26 outubro 2010

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (2)

Mais um pouco desta série, ainda com mais alguma introdução, sempre - como é meu hábito - operando com hipóteses.
Os protestos populares de Fevereiro de 2008 e de Setembro deste ano revelaram insatisfação social. De forma apressada nuns casos, conveniente noutras, tentou-se mostrar que (1) tudo tinha a ver com preços elevados e que (2) esses preços eram resultado único da crise financeira mundial e de oscilações de mercado. Por outras palavras, quis-se mostrar que, não havendo preços elevados e não havendo perversidade internacional, tudo estaria bem, especialmente porque o nosso povo é pacífico por natureza. Tudo? Tudo não: foi ainda preciso dar conta dos desígnios de uma mão oculta, da maldosa mão que sempre aparece para desviar o nosso povo dos bons e ajuizados caminhos.
E de quem podia e pode ser essa mão oculta? Evidentemente que de um tenebroso inimigo externo fazendo uso de submãos caseiras, de submãos caseiras naturalmente pertencentes à oposição.
Não havendo alta de preços, mercado internacional, mão externas e oposição, o paraíso reinaria definitivamente nesta terra.
Mas o grande problema, agora, é a forte e variada crítica oriunda de Graça Machel, de Marcelino dos Santos e de Jorge Rebelo.  Vejam lá, que coisa bizarra: não pertencem aos bairros das periferias urbanas, não são dos partidos da oposição, não partiram montras nem assaltaram padarias, não são vândalos, não estão ao serviço de tenebrosos inimigos externos. São figuras de grande nobreza histórica, são figuras proeminentes da luta de libertação nacional, são patriotas, são figuras do partido no poder. Os seus temas não são os preços, o mercado internacional, as mão externas e os partidos da oposição. Os seus temas têm a ver com o partido no poder  (o seu próprio partido) e com o Estado (que conhecem e do qual fizeram parte).
Há, então, quem se surpreenda no geral, quem se horrorize no particular: camaradas, inimigos, polícias ideológicos, políticos, jornalistas, eruditos, gente comum, jogadores de palavras, polichinelos de vários azimutes. Digamos assim: um bocado todos nós. Receio que aqui e acolá surja a ideia do patológico. Parodiando Shakespeare: há algo de podre não no reino da Dinamarca, mas no reino das coisas sensatas.
Terminada a introdução, permito-me propor o seguinte sumário:
1. As causas do espanto
2. Os temas da frente crítica
3. O futuro
(continua)

17/18 de Novembro

Portal aqui. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.

25 outubro 2010

Sinta

Prisma

Esta coisa de ter uma "cor"

Na AFP: "PIRAN, Eslovênia — O médico de origem ganense Peter Bossman tornou-se o primeiro negro a ser eleito prefeito de uma cidade da ex-Iugoslávia. E conquistou de um dia para outro o estatuto de astro na Eslovênia que se orgulha de ter, também, o seu "Obama"."
Observação: será sempre fascinante verificar que a qualificação racial pública é, regra geral, produzida pela imprensa. É aqui onde nos ensinam que negros e brancos (cores extremas do espectro tradicional) são primeiro negros e brancos e profissionais de algo e, só depois, seres humanos, é aqui que a ADN simbólica é inscrita nas convições. Assim, Peter Bossam não é médico, mas médico negro. E, agora, provavelmente não se importa nada de ser negro. Curiosa cruzada a de todos aqueles que pretendem acabar com o racismo racializando-o em permanência.
Adenda às 14:51 de 26/10/2010: título logo abaixo constante da página internacional do "Notícias" online de hoje:

A partir da meia-noite com o DZ

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (2)

Recorde aqui

Choveu granizo

Cerca de minuto e meio de granizo nesta cidade de Maputo onde hoje esteve muito quente, agora chove...chuva.

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (2); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (5); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

Os dois

Os bons e o maus

Governador de Nampula citado pelo "Wamphula fax" de hoje: "Continuem a votar no desenvolvimento, não se deixem enganar com os mentirosos. Nós é que queremos e somos capazes de promover o crescimento económico que se deseja neste país, enfatizou o governante, falando à população do posto administrativo de Covó, no distrito de Nacala-a- Velha." - artigo com o título "Tocoli elogia preferência eleitoral da população", aqui.

Funcionária ideal

Corte demorado de energia num bairro da cidade de Maputo, ligação para o piquete da EDM, interrogatório cerrado, quase policial, por parte de uma zelosa funcionária, quem fala, onde mora, rua, número da casa, número de telefone, etc. Cerca de duas horas e meia depois, energia reposta. O telefonema da zelosa funcionária a saber se já havia energia. Sim senhor, funcionária ideal, funcionária modelo, esta.

Paul Collier e edifícios monumentais

CM

"Correio da manhã" aqui

Segundo MF

"Mediafax" aqui

Dossier (3)

Queira consultar a terceira e última parte de um dossier com peças do semanário "Savana" de 22/10/2010, aqui.
(fim)

Política enquanto produção de ideologia (4)

Mais um pouco desta série.
Escrevi no número anterior que, "quando se trata de política, surgem de imediato duas formulações críticas no mundo terra-a-terra do senhor-de-todos-os-dias: (1) a popular,  daqueles que manuseiam considerações do género isso é coisa de políticos, esses tipos estragam-nas a vida, políticos só pensam neles, políticos só fazem malandrice, política é para encher barriga, mandar é resolver apenas os problemas deles; (2) a erudita, daqueles que, em seu imenso conforto afirmado como neutral, dizem que isso de política não é comigo, devemos manter-nos afastados da política, ciência não é política."
Como se pode reparar, no fundo estamos perante a mesma posição: a de que a política é coisa indigna que deve ser afastada das nossas preocupações. Os políticos, especialmente quando gerem Estados, adoram esse tipo de entorpecente, de abdicação. Por quê? Porque, entre várias razões, estimam que o entorpecente faça efeito sempre que se pretende passar por universais, interesses que são meramente particulares, campo por excelência da ideologia. Prossigo brevemente.
(continua)

George Ayittey

Uma entrevista dada pelo economista ganês George Ayittey em 2005, na qual passa em revista múltiplos temas africanos e tece considerações sobre o que chama "Estados vampiros". Aqui. Para traduzir, aqui.

Entrevista

24 outubro 2010

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Dossier "Savana" (3); Entrevista
* Séries pessoais: Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (2); Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (4); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

Graça, Marcelino e Rebelo: a frente crítica (1)

Nos últimos tempos, três veteranos da Luta de Libertação Nacional e proeminentes membros da Frelimo, designadamente Graça Machel, Marcelino dos Santos e Jorge Rebelo, têm feito severas críticas à gestão do país e ao tipo de dirigentes que temos, o que, em última análise, representa uma crítica frontal ao seu próprio partido (recorde aqui, aqui e aqui). Como que reassumindo os valores samorianos, surgem politicamente enquanto paladinos de um certo tipo de vida, enquanto cavaleiros locais da Távola Redonda. De que maneira podemos analisar a frente crítica que os três formam, esse fenómeno único na história política do país, essa maneira de colocar de frente problemas que vários ou muitos gostariam que fossem unicamente discutidos no anfiteatro partidário? Que significado futuro poderá ter essa frente crítica, essa frente que parece regressar à luta das duas linhas, para usar uma expressão histórico-oficial?
(continua)

Amplexo no dia 23/10/2010

Desempenho de alunos moçambicanos

Estude alguns resultados do desempenho dos alunos moçambicanos na região (incluindo matemática), aqui, aqui e aqui. Para traduzir, aqui. Obrigado ao ML pelo envio do material.

Os Moçambicanos são preguiçosos? (15)

"Deus chama cada um para uma vocação cujo objetivo é a glorificação de Deus. O pobre é suspeito de preguiça, a qual é uma injúria para com Deus" - João Calvino
O fim de mais uma série, esta, com mais algumas hipóteses.
Escrevi no número anterior que não estávamos mais na etapa púdica da acumulação, que esta era e é a etapa pública, visível, exposta, sem rebuços. O Capital quer rendimento e ganho sistemático, o trabalhador deve trabalhar, independentemente do que ganha e do como pode sustentar-se e reproduzir-se. O apelo em favor da Nação trabalhadora encobre o apelo laboral em favor da mais-valia do Capital. O recurso sistemático ao qualificativo (directo ou indirecto) "preguiça", o apelo sem fim ao "trabalho", tudo isso tem a ver com a alma sedenta do Capital.
(fim)

Dossier (2)

Queira consultar a segunda parte de um dossier com peças do semanário "Savana" de 22/10/2010, aqui.
(continua)

23 outubro 2010

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
* Genéricos: Dossier "Savana" (2); Desempenho dos alunos moçambicanos na região
* Séries pessoais: Astúcias da razão política (2); Política enquanto produção de ideologia (4); Linchar à luz do dia: como analisar? (5) Os Moçambicanos são preguiçosos? (15); Somos natureza (8); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (11); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)

Negócios em Moçambique

233

233 fotos aqui

Messianismo político (4)

O fim desta curta série, recordando o sumário:
1. Meio social do messianismo político
2. Campo bifocal do messianismo político
3. Democracia e messianismo político
Vamos, então, ao ponto 3. A hipótese é a seguinte: quanto mais forte for o messianismo político (no campo bifocal proposto), mais fraca será a nossa capacidade de produzir democracia ou de a democratizar em permanência. Lá onde dependemos de entes que consideramos dotados de misteriosos poderes incontroláveis, reduzida é a nossa capacidade de dizer não e de pluralizar as decisões e as escolhas. Finalmente, recorde a minha série O que é democracia?, aqui.
(fim)

Ideologia

Da filósofa brasileira Marilena Chauí: "A alienação social se exprime numa "teoria" do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida. Um exemplo desse senso comum aparece no caso da "explicação" da pobreza, em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade - sacerdotes, filósofos, cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de sua sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as idéias de uma das classes sociais - a dominante e dirigente - tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade." (crédito da imagem aqui)