24 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1263, de 23/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

23 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [40]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Se o sonho é a realização de um desejo, como escreveu um dia Freud, o rumor é o fusível de um certo mal-estar social.
Avancemos, entretanto. Um quinto factor a ter em conta no boato aqui em causa é aquilo a que, com frequência, as pessoas chamam "dissolução dos costumes" ou "perda de valores". O que significa isso?

22 março 2018

2013: por ocasião da outorga do Honoris Causa a Aquino de Bragança

Em 2013 a Universidade Eduardo Mondlane atribuiu o Honoris Causa a Aquino de Bragança. Tive o prazer e a honra de ser um dos dois intervenientes versando sobre a vida e a obra de Aquino, juntamente com a Professora Teresa Cruz e Silva. O texto da minha intervenção pode ser baixado aqui.

21 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [39]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Escrevi no número anterior que uma quarta vereda a ter em conta no rumor sincrético aqui em causa é o medo da criminalidade, o receio diário do que nos possa acontecer quando regressamos do trabalho, quando entramos no bairro à noite. E acrescento agora: o nigeriano é, então, a personificação fantástica e ubíqua do criminoso, do estrangeiro ao nosso bairro e aos nossos costumes, versão do chupa-sangue, ele é, se quiserdes, o eco ao mesmo tempo individualizado e colectivo de um rumor surgido em 2006 no Bairro T3 do município da Matola, que referia existirem estrangeiros que, na calada da noite, entravam em casa disfarçados de animais e violavam as mulheres sem que ninguém desse por isso.

Um prisma sobre Moçambique

Um prisma sobre Moçambique tendo como tema a dívida do país, através do mais recente número de um boletim editado por Joseph Hanlon com 04 páginas, a conferir aqui.

20 março 2018

Iniciação e velhos

Os ritos de iniciação à maturidade nas comunidades rurais são também ritos de gestão política do corpo sexual e não é por acaso que são revestidos de secretismo e geridos pelos mais velhos, pelos guardiões da ordem e do corpo sexualmente controlado.

19 março 2018

Uma crónica semanal

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Confira na edição 1262 de 16/03/2018, aqui.

18 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [38]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Uma quarta vereda a ter em conta no rumor sincrético aqui em causa é o medo da criminalidade, o receio diário do que nos possa acontecer quando regressamos do trabalho, quando entramos no bairro à noite.

17 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1262, de 16/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

15 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [37]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Então, o bicho-papão-nigeriano (podia ser Burundês, Zimbabweano, Chinês, Libanês, não importa que nacionalidade estrangeira) é como que a tradução, a epítome alegórica do mal estrangeiro, mal que é suposto violentar as mulheres moçambicanas, que é suposto infectar os Moçambicanos com os vermes que se alimentam de fígado, praga que mata. O rumor como que veicula os sentimentos de inferioridade e de ciúme dos Moçambicanos confrontados com uma feitiçaria estrangeira considerada muito forte. [consulte Serra, Carlos (dir), A construção social do Outro, Perspectivas cruzadas sobre estrangeiros e Moçambicanos. Maputo: Imprensa Universitária, 2010]

14 março 2018

Diversidade

Um mesmo problema ou um mesmo objecto é encarado de forma diferente por vários indivíduos de acordo com histórias pessoais, colectivas, nacionais, etc.

13 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [36]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Observei no último número que era necessário considerar um terceiro êmbolo, o das representações negativas concernentes aos estrangeiros na cidade de Maputo.Mas tenho para mim que é necessário considerar um terceiro êmbolo, o das representações negativas concernentes aos estrangeiros na cidade de Maputo. Na verdade, uma parte importante das barracas e dos contentores da periferia da cidade de Maputo (negócio de roupas, de bebidas, de troca de moeda, por exemplo) está a ser gerida por estrangeiros como Nigerianos, Burundeses, etc., gente que - defendem muitos Moçambicanos - só pensa nela e nos seus parentes e amigos. No seio de muitos Moçambicanos existe a crença generalizada de que os estrangeiros (os Nigerianos são largamente referenciados) têm acesso privilegiado a meios que os locais não podem ter, que são ricos porque são proprietários de uma magia muito especial, muito potente, que eles são grandes feiticeiros [veja Serra, Carlos (dir), A construção social do Outro, Perspectivas cruzadas sobre estrangeiros e Moçambicanos. Maputo: Imprensa Universitária, 2010]

12 março 2018

Uma crónica semanal

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Confira na edição 1261 de 09/03/2018, aqui.

11 março 2018

Sobre violência

A nossa concepção de violência baseia-se na violência violenta, é uma concepção muito física, como que quinestésica: um tiro, uma agressão, uma ira sem fronteiras, um discurso, uma manifestação popular, uma carga policial. Quando isso acontece, de imediato salta um fusível perceptivo no comum de nós e dizemos algo como: eis a violência. Por outro lado, temos uma concepção que objectivamente exclui que as coisas serenas ou doces possam ser violentas ou dar origem à violência. Quer dizer, a nossa concepção é a do ruído, da explosão, a daqueles momentos veementes que escamoteiam as condições violentas não violentas que, por acumulação progressiva, geram a repentinidade da violência violenta que parece, afinal, não radicar nessas condições.

10 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1261, de 09/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

09 março 2018

Uma crónica

Convido-vos a ler uma crónica do jornalista Alfredo Macaringue inserta no Notícias de hoje, aqui.

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [35]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Mas não só. O rumor do bicho-papão-nigeriano de mulheres é, na verdade, um comboio com muitas carruagens.
Propus já que tivéssemos em conta dois êmbolos do rumor do bicho-papão-nigeriano que deixa vermes nos órgãos sexuais das mulheres de Maputo: o HIV/SID e o tráfico de seres humanos.
Mas tenho para mim que é necessário considerar um terceiro êmbolo, o das representações negativas concernentes aos estrangeiros na cidade de Maputo.

08 março 2018

Dia Internacional da Mulher


Por ocasião hoje do Dia Internacional da Mulher, permitam-me oferecer-vos este meu antigo poema:
com a suavidade
com que as rolas tecem o voo da vida
e o milho ama a terra túrgida
dessa maneira simples e possível
desembarco em ti no passado
sempre que por ti franqueio o presente
e no teu ventre planto os sonhos
Carlos Serra

Essencialismo

A virtude cardeal do essencialismo - coisa de todos nós, ao mais variados níveis - consiste em tomar comportamentos, estados e identidades por fenómenos imutáveis e auto-explicáveis. A etiquetagem social é, regra geral, o produto do essencialismo. Quando, por exemplo, dizemos, de forma taxativa, que o norte do país é matriarcal, estamos simplesmente a dizer que "perderíamos" o Norte caso algo se desmatriarcalizasse, caso sumisse essa confortante evidência irremediavelmente natural e fagocitante. Eis uma pergunta perversa, baseada no sociólogo alemão Georg Simmel: a partir de que efectivo os desviantes seguros ou prováveis podem ser tomados como quantidade negligenciável?

07 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [34]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. No imaginário popular faz muito que circulam histórias de desaparecimentos de pessoas, de raptos de mulheres e de crianças, de misteriosas mortes, de extracção de órgãos para os mais diversos e obscuros fins. E as mulheres são muito sensíveis a isso, elas são mães, elas são muitas vezes agredidas física e simbolicamente, elas muito rapidamente espalham o diz-que-diz pela rádio-rua, pela rádio-chapa, pela rádio-senta-abaixo, pela rádio-dumba-nengue, pela rádio-pátio.
Mas não só.

06 março 2018

Os dois lados

Por regra pensamos em crise enquanto fenómeno de regressão, enquanto doença, enquanto metástase. Não é a febre um exemplo de saúde afectada? Estar em crise significa, para todos ou quase todos nós, estar mal. Porém, crise pode, também, significar saúde, evolução, vitalidade.

05 março 2018

Uma crónica semanal

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Confira na edição 1259 de 02/03/2018, aqui.

04 março 2018

De novo sobre a água da chuva

Escrevi há dias aqui sobre as virtudes da água da chuva nesta Maputo que vive do fornecimento de água em dias alternados. Recorde aqui. Hoje, ainda que a chuva fosse fraca, verifiquei que o sistema que estais a ver na imagem funciona muito bem. A caleira está bem colocada (é maior do que a da imagem e assente num alpendre), o filtro impede a passagem de impurezas.

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [33]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Mas não só. Outros tipos de medo preenchem a estrutura híbrida do rumor do bicho-papão-nigeriano de mulheres.
Por exemplo, o medo do rapto, do tatá papá tatá mamã [Serra, Carlos (dir), Tatá papá, tatá mamã (tráfico de menores em Moçambique): Maputo: Imprensa Universitária, 2006], como se diz na cidade de Maputo.
Nesse tipo de medo existe uma galeria de figuras fundamentais, especialmente nos bairros da periferia da cidade de Maputo: o carro escuro com vidros fumados, a residência suspeita com muros altos de alguém que é suposto viajar para a África do Sul e que se associa imediatamente ao tráfico de pessoas (pode, também, ser associado/a à feitiçaria) e o/a recrutador(a) de crianças que usa rebuçados e bolachas.

03 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1260, de 02/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

02 março 2018

Horizonte utópico

Num dos seus livros, o filósofo burundês Melchior Mbonimpa usou uma imagem - para mim excepcionalmente bela - a propósito do que chamou horizonte utópico: cada protagonista desse horizonte assemelha-se a alguém que, tendo atirado uma bola a um rio no sentido da foz, se lança à água para a apanhar, sem nunca a recuperar mas ao mesmo tempo sem nunca a perder de vista e sem nunca desesperar de a recuperar. Há nisso, ao mesmo tempo, um horizonte, porque o objecto se afasta sempre; e um propósito, porque o alvo, ainda que inacessível, resta visível e leva sempre mais longe o nadador que acredita poder um dia apanhar a bola para a qual projecta o seu desejo infinito. [Mbonimpa, Melchior, Idéologies de l’indépendance africaine. Paris: Harmattan, 1989, p.33]

01 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [32]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Na história aqui em causa, o bicho-papão-nigeriano de mulheres é a figura percutora do drama do HIV/SIDA: forasteiro, forte em sua disponibilidade sexual, copula e quando tem orgasmo solta vermes que se hospedam nos órgãos sexuais das vítimas, vermes que se alimentam de fígado de vítimas que, claro, acabarão por morrer mais dia menos dia. Esses vermes são, metaforicamente, os veículos sem fim da doença, aqueles que infectarão muitos homens e estes, muitas mulheres.
Mas não só.