08 dezembro 2014

O que faz correr Dhlakama?

De comício em comício pós-eleitoral, o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, continua a afirmar que não haverá mais guerra no país. Ao mesmo tempo, continua a defender que se a Frelimo não escutar a Renamo, esta irá governar o país. Resta saber como o poderá fazer, sem o recurso à sua especialidade: a guerrilha. Pode acontecer (mera hipótese) que, desta vez, a elite pretoriana desse partido ponha efectivamente em funcionamento um governo alternativo (em anos anteriores tentou, sem êxito, o chamado governo sombra) que, pelo desgaste provocado por uma programada campanha de desobediência civil, obrigue o Estado a fazer concessões mais profundas e rápidas em termos de redistribuição de recursos de poder e prestígio.

No "Savana" 1091 de 05/12/2014, p.19

Atenção: numeração gralhada, devia ser 403. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei.
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

Municipais em Cuamba no prisma satírico do "Faísca"

Da edição 654 de 06 deste mês do jornal "Faísca" digital editado em Lichinga, província do Niassa (amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato). As eleições intercalares no município de Cuamba, segunda cidade daquela província nortenha, estão marcadas para 17 do corrente mês.

07 dezembro 2014

Dhlakama quer governar o país

Segundo um documentário da estação televisiva "STV" no seu noticiário das 20 horas, o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, afirmou em comício esta tarde realizado em Nampula que, caso a Frelimo não respeite os resultados eleitorais, a Renamo vai governar o país ou as províncias nas quais garantiu ter ganho as eleições, nomeando governadores, administradores e chefes de posto.
Adenda às 20:24: segundo a mesma estação, o bispo de Quelimane, Hilário Massinga, afirmou que o discurso de Dhlakama deve ser levado a sério.
Adenda 2 às 04:49 de 08/12/2014:"Já não irei falar mais do governo de gestão a partir de hoje. Nós vamos tentar governar todo Moçambique. Se a Frelimo gingar com certeza, nós iremos governar as províncias em que nós ganhamos", disse Dhlakama, citado hoje pela Rádio Moçambique (RM)." Aqui.
Adenda 3 às 06:27: Dhlakama orienta hoje um comício em Pembra, capital da província de Cabo Delgado, para "falar com a população sobre os destinos do país" (sic, "Rádio Moçambique" no noticiário das 06 horas)
Adenda 4 às 08:44: "A sensação de que se caminha para uma guerra pelos recursos deve ser resolutamente afastada através de acções práticas, patrióticas, incisivas e definitivas." Aqui.

Uma coleção nascida em 2013 que vai crescendo

Resultados eleitorais e teses preguiçosas (17)

Décimo sétimo número da série. Trabalhando sempre com hipóteses, permaneço no quarto ponto dos seis pontos sugeridos aqui, a saber: 4. A concepção elitista do eleitor mata-borrão. Termino o quarto exemplo referido aqui: A tese do eleitor-multidão hipnotizado pelo líder. Uma das imagens mais frequentes nos media e nas frases de certos políticos é a de que as multidões traduzem fidelidade permanente ao líder político. Nada prova que isso seja generalizadamente verdadeiro, mas é assim que a imagem passa, sem crítica, filha da ciência infusa.
(vide Serra, Carlos [dir], Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, pp.43-243)

A excelência do sistema escolar cubano

"Atualmente, nenhum sistema escolar latino-americano, com a possível excepção de Cuba, é capaz de mostrar parâmetros elevados, forte talento académico, salários elevados e alta autonomia profissional que caracterizam os sistemas de ensino mais eficazes do mundo, como os da Finlândia, de Singapura, de Xangai (China), da República da Coreia, da Suíça, da Holanda e do Canadá." (tradução minha do espanhol, CS)- um relatório do Banco Mundial aqui.

06 dezembro 2014

Mais dois números à venda em Maputo

Amplie as imagens clicando sobre elas com o lado esquerdo do rato. Abaixo, as capas dos dez números da coleção "Cadernos de Ciências Sociais" disponíveis no mercado:

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1091, de 05/12/2014, disponível na íntegra aqui:
Nota: de vez em quando perguntam-me por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

Ler os sinais que nos mostram as ruas

“Nós não podemos gerar ideias que venham a juntar as vidas das pessoas se perdermos contato com essas vidas tais como são. Se não soubermos reconhecer as pessoas, como se apresentam, sentem e experienciam o mundo, nós nunca seremos capazes que as ajudar a conhecerem-se a elas mesmas ou a mudar o mundo. Ler o Capital não nos ajudará se não formos capazes, também, de ler os sinais que nos mostram as ruas.” - Marshal Berman (1940-2013). Aqui.

05 dezembro 2014

Semanário "Savana" 1091 amanhã neste diário

Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.
Adenda às 05:49: leia a análise feita por Vieira às eleições de Outubro na sua crónica semanal no "O País", aqui.

A construção social da verdade

A construção social da verdade na vida em geral e nos media em particular é, sempre, um enorme problema. Para os títulos em epígrafe, concernentes ao mesmo fenómeno, confira o "@Verdade" aqui, a "Rádio Moçambique" aqui e o "Notícias" aqui.

Gestão política de multidões, oratória e espectáculo

Permitam-me recordar-vos um dos poderes constantes de um trabalho meu intitulado Poder e representação política em Moçambique, a saber: poder comicial.
Poder fulcral com três tipos de gestão: gestão de multidões, gestão da oratória e gestão do espectáculo.
Gestão de multidões. A multidão é o desejo veemente do líder, grande ou pequeno, falando na capital cosmopolita ou na modesta sede do posto administrativo. Nos comícios, o líder tem a seu pleno cargo lúdico a gestão cerimonial - panorâmica e vertical - dos súbditos presentes, ele num estrado ou num palanque rodeado de assistentes e convidados com ar respeitoso, súbditos em baixo, de pé regra geral, expectantes, supresos, fascinados com o espectáculo. Gestão cerimonial meticulosamente preparada por uma corte de funcionários. Quanto mais gente estiver presente mais o líder se convence de que tem a seus pés a nação inteira em formato concentrado. A gestão cerimonial está intimamente associada a um certo tipo de relato jornalístico que acentua a presença de multidões felizes e faz passar a ideia forte de que o líder é amado por muitas pessoas. Capacidade de juntar muitas pessoas é vista como produto de legitimidade política.
Gestão da oratória. Somos um país rico em oratória, em discursos, em palavras de comícios. Os comícios são, faz já muitos anos, um enorme viveiro discursivo, lá onde o líder - grande ou pequeno, em meio urbano ou rural, após um aparatosa chegada de carro, helicóptero ou avião, vindo da capital, da sede provincial ou da sede distrital - vai falar ao povo expectante e sedento de novidade. Palavras todos nós usamos, mas palavras para comícios são do uso exclusivo dos gestores do poder político e estatal, uso livre no caso do partido no poder, mediante autorização policial no caso da oposição. E são esses gestores da palavra comicial que, por tempo indeterminado, falam às populações (termo eufórico e despolitizador) sobre o que fizeram, sobre o que farão e sobre o que esperam o povo faça, são esses gestores que trazem a espectacularidade das promessas, o desenho axiomático de um futuro que só eles conhecem, o mundo que dizem novo no mastro das palavras veementes. Os comícios são um programa permanente de avaliação e controlo políticos e a discursividade age através de uma cadeia piramidal de chefes que se revezam em visitas de inspecção e mobilização política.
Gestão do espectáculo. O espectáculo puro do poder político dando-se a conhecer e procurando causar efeitos ópticos prolongados - eis o tecto do poder comicial, iniciado logo que o líder surge com grande aparato. O líder mostra que foi capaz de deixar o centro do sagrado decisional e de descer à periferia do comum dos mortais, ao povo, inutilizando temporariamente a distância e o resguardo, mostrando que é capaz de se equiparar aos súbditos, dando no fim da sua intervenção a palavra a pessoas escolhidas previamente pelo protocolo local para falarem, para estarem em empatia com o sagrado que ele representa. Mas isso é apenas uma parte do espectáculo (de resto variado, incluindo oferendas locais), porque o estrado ou o palanque assinalam ao mesmo tempo e permanentemente a distância vertical indissolúvel, reforçada pelos acompanhantes respeitosos, pelas autoridades tradicionais garbosamente fardadas e pelos atentos agentes de segurança.

04 dezembro 2014

Antes e depois

Cartune reproduzido daqui.

Resultados eleitorais e teses preguiçosas (16)

Décimo sexto número da série. Trabalhando sempre com hipóteses, permaneço no quarto ponto dos seis pontos sugeridos aqui, a saber: 4. A concepção elitista do eleitor mata-borrão. Entro no quarto exemplo referido aqui: A tese do eleitor-multidão hipnotizado pelo líder. Este é uma tese corrente nos media, nos portais de certos partidos políticos, nas redes sociais digitais e nos blogues do copia/cola/mexerica. Os eleitores surgem como uma massa informe literalmente vergada ao que o líder diz nos comícios. É uma massa que não pensa, que se limita a ser pensada pelo grande líder portador de oratória hipnotizadora.
(vide Serra, Carlos [dir], Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, pp.43-243)

Ensino Superior em Moçambique (2012)

Dados estatísticos sobre o ensino superior em Moçambique (2012), em relatório datado de Abril do corrente ano. Aqui.

O dilema do estatuto

No "O País" digital, um texto tem por título "O conforto oferecido a Afonso Dhlakama" e pretende mostrar que o presidente da Renamo terá regalias especiais enquanto segundo candidato presidencial mais votado. Aqui. Porém, no mesmo jornal, Dhlakama defende que o estatuto do segundo mais votado nas eleições deve ir para Filipe Nyusi da Frelimo. Aqui.
Adenda: leia esta notícia da "Lusa" aqui.
Adenda 2 às 04:42: leia o que na edição de hoje escreve o "Notícias" digital, aqui.

O que é o feminismo em África?

A advogada nigeriana Chinwe Ohanele problematiza o tema em epígrafe neste artigo aqui. Foto reproduzida daqui.

03 dezembro 2014

Sobre as condições precárias

A Assembleia da República aprovou hoje, na generalidade, a lei sobre a previdência social e os privilégios dos deputados. Aqui. No noticiário das 19:30, a "Rádio Moçambique" deu a conhecer o depoimento de um deputado que, em voz emocionada, plena de oratória, disse que não fazia sentido que os deputados vivessem em condições precárias.
Observação: e faz sentido que outras categorias sociais vivam em condições precárias, por exemplo os professores?
Adenda às 04:46 de 04/12/2014: a propósito da Lei sobre o Estatuto do Deputado , eis um texto do "Notícias" digital de hoje, aqui.
Adenda 2 às 07:37: segundo o "Canal de Moçambique" digital de hoje, a oposição votou contra a lei, aqui.

Dhlakama: falar de si próprio

O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, gosta muito de falar de si próprio. Esta paixão por si próprio tem duas modalidades: a da primeira pessoa do singular "(eu sou o mais forte") e a da terceira pessoa do singular ("O Dhlakama vai ganhar").

Renamo, MDM e porta aberta

"Os partidos da oposição estão certos ao reclamar que a fraude eleitoral é um crime, que a polícia e a CNE deveriam ter estado mais vigilantes, e os perpetradores deverão ser punidos. Mas a Renamo e o MDM fecharam os seus olhos. Eles deixaram a porta não só destrancada, mas de facto toda aberta." - Joseph Hanlon aqui.

"Ça marche"

Proposta a ser apreciada hoje na Assembleia da República: "A lei prevê que, além da participação no Conselho de Estado (já consagrada na Constituição), o líder da oposição estipule o seu próprio salário e subsídios, tenha direito a residência oficial, gabinete de trabalho, meios de transporte, regime especial de protecção e segurança, ajudas de custo em deslocações solicitadas pelo Presidente da República, passaporte diplomático, honras e precedências no protocolo de Estado e ainda assistência médica, extensível ao cônjuge e filhos menores." Aqui. (imagem extraída daqui)
Observação: ignoro por que razão o "ça marche" francês me soa melhor do que o "funciona" português.

02 dezembro 2014

Renamo com a gestão, MDM com o consenso

A Renamo exige um governo de gestão. Aqui. Agora, surge o MDM a exigir um governo de consenso. Aqui. (imagem extraída daqui)

Dhlakama, o cristalino

O que terá afirmado Afonso Dhlakama em Tete segundo o "Notícias" digital de hoje: “Desde as primeiras eleições presidenciais, a Frelimo sempre me roubou, agora basta. Temos que governar juntos este país. Temos que compartilhar a riqueza resultante da exploração dos recursos naturais em curso no país”. Aqui.
Observação: o presidente da Renamo é absolutamente cristalino no que concerne à ambição de partilha da riqueza nacional. Recorde este meu texto aqui.
Adenda às 05:08: leia um comentário de Joseph Hanlon intitulado "O longo processo de negociação e confronto começou", aqui.
Adenda 2 às 06:24: segundo a "Lusa", citada pelo "SapoNotícias": "Não vamos permitir que um ladrão de votos seja jurado como Presidente", declarou Dhlakama num comício em Tete, dizendo também que não tem medo, porque é um general e o "homem mais forte deste país"". Aqui.

Resultados eleitorais e teses preguiçosas (15)

Décimo quinto número da série. Trabalhando sempre com hipóteses, permaneço no quarto ponto dos seis pontos sugeridos aqui, a saber: 4. A concepção elitista do eleitor mata-borrão. Termino o terceiro exemplo referido aqui: A tese do eleitor prisioneiro da história fundadora. Na verdade, a história fundadora leva à crença de que, invariavelmente, sejam quais forem as vicissitudes, as pessoas votarão por ela e por quem a defende lá onde teve lugar. Acredita-se que não há outra história para além daquela que está triunfalmente coagulada no berço. O eleitor é irremediavelmente prisioneiro da saga fundadora - assim se acredita em certos círculos de crença política. Prossigo mais tarde com mais um exemplo da ciência infusa.
(vide Serra, Carlos [dir], Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, pp.43-243)

Adquira

01 dezembro 2014

No "Savana" 1090 de 28/11/2014, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei.
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

Resultados eleitorais e teses preguiçosas (14)

Décimo quarto número da série. Trabalhando sempre com hipóteses, permaneço no quarto ponto dos seis pontos sugeridos aqui, a saber: 4. A concepção elitista do eleitor mata-borrão. Entro no terceiro exemplo referido aqui: A tese do eleitor prisioneiro da história fundadora. Esta tese de ciência infusa não é, em sua substância, na sua concepção, diferente das outras aqui apresentadas, em particular da anterior. Na verdade, não assenta em pesquisa sistemática, mas em crenças, em valores. O que diz ela? Diz que lá onde teve lugar uma luta importante de libertação, é lá onde os eleitores não esquecem. Mais uma tese que habita as generalizações abusivas do "problema de Simmel". Prossigo mais tarde.
(vide Serra, Carlos [dir], Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, pp.43-243)