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Depois de um interregno, de novo a polícia e os cães-polícias estão na rua para expulsar os vendedores ambulantes dos passeios e das esquinas da cidade de Maputo, numa luta de trincheiras sem tréguas de ambos os lados.
Com efeito, uma vez mais o exército convencional da polícia faz frente aos guerrilheiros do informal na cidade de Maputo, após a ofensiva sem glória de Outubro/Novembro do ano passado. Quando aquele avança e "dispara", julga ter destruído o campo inimigo. Mas este usa a guerrilha e move-se rapidamente e ocupa novas áreas. E se as forças armadas deixam o campo anterior, nos interstícios surgem de imediato, com golpes audazes e inesperados, os guerrilheiros do informal. E por quê? Resposta dada há tempos por Mateus Cossa: "O Conselho Municipal diz para nós irmos aos mercados mas é aqui onde nós conseguimos vender qualquer coisa que garante a nossa sobrevivência e das nossas famílias".
O mundo de todos os Mateus Cossas é o das tácticas de sobrevivência: sem lugar definidor, os seus actores lutam no campo dos outros, definidos por eles. Sem um “próprio”, eles só podem jogar nas malhas e nos interstícios das regras dos actores do outro mundo. O seu horizonte é o dia-a-dia, o seu território é o da astúcia, do entre-dois dos sobreviventes, dos golpes rápidos, da vertigem dos momentos, dos cálculos de circunstância, dos biscates, do vende e revende, das regras, enfim, de uma outra concepção de vida urbana. Como diria Michel de Certeau, o que aí se ganha não se guarda.
Nota: este diário tem muitas entradas sobre o tema. Pode buscá-las escrevendo "guerrilheiros", "informal" ou "quinquilharia" no "pesquisar no blogue" situad0 no canto superior esquerdo deste portal
Adenda: Em comentário, um leitor escreveu o seguinte: "Eneas Comiche sabe bem que o problema da economia informal não se resolve pela via administrativa. Sabe que insistir nessa opção é aceitar manchar as mãos de sangue - porque vai gerar violência gratuita: luta-se pela sobrevivência (i) vendendo no informal, ou (ii) em alternativa e na falta de emprego, abraçando diferentes formas de criminalidade. Eneas Comiche sabe que a raiz do problema, é económica e não administrativa. Os nossos informais sabem que o sucesso nas vendas passa, cada vez mais, por levar o produto ao cliente. Por isso lutarão contra o acantonamento, que representa a morte do negócio. Todos desejamos que dia após dia reduza o número de informais, MAS, que tal resulte da sua absorção pela economia formal e não de medidas meramente cosméticas." (veja em comentários no interior desta postagem).
