Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
25 março 2008
Trabalhadores sem defesa
De acordo com a Rádio Moçambique, apenas "3% das 552 empresas visitadas pela Inspecção Geral do Trabalho, celebrou contractos de trabalho e acordos colectivos de trabalho, com os seus respectivos trabalhadores. (...) Dentre as várias irregularidades cometidas, destacam-se: a falta de inscrição dos trabalhadores no Sistema de Segurança Social, o pagamento de salários abaixo do mínimo estabelecido, carga horária excessiva, falta de registo e de pagamento de horas extraordinárias, a falta de legalização de trabalhadores estrangeiros no País, entre outras." Deixando de lado o facto de 3% significar rigorosamente 16.56 empresas (coisa bizarra), o fundamental a reter é o quadro exemplar da forma como o capitalismo percorre este país. Imagino a situação nas empresas que operam a nível rural.24 março 2008
Eleições no Zimbábuè também são nossas (4) (prossegue)
As eleições no Zimbábuè realizam-se este sábado.
O presidente Robert Mugabe (lado direito da foto) e o partido no poder, a ZANU PF, estão a praticar uma engenharia de cativação a todo-o-terreno (aumento de salários, tractores, acções nas empresas, alimentos), enquanto dizem em numerosos comícios que apenas com eles o Zimbábuè poderá prosperar, que a oposição é unicamente uma correia de transmissão do inimigo, dos Britânicos, dos brancos, sem espírito nacionalista, que jamais essa oposição poderá governar o país pois - elemento capital este - não fez parte da luta de libertação. Os comandantes do exército e da polícia já afirmaram publicamente que apenas reconhecerão Mugabe como presidente. Exército e polícia estão em alerta máximo. A polícia está autorizada a permanecer junto das mesas de voto.
A oposição é completamente demonizada: o dissidente da ZANU, Simba Makoni, candidato presidencial, é considerado um "prostituto político"; o MDS e Tsvangirai (ao meio na foto) são considerados braços dos britânicos e dos brancos.
Por outro lado, as organizações e os países críticos do regime, não foram autorizados a observar as eleições.
Analisando a história política do Zimbábuè, creio ser possível considerar três fenómenos atinentes ao imaginário cristalizado há mais de 30 anos na ZANU PF:
1. A teoria dos valores e dos direitos vitalícios de quem chegou primeiro, dos fundadores do país, dos primeiros estabelecidos, robustecida desde 1987 no caminho aberto para o one party state. Apenas os primeiros estabelecidos têm o direito de governar. Quem chegou depois ou quem não participou da luta de libertação, é elemento espúrio, falso, imoral, certamente ao serviço do inimigo externo. A defesa e a crença intransigentes nos valores da primogenia libertadora caucionam implicitamente o golpe de Estado (ameaça já feita pelo comando do exército) destinado a repor os valores primordiais, caso um acidente histórico desvie o sentido dos votos para o elemento espúrio.
2. A teoria disfarçada da neo-monarquia, da teocracia, na qual a defesa dos valores e dos direitos vitalícios autoriza o funcionamento de uma estrutura de poder de facto monárquica, com uma cerrada malha de patronagem e de clientelismo disfarçada (ainda que com crescentes dificuldades) sob a forma de uma cenodemocracia periodicamente vinda a público.
3. Produto da neo-monarquia, da teocracia, a convicção inabalável e milenarista de que o povo está afectivamente do lado da primogenia, de que o povo jamais aceitará a entrada no poder dos elementos espúrios, estrangeiros à saga gloriosa e irremediável da luta de libertação e, por consequência, nocivos ao papel de genuíno promotor do desenvolvimento e da nação incarnado pela ZANU PF.
Nota: em qualquer altura poderei proceder a modificações no texto, o que, a suceder, será assinalado a vermelho.
Mugabe: jamais MDC e Tsvangirai governarão Zimbábuè
Logo que puder, prossigo a série "Eleições no Zimbábuè também são nossas".
Sociologando
Esse o título do blogue de sociologia, nascido este mês, do Filipe António. Confiram-no aqui.Obama e a divisão racial nos Estados Unidos
Moçambique tem 43 línguas?

Quer saber algo sobre as línguas de Moçambique? Segundo um portal, existem em Moçambique 43 línguas, número que estimo exagerado. Mas devo confessar não ter competência para avaliar os dados que irá ler. Pode acontecer que surjam linguistas a comentar. Aqui vai a referência, chegada graças aos préstimos do Ricardo, meu correspondente em Paris. Se deseja ler em português, use este tradutor aqui. Clique duas vezes com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar.
Já agora, leia ou releia esta postagem aqui.
Cura-se tudo, resolve-se tudo
Prossigo - faz muitos meses - o itinerário fascinante das tabuletas do cura tudo, do resolve tudo, este diário está cheio desse mundo. Continuo a insistir em que é necessário estudá-lo. A tabuleta da imagem foi tirada na zona da Ronil, na paragem dos chapas do passeio do Cemitério Francisco Xavier, cruzamento entre as Avenidas Eduardo Mondlane e Karl Marx, cidade de Maputo. O autor: Chagas Levene. Obrigado, Chagas!
MARP, ricos e pobres
Segundo o "Notícias" de hoje, "Lourenço do Rosário, presidente do Fórum do MARP em Moçambique, disse existir “a percepção de ter aumentado o fosso das diferenças sociais e a distância entre o pobre e o rico cresceu e afunilou a ponto de colocar o país no clube dos estados mais injustos, em que a tomada de consciência de exclusão social e má distribuição da renda possa constituir um espaço de conflitualidade de que a corrupção perdeu o pudor por causa da impunidade”. Segundo ele, esta situação dificulta a adopção de medidas que permitam um controlo e eventual resolução do problema, e a ausência de estratégias para o efeito e políticas públicas em algumas áreas fundamentais para a vida das populações pode tornar inútil todo o esforço envidado para livrar o país da pobreza." Confira a notícia completa aqui. Entretanto, leia e/ou recorde a posição do Centro de Integridade Pública e da Coligação para a Justiça Económica aqui.De Mulémbwè a Mata
No dia 24 de Março, o "Notícias" apresentou o ponto de vista do presidente da Assembleia da República, Eduardo Mulémbwè, sobre as manifestações populares de 5 de Fevereiro. Eis alguns extractos: "O presidente da Assembleia da República, Eduardo Mulémbwè, considerou como prováveis motivos para as manifestações ocorridas a 5 de Fevereiro último nas cidades de Maputo e Matola e com réplicas em Chókwè e Chibuto, na província de Gaza, o pronunciado desajustamento do crescimento entre as necessidades das pessoas e a efectiva capacidade de satisfação das mesmas, o elevado custo de vida, o desemprego, a excessiva aglomeração de pessoas nos centros urbanos, a corrupção e o burocratismo. (...) É sabido que a violência, seja física ou psicológica, gera, normalmente, outra violência que cresce em espiral e desemboca na anarquia, propiciadora de excessos, oportunismo e destruições."Hoje, sobre o mesmo fenómeno, o jornal apresenta o ponto de vista da bancada da Frelimo (à qual pertence Mulémbwè) através do porta-voz Feliciano Mata, do qual extracto as seguintes passagens: "O porta-voz da bancada, Feliciano Mata, disse sexta-feira ao “Notícias” que a forma como a bancada parlamentar da Renamo-União Eleitoral se comportou durante a sessão de informações do Governo provou aos moçambicanos o seu envolvimento e responsabilidade nos actos de vandalismo que se registaram a 5 de Fevereiro último nas cidades de Maputo e Matola, ao fazer comparações absurdas e irresponsáveis sobre as manifestações. Com efeito, o deputado Luís Gouveia, da bancada minoritária na AR, disse, na circunstância, entre outras coisas, que em qualquer parte do mundo as manifestações nunca são pacíficas, senão no cemitério."
Zucula e o toque da Zenaida
23 março 2008
Moçambique no mapa mundial da cólera

Em 2004, o nosso país tinha o maior número de casos de cólera - a doença dos pobres - no mundo. Confira aqui os mapas. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.
Sérgio Vieira, o fino analista (4) (fim)
Ora - termino esta série -, Sérgio Vieira, o camarada Sérgio Vieira, pertence a uma geração nobre de libertadores da pátria, a uma geração que pegou em armas para libertar o país da opressão colonial. Mas foi apenas para isso que a Frelimo fez a luta armada de libertação nacional? Para libertar a pátria do jugo colonial? Para se substituir ao colonizador? Creio que não, se recordarmos os textos da Frelimo da luta armada e do pós-independência. A luta não foi apenas para substituir o colonizador, mas para criar novas relações sociais, relações isentas de exploração (como Mondlane escreveu no seu "Lutar por Moçambique"), novas relações que atravessam em permanência os textos de Samora Machel, o mesmo Samora que em 1974 exigiu trabalho duro aos governantes, trabalho entre e com o povo, trabalho para o qual colocou como sigla o seguinte: "É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem."Mas Sérgio Vieira já esqueceu isso, Sérgio e outros já esqueceram isso. Por isso Sérgio não é capaz de admitir que as pessoas possam estar revoltadas com as desigualdades sociais que Eduardo Mulémbwè e Azagaia (isso mesmo, Sérgio, Azagaia!) apontaram e apontam, desigualdades que são bem maiores e bem mais complexas do que aquelas que Sérgio indica e cujo perverso-produto-rosto-criança Sérgio disse ter visto a partir de um 9.º andar de um prédio da cidade de Maputo, desigualdades que têm unicamente a ver com quem as segrega (incitando por isso à violência) e não com Azagaia, desigualdades que não são produzidas pelo rio que sofre, mas pelas margens que o comprimem e oprimem.
Afinal, Sérgio entende que as revoltas populares ficaram para sempre congeladas na era colonial. Por isso - resumiu no mesmo momento em que apontou dificuldades sociais -, em verdadeiro golpe de rins, tudo etiquetou em meia dúzia de crianças comandadas por adultos mal-intencionados. Mas, claro, também, por políticos oportunistas.
Incapaz (et pour cause) de aceitar o estômago da indignação popular em período pós-colonial, Sérgio meteu-se pelo ofício do agente de segurança e do oficial da política nas cavalgadas conspiratórias, deixando nas entrelinhas a mensagem de que as revoltas foram organizadas pela Renamo, por essa mão tenebrosa, pois estamos vizinhos das eleições. E, claro, porque a Renamo governa o município da Beira, lá não houve "motins", os motins ficaram concentrados nas áreas "muito tradicionalmente favoráveis ao partido que está no poder" (sic). Exemplar sabedoria!
Por outro lado, Sérgio fala da "esmagora maioria" que, afinal, passa dificuldades e lá acaba por tocar no pão e nos transportes. Mas de que maneira Sérgio aborda o problema?
Remetendo-o para a negligência dos "tecnocratas" (o termo é seu), para a falta de diálogo com "esmagadora maioria" (sic), transformando o problema gritante das desigualdades e das injustiças sociais num problema técnico, de falta de aprumo e de gestão de tempos de intervenção, tanto mais que - disse-o de forma perversa - os governantes estavam de férias "mais que merecidas" na altura do 5 de Fevereiro.
Finalmente, as "crianças-soldado" que Sérgio refere na sua crónica, naturalmente que pensando na Renamo, tem as sucessoras que, com exemplar rigor, indica: as "crianças desordeiras" (sic). Mas estas "crianças desordeiras", camarada Sérgio, são produzidas em cada vez maior quantidade pelo sistema social que os camaradas como Sérgio Vieira gerem, camaradas, Sérgio, que, cheios de bem-estar, hoje assinalam, com pompa e circunstância, o heroísmo de Tomás Nduda lá por terras de Muidumbe, quando durante 40 anos se esqueceram de que a mãe e a irmã viviam e vivem com extremas dificuldades, sem casa digna, sem água, sem casa de banho.
A luta continua, camarada Sérgio Vieira! Quero acreditar que a "Memória do povo", título do seu livro de poesia, não foi esquecida e que você continua a celebrar "o mistério do nosso povo", tal como escreveu num poema faz muitos anos.
Nota: pode acontecer que ainda volte a este texto e corrija ou acrescente algo. Se isso acontecer (como acontece com alguma frequência nos meus textos), ficará assinalado a vermelho.
Sérgio Vieira, o fino analista (3) (prossegue)
O meu conterrâneo Sérgio Vieira, ex-ministro da Segurança, tem o olho atento do leopardo lá de Tete, do nharugwe. Vê logo tudo de uma vez, não precisa de perguntas, só conhece as respostas. Vamos lá ver o seu quadro descritivo e analítico:1. Qual o problema? Motins a partir de 5 de Fevereiro.
2. O que se passou? Passou-se que "crianças conduzidas por um punhado de adultos bloquearam as vias de comunicação, danificaram viaturas, impediram que as pessoas se deslocassem para o trabalho, compras, escola, etc." (sic)
3. Como soube Sérgio disso? Fácil, com o seu olhar panorâmico de nharugwe: "Vi isso de uma janela dum 9.º andar com vista sobre a Rua da Resistência, a Joaquim Chissano, os Acordos de Lusaka e Angola" (sic).
4. O que sucedeu depois? Depois sucedeu que "surgiram ameaças de intimidação via sms e os distúrbios estenderam-se a Chokwé, Jangamo, Chibuto, Mandlhakaze e Xinavane" (sic).
5. Houve estranhas excepções? Sim, ouve: "Na Beira houve manifestações, mas sem distúrbios. Porquê ali sem vândalos?"
6. E depois? Depois sucedeu que "diferentes sectores da sociedade condenaram as violências e distúrbios, embora pondo em causa a subida do preço do combustível e do pão e responsabilizando o Governo pela subida do preços dos transportes semi-urbanos" (sic).
7. Houve excepções? Houve sim: "O poeta e cantor Azagaia brindou-nos com um rap incitando à violência, aparentemente a única nota discordante no coro contra a violência" (sic).
8. Mas, afinal, houve alguma motivo, digamos insensato, atrás dos "motins" e do Azagaia? Houve, sim: logo após as festas os tecnocratas termo de Sérgio) subiram o preço do pão, "artigo essencial em todas as zonas urbanas. Quando os pais se preparavam para enfrentar as despesas obrigatórias que acompanham o início do ano escolar, das sapatilhas às fardas, surge-lhes a surpresa amarga que subindo o combustível o "chapa" subiria de 50%, passando o percurso de 2 vezes 7,5MT/dia a representar para os 22 dias úteis do mês, algo superior aos 20 por cento do salário mínimo na indústria e no Estado".
9. E quando foram tomadas as tecnocráticas decisões? Resposta: Quando "uma boa parte dos governantes se encontravam em férias, mais que merecidas" (sic).
10. O que concluir? Fácil: os motins estragaram um pouco a nossa imagem, provocaram danos desnecessários, penumbraram as vitórias do governo, a da Hidro-Eléctrica de Cabora Bassa, etc. Por isso o Estado é responsável "pela mão livre dada aos tecnocratas que se sentem acima do povo" (sic)
11. Mas não houve uma mão política? Resposta: é de supor isso. Na Beira (governada pela Renamo, acrescento eu, CS) não houve motins. A coisa parece ter sido programada (sic) em outros locais.
12. Por quê? Por isto: "Pelo carácter simultâneo das acções em Maputo e arredores e pela rapidez de propagação em zonas tradicionalmente muito favoráveis ao partido que está no poder, entendo que houve coordenação e comunicação" (sic). Por isso, "Posso supor que alguma formação política promoveu a desordem, embora todas as condenassem pela via de dirigentes e representantes. Mostram-se evidentes os objectivos e benefícios num ano eleitoral" (sic).
13. O que se deve fazer doravante? Doravante devemos ser sérios, ponderados na "tomada de decisões" e nos "postos de comando da técnica" (sic).
Sérgio Vieira, o fino analista (2) (prossegue)
A propósito das manifestações de 5 e pós-5 de Fevereiro disse o presidente da República na Holanda que o povo está cansado de sofrer? Pois o presidente estava e está enganado.Disse o presidente da Assembleia da República, Eduardo Mulémbwè, que o povo sofria e que era fundamental "materializar, de forma consequente, a acautelada opção de criação de um Estado verdadeiramente interventivo e regulador, capaz de, com a sua autoridade e meios disponíveis, corrigir distorções ou assimetrias sócio-económicas, repor a justiça e proteger os mais desfavorecidos dos excessos e insensibilidade próprios do capitalismo no seu estágio selvagem"? Pois Mulémbwè estava e está enganado.
Disse o ex-ministro do Interior, Manuel António, a viver na cidade da Beira, que as manifestações foram "reflexos do elevado índice de pobreza absoluta", associado ao "fraco desempenho do sector de administração da justiça, infectado pelo vírus da corrupção"? Pois António estava e está enganado.
Todos esses membros séniores da Frelimo estão enganados. Apenas Sérgio Vieira, também membro sénior da Frelimo, não está.
Nota: imagem reproduzida daqui.
Sérgio Vieira, o fino analista (1)
Há no país, a vários níveis, alguns analistas rigorosamente finos, alguns investigadores de peso, capazes de dar ao social o sentido merecido. Um deles é, indiscutivelmente, Sérgio Vieira, coronel da reserva, director do Gabinete do Vale do Zambeze, meu conterrâneo lá das terras de Tete. Vá lendo a sua habitual crónica "Carta a muitos amigos" do semanário "Domingo" de hoje (p. 5), que aqui reproduzo (clique duas vezes com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar) e da qual eliminei um longo post scriptum que Sérgio escreveu e que nada tem a ver com o teor da crónica. Daqui a pouco já regresso para a continuidade.
Zico: anestesia baixo-ventral no topo
Contra o azagaísmo e a sua incidência na leitura crítica do social, temos o zicoísmo em sua cruzada anestésica baixo-ventral e em sua proposta de um kamasutra à maneira.
Adenda às 9:51: em caixa destacada, sob fundo verde, o semanário "Domingo" informa hoje que a provedora de telefonia móvel Mcel rescindiu o contrato com o cantor ao abrigo da "necessidade de criar maior equilíbrio e conferir mais incentivos à inovação por parte de outros artistas" (p. 14).
22 março 2008
A família do herói Nduda
Com pompa e circunstância, numa verdadeira investida política, num programa promocional de heróis, o governo honra amanhã, na sede do distrito de Muidumbe, província de Cabo Delgado, a heroicidade de Tomás Nduda, guerrilheiro da Frente de Libertação de Moçambique, Frelimo, que em 1968 morreu em combate na luta contra o exército colonial. A cerimónia será presidida pelo próprio chefe de Estado, Armando Guebuza, que hoje desembarcou em Pemba.Entretanto, a Rádio Moçambique ouviu a mãe e a irmã de Nduda. Quarenta anos depois da heroicidade do filho e irmão, ambas se queixaram de estarem abandonadas, a mãe vive numa casa de construção precária, a filha não tem casa de banho, não há água para ambas. O administrador de Muidumbe afirmou que estava a tentar arranjar um tanque de água, pois água é difícil de conseguir naquele distrito. Mas, o fundamental - acrescentou o administrador - é que tudo é novo nestas cerimónias e por isso é preciso tempo (Rádio Moçambique, noticiário das 19:30).
Ritos de iniciação à violência (3) (prossegue)
Prossigo esta série, na qual escrevo sobre a violência violenta, não sobre a violência doce.Prosseguir esta série é estarmos dentro da economia política da violência em geral e da punição em particular, é estarmos dentro das tecnologias de punição e dor, é estarmos no interior da liturgia dos corpos maltratados - seja em parte, seja no todo pela morte -, é penetrarmos em todo o complexo mundo da colonização dolorosa da nossa parte física e, também, é penetrarmos no aguilhão psicológico que pode ficar - e certamente fica - em muitos de nós.
Julgo ser importante recuar ainda mais no passado.
Quem estuda a história colonial em Moçambique, quem viveu na era colonial, sabe que a palmatória era o instrumento-tipo da punição administrativa, a cargo de administradores, chefes de posto, régulos e cipaios.
Sabe, também, que a palmatória (a famosa régua dos cinco olhos) usava-se mesmo nas escolas. Um caso pessoal: em 1956, eu apanhei repetidamente nas duas mãos na Escola Baptista Coelho de uma severa professora pelo facto de ter chegado atrasado à aula. Fiquei com as mãos inchadas, devo confessar que chorei, que me doeu imenso. Nunca mais esqueci isso. Nem esquecerei.
Nunca ninguém em Moçambique fez o saldo psico-social, estudou as sequelas desses variados processos no pós-independência. Todavia, os trabalhos psiquiátricos de Frantz Fanon contêm, a esse respeito, importantes ensinamentos na era colonial na Argélia.
Eleições no Zimbábuè também são nossas (3) (prossegue)
Prossigo a série dedicada ao Zimbábuè.Qualquer pessoa ou organização interna ou externa que critique o regime de Robert Mugabe do Zimbábuè é imediatamente considerada estar ao lado do Ocidente, da Inglaterra, das forças inimigas, da conspiração imperialista, num país onde a inflação está acima dos 100.000% e, segundo o Fundo Monetário Internacional, atinge os 150.000%.
Estamos num país onde e para onde é produzido um discurso sistemático de diabolização de qualquer leitura crítica da situação política interna e de resgaste permanente das virtudes do regime de Mugabe, de sistemática externalização das causas dos problemas do Zimbábué, tal como o regime racista da ex-Rodésia e o regime colonial português em Moçambique atribuíam ao comunismo as causas dos problemas internos da altura, da insatisfação nacionalista.
Estamos num país onde a oposição - especialmente do MDC e do ex-membro da Confederação dos Sindicatos do Zimbábué, Morgan Tsvangirai, actual líder do partido - é vista pela ZANU como um sub-produto, como um ariete do Ocidente, como uma marionete, como um corpo externo, como algo que não tem raízes internas. Por outras palavras: é suposto que no país só há minerais, acéfalos.
Estamos num país onde as mais altas chefias militares e policiais têm sistematicamente declarado que não aceitarão qualquer outra direcção política que não seja a de Mugabe e do partido no poder, a ZANU.
Estamos num país onde foi recusada a presença como observadores eleitorais quer de membros do Fórum de Parlamentares da SADC*, quer de qualquer organização internacional credível e crítica.
Estamos num país onde cerca de quatro milhões de zimbábuèanos estão exilados.
Estamos num país onde se emendou a constituição para permitir à polícia estar perto das mesas de voto.
Estamos, finalmente, num país onde todo o processo eleitoral está desde o princípio viciado.
Esse o quadro que pode gerar o efeito Quénia.
Nota: os jornalistas Fernando Gonçalves (editor do semanário "Savana") e Paul Fauvet (da "Agência de Informação de Moçambique") tiveram, entre outros participantes, a frontalidade de dizerem, em essência, o que agora escrevi, num debate que decorre neste momento na Rádio Moçambique ao nível do programa "Linha directa",
* Todavia, está presente no Zimbábué uma delegação de observadores da SADC.
Hoje: escreverei sobre o Zimbábuè
Hoje regressarei ao Zimbábuè, as eleições são já no dia 29. A série chama-se "Eleições no Zimbábuè também são nossas". 22 de Março de 2007: explosões no paiol de Malhazine
Eis a postagem que coloquei neste diário às 17:38 de 22 de Março de 2007 (as explosões começaram cerca das 16:30), postagem seguida de múltiplas outras durante vários dias:
"Ao que parece devido a um curto-circuito, Maputo estremece com estrondos violentos e consecutivos no paiol das Forças Armadas situado no bairro de Malhazine. Pânico, especialmente nos locais próximos."
Recorde aqui uma carta que escrevi ao presidente da República, Armando Guebuza. Veja ou reveja um pouco em vídeo as explosões aqui.
21 março 2008
Existe o zicoísmo? (7) (prossegue)
"Dêem-lhe todas as satisfações económicas de maneira que não faça mais nada senão dormir, devorar pastéis e esforçar-se por prolongar a história universal: cumulem-no de todos os bens da terra e mergulhem-no em felicidade até à raíz dos cabelos: à superfície de tal felicidade como à tona da água virão rebentar bolhas pequeninas" (Dostoievski, No meu subterrâneo)Vamos lá então prosseguir mais um bocadinho esta série sobre o zicoísmo, zicoísmo que é a liturgia dos instintos, o pop da sexualidade imediata.
Escrevi, no número anterior, que o zicoísmo podia ser considerado um sistema, um sistema irradiador de sinais, sinais ao mesmo tempo sexuais, descerebralizadores e analgésicos.
Mas - eis um ponto importante - a música é feita para pensar? Creio que, regra geral, não, a música é fundamentalmente coisa da alma, nutriente dos sentidos, alimento das emoções. Não é, o mais das vezes, feita para ser pensada, mas para ser sentida (todavia, existe um tipo de música que conjuga os sentidos e o pensamento, a emoção e a razão, é como se a emoção pensada e fazendo pensar; mas não falarei disso agora).
O zicoísmo é, então, feito para o nosso campo emocional. Mais concretamente: para o nosso campo baixo-ventral, caninamente considerado em Nakudjula Hi Doggystile. Deve por isso ser condenado, por exemplo enquanto exercício pornográfico? Compete a cada um de vós a decisão. Aqui não estou a tentar analisar o sistema zicoísta enquanto campo moral, mas enquanto campo emissor de sinais sexuais.
Todavia, o zicoísmo é bem mais do que um sistema musical de erotismo funcional destinado a emocionar, é bem mais do que um sistema centrado exclusivamente em Zico ou em outros zicoístas. Por quê? Porque salta fora do seu perímetro lúdico, porque se institui como modelo de consumo, como eixo social. É emitido, mas também recebido. Há quem o consuma, quem o partilhe, quem dele precise. A zicodependência precisa, portanto, ser analisada. Lembre-se do quanto Maboazuda foi e é ainda consumida.
Nota: a qualquer momento posso rescrever coisas aqui, o que, a suceder, assinalarei a vermelho.
Existe o zicoísmo? (6) (prossegue)
Mas antes de a prosseguir, deixe-me preveni-lo de uma coisa: não analisarei um vídeo, gentilmente enviado por dois leitores, no qual Zico (ou Ziqo) surge fazendo sexo com uma mulher. E não analisarei o vídeo porque não sei se ele tem uma relação directa com a canção que suscitou esta série, porque ignoro o seu contexto.
Vamos lá, então.
O zicoísmo é um sistema. Palavra forte, palavra que dá um horizonte ao Zico, jovem que anteontem vi na televisão Miramar em programa promotor da sua alma benemérita, pois mostrou que está a ajudar uma família desfavorecida.
O zicoísmo é um sistema na medida em que se constitui enquanto emissor kitsch do corpo sexualizado na sua vertente mais instintiva, mais facilmente manipulatória, mais colada ao lado escondido dos desejos sexuais, frequentemente recalcados, manietados: a sua explosão plena, digamos que canina. Esta explosão atravessa em permanência o Maboazuda e o Nakudjula Hi Doggystile. É o fun-system erigido em fim de si próprio, o drugstore dos instintos de consumo imediato.
Mas o zicoísmo (que tem outros popmilitantes a vários níveis no nosso país) é bem mais do que isso: é, especialmente, num ritmo musical que sinto agradável, um sistema produtor de afasia mental. O hino aos sentidos - projectados no clímax do quero à moda do cão - é, ao mesmo tempo, um hino à descerebralização, à evacuação do manifesto pensante, da arqueologia do social, da clínica dos seus fundamentos.
O zicoísmo - que é também um emissor masculinocrata de sinais de poderio imperial sobre o corpo feminino - oferece um pronto-a-consumir fácil: façamos sexo e deixemos de pensar. O zicoísmo configura-se como um amortecedor da adrenalina política, é como se uma versão menor daqueles paraísos programados do Aldous Huxley, do melhor dos mundos, nos quais se deixou de pensar.
Tenho para mim que o zicoísmo (algo bem mais complexo do que a mera música pimba) começa onde, efectivamente, deixamos de pensar. Subvertor do nosso cancioneiro popular e urbano, é um sistema de pensamento despensado e dispensado, desmotorizado, desactivado, expulso. Ele é verdadeiramente o anti-azagaísmo, um soporífero, num país que, a partir de Maputo, vive uma modernidade capitalista rápida que produz em muitos cidadãos a consciência aguda das injustiças e das desigualdades sociais, essa consciência cantada por Azagaia.
Nota: a qualquer momento posso rescrever coisas aqui, o que, a suceder, assinalarei a vermelho.
Declaração dos Amigos da Floresta
Por ocasião da comemoração hoje do Dia Internacional da Floresta, recebi dos Amigos da Floresta uma declaração da qual extractei o seguinte: "Contudo, o ano de 2007 foi repleto de notícias revelando o quanto problemático é o sector das florestas, denunciando-se a exploração ilegal em vários pontos do país, as deficiências na fiscalização, o abandono de toros nas matas, a exportação ilegal de madeira de primeira classe e a apreensão de grandes quantidades de toros nos portos prontos para sair ilegalmente do país. A este quadro acrescentamos os impactos causados pelas queimadas florestais, pela agricultura itinerante, pela exploração de lenha e carvão florestal, bem como as mudanças climáticas que se têm vindo a registar no país."Preço de combustível pode baixar?
Nota: seria interessante conhecer a opinião dos economistas que têm blogues, por exemplo os colegas aqui e aqui.
A rosa que desgosta Eneas
Porque tudo é mesma coisa
O Sr. Bernardino deu, sem se aperceber, uma notável e singela lição de como se deve, filialmente, gerir o Estado. É, depois de Maquiavel, a maior autoridade no tema.
A "hora do fecho" no "Savana"
Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "Na hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com a "hora do fecho" desta semana:* Afinal ainda há empresas “socialistas” em Moçambique. O novo “boss” do sector que tem nas mãos a “batata quente” do transporte público urbano, descobriu que na empresa dos “machimbas” da capital há 545 trabalhadores para 40 autocarros, o que dá um rácio de mais de 13 pessoas por unidade operacional. Por isso o “boss” diz que não bastam mais autocarros, é preciso alterar a gestão. Mesmo que os sindicatos e a tsunami2 não gostem de ser confrontados com estas realidades …
* E quem anda mesmo zangado com a “dama de ferro” do ministério do Alto-Maé são os empregadores. Dizem que a nova lei, em vez de simplificar só complica a vida de quem quer criar riqueza e recrutar trabalho e gestão com maior qualidade. Um dos comentários, claramente de quem não gosta da senhora, é que a sede da fossilizada central sindical passou a ser no ministério.
* Há um tempo atrás, depois de muito burburinho de corredor, o grande chefe voou para Washington a fim de assegurar os 500 milhões que Mr. Bush quer enviar como desafio do milénio para a “pérola do Índico”. Mas as manobras de corredor continuam e não há meio de a mola começar a ser usada. Pelo caminho caiu uma empresa ligada ao “lobby” do partidão e um jovem quadro que nadava em “verdinhas”. Estar encostado à maçaroca não é tudo na vida …
* E como os donos da mola também perdem as boas maneiras, já estão a promover uma transferência à moda das estrelas de futebol, para que os 500 milhões sejam bem geridos. O “patrão dos patrões” é que está triste pois, mais uma vez, vai perder o seu braço executivo. Será que vai haver celebração pelas terras “machuabo”?
* Dr. Tsunami, já depois de ter feito marcha-atrás nos hospitais de dia, ganhou um aliado de peso na guerra da propaganda. O sociólogo que teoriza corrupção e tenta enquadrar a crítica de cantores críticos lá vai dando uma mãozinha ao doutor no matutino do banco central. A associação dos médicos é que não está pelos ajustes e prepara resposta sobre o tema e a falta de medicamentos nas unidades hospitalares. Vamos ver se solicitam consultoria ao sociólogo para saber como fazer a crítica…
* No 1º. aniversário dos massacres do paiol tudo parece conjugado para estragar o sossego do ministro inamovível. Nos vários debates nos canais televisivos, o seu nome foi, mais uma vez, o mais badalado para ser remodelado. Dias depois, numa explosão de um paiol na Albânia, um dos antigos aliados naturais, o chefe do pelouro da Defesa pediu de imediato a demissão porque achou que “não tinha condições morais e políticas” para continuar no posto. Chatice de coincidências…
* O ministro porta-voz dos outros ministros, pela segunda vez é citado a dizer que as taxas de aeroporto serão integradas nos bilhetes de avião. Só que os ratos de aeroporto, porque é “cash” que entra todos os dias, lá continuam a cobrar as “verdinhas” nos seus casulos, fazendo perder tempo e complicar o sistema nervoso dos viajantes.
* Há uma petição a circular para que o nosso constitucionalista mor e mais uns tantos juristas que participaram na reunião do Tofo, onde foi plasmada a primeira lei mãe, para fazerem um curso acelerado ao mais alto nível e para explicar o significado de Estado laico e republicano. Com o piscar de olhos às religiões que novos e antigos sobas do poder fazem, mais parece que se caminha para um Estado confessional …
* Os filhos de papá da “nomenklatura” continuam a dar de cabeça dentro e fora do país. Para além das pistolas em discotecas, máquinas de escrever partidas nas esquadras de outros, o filho do “boss” da SADC resolveu dar uma volta com o carro protocolar do papá e teve azar. Segundo o Mmegi, o desencartado espatifou-se contra um muro e a organização ainda não disse quem vai pagar a factura.
Em voz baixa
* Um “cantor de moda”, promovido a “star” na telefonia móvel, diz que o que está a dar é o “estilo à cão”. E para mostrar como é, um vídeo, aparentemente retirado do seu telemóvel, já circula intensamente na internet. Quo vadis Moçambique …"
A guerra das bandeiras em Chemba
Segundo o semanário "Savana", o partido Renamo quer instalar dez sedes em Chemba, província de Sofala, e requereu autorização para o efeito. O administrador local disse que "os mesmos já foram despachados, indicando que no momento uma equipa da administração ligada ao cadastro está no terreno a rever os lugares requeridos pela Renamo para a instalação das suas sedes." Porém, já se passaram quatro meses. Enquanto isso, um jornalista do "Savana" percorreu cerca de 100 quilómetros pelas regiões de Mulima, Catulene e Jequecene "e notou que a única bandeira que simboliza a Renamo estava hasteada na sede distrital do partido. Enquanto isso, as bandeiras do partido Frelimo encontram-se “espalhadas” por quase toda a extensão de Chemba, um facto singular num distrito onde a Renamo sempre foi titular de hegemonia política. A situação já está a criar singulares episódios políticos, como o que se assistiu no primeiro dia do corrente mês. Um grupo de membros da Renamo que pretendia hastear a sua bandeira na localidade de Catulene, posto administrativo de Chiramba, a 47 quilómetros da vila sede de Chemba, foi proibido pelo chefe daquela localidade, Samuel Chareua, que ordenou, de imediato, à polícia comunitária para retirar a bandeira." Segundo o semanário, houve mesmo pancadaria subsequente (edição de 21/3/08, p. 5).
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