23 outubro 2015

A encruzilhada da Frelimo e de Nyusi: entre dominação e direcção [26]

Quanto mais os gestores de um Estado investirem nos aparelhos repressivos e na repressão, mais alta será a composição orgânica da política e menor a taxa de lucro político, quer dizer, menor a legitimidade.
Vigésimo sexto número da série. Sempre com hipóteses, prossigo o sétimo e último ponto sugerido no sumário aqui, a saber: 6. Modo de produção e de reprodução do social. É nesse molde dialéctico que habitam dois tipos de gestão política: a gestão pela aspirina e a gestão pelo antibiótico.
No primeiro caso não há qualquer intenção de alterar o coração e as regras de funcionamento de um país, propondo-se, apenas, medidas destinadas a remendar ou a melhorar o que já existe, aspirinas para suavizar a febre social, acalmar pequenas dores.
No segundo caso, pelo contrário, a intenção primordial é a de alterar o coração e as regras de funcionamento de um país no sentido genuíno de melhorar a condição social dos seus habitantes, especialmente dos mais carenciados.

Líbia

A Líbia devastada e dividida quatro anos após o assassinato de Gaddafi. Aqui.

22 outubro 2015

Chupa-sangue em Nampula [8]

Oitavo número da série. E, finalmente, vejamos algumas consequências da crença:
· Suspeita, intriga, cólera
· Estigma, mentalidade linchatória
· Imputação causal a todos os estranhos às comunidades
· Linchamentos
Quero sustentar que a crença é uma metáfora pela qual se traduzia e se compensava ao mesmo tempo a crise e a espoliação sociais. A recor­rência destas dava sentido à vitalidade daquela.
[História e anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]

A encruzilhada da Frelimo e de Nyusi: entre dominação e direcção [25]

Quanto mais os gestores de um Estado investirem nos aparelhos repressivos e na repressão, mais alta será a composição orgânica da política e menor a taxa de lucro político, quer dizer, menor a legitimidade.
Vigésimo quinto número da série. Sempre com hipóteses, prossigo o sétimo e último ponto sugerido no sumário aqui, a saber: 6. Modo de produção e de reprodução do social. Parece ser sensato defender que a maior parte de nós acredita que são os indivíduos e as suas ideias que comandam o social. Sem dúvida. Mas não são livres de o fazer nas condições por eles escolhidas, arbitrariamente, estrangeiros à história e às múltiplas determinações dos modos de produção e de reprodução social não importa de que época histórica - para adaptar uma famosa posição de Karl Marx.
Modos de produção e de reprodução herdados são como rolos compressores, que nos determinam quando julgamos que os dominamos.

Ideias e prática social

"Toma o mundo pela sua representação do mundo" [Karl Marx e Friedrich Engels, A Ideologia alemã I]
Se analisarmos o mundo dos pensamentos e das representações que se estende das pessoas às ciências sociais passando pela imprensa e pelas redes sociais digitais, verificaremos facil e rapidamente quanto pesa a concepção de que é o que pensamos que determina o que socialmente fazemos. O mundo é movimentado pela "cabeça", pelos nossos pensamentos - assim determinamos e cremos. A coluna vertebral dos processos históricos de produção e reprodução social fica soterrada por uma montanha - provavelmente hoje mais plena e mundial - de crenças, de idealismos, de essências, de acessos de espiritualidade absoluta, de posições nefelibatas, de seres em si, de pessoas em si, de indivíduos em si, que faz com que nos transformemos num mundo que olha cada vez mais para cima para não analisar o que se realmente se passa embaixo. Nesse caldo ferveroso passam as apostas na multiplicidade de visões, na legitimidade dos pontos de vista múltiplos sobre os fenómenos, nas ideias diferentes, na alteridade como critério. Da verdade ascende-se às verdades, ao direito a ter contraverdades. Como provavelmente diria hoje Marx, faz-se um grande esforço para explicar a prática social pela ideias e não as ideias pela prática social.

21 outubro 2015

Chupa-sangue em Nampula [7]

Sétimo número da série. Vejamos, agora, as componentes básicas da crença:
· Sangue extraído pela cabeça
· Extracção feita através de seringas ou de objectos do mesmo género
· Extracção feita sorrateiramente à noite quando as pessoas dormiam
· Consequências da extracção: fraqueza e morte
· O sangue extraído destinava-se a aproveitamento exterior aos interesses das comunidades
· Extracção de sangue associada a funcionários governa­mentais ou partidários, aí compreendidos os da Saúde, mas também a simples forasteiros.
[História e anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]

Sensacionalismo

"Sensacionalismo é o nome que se dá para uma certa postura na comunicação em massa, em que os eventos e assuntos das histórias são exibidos de maneiras muito exageradas, para aumentar a audiência dos telespectadores ou dos leitores. Pode incluir notícias sobre assuntos insignificantes e eventos que não influenciam a sociedade em geral, além de envolver apresentações tendenciosas de temas populares de uma maneira trivial, em formas de tablóide. Algumas táticas conhecidas incluem abordagens insensíveis, apelações emotivas, criação de polêmicas, notícias com fatos intencionalmente omitidos. Basicamente, quaisquer formas de se obter forte atenção popular." - de um texto de Gabriela Porto aqui.

20 outubro 2015

Linchamentos prosseguem


No "Diário da Zambézia" digital de hoje [amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato]:
Segunda edição no prelo com 447 páginas [amplie também a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato]:

A encruzilhada da Frelimo e de Nyusi: entre dominação e direcção [24]

Quanto mais os gestores de um Estado investirem nos aparelhos repressivos e na repressão, mais alta será a composição orgânica da política e menor a taxa de lucro político, quer dizer, menor a legitimidade.
Vigésimo quarto número da série. Sempre com hipóteses, inicio o sétimo e último ponto sugerido no sumário aqui, a saber: 6. Modo de produção e de reprodução do social. Os mecanismos pelos quais uma determinada sociedade é produzida e reproduzida são bem mais do que o conjunto dos pensamentos e das lógicas de vida que dão forma e corpo ao que somos como indivíduos.

Chupa-sangue em Nampula [6]

Sexto número da série. Mas situemos mais em pormenor alguns aspectos à retaguarda do fenómeno:
· Contexto político revolucionário, com um forte apelo à mudança social
· Penúria de bens de consumo
· Campanhas de vacinação e de doação de sangue
· Guerra generalizada depois de 1982
· Epidemias diversas
[História e anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]

Deus não morreu, tornou-se dinheiro [Giorgio Agamben]

"O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro" - Giorgio Agamben, em entrevista a Peppe Salvà. Aqui.

19 outubro 2015

19 de Outubro de 1986: tragédia de Mbuzini

19 de Outubro de 1986: o avião presidencial moçambicano despenha-se em Mbuzini, território sul-africano. Morrem o presidente Samora Machel e 33 membros da sua comitiva. Hoje é, portanto, o 29º aniversário da tragédia.
As fotos aqui reproduzidas, de um livro de Iain Christie cuja referência coloco mais abaixo, mostram : (1) Uma fotografia de Samora, na capa do livro; (2) os destroços do avião, (3) o transporte dos restos mortais do presidente, (4) o funeral de Samora, vendo-se à frente, da esquerda para a direita, Marcelino dos Santos e o ex-presidente Joaquim Chissano e (5), finalmente, soldados chorando.
____________________________
Christie, Iain, Samora Machel, A biography. London/New Jersey: Zed Press/Panaf, 1989.

Chupa-sangue em Nampula [5]

Quinto número da série. Por outro lado, do ponto de vista dos crentes existia sempre uma associação entre a extrac­ção de sangue e os funcionários governamentais ou parti­dários e os forasteiros. Mas, do ponto de vista governamental, tudo se resumia a situações subversivas objectiva­men­te criadas em meios onde a credulidade é grande e a pobre­za campeia. Havia, na verdade e por exemplo, evidên­cias de ladrões tirando partido da situação para roubar as casas.
[História e anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]
Adenda: extracto do "Wamphula Fax" de hoje, editado em Nampula: "O pânico que se verifica, actualmente, na cidade de Nampula, é mais uma reedição do fenómeno de “chupa-sangue” ocorrido na província, em anos passados, e que viria a propagar-se por alguns distritos. Desta vez, os residentes dos bairros de Namutequelíua, zona verde, particularmente na chamada zona verde e uma parte da Muhala Expansão, contam que vivem num ambiente de pânico, prevendo que a situação venha a alastrar-se a outras zonas residenciais da cidade de Nampula. Nas noites nós não dormimos porque temos medo do chupa-sangue. Ele entra nas casas das pessoas e começa a chupar sangue. Para afugentá-lo fazemos aquilo que temos feito quando estamos perante esta situação, que é bater latas, batuque e outros instrumentos que produzem um barulho ensurdecedor, relatou, visivelmente amedrontada, uma residente de Namutequeliua, que disse chamar-se Helena.

No "Savana" 1136 de 16/10/2015, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Atenção a uma gralha: o número da crónica é 446. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei.

Sankara, a dívida e o fim do terceiro mundo

Com o título em epígrafe, um texto em espanhol de Huáscar Sologuren a conferir aqui.

18 outubro 2015

700 milionários em Maputo segundo o Afrasia Bank

Um documento com cinco páginas do Afrasia Bank de Setembro deste ano que defende haver 700 milionários em Maputo. Aqui.

Chupa-sangue em Nampula [4]

Quarto número da série. Em todas as situações houve notícia de penúria de bens de consumo, de agitação social, de anomia, de intriga, de mentalidade linchadora e, aqui e ali, de lincha­mentos de supostos chupa-sanguistas. As pessoas acreditavam sempre que o sangue lhes era extraído por seringas ou por extractores análogos. Os este­reótipos vitimários podem ser demonstrados pelo facto de, anos atrás, em Nicoadala, na Zambézia, dois deputados de Assembleia da Républica e dois jornalistas terem sido toma­dos por "chupadores de sangue".
[História e a anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Modlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]

"Cadernos de Ciências Sociais" da "Escolar Editora"

Uma coleção mundial em língua portuguesa com 14 números editados desde 2013, estando três no prelo e vários outros em preparação. Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.

17 outubro 2015

Chupa-sangue em Nampula [3]

Terceiro número da série. A crença tornou-se recorrente e estendeu-se a Cabo Delgado e a Nampula. Em Cabo Delgado, mais particularmente em Pemba, ela apareceu em 1988 estreitamente associada no imaginário popular à mobilização feita pela Cruz Vermelha para obter doadores de sangue e ao suposto encaminhamento deste para o banco de sangue. Em Nampula, mais concreta­men­te em Namialo, a crença tomou curso em 1991 no decor­rer de uma epidemia de cólera. Em 1992 e 1995, ela reapare­ceu na Zambézia (doentes com sintomas de anemia e de malá­ria, apresentaram-se nos hospitais queixando-se de que o seu sangue tinha sido "chupado") e, em 1995 também, em Nampula (estando esta província a braços desta vez com uma epidemia de meningite).
[História e a anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1136, de 16/10/2015, disponível na íntegra aqui:
Nota: de vez em quando perguntam-me por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

16 outubro 2015

Sobre racismo

Quando, combatendo o racismo, dizes que a tua "raça" é tão válida quanto as outras "raças", mais não fazes senão alimentar o racismo. Em cada defesa racial viaja, sem pausa, o barco do racismo. Não é a "raça" que gera o racismo, mas antes este que gera aquela. Ao manteres e legitimares as relações sociais que racializam o social, o teu combate contra o racismo é apenas uma modesta aspirina que, momentaneamente, cura a dor racial, mas não elimina a sua causa. 

Amanhã neste diário

Chupa-sangue em Nampula [2]

Segundo número da série. É possível que a primeira notícia pós-colonial de crença no chupa-sangue date, na Zambézia, onde parece ter nascido, do fim de 1974 ou do princípio de 1975, quando os grupos dinamizadores [GDs] se formavam. Terá, então, corrido o boato de que os GDs iriam "chupar" o sangue às pessoas.
Mas é em 1978/1979 que a crença se vai desenvolver plena­mente nas comunidades rurais zambezianas, numa altura em que a Frelimo procurava criar o homem novo, em que eram correntes as campanhas de vacinação e de doação de sangue, a hostilidade rodesiana tinha curso e uma rádio anti-FRELIMO actuava no Malawi. As pessoas acreditavam que, à noite, seres estranhos penetravam nas palhotas e lhes chupavam o sangue com seringas, pela cabeça, enquanto dormiam. Milhares de Zambezianos passaram noites em claro gritan­do, batendo palmas, agitando panelas e outros objectos para afugentar os anamawula (sugadores de sangue, "vampiros"). Fazia-se fé em que o sangue era destinado ao fabrico de uma nova moeda, à consoli­dação da Independência nacional e ao abastecimento dos hospitais. Do ponto de vista governamental, o fenómeno foi imputado ao inimigo e ao obscurantismo.
[História e a anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.]

15 outubro 2015

Imobiliário em queda em Maputo segundo FM

O mercado imobiliário está em queda na cidade de Maputo segundo a "Folha de Maputo" aqui.

Exemplo de um esquema

Aqui [o jornal não abre para elos específicos]

Chupa-sangue em Nampula [1]

De fonte digna de crédito recebi ontem de Nampula a seguinte primeira informação: "Com brevidade, apenas lhe informar que anda por cá novamente uma histeria colectiva nalguns bairros periféricos por causa de um chupa-sangue que anda atacando as pessoas, com várias que já deram entrada no Hospital Central e Centros de Saúde em estado de grande debilidade porque lhes foi chupado o sangue à noite. Nos bairros de Namutequelíua e Zona Verde [para os lados da Serra da Mesa] desde a semana passada que é um bater de lataria ensurdecedor à noite, para afastar o dito-cujo e em muitas famílias as pessoas fazem turnos para dormir, ficando outras de vigília." Mais tarde, foi a vez de uma segunda informação, com o seguinte acréscimo: "Também com esta crise aflitiva, não seria de esperar outra coisa, as pessoas andam loucas de privação." A pessoa que me enviou a informação sugeriu que se alertasse quem de direito, "pois eventualmente estes casos terminam com vítimas, particularmente idosos(as) acusados e publicamente linchados sem que as autoridades consigam impedir a violência."
Vou tentar nesta série escrever um pouco sobre a história e a anatomia da crença no chupa-sangue com base num texto divulgado em 1997 no meu livro Combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, Livraria Universitária, pp. 68-71.
Adenda às 10:51: recebi a informação de que o fenómeno já se manifesta também no Bairro de Muatala, a oeste dos bairros acima mencionados.
Adenda 2 às 15:01: recebi a informação de que a crença já tinha curso no mês passado na "área de Chocas-Cabaceiras (Grande e Pequena)-Mossuril."

Não são as portas fechadas que falam

O sentido da história não está no silêncio, mas na veemência do eco das palavras frontais. Não são as portas fechadas que falam, mas as pontes.

14 outubro 2015

Negócios em Moçambique

Cabeçalhos das mais recentes notícias do mundo de negócios em Moçambique a conferir aqui. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

"Cadernos de Ciências Sociais" da "Escolar Editora"

O homem não nasce livre, mas pode tornar-se livre

Crescemos sob o influxo permanente da necessidade de obedecer, sob o risco da punição. Tornamo-nos adultos formatados em múltiplos deuses e espíritos internos, protectores poucos, vingativos muitos. Aprendemos a ter dois tipos de polícias: aqueles que, físicos, estão fora de nós e aqueles que, simbólicos, estão dentro de nós. Na maior parte das vezes, estes dispensam aqueles, seus chambocos imateriais são eficientes. Somos o produto de tradições conformadoras que nos habitam sem que, na maior parte das vezes, saibamos da sua existência. A regra que nos atravessa em permanência é esta: obedece. Seus lictores são múltiplos. Desobedecer, ir contra a maré do conformismo, das regras oficiais, aprender a pensar de forma independente, opôr-se aos pasteurizadores do pensamento acomodante, nada disso é fácil. É absolutamente difícil. O homem nasceu livre, escreveu um dia Jean-Jacques Rousseau. Muito certamente estava e está errado. Nascer é nascer para a sujeição. O homem não nasce livre, mas pode tornar-se livre. A liberdade não é um dado natural, mas social. Ter consciência disso é um primeiro indicador de liberdade e, talvez, a primeira porta aberta da democracia.