1. A construção social da doença na "medicina" das forças do invisível opera não com as causas naturais ou orgânicas de biomedicina, mas com as causas que socialmente fazem sentido. A doença não é, por regra, um desajuste orgânico, mas um desajuste social em geral e um desajuste familiar em particular.O mundo da biomedicina tem apenas um universo, o do doente, um universo individual. O mundo das forças do invisível tem vários universos, o da sociedade, viva e morta, na qual vive o doente. Lá é o corpo do doente que faz sentido, aqui são os objectos e as crenças associadas ao mundo escondido do invisível. Lá as coisas não têm cura quando esse é o caso, aqui sempre é possível acreditar na cura pela crença.
A construção social das etiologias localiza, assim, no maneio social e para-social, a chave das doenças e das terapias.
Mesmo ao nível dos herbanários é esse maneio que conta.
2. Tomando em conta 1) a extensão do recurso às forças do invisível, seja ao nível dos crentes, seja ao nível dos "médicos sociais" e 2) as consequêencias, jamais estudadas, da actividade desses gestores das forças do invisível (por exemplo, as consequências das acusações de feitiçaria conduzindo à morte por espancamento, como acontece com frequência na Zambézia), como é que se poder avaliar a contraparte do erro médico da biomedecina e proceder à legisperícia no caso de danos físicos e mortes? De que maneira se pode estabelecer uma avaliação pericial considerando o dano, o nexo causal ou concausal e as circunstâncias em que se verifica o equivalente aqui do erro médico?
São problemas delicados que a nossa paixão pela "cultura tradicional" raramente decide ter em conta e estudar.









