07 maio 2007

Doutores sem doutoramento


"Somos um país de doutores sem doutoramento e de títulos e diplomas que não correspondem ao nível e qualidade dos conhecimentos do saber fazer."

06 maio 2007

Nicolas Sarkozy, novo presidente da França


O novo presidente francês, filho de um imigrante húngaro, chama-se Nicolas Sarkozy. As projecções dos institutos de sondagem dão uma taxa de participação eleitoral entre 84 et 86 %.

O despobrezado destino do sete milhões na Moamba




O destino dos sete milhões de meticais, alocados como fundo especial de combate à pobreza garantindo emprego e comida nos distritos, teve na Moamba o fim que se vê na segunda imagem em epígrafe, como o semanário "Domingo" mostra na sua edição de hoje (pp.16-17).
Não é a primeira vez que se sabe desse elitário destino no país e isto num momento em que o presidente da república já anunciou a disponibilização de uma segunda fornada, mais avantajada, presidente que também já reconheceu o desvio global de aplicação".
Entretanto, o administrador do distrito, José Tafula, está bem claro sobre quem deve pertencer ao conselho consultivo que distribui o fundo, tal como a terceira imagem ilustra.
Referiu o semanário que a "missão" dos sete milhões não estava bem clara para "alguns" dirigentes. O problema é que a missão está mesmo clara, tem estado sempre clara, sobreclara, só que em sentido diferente.

Ultrapassada chapa 1500



Este portal ultrapassou a chapa 1500 no número de entradas desde 18 de Abril de 2006. Estude, entretanto, a geografia mundial dos blogues num mapa no qual o nosso país não aparece representado.

O boato do tráfico de crianças e de órgãos humanos em Nampula


Uma grande comoção nacional e internacional aconteceu em 2002 quando uma freira leiga brasileira, Elilda dos Santos (múltiplas entradas exitem na net para esse nome), afirmou repetidamente que havia tráfico de crianças e de órgãos humanos em Nampula, coordenado por um sul-africano papão, Gary O´Connor. Em 2005 dirigi uma pesquisa sobre o fenómeno e mais nada foi possível obter senão o boato (capa do livro publicado na imagem). Agora, através de uma trabalho depositado no "youtube" a 07 de Março deste ano, venho a saber que o mesmo tipo de acusação foi feito por uma freira espanhola. O mesmo tipo de discurso, o mesmo tipo de acusação. Isso fez com que uma equipa de investigadores espanhóis se deslocasse a Nampula. O produto do trabalho que fizeram e que apresentaram em programa televisivo com o título "Trafico de organos en Mozambique. Iglesia miente", pode ser visto aqui, aqui, aqui e aqui.

05 maio 2007

Soja, positivismo e ideologia


"A suposição de existência de uma ciência neutra e livre de condicionamentos ideológicos, como referência para a tomada de decisões políticas, continua atual."

Uma epistemologia irreverente, se possível cáustica, faz bem quando temos de enfrentar os defensores da neutralidade científica, especialmente em ciências sociais. O positivismo está sempre perfilado quando em causa está a exigência de amputar o sexo da ideologia.
E isso pode observar-se nas grandes e nas pequenas coisas da vida. E em particular naquelas que parecem ser exclusivamente técnicas.
O brasileiro Inácio Andrioli colocou esses problemas quando, em 2003, analisou o plantio ilegal da soja transgénica no Brasil. Sinto que vale a pena ler, até porque ele fez uso imagético das aventuras de uma figura útil que muito tenho usado neste diário: a do barão de Münchhausen.

Os caçadores locais das feiticeiras de Salém (9) (fim)


"A chefe do posto administrativo de Covo, distrito de Nacala-a-Velha, na província de Nampula, Ana Sabonete, queixou-se ao governador Felismino Tocoli, de ser constantemente ameaçada de morte, por exploradores ilegais de madeira daquele ponto do país sob a sua jurisdição administrativa."
Analisando os conteúdos dos números anteriores deste série é possível verificar seis coisas:
1. Recusa primária em aceitar que existem ilegalidades na exploração comercial das nossas florestas;
2. Impugnação (ou olvido) dos trabalhos de pesquisa e dos testemunhos da imprensa que têm sistematicamente mostrado essas ilegalidades;
3. Atribuição aos que dizem o contrário de uma intenção obscura que visa favorecer certos tipos de estrangeiros em detrimento de outros;
4. Racialização velada da autoria dos críticos das ilegalidades;
5. Outorga aos ambientalistas de intenções perversas;
6. Confiança cega nas posições e nas estatísticas oficiais.
Tenho para mim que é importante analisar quer as ilegalidades e a corrupção que grassam na exploração comercial das nossas florestas quer a recusa primária em admitir isso.
Julgo que haverá no futuro espaço para regressaremos a ambas as coisas.

04 maio 2007

Jeremias Ngwenha




Mais alguns dados sobre Jeremias Ngwenha, ontem falecido com 35 anos.
A sua famosa canção "la famba bicha" (a bicha está a andar) foi lançada em Abril de 2002.
A sua última aparição em público foi a 07/02/07. Eis como o "O País" comentou essa aparição:
"A aparição do músico Jeremias Ngwenha, esta quarta-feira, não foi com o habitual equipamento militar e fisga como tem sido feito nos seus concertos mas sim, trajado de equipamento desportivo para desmentir a alegada informação de que padecia de uma doença crónica.
O autor do tema “la famba bicha” não só desmentiu a informação como também garantiu gozar de um bom estado de saúde. O que acontece, no entanto, é que durante o mês passado esteve duas vezes internado devido à problemas de reumatismo mas garantiu que o problema já foi ultrapassado.
O nosso entrevistado aproveitou a ocasião para prometer aos seus fãs que vai lançar mais um disco no mês de Março
com a habitual temática de intervenção social."

Carta para o presidente do Conselho Municipal da cidade de Maputo, Eneas Comiche (em memória de Jeremias Ngwenha)


Presidente
Morreu o cantor Jeremias Ngwenha, uma das mais belas vozes de Moçambique, um dos mais dignos combatentes da justiça social.
Permita-se sugerir-lhe que a Assembleia Municipal da cidade de Maputo estude a atribuição do nome de Ngwenha a uma das ruas da nossa cidade.
Respeitosos cumprimentos.
Maputo, 04 de Maio de 2006

Carlos Serra
Centro de Estudos Africanos
Universidade Eduardo Mondlane
N.B. Presidente, um dos vereadores lhe dará conhecimento desta carta.

Morreu Jeremias Ngwenha


Morreu na noite de ontem Jeremias Ngwenha, que tanto cantou as desigualdades e a precaridade social no país, que tanta gente levou aos seus espectáculos, que tanta força, juventude, esperança e luta transmitiu.
Não esqueço o nosso almoço de 2000, no Centro de Estudos Africanos.
Aqui ficarás para sempre neste diário, em mais uma entrada, entre as várias entradas que são e serão sempre tuas.
Que tristeza, que tristeza.
Mas se o teu corpo se calou, a tua alma, a tua luta e a tua coragem ficarão para sempre connosco.
Que os deuses te protejam, Jeremias.

Come sozinha, esta gente
I
Dizem para não dormir
Com um olho, irmão
Vai inchar e despertar
Ver o nascer do sol
Estão a festejar, desperta
II
Comem sozinhos e limpam as bocas
Esta gente até nos ajuda a chorar
III
É cá comigo, que sou pato, irmão
As galinhas esgaravatam
O cabrito come onde está amarrado
E eu estou sendo morto porque não estudei
IV
Na escola sou grande
No serviço sou pequeno
Estou sendo morto porque não estudei
Come sozinha, esta gente
_______________________
Estão a comer o pão da criança
(odja pawa ra nwana)
I
A bicha anda? Não anda
Anda lá à frente, onde eles estão
Levem os de trás também por favor
Põem-nos a beber água em recipiente impróprio
Põem-nos a pentear o cágado
Põem-nos a pentear um careca
II
Não estamos a dizer que a vida é dura
Não é dura com o salário no bolso
Porque está-me a roer, está-me a dar cabo, está-me a morder
III
Trabalho para apanhar o chapa
Enquanto o salário não chega
IV
A vida está a massacrar-me, está massacrar-me
(gravação a 20/09/2000 - tradução do Changana por Suzana Afonso)

Fundo de sete milhões: cidadãos criticam corrupção


Em comício dirigido pelo presidente Guebuza no distrito de Mogincual, província de Nampula, cidadãos criticaram a corrupção na gestão do fundo especial de sete milhões atribuído ao distrito (Noticiário da Rádio Moçambique, 12.30 horas).
_____________________________
Imagem tirada daqui.

Sobre a Universidade Eduardo Mondlane



Essa a manchete de hoje do semanário "Savana", em trabalho do jornalista Francisco Carmona. Fazendo fé no trabalho, eis as mexidas consideradas prováveis na UEM:
-Linguista Armando Jorge Lopes, para director da Faculdade de Letras e Ciências Sociais
-Linguista Armindo Ngunga, para director do Centro de Estudos Africanos
-Linguista Marcelino Liphola, para director do Museu de História Natural
-Historiadora Benigna Zimba e jurista Teodato Waty (também membro da Comissão Política do partido Frelimo) para o Conselho de Administração da Fundação Universitária, saindo o sociólogo Luis Cezerilo da presidência.
O trabalho de Carmona perspectiva assim a reintegração de Eduardo Namburete e de Ismail Mussá, ex-directores respectivamente da escola de Comunicação e Artes e do Serviços Sociais e exonerados pelo ex-reitor Brazão Mazula por "conveniência de serviço". Ambos são deputados do partido Renamo.

Entretanto, a UEM está classificada em 23.º entre as 100 melhores instituições de ensino superior de África, como o quadro acima mostra, num leque dominado por cinco universidades sul-africanas.. Confira aqui.

Carrasco


O director do Secretariado Técnico de Administração Eleitoral, António Carrasco, disse que as eleições provinciais previstas para este ano poderão custar 45 milhões de dólares, implicando um recenseamento de raíz.
Temos, assim, uma indicação de raíz de como as eleições poderão ser adiadas. E temos ainda, uma vez mais, também de raíz, comprovada a nossa inexcedível capacidade de calcular rapidamente e em dólares quanto custa algo no país.

Manchete de "O País"


Essa a manchete de hoje do semanário "O País".
Entretanto leia aqui este trabalho de Jeremias Langa sobre a nossa polícia.

Polícia: nós não executámos ninguém


Em comunicado de imprensa e após um inquérito, o Comando-Geral da Polícia afirmou que, afinal, não executou os três indivíduos baleados há dias no Bairro da Costa do Sol. O que aconteceu foi que eles eram meliantes e foram abatidos quando tentavam fugir depois que, frustrada uma tentativa de assalto a um estalecimento comercial, se tinham prontificado a dizer onde estavam outros membros da quadrilha. A polícia declarou, ainda, que no país não existem campos de execução de detidos.
O comunicado acontece poucos dias depois de a Procuradoria-Geral da República ter afirmado dispor dos nomes dos polícias de um esquadrão da morte.
Este é um problema delicado num país onde o comportamento da polícia é fortemente criticado.

Febre do ouro infecta jovens e velhos em Manica


Eis um título que convida a ler um trabalho sobre o garimpo do ouro em Manica - com muitos riscos -, num despacho da agência de notícias IRIN reproduzido pela Reuters.

03 maio 2007

Eleições: Carrasco adverte


O director do Secretariado Técnico da Administração Eleitoral, António Carrasco, advertiu que "que há um caminho longo a percorrer até à realização das eleições provinciais, pelo que não garante datas."

Um governador atento


O governador do Niassa, Arnaldo Bimbe, criticou duramente o comando da Polícia na cidade capital, Lichinga, depois que, de madrugada, há dias, quando fazia exercício físico, ouviu gritos vindos da 1.ª Esquadra, onde se torturava um cidadão (Noticiário da Rádio Moçambique hoje, 19.30).

Liberdade de imprensa em Moçambique segundo a Freedom House


Por ocasião do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que hoje se assinala, a Freedom House lançou o seu relatório Liberdade de Imprensa 2007, que situa Moçambique como "parcialmente livre". Confira aqui. E veja mapas aqui.

Carta para o Senhor Presidente da República, Armando Emílio Guebuza


Presidente

Permita-me que, uma vez mais, lhe escreva uma carta, aqui, neste modesto canto.
Diz-me o cérebro que o Presidente não tem tempo para ler cartas como esta. Mas diz-me a alma que pode acontecer que alguém lha faça chegar.
O Presidente esteve ou está ainda em Cabo Delgado. Aqui lhe disseram que as exportações decaíram num ano em 66% porque foi interdita a exportação de madeira em toros.
Ora, a propósito disso, o Presidente colocou três problemas fundamentais, criticando publicamente o governo provincial: (1) A concepção que a vários níveis fazemos passar das estatísticas; (2) A questão da transformação local dos toros; (3) O consumo da madeira no país.
Parabéns, Presidente. Ao colocar o problema da transformação interna dos toros e, especialmente, ao colocar o problema do aproveitamento local da nossa madeira, o Presidente furtou-se à nossa mentalidade de exportadores felizes e integrais de matérias-primas. Já reparou, por exemplo, quanto as nossas escolas públicas estão privadas de carteiras e de portas no preciso nomento em que tecemos glosas à madeira que exportamos e que depois recebemos sob forma de mobílias que compramos?
Mas deixe-me ir mais longe e ser mais audaz.
As estatísticas são mais do que indicadores positivos ou negativos neutros. As estatísticas podem não reflectir a realidade, podem deliberadamente ocultá-la ou falseá-la.
Assim, Presidente, as exportações de madeira podem ter diminuído oficialmente e aumentado informalmente. Pode acontecer, Presidente, que não só saia madeira a granel ilegalmente pelos nossos portos maiores, como, até, pelos menores, com pequenos barcos fazendo o transbordo para barcos maiores em alto mar.
E quem diz madeira, Presidente, pode dizer ainda, por exemplo, marfim, barbatanas de tubarão, magajojo, corais, búzios raros, camarão pescado por mega-barcos de pesca de arrastão (com redes metálicas de malha pequena na nossas águas, mas bem longe da costa), etc.
Saiba, Presidente, que já por duas vezes apenas telefonemas anónimos para as sedes de dois governos provinciais impediram que saísse madeira em grande quantidade de forma ilegal pelos portos.
Saiba, Presidente, que existem testemunhos públicos de corte ilegal de árvores sem que ele conste das imperturbáveis estatísticas que, ano após ano, nos procuram tranquilizar afirmando que o corte é feito abaixo do legislado. E foi apenas há dias que uma reportagem da STV mostrou essa ilegalidade justamente em Cabo Delgado.
Finalmente, Presidente: todo o presidente da República visita locais em percursos definidos por equipas especiais. De alguma maneira os presidentes são reféns desses percursos oficiais que, quantas vezes!, ocultam aquilo que devia ser visto para apenas deixarem à disposição aquilo que é conveniente ser visto.
Presidente, sei que a sugestão que vou fazer é incómoda, mas faço-a: sempre que puder, contorne os percursos oficiais e apareça de supresa lá onde estão ou deviam estar os governos. Os governos e os actos reais. Talvez aí encontre o país que está fora das estatísticas.
Perdoe-me tê-lo, uma vez mais, incomodado.
Receba os meus mais respeitosos cumprimentos.
A luta continua.
Maputo, 3 de Maio de 2007.
Carlos Serra
Centro de Estudos Africanos
Universidade Eduardo Mondlane
________________________________
04/05/07: carta reproduzida no mediafax de hoje.

02 maio 2007

A propósito da mentalidade madeiral de 66% (2) (continua)


Temo-nos tornado um país que deixou de fazer a digestão das coisas complexas. Dos questionamentos. Da capacidade de manter a honestidade de pé. Da coragem de dizer não no oceano do sim.
Perdemos a capacidade de remar para montante dos problemas, porque é para juzante que todos ou quase todos querem remar.
Por todo o lado desfilam números, estatísticas triunfais, vozes de bem-pensantes em seu enorme conforto.
Ou, então, com o dedo acusatório apontado para as causas naturais e para o perverso destino, chovem lamentos porque não se conseguiu atingir a chapa 100 não importa onde.
Mas agora, em visita a Cabo Delgado, o presidente Guebuza adoptou um novo método, afinal um método samoriano: pôr em causa, criticar.
Três pontos são fundamentais a esse nível:
1. O presidente criticou o governo provincial e isso veio publicamente expresso no curcunspecto e conservador "Notícias".
2. O presidente criticou a interpretação das estatísticas a propósito de uma suposta diminuição das exportações devido à interdição da exportação da madeira em toros. E falou em transformação dos toros.
3. O presidente colocou abertamente o problema do consumo interno da madeira.

Carta para o presidente da República, Armando Emílio Guebuza




Aguardem a entrada aqui, nas próximas horas, de mais uma carta para o presidente Guebuza.

Frelimo abandonou os trabalhadores? (1)

Mais um 1.º de Maio aconteceu. E pela segunda vez (se as minhas contas não estiverem erradas) a Frelimo não marcou presença oficial, ao mais alto nível, no desfile dos trabalhadores e na FestaMaio na Praça da Independência. Nem nenhum representante do Estado ao mais alto nível. Refiro-me àquela presença que se fazia assinalar, ano após ano, pela partilha do momento e pela intervenção em comício. O presidente Guebuza estava em Cabo Delgado. Para onde terá emigrado o vermelho da bandeira do partido?
Acompanhe a série.

A propósito da mentalidade madeiral de 66% (1)


A notícia que se segue, inserida no "Notícias" de hoje, vai dar-me o ensejo de um comentário a partir do número seguinte desta nova série:
"O presidente da República, Armando Guebuza, não concorda com a justificação do Governo da província de Cabo Delgado, segundo a qual as exportações diminuíram em 66 por cento num ano devido à interdição da exportação da madeira em toros, ao mesmo tempo que, mais uma vez, repreendeu o Executivo provincial por não estar a cumprir o seu próprio plano de trabalho."
E acrescentou o presidente:
“Eu penso que os nossos dados estatísticos devem ser um pouco mais aprofundados. Não penso que os resultados sejam negativos devido à interdição da exportação da madeira em toros, porque, afinal, o objectivo era exactamente esse, de levar os toros a serem transformados. A questão é saber se houve essa transformação ou não. Ou, ainda, o que é que está a ser feito para que essa transformação ocorra. O que terá resultado dessa transformação, que pode dar em maior exportação ou até em maior consumo da madeira dentro do país.”

Este governo terá de nos ouvir - Judas Nguevende


A propósito do 1.º de Maio, "Judas Nguevende, da Manica Freight Services desde 1989, disse que as reclamações devem ser ouvidas pelos empregadores porque os trabalhadores são “matéria-prima para eles gozarem do privilégio que têm de serem superiores”. E acrescentou: “este nosso Governo terá que nos ouvir, nem que tenhamos que marchar todos os dias”.

Ontem, no 1º de Maio


Foto no "Notícias" online de hoje.

01 maio 2007

Desfile dos trabalhadores em Maputo


A partir do comentário de um leitor e de alguns minutos vendo os noticiários das estações televisivas e STV e TVM, achei bem deixar aqui algumas breves notas para ulterior reflexão:
1. Os trabalhadores desfilaram sem que os seus salários tivessem sido revistos.
2. Os da Saúde exibiram cartazes que mostram nostalgia chissaniana e uma evidente crítica ao guebuzismo que tem Ivo Garrido como ministro da Saúde.
3. O apelo à melhoria das condições de vida e de justiça foi generalizado.
O empenho milenarista em geral e o emprenho distrital em particular do executivo de Guebuza não podem marginalizar os problemas cada vez mais complexos de gestão das populações urbanas.
Se é nos distritos que estão os mais pobres, é nas cidades que vivem aqueles que têm uma noção mais próxima, imediata e crítica daquilo que o Estado faz ou não faz pelo bem-estar, sejam quais forem a médio prazo os resultados da injecção de um orçamento melhorado em cada um dos 128 distritos do país.
A pobreza urbana na África sub-sariana é hoje um enorme desafio. Em relatório datado de 1991, por exemplo, o Banco Mundial afirmou que ainda que a pobreza seja largamente um fenómeno rural em muitas regiões, a pobreza urbana tornar-se-á no futuro, em África, o problema mais significante e politicamente explosivo[1].
Como alguém observou, a África subsariana é a região que mais se urbaniza no mundo e dentro dos próximos 30 anos ter-se-á tornado mais urbana do que rural[2].
_________________________
[1]World Bank, Urban Policy and Economic Development: An Agenda for the 1990s. Washington, D.C.: World Bank, 1991, p. 4.
[2] Baker, Jonathan, Introduction, in Baker, Jonathan (ed.), Rural-Urban Dynamics in Francopone Africa. Uppsala, Nordiska Afrikainstitutet, 1997, p. 13.

Os trabalhadores do desporto


A Rádio Moçambique tem dedicado muito espaço hoje em geral ao 1.º de Maio e em particular ao que pelo menos um locutor chamou "trabalhadores do desporto que produzem a riqueza desportiva". Naturalmente que os trabalhadores do desporto se queixaram muito das condições em que têm de produzir a riqueza desportiva.
Achei muito interessante essa extensão do conceito "trabalhadores".

PGR identifica membros do esquadrão da morte


Procuradoria-Geral da República na posse da identidade dos polícias do esquadrão da morte que executou três cidadãos no bairro da Costa do Sol, arredores da cidade de Maputo.

Capitalismo de Estado na gestão guebuziana

“Vamos fazer tudo que for necessário de modo a que a Frelimo não saia nunca do poder e que continue a servir melhor. Podem ser criados milhares de partidos e eles todos concorrerem em todas eleições, a Frelimo sempre continuará a mandar neste país. Aliás, queremos que daqui a algum tempo nem sequer no Parlamento entrem, ou seja, no futuro todos assentos devem ser ocupados pelos nossos deputados. Não sou a favor da extinção da oposição, mas ela deve continuar insignificante.” - Mariano Matsinhe, quadro sénior da Frelimo
O pronunciamento de Mariano Matsinhe sobre a hegemonia frelimiana total tem apenas de espectacular o facto de não o ser. Melhor: o que ele disse está em prática e a pleno vapor no guebuzismo. Tem a implacável lógica das coisas simples. E quem lê este diário sabe que tenho tentado encontrar a chave cognitiva do guebuzismo. Por agora permito-me, apenas, avançar mais algumas ideias ainda muito na rama, modestas hipóteses por confirmar, neste 1º de Maio de 2007.

I
O guebuzismo parece assentar em três linhas de expansão, a saber:
1. Um aprofundamento do capitalismo de Estado (deixo por agora ficar a expressão assim, em toda a nudez da sua imprecisão). Penso aqui na participação do Partido-Estado por exemplo no co-financiamento e na co-propiedade de bens de diferentes tipos (empresas industriais, de imobiliário, de seguros, de transporte, energéticas, vias e meios de comunicação, etc., com toda uma corte variada de participação e rédito). A luta contra a pobreza (conceito que importa aprofundar, o que aqui não farei por agora) parece ser real. Mas porque conduzida dentro da grelha do capitalismo de Estado ela parece ser, fundamentalmente, a luta pela mais-valia, pela multiplicação de campos de expansão do Capital, especialmente no que concerne às vias de comunicação, à electrificação, à agricultura comercial e, portanto, à modernização do mercado rural. Por outras palavras, a luta fundamental parece ser pela criação de um mercado interior e de um campesinato moderno em condições de facilitarem a criação e a reprodução de mais-valia e, portanto, de ampliarem os réditos dos diversos sectores (de nível desigual, outro ponto que não vou aqui aprofundar) da elite de Estado.
2. Um aprofundamento do discurso messiânico. Este discurso consiste numa espécie de resamorização do chissanismo de capitalismo liberal, enxertando na via capitalista total o discurso socialista da era samoriana. Não se tratando mais da ideia de redistribuir os meios de produção (um esboço simbólico disso esteve em uso no imaginário social nos anos 70), mas de os concentrar, o guebuzismo vai buscar ao alfobre samoriano as virtudes do ideário generalista - milenarista, mobilizador e nacionalista - com o qual procura ocultar a visibilidade dos interesses particulares da burguesia de Estado. Por outras palavras, no combate contra a pobreza, a burguesia de Estado esforça-se por vestir os objectivos políticos particulares que mapeam a sua gestão monopólica dos recursos de poder com o ideal de uma natureza comum, popular, de interesse colectivo, por todos todos partilhado;
3. Um aprofundamento da hegemonia política total. Aqui, nesta linha de expansão formulada claramente por Mariano Matsinhe, o objectivo final consiste na amputação de todas as linhas de penetração de risco por parte da oposição, vedando-lhe qualquer hipótese de disputar a participação no capitalismo de Estado e, portanto, de disputar as fontes de acumulação de capital ancoradas no Estado através de uma ascensão ao poder. A cooptação de franjas da oposição (ainda que não significativa) pode estar em embrião, por exemplo, no sibindysmo. Mas, por outro lado, esta linha de expansão é, ao mesmo tempo - et pour cause -, a busca de uma hegemonia ideológica total - trabalhada e disseminada pelos intelectuais orgânicos do sistema -, com a monitoria e com a repressão de tudo o que seja ideário contestador a nível popular. A ideologia liminarmente dada a conhecer por Matsinhe é o contrário da câmara escura marxiana: não surge invertida, armazenada no subconsciente. É clara, frontal, no sentido da ideologia justificadora da ordem social de Karl Mannheim*.

II
Pode acontecer que esteja em curso no nosso país uma evolução política com as características do modelo chinês ou vietnamita. Por outras palavras: um capitalismo ascendente gerido por uma burguesia agressiva (co-accionista, rendeira, bolsista e mercantil) do Partido-Estado que combina a modernidade do mercado (mas com salários baixos**) com o cesarismo partidário político. Precisarei de reflectir mais sobre isto.
_________________________________
*Para Karl Mannheim existiam dois tipos de ideologia: uma de caráter justificador da ordem social (assim como para Marx) e, outra, subversiva, com função crítica, a que chamou utopia.
**Haverá oportunidade neste diário de um dia escrever sobre a reprodução dos nossos trabalhadores.