07 abril 2018

Seteabrilemos todos os dias

Hoje, 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, é bem mais do que um dia feminino, é bem mais do que uma efeméride nacional na qual, nós, homens, surgimos a conceder às mulheres o direito formal à existência, o direito de terem os mesmos direitos que nós, homens, hoje é bem mais do que recordar Josina Machel (à direita, estando à esquerda Marina Pachinuapa), é bem mais do que transformar a data numa inércia discursiva, é bem mais do que uma pausa nas desigualdades de género, é bem mais do que esquecer temporariamente o facto de haver no país milhões de mulheres ainda apenas mulheres, esmagadas por todo um cortejo de regras e de tabos de sujeição e de múltiplas privações que julgamos apagar no ritual comemorativo.
É bem mais ou devia ser bem mais.
Porque, afinal, Josina Machel é bem mais do que uma mulher que deu a vida pela libertação nacional. Na realidade, o simples facto de ter transgredido o universo caseiro, de ter subvertido as regras costumeiras da opacidade social, de ter contribuído a vários níveis para a libertação da pátria, deu-lhe o estatuto heróico de real produtora de relações sociais diferentes, reais, práticas, não discursivas. Esquecer isso é esquecer o real sentido da luta de libertação, luta que foi a um tempo nacional e social.
Neste dia, um abraço, um beijo, uma mão, um carinho, um respeito, uma fraternidade, uma ponte para todas vós. Nem todas as Moçambicanas sabem do 7 de Abril. Também nem todas elas, nem todas vós, o têm como seu e vosso dia. Mas façam de conta de que todos os dias é Dia da Mulher Moçambicana, dia também das Mulheres de Todo o Mundo. Então, seteabrilemos diariamente.
A luta continua por um futuro mais solidário.

06 abril 2018

Lula

"Eles não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus sonhos. Se não me deixarem andar, vou andar pelas pernas de vocês. Se não me deixarem falar, falarei pela boca de vocês. Se meu coração deixar de bater, ele baterá no coração de vocês." - aqui

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [46]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui.
Prossigamos. O rumor do bicho-papão-nigeriano que espalha vermes comedores de fígado pelos órgãos sexuais das mulheres vítimas, aparece embutido numa viatura de luxo, negra, certamente com os vidros fumados, numa imagem que lembra muito o quadro presente no imaginário social no tocante ao tatá papá tatá mamã, expressão usada no Sul do país para designar o tráfico de pessoas.

05 abril 2018

04 abril 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [45]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui.
Um sexto factor a considerar no rumor do bicho-papão-nigeriano tem a ver com a sua irradiação vertiginosa através do celular, desse extraordinário ampliador de bocas e de ouvidos, dessa rádio electromagnética quase instantânea. Através do celular, um rumor começa com um verme, a meio da cadeia de comunicação já se acredita que mil vermes foram disseminados, quase no fim (se fim houver) o nigeriano já disseminou jacarés, uma porção de pessoas é suposta ter morrido e o fígado literalmente esgotou nos talhos. Por hipótese, o rumor é em grande medida um produto dos celulólatras. Porém, se o celular rumora, também previne.

02 abril 2018

Uma crónica semanal

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Confira na edição 1264 de 30/03/2018, aqui.

01 abril 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [44]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui.
Um sexto factor a considerar no rumor do bicho-papão-nigeriano tem a ver com a sua irradiação vertiginosa através do celular, desse extraordinário ampliador de bocas e de ouvidos, dessa rádio electromagnética quase instantânea.

31 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1264, de 30/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

30 março 2018

Faísca

Leia a mais recente edição do Faísca [jornal editado em Lichinga, capital provincial do Niassa], 16 páginas aqui.

29 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [43]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui.
Em 2008, muitos compatriotas foram vítimas de ataques xenófobos na África do Sul. Cerca de 40 mil regressaram temporária ou definitivamente ao país.
Essa tragédia provocou traumas de ordem vária, seja em quem estava na África do Sul, seja em quem cá estava e está.
Ora, o rumor do bicho-papão-nigeriano pode também ser uma espécie de linguagem metafórica do drama, a sequela mascarada e mutante da perseguição, do sul-africano-agora-nigeriano atacando o centro nevrálgico e delicado da sociedade - as mulheres -, deixando marcas reprodutoras da morte através dos vermes. Aparentemente nascido no Soweto, o rumor como que se trans-nacionalizou.

28 março 2018

Holofotes

Quantos mais holofotes analíticos estiverem direccionados para um determinado fenómeno, melhores serão a visibilidade e inteligibilidade obtidas.

27 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [42]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui.
Como observei no número anterior, os mais velhos, homens e mulheres, manifestam de forma aberta a sua inquietação com o destino moral das raparigas, com a gestão da sua sexualidade.
Então, o bicho-papão-nigeriano é como que o agente promotor, como que o agente devasso, orgiástico - mas também a figura punitiva fantástica -, da dissolução dos valores e dos costumes: os vermes que é suposto ele espalhar nos órgãos sexuais das mulheres são ao mesmo tempo a causa e a consequência do anunciado desregramento moral, o mal e a punição, a metástase e a dor, o aviso e o futuro.

26 março 2018

Uma crónica semanal

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Confira na edição 1263 de 23/03/2018, aqui.

25 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [41]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui.
Um quinto factor a ter em conta no boato aqui em causa é aquilo a que, com frequência, as pessoas chamam "dissolução dos costumes" ou "perda de valores". O que significa isso? Neste campo, muito visível na nossa imprensa, as mulheres constituem uma preocupação fundamental, especialmente no que concerne à liberdade sexual. Os mais velhos, homens e mulheres, manifestam de forma aberta a sua inquietação com o destino moral das raparigas, com a gestão da sua sexualidade.

24 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1263, de 23/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

23 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [40]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Se o sonho é a realização de um desejo, como escreveu um dia Freud, o rumor é o fusível de um certo mal-estar social.
Avancemos, entretanto. Um quinto factor a ter em conta no boato aqui em causa é aquilo a que, com frequência, as pessoas chamam "dissolução dos costumes" ou "perda de valores". O que significa isso?

22 março 2018

2013: por ocasião da outorga do Honoris Causa a Aquino de Bragança

Em 2013 a Universidade Eduardo Mondlane atribuiu o Honoris Causa a Aquino de Bragança. Tive o prazer e a honra de ser um dos dois intervenientes versando sobre a vida e a obra de Aquino, juntamente com a Professora Teresa Cruz e Silva. O texto da minha intervenção pode ser baixado aqui.

21 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [39]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Escrevi no número anterior que uma quarta vereda a ter em conta no rumor sincrético aqui em causa é o medo da criminalidade, o receio diário do que nos possa acontecer quando regressamos do trabalho, quando entramos no bairro à noite. E acrescento agora: o nigeriano é, então, a personificação fantástica e ubíqua do criminoso, do estrangeiro ao nosso bairro e aos nossos costumes, versão do chupa-sangue, ele é, se quiserdes, o eco ao mesmo tempo individualizado e colectivo de um rumor surgido em 2006 no Bairro T3 do município da Matola, que referia existirem estrangeiros que, na calada da noite, entravam em casa disfarçados de animais e violavam as mulheres sem que ninguém desse por isso.

Um prisma sobre Moçambique

Um prisma sobre Moçambique tendo como tema a dívida do país, através do mais recente número de um boletim editado por Joseph Hanlon com 04 páginas, a conferir aqui.

20 março 2018

Iniciação e velhos

Os ritos de iniciação à maturidade nas comunidades rurais são também ritos de gestão política do corpo sexual e não é por acaso que são revestidos de secretismo e geridos pelos mais velhos, pelos guardiões da ordem e do corpo sexualmente controlado.

19 março 2018

Uma crónica semanal

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato. Nota: "Fungulamaso" (=abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. Confira na edição 1262 de 16/03/2018, aqui.

18 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [38]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Uma quarta vereda a ter em conta no rumor sincrético aqui em causa é o medo da criminalidade, o receio diário do que nos possa acontecer quando regressamos do trabalho, quando entramos no bairro à noite.

17 março 2018

Uma coluna de ironia

Na última página do semanário "Savana" existe uma coluna de ironia - suave nuns casos, cáustica noutros - que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1262, de 16/03/2018, disponível na íntegra com 31 páginas aqui.

15 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [37]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Então, o bicho-papão-nigeriano (podia ser Burundês, Zimbabweano, Chinês, Libanês, não importa que nacionalidade estrangeira) é como que a tradução, a epítome alegórica do mal estrangeiro, mal que é suposto violentar as mulheres moçambicanas, que é suposto infectar os Moçambicanos com os vermes que se alimentam de fígado, praga que mata. O rumor como que veicula os sentimentos de inferioridade e de ciúme dos Moçambicanos confrontados com uma feitiçaria estrangeira considerada muito forte. [consulte Serra, Carlos (dir), A construção social do Outro, Perspectivas cruzadas sobre estrangeiros e Moçambicanos. Maputo: Imprensa Universitária, 2010]

14 março 2018

Diversidade

Um mesmo problema ou um mesmo objecto é encarado de forma diferente por vários indivíduos de acordo com histórias pessoais, colectivas, nacionais, etc.

13 março 2018

Para a psicologia dos rumores em Moçambique [36]

Lenda urbana, boato ou rumor é "um relato anónimo, breve, com múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contado como verdadeiro e recente num meio social do qual exprime de maneira simbólica os medos e as aspirações" (in Renard, Jean-Bruno, Rumeurs et légendes urbaines. Paris: PUF, 2006, 3.e éd., p. 6).
Número inaugural aqui, número anterior aqui. Observei no último número que era necessário considerar um terceiro êmbolo, o das representações negativas concernentes aos estrangeiros na cidade de Maputo.Mas tenho para mim que é necessário considerar um terceiro êmbolo, o das representações negativas concernentes aos estrangeiros na cidade de Maputo. Na verdade, uma parte importante das barracas e dos contentores da periferia da cidade de Maputo (negócio de roupas, de bebidas, de troca de moeda, por exemplo) está a ser gerida por estrangeiros como Nigerianos, Burundeses, etc., gente que - defendem muitos Moçambicanos - só pensa nela e nos seus parentes e amigos. No seio de muitos Moçambicanos existe a crença generalizada de que os estrangeiros (os Nigerianos são largamente referenciados) têm acesso privilegiado a meios que os locais não podem ter, que são ricos porque são proprietários de uma magia muito especial, muito potente, que eles são grandes feiticeiros [veja Serra, Carlos (dir), A construção social do Outro, Perspectivas cruzadas sobre estrangeiros e Moçambicanos. Maputo: Imprensa Universitária, 2010]