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01 abril 2009

Mazionando o Índico


É um espectáculo impressionante, singular: na marginal de Maputo, um pouco depois do supermercado Game, para quem vai para o Costa do Sol, centenas de crentes mazione, fundamentalmente mulheres humildes, oram, fazem suas abluções, pedem a quem os oiça na vida extra-humana uma vida melhor. O Índico está evangélico. Ao longo da praia, podem ver-se pessoas ajoelhadas (regra geral mulheres) na areia, mirando o Índico, mãos levantadas e/ou cruzadas ao alto ou no peito, orando; grupos de mulheres orientadas por um pastor ou por uma pastora fazem o baptismo e a lavagem das coisas impuras. Lamento ter-me esquecido de levar quer o celular quer a máquina fotográfica. Foto reproduzida daqui. Recorde postagens com referência aos mazione aqui, aqui e aqui.

29 abril 2006

As Igrejas Zione

Os Mazione têm as suas modestas casas de culto na periferia das cidades. O seu público é fundamentalmente feminino. Acredita-se que as mulheres são mais facilmente atingíveis pela acção dos maus espíritos. Estes são considerados responsáveis pelos quatro grandes tipos de problemas apresentados pelos crentes: doenças, desemprego, custo de vida (incluindo a falta de dinheiro para ir às consultas hospitalares) e desavenças familiares. Porém, é imperativo ter conta quanto elas acarretam com o fardo da infidelidade dos maridos, da gestão dos filhos e da sobrevivência do lar. Muitas vezes e crescentemente, são chefes de família. Na realidade, as mulheres são sempre as mais atingidas pelas transformações sociais em curso.

A recriação do universo da solidariedade tradicional e da família alargada, o apelo a crenças, a entidades e a imputações causais populares, a simplicidade cultual, a confissão pública e catárquica e a promessa de cura divina atraem muitos crentes, regra geral de origem humilde, que frequentemente não têm com que pagar as consultas hospitalares. Aparentemente as pessoas vão primeiro aos Mazione e só depois aos hospitais.

As Igrejas Zione assumem, assim, um triplo papel: o da reconstituição e da ampliação modernas da família, o de uma recuperação do sentido da vida e da solidariedade e, finalmente, de um neo-regresso às figuras tutelares da causalidade das sociedades de sentido múltiplo, como Tobie Nathan as intitula[*].

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[*]Quer dizer, por contraposição às "sociedades de universo único", sociedades onde a causalidade é plural e jamais mecânica ou isolada. Veja Nathan, Tobie, Manifeste pour une psychopathologie scientifique, in Nathan, Tobie et Stengers, Isabelle, Médecins et sorciers. Paris: Institut d'Édition Sanofi-Synthélabo, 1999, p.10 e passim.

04 janeiro 2016

Transferência politicamente útil

As igrejas são, regra geral, politicamente úteis. Por quê? Porque transferem para entidades supra-humanas e supra-naturais a responsabilidade pelos problemas sociais: por exemplo, os maus espíritos dos Mazione, o diabo das igrejas milagreiras do tipo Igreja Universal do Reino de Deus e Maná. O país tem centenas de confissões religiosas. Entre elas estão muito activas as do tipo salvacionista, as neopentecostais. Os seus cultos são aspirinas poderosas para os problemas estruturais, são eficientes processos de ocultamento das relações sociais e dos seus processos de dominação, são mecanismos de transferência - politicamente útil - das causalidades sociais para as causalidades a mando de um diabo invisível, mas multidimensional e acreditado.

06 março 2008

Ritos de iniciação à violência (1)

Relia hoje um conjunto de documentos relacionadas com as crianças vítimas da guerra civil terminada em 1992. Na Ilha Josina Machel, a norte da província de Maputo, muitas delas foram motivo de um programa de reabilitação e reconstrução das suas vidas, a cargo da Associação Moçambicana de Saúde Pública.
Isso numa altura em que curandeiros e mazione realizavam rituais visando purificar as vítimas da guerra e fazê-las esquecer os traumas. Os rituais incluíam lavagens especiais. "No acto das lavagens, tiramos todos os males e fazemos os jovens esquecer aquilo que fizeram durante a guerra", disse em 1996 um bispo da Igreja Sábado Apostólica.
Num dos documentos hoje relidos fixei o seguinte: "Para estas crianças, o medo, a desconfiança, a agressão, tornaram-se referências normais da vida, das relações entre os humanos. Elas não têm referências de uma convivência pacífica."

12 abril 2008

Rituais evangélicos na praia de Maputo

O irlandês Donal Conlon tem tido uma vida poliédrica: foi pescador na Grécia, barman em Nova York, operário da construção civil em Londes e formador de professores em Moçambique. Aqui observou várias coisas, entre as quais os rituais religiosos evangélicos na praia de Maputo, especialmente às quartas-feiras. Escreveu em inglês sobre isso no seu portal. Se quer ler em português, use este tradutor.
Nota: é dos Mazione que o autor fala. A propósito, leia e/ou recorde postagens minhas aqui e aqui.

25 novembro 2008

Crença nas Igrejas Zione: mechas transmitem maus espíritos

Crenças e interditos fazem parte integrante da nossa vida. Um estudante meu, o Naldo Boane, pôs-se em campo para estudar a concepção que existe nas igrejas zione (verdadeirras igrejas de mulheres) em relação às mechas, um dos símbolos identitários femininos mais correntes nos nossos meios urbanos. Qual foi a igreja escolhida? A Igreja Sião União Apostólica Cristã de Moçambique, ali para os lados da Matola. Quantas pessoas ouviu? Quinze. Quem? Treze fiéis e dois bispos. O que disseram? Unanimemente:
1. É proibido usar mechas nos cultos
2. As mechas são transmissoras de maus espíritos
3. A acção dos maus espíritos manifesta-se através de insónias, pesadelos, destruição de lares, pouca sorte no emprego, etc.
4. A proibição está citada na Bíblia
5. O chifungo*, símbolo da igreja, não aceita as mechas
6. As crentes devem usar cabelo natural, tranças naturais e lenços brancos
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*Chifungo: linha (várias cores) de protecção mágica que os mazione usam na cintura ou num braço.

29 novembro 2009

Tese sobre os Mazione em Moçambique

No local de recados situado no lado direito deste diário, o ESM mandou-me a referência de um projecto de tese (leia detalhes aqui), ilustrado pelo documentário que pode ver a seguir:

19 abril 2006

Sofrer e crer: o destino dos deserdados

Com tanta pobreza multilateral existente no país, lá onde a insegurança é permanente, onde cada amanhã é uma incerteza, não surpreende que as pessoas tenham tanta fé em forças que os transcendem. Os curandeiros e os pastores das igrejas tornaram-se os seus intelectuais orgânicos, aqueles que contribuem para a hegemonia do grupo social dominante através de um consenso plural (calibrado pelo medo, pelo amortecimento que a contra-sociedade representa e pela promessa de um além diferente), que lhes pedem que se conformem com as relações sociais existentes para que, um dia, espíritos e Deus os recebam e os redignifiquem.

Pretender que não tenham ilusões é exigir que renunciem a uma situação que delas carece.

A condição social daqueles para quem cada dia é um ponto de interrogação torna-os prisioneiros irremediáveis de um duplo constrangimento: por um lado, a vulnerabilidade perante os fenómenos da natureza e a insegurança do seu modo de vida catapulta-os para a interpretação emocional e antropomórfica da vida; por outro, esta visão reforça a vulnerabilidade e a insegurança.

É isso que permite a extraordinária ambivalência das igrejas do tipo Zione ou IURD.

Por um lado, as milhares de pessoas, regra geral de origem humilde, que acorrem aos cultos esperando que Deus os ajude a libertarem-se dos flagelos que as perturbam, criam novos espaços identitários, encontram nas igrejas um sentido para a vida, nelas recebem solidariedade, aí é-lhes assegurada uma recompensa celestial para os males terrenos caso creiam sem reservas em Deus.

Mas no preciso momento em que isso acontece, ocorre a evicção completa do projecto de modificação real das condições de vida.

Com efeito, ao aceitarem que todos os males são obra dos "maus espíritos" (Mazione) ou do "diabo" (IURD), os actores acabam por ver transferida (com a sua adesão, afinal) para entidades sobre-humanas a responsabilidade social na génese da miséria e da violência. Perdido o sentido crítico, trocado que é pelo sentido das crenças, eles parecem evacuar o desafio humano de uma transformação social genuína.

Aqui temos, afinal, um exercício de despersonalização trágica. Despersonalização tão mais trágica quanto o caminho para o céu tem de passar, como na IURD, pela exigência constante de dízimos em meticais ou em dólares.

Acresce que as ameaças sistematicamente feitas aos crentes no sentido de que o inferno os espera caso caso não entreguem o dízimo, só pode concorrer para ampliar a cultura de medo e de abdicação herdada dos anos de guerra civil.