O blogue "Diário de um sociólogo" foi seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas aquelas e todos aqueles que visitarem este diário, os meus votos de um 2018 habitado pelo futuro, pela confiança, pela tranquilidade e pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre a este espaço criado a 18 de Abril de 2006. Abraço índico.
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15 junho 2016

Guerra e hermenêutica das valas comuns em Moçambique [7]

Número anterior aqui. Permaneço no segundo ponto do sumário [aqui], a saber: 2. Produção de cenários dantescos: a sombra de TânatoEm Abril, a agência de notícias "Lusa" reportou a existência de uma vala comum com cerca de 120 corpos no posto administrativo de Canda, província de Sofala, zona de conflito militar. A fonte da notícia foi referida como sendo um grupo de camponeses, mas para o número de corpos foi mencionado apenas um camponês. Aqui. Nacional e internacionalmente, surgiu de imediato uma enorme comoção. Não era um corpo, não eram dois corpos, não eram alguns corpos, eram cerca de 120 corpos. Uma multidão morta, um massacre, um genocídio. É razoável pensar que, sendo reais os corpos, descobri-los e contá-los deve ter dado trabalho.
Estava-se perante um cenário dantesco, reinava, forte, a sombra ameaçadora de Tânatos. A vala havida por verídica como que se tornou o gigantesco e absurdo símbolo do conflito militar em curso, perfilou-se como que a personificação absoluta da morte, enraizou-se no imaginário como que o indicador local do "mal-estar na civilização" [para usar o título de um livro de Freud]. De imediato, jornais, agências noticiosas, páginas das redes sociais digitais e blogues do copia/cola/mexerica transformaram a informação da "Lusa" num dado apodítico, numa informação indismentível, multiplicando-a e ampliando-a sem fim. Aqui. Porém, não houve confirmação das fontes, não se cruzou informação, não se observou o princípio do contraditório, não se encontrou a vala, os corpos não foram fotografados, não se foi, enfim, para além do testemunho oral [e mesmo este importava e importa ser investigado, avaliar a sua credibilidade]. A vala de Canda ficou - e permanece hoje ainda - como vala de oitiva. A necessidade de acreditar, no contexto de um conflito militar, sobrepôs-se por completo ao imperativo das evidências e das provas. Não obstante isso, a vala foi havida por confirmada [sic], como veremos no próximo número.

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