as nossas infelicidades, as nossas doenças, são regra geral provocadas por curto-circuitos no relacionamento com as forças do invisível (para usar uma expressão de Tobie Nathan) e seu mundo de regras, permissões e interditos. As forças do invisível - divindades, espíritos, habitando o saber simbólico analógico e mágico (recorde aqui e aqui) - são absolutamente entidades vivas e intervenientes em permanência nas nossas vidas - assim se crê. Mais: A patologia decorrente do curto-circuto não é um problema do doente, de uma entidade individual, mas o problema de um colectivo, de uma família, de uma comunidade. A hipótese que vou defender é a de que os problemas de saúde mental não podem ser analisados fora da epistemologia e da negociação com as forças do invisível. Tal como propus de forma docemente provocatória num seminário sobre saúde mental, é necessário anexar à farmacoterapia, à psicoterapia e às terapias sociais, a espíritoterapia.
(continua)
Adenda: espero que o antropólogo Paulo Granjo e o psiquiatra Jorge Márcio possam aqui dar uma mão, criticando e ampliando o corpo de ideias.

14 maio 2011

Poder e representação: teatrocracia em Moçambique (16)

O décimo sexto e penúltimo número da série, que no seu título usa um termo de Georges Balandier, teatrocracia.
Prossigo um pouco mais o oitavo e último ponto do sumário que vos propus, nível invisibilidade, refiro-me ao poder pelas forças do invisível.
Chegar ao poder, chegar lá acima, manter esse poder, permanecer lá em cima, exige para certos oficiantes políticos a gestão criteriosa das forças do invisível, o beneplácito dos curandeiros, por forma a contornar a influência dos pares antecessores e a concorrência actual. Ser portador de uma cesta de facilitadores mágicos na ascensão; purificar gabinetes, blindá-los contra maus espíritos e tenebrosos ataques mágicos à distância; consultar regularmente o curandeiro para reforço das protecções globais, tudo isso são tarefas a nunca esquecer. Quanto mais precavido se é, mais poder se tem na gestão das forças do invisível - assim se crê. A este nível, o curandeiro é bem mais do que um gestor das crenças e das expectativas populares, é um elemento político fundamental nos corredores do poder.
Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera).
(continua)

29 novembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (6)

Prossigo a série, de acordo com o sumário proposto aqui.
3. Crença no uso positivo ou negativo das forças do invisível. No número anterior perguntei que forças do invisível estão em causa. E respondi da seguinte maneira: em primeiro lugar, as forças dos espíritos; em segundo lugar, as forças desencadeadas pela acção da magia. Em qualquer dos casos, trata-se de encontrar as causas e os antídotos, trata-se de construir o processo da verdade de um circuito que, afinal, é menos do foro da psicopatologia (termo que empreguei em número anterior) do que da sóciopatologia.
As causas da desordem sobrevinda não dizem respeito ao foro físico ou psíquico da (o) doente, esta (e) doente é apenas um passaporte, o receptáculo de um problema ou de um conjunto de problemas que a (o) ultrapassam. Como assim? É que o problema não é individual, mas colectivo.
Com a vossa permissão, prossigo mais tarde. Foto reproduzida daqui.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

14 abril 2008

Espíritos, curandeiros e mercado (2) (continua)

Deixem-me tentar algumas ideias rudemente canhestras, algo que seja possível debater. E rebater, claro.
O problema que me ponho aqui não pertence, regra geral (repito, regra geral, porque a situação altera-se um pouco com o mundo dos herbanários do tipo nhanga), aos saberes biológicos gerais, às doenças explicadas por esses saberes, biomedicamente explicadas e identificadas por esses saberes, mas aos saberes das forças do invisível e dos espíritos, aos desajustes e aos males explicados e provocados por esses saberes, pelos saberes das forças do invisível e do não físico.
Uma desordem orgânica, uma desordem nos elementos naturais, uma desordem na ordem regida pelas forças colectivas e invisíveis dos espíritos, uma desordem que provoca o grande e secreto mal do tipo okhwiri (como, por exemplo, na Zambézia) não tem uma pergunta do género: o que provoca isto? Mas, antes, esta outra pergunta: quem provoca isto?
Sendo o mundo dos vivos havido como comandado pelo mundo do invisível (não menos vivo, ainda que suposto numa outra outra ordem de vida), benévolo ou malévolo; sendo a desordem algo que não é interior, intrínseco ao padecente mas, antes, um produto introduzido do exterior por entidades externas; sendo as entidades externas geradores de malignidade possíveis de contacto, de cumplicidade, de concerto, de cooperação, de domesticação, de comando; então temos todo um sistema de universos múltiplos com três componentes: crença, detecção dos problemas e terapia.
Nota: imagem reproduzida daqui.
Pedido: leitores, por favor corrijam-me caso eu esteja enganado.

20 junho 2012

Forças do invisível na produção de prova

Acusada de matar magicamente uma criança, uma jovem mulher foi condenada por um tribunal comunitário ao pagamento de uma indemnização ainda por fixar, sendo o juiz-presidente citado por um jornal afirmando que ela confessou ter enviado os seus espíritos para matar a vítima como retaliação pela morte da sua filha de 15 anos. A história passou-se no bairro da Munhava Central, cidade da Beira, segundo o "Diário de Moçambique" citado pelo "@Verdade" aqui.
Comentário: Se a descrição corresponde à realidade (tenho para mim que sim, trabalhei alguns meses com material de tribunais comunitários), os juízes aceitaram que a morte de uma criança foi provocada por espíritos malévolos enviados por uma mulher. Uma confissão foi suficiente para provar a acção criminosa das forças do invisível. Este, o primeiro fenómeno. O segundo, tem a ver com a confissão da suposta mandante dos espíritos assassinos. Os juízes não se puseram a hipótese de a confissão ser uma desforra ex post facto, ser a transformação simbólica do desejo em realidade, da vingança desejada em facto consumado. Finalmente: este diário tem muitas entradas concernentes às forças do invisível, confira algumas aqui.

19 dezembro 2011

Espíritos, doenças e médicos do invisível (9)

Prossigo a série, de acordo com o sumário proposto aqui.
4. Crença na legitimidade dos gestores das forças do invisível. Escrevi no número anterior que os curandeiros - médicos tradicionais na terminologia oficial - são os gestores das forças do invisível. Podemos considerar diversos tipos de curandeiros (com variantes regionais), mas creio ser possível resumi-los a três: os adivinhos, os comunicadores e os herbanários.
Com a vossa permissão, prossigo mais tarde. Foto reproduzida daqui.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.

05 julho 2016

Espíritoterapia

Em África os problemas de saúde mental a nível popular não podem ser analisados fora da negociação epistemológica com as forças do invisível. É necessário anexar à farmacoterapia, à psicoterapia e às terapias sociais, a espíritoterapia. Como é o doente encarado do ponto de vista biomédico? Como uma entidade unívoca, individual, individualizável, como a única sede da doença, como um problema que, com algum tempo e paciência, pode ser resolvido nas fronteiras de uma enfermaria.
De que sofre o doente A? Sofre de uma nevrose sem lesão orgânica. Quais os percursos da possível cura? Psicoterapia e farmacoterapia. Este, o universo de sentido único. Coloquemos agora o doente A na perspectiva da epistemologia popular. Qual é o problema? O problema é que um espírito incomodado o perturba. É o problema individual? Não, o problema não tem a ver com o doente em si, mas com uma família, pode mesmo ter a ver com uma comunidade. Estamos, então, numa sociedade de universos múltiplos. Socorrendo-me de uma formulação do sociólogo húngaro Norbert Elias, a pergunta não é: o que é que provoca o problema? Mas, antes: quem é que provoca o problema? A etiologia muda, o fenómeno tem a ver com a intencionalidade das forças do invisível (invisíveis, sim, mas supostas vivas), o mestre chamado não é o psicólogo ou o psiquiatra, mas o gestor dessas forças. Surge, então - permitam-me o termo -, a espíritoterapia.

15 agosto 2014

Três racionalidades na terra do carvão

Extraído de: Serra, Carlos, Observar, sentir, analisar. Maputo: Escolar Editora, 2014, pp. 127-129
Em Moatize, pátria do carvão a cerca de 20 quilómetros da cidade de Tete, alvo das multinacionais, um havido avião mágico – prosaico boneco de trapos com ar estranho -, supostamente usado para transporte nocturno de feiticeiros, aterrou dia 31 de Dezembro de 2012 no quintal de um jovem casal. Momento de grande azar para o casal, pois o marido perdera o pai em Setembro e a carta de condução já em Dezembro, enquanto a esposa abortara em Agosto. Esta foi a terceira vez que um avião mágico aterrou na vila, os habitantes estão de novo preocupados.
Há que queimar o avião de 31 de Dezembro, sentenciou um ancião. Por sua vez, a polícia entendeu que não havia crime, o fenómeno não tinha enquadramento no código penal, o assunto devia ser tratado pelo “médicos tradicionais”, por outras palavras, pelos curandeiros. Enquanto isso, o secretário do bairro afectado apontou o dedo acusador aos curandeiros malawianos e prometeu que o seu executivo iria promover uma campanha em todos os quarteirões da vila de apelo à vigilância.
O ancião mencionado é o veículo da racionalidade popular; a polícia exemplifica a racionalidade estatal; finalmente, o secretário do bairro é o porta-voz da racionalidade da mão estrangeira.
A racionalidade popular aqui em causa tem a ver com regras de inferência. O surgimento do avião nada tem a ver, localmente, com irracionalidade ou com ilógica. Trata-se de uma crença colectiva numa relação ao mesmo tempo de intencionalidade e de causalidade, relação que faz sentido para aqueles que nela acreditam. De nada servirá sustentar que estamos perante uma crença objectivamente falsa. Na verdade, a crença é subjectivamente sentida como legítima, como verdadeira, quer como intenção, quer como causa. Como intenção, na medida em que se acredita que o avião foi prepositada e mágicamente construído para provocar efeitos maléficos; como causa, na medida em que não importa que fenómeno desagradável ou dramático ocorra no período de aterragem do avião, será imediatamente havido como consequência natural da força maléfica.
Perante o avião invasor e atemorizante para certos círculos de Moatize, eis a posição do Estado veiculada através da polícia: "(...) as autoridades policiais consideram que a presença de “avião tradicional” não é crime, porque não tem enquadramento no código penal. Poderia ser crime se no interior houvesse um nado-morto ou algum membro do corpo humano, conforme avançaram, acrescentando que o fenómeno só pode ter interpretações a partir dos médicos tradicionais, por se tratar de factos meramente mágicos."
Tal como exemplifiquei através do depoimento mostrado no número anterior pertencente ao porta-voz da polícia, o Estado colocou-se formalmente à margem do que chamou "fenómenos mágicos". Na verdade, perante esse tipo de fenómenos, aparelhos do Estado têem por regra encaminhá-los para a Ametramo.
Por outras palavras, através do seu representante, no caso vertente a polícia, o Estado colocou uma fronteira rígida entre visibilidade e comprovação material e crença nas forças do invisível. Sem dúvida que os polícias individualmente considerados podem acreditar (e acreditam, muitas vezes) nessas forças, mas o Estado formal exige que essa crença fique na penumbra.
Passo à terceira racionalidade.
Quem foram os obreiros de tão malévola acção? O secretário do bairro onde aterrou o misterioso avião não teve dúvidas: foram os curandeiros malawianos. Estes pérfidos seres merecem cuidado e por isso o secretário prometeu que iria desencadear uma campanha em todos os bairros da vila de Moatize para que as pessoas pudessem estar vigilantes. Esta, a racionalidade da mão estrangeira.
Qualquer das racionalidades fez e faz sentido para os seus defensores e, provavelmente, podem ter dado origem a combinações.

31 janeiro 2017

Curandeiros e poder político

Chegar ao poder, chegar lá acima, manter esse poder, permanecer lá em cima, exige para certos oficiantes políticos a gestão criteriosa das forças do invisível, o beneplácito dos curandeiros, por forma a contornar a influência dos pares antecessores e a concorrência actual. Ser portador na ascensão de uma cesta de facilitadores mágicos; purificar gabinetes, blindá-los contra maus espíritos e tenebrosos ataques mágicos à distância; consultar regularmente o curandeiro para reforço das protecções globais, tudo isso são tarefas a nunca esquecer. Quanto mais precavido se é, mais poder se tem na gestão das forças do invisível - assim se crê. A este nível, o curandeiro é bem mais do que um gestor das crenças e das expectativas populares, é um elemento político fundamental nos corredores do poder.

07 abril 2017

Hipóteses sobre engenharia política em Moçambique [15]

O grande actor político comanda o real pelo imaginário – Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes. Paris: Balland, 1980, p. 15.
15. Número anterior aqui. A engenharia política conta no seu arsenal com o recurso aos curandeiros e às forças do invisível. Os candidatos procuram munir-se de uma cesta de facilitadores mágicos de campanha. Quanto mais precavido se é, mais poder se tem na gestão das forças do invisível - assim se crê. A este nível, o curandeiro é bem mais do que um gestor das crenças e das expectativas populares, é um elemento político fundamental na antecâmara dos corredores do poder desejado.

29 março 2019

Engenharia política e curandeiros

A engenharia política conta no seu arsenal nacional com o recurso aos curandeiros e às forças do invisível. Os candidatos eleitorais procuram munir-se de uma cesta de facilitadores mágicos de campanha. Quanto mais precavido se é, mais poder se tem na gestão das forças do invisível - assim se crê. A este nível, o curandeiro é bem mais do que um gestor das crenças e das expectativas populares, é um elemento político fundamental na antecâmara dos corredores do poder desejado.

14 novembro 2010

Sobre saúde mental em Moçambique (8)

O término desta série, com mais algumas ideias.
Num dos seus livros e a propósito da terapia decorrente da gestão e do controlo das forças do invisível, o psiquiatra Tobie Nathan escreveu que o doente pouco interesse tem enquanto tal. A doença é, especialmente, o pretexto para uma dada comunidade se analisar e reencontrar.
Digamos que a doença não é um problema individual, mas um problema colectivo, um problema social bem mais do que um problema orgânico. Na biomedicina a doença tem as fronteiras confinadas ao corpo; na espíritodetecção e na espíritoterapia, as fronteiras estão na família ou na comunidade.
Tenho para mim que há todo um grande trabalho de pesquisa e de reflexão a fazer sobre os mecanismos de gestão das forças do invisível que se apoia no pensamento simbólico analógico e mágico. Creio que isso pode contribuir para alargar epistemologicamente a nossa visão da saúde mental no país.
(fim)