"Porque caí sobre os corruptos, acabei tendo problemas com alguns colegas. Alguns, ao saberem da minha saída, organizaram uma festa, e eu soube disso. Estes foram os corruptos que escaparam à minha vassourada, razão pela qual se sentem aliviados." - Joaquim MadeiraI
Permitam-me colocar aqui extractos de um importante entrevista concedida ao "Notícias" pelo ex-procurador-geral da República, Joaquim Madeira:"Na nossa sociedade multipartidária, quando o criminoso está ligado ao partido da oposição, diz-se que você está a perseguir a oposição. Quando o criminoso está ligado ao partido governamental, você está a defender o poder. Não é possível agradar a gregos e troianos."
"Por dever profissional, você tem que dizer ou fazer algumas coisas, mas por algumas conveniência ou não diz ou tem que dizer de outra maneira. É uma vida um tanto ou quanto complicada."
"Por causa da corrupção demiti e expulsei colegas. Nos outros sítios, em vez de serem demitidos ou corridos, transferem-se. Verifica-se uma dança de transferência de corruptos de um lado para o outro. Isso não é nada e, felizmente, no meu sector nunca permiti isso. Porque caí sobre os corruptos, acabei tendo problemas com alguns colegas. Alguns, ao saberem da minha saída, organizaram uma festa, e eu soube disso. Estes foram os corruptos que escaparam à minha vassourada, razão pela qual se sentem aliviados."
"Um dia vou escrever as verdadeiras mazelas do nosso sistema judicial."
"Mas a minha maior consolação veio dos jovens que estão a entrar para a magistratura. Das conversas que fui mantendo com eles sempre diziam que preferem o MP e não ser juízes. Sentia que para além de me admirarem, mostravam confiança no meu projecto de melhorar o sistema judicial. São jovens que não são levados pelo aliciamento de dinheiro, que querem entregar a sua vida à pátria, dar o seu melhor.
Aí, sim, encontrei a maior consolação do meu trabalho."
IIUm dia, em contexto e por razões que agora não interessam, Madeira pediu-me desculpas pelo fato de eu estar atrapalhado com gente que, num certo foro, estava sempre de olho no dinheiro para a execução de um determinado trabalho. Não mais esquecerei o seu rosto.
Compreendo perfeitamente Joaquim Madeira. E acredito completamente na festa que - tal como contou Madeira - foi organizada quando se soube que deixara de ser Procurador-Geral da República.
E volto a repetir: Madeira é um homem honesto. Muito honesto.
Estou contigo, Madeira, porque tu és honesto.