Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
27 agosto 2010
Os Moçambicanos são preguiçosos? (6)
"Deus chama cada um para uma vocação cujo objetivo é a glorificação de Deus. O pobre é suspeito de preguiça, a qual é uma injúria para com Deus" - João Calvino
Vamos lá a mais um pouco desta série.A partir de 1959, relatórios coloniais em Moçambique começaram a mostrar que a preguiça dos colonizados era, afinal, devida à má alimentação e às doenças. Então, por exemplo, para que o rendimento laboral fosse ampliado, o Estado colonial procurou que as companhias melhorassem as rações alimentares com quotas diárias de proteínas, vitaminas e sais minerais, quotas que figuravam em determinações administrativas minuciosas, determinações que eram acompanhadas de inspecções mensais aos locais de trabalho e à qualidade dos alimentos.
(continua)
Excepcional
Contracapa do novo trabalho do cantor angolano Waldemar Bastos, acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Londres.
26 agosto 2010
Greve da função pública na África do Sul: situação complicada em Joanesburgo (4)
(fim)
Nota: obrigado ao jornalista João de Sousa pelo envio do material directamente da África do Sul. Finalmente, leia aqui.
Greve da função pública na África do Sul: situação complicada em Joanesburgo (3)
Despacho do jornalista da Rádio Moçambique, João de Sousa, sedeado na África do Sul: "Situação complicada nas ruas do centro da Cidade de Joanesburgo com manifestações dos trabalhadores da Função Pública, aos quais se associaram os da Indústria Metalúrgica, das Minas, da Indústria Têxtil e do Sector de Alimentação e Bebidas. O Governo considera tratar-se já de uma acção anárquica. A Polícia, que estava para entrar em greve hoje, acabou por vêr o seu pedido indeferido pelo Tribunal de Joanesburgo na madrugada de hoje."
(continua)
Greve da função pública na África do Sul: situação complicada em Joanesburgo (2)
Despacho do jornalista da Rádio Moçambique, João de Sousa, sedeado na África do Sul: "Situação complicada nas ruas do centro da Cidade de Joanesburgo com manifestações dos trabalhadores da Função Pública, aos quais se associaram os da Indústria Metalúrgica, das Minas, da Indústria Têxtil e do Sector de Alimentação e Bebidas. O Governo considera tratar-se já de uma acção anárquica. A Polícia, que estava para entrar em greve hoje, acabou por vêr o seu pedido indeferido pelo Tribunal de Joanesburgo na madrugada de hoje."
(continua)
Greve da função pública na África do Sul: situação complicada em Joanesburgo (1)
Despacho do jornalista da Rádio Moçambique, João de Sousa, sedeado na África do Sul: "Situação complicada nas ruas do centro da Cidade de Joanesburgo com manifestações dos trabalhadores da Função Pública, aos quais se associaram os da Indústria Metalúrgica, das Minas, da Indústria Têxtil e do Sector de Alimentação e Bebidas. O Governo considera tratar-se já de uma acção anárquica. A Polícia, que estava para entrar em greve hoje, acabou por vêr o seu pedido indeferido pelo Tribunal de Joanesburgo na madrugada de hoje."
(continua)
Já de seguida com fotos
Ponto de situação da greve da função pública na África do Sul com um despacho que o jornalista João de Sousa da Rádio Moçambique me enviou há momentos, já de seguida.
Cândido e Cecília
Sobre o cantor moçambicano Cândido Xerinda (aqui acompanhado de sua esposa Cecília), residindo em Montpellier (França), confira aqui, aqui, aqui e aqui. O artista acaba de lançar Moya Africa.
Adenda às 16:55: tradução do título da canção do vídeo: pensamento de uma pessoa, língua XiChangana (sul de Moçambique). A canção fala de uma feiticeira que pode aprisionar o corpo, mas jamais a mente e a alma. Obrigado ao Cremildo Behula pela explicação.
Adenda às 16:55: tradução do título da canção do vídeo: pensamento de uma pessoa, língua XiChangana (sul de Moçambique). A canção fala de uma feiticeira que pode aprisionar o corpo, mas jamais a mente e a alma. Obrigado ao Cremildo Behula pela explicação.
Postagens na forja
Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:* Genéricos: A "hora do fecho" no "Savana"; Marco do correio; Waldemar Bastos
* Séries pessoais: Linchar à luz do dia: como analisar? (3) Os Moçambicanos são preguiçosos? (6); O pronto-a-pensar (8); Somos natureza (7); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (10); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)
"Zambeze" e Guebuza
O semanário "Zambeze" com data de hoje tem a página 2 dedicada ao presidente Guebuza. A primeira parte, com o título "Governo acomoda patrão Guebuza em "Mphanda Nkuwa", é dedicada à autorização governamental dada à empresa INSITEC SGPS de participar na exploração do projecto hidroelécrico de Mphanda Nkuwa, empresa que o jornal assegura estar ligada ao presidente. Na segunda parte, em caixa, com o título "Empresas de Armando Guebuza e da nomenclatura frelimista", foi feito um inventário de muitas empresas de vários ramos de actividade (designadamente energia, turismo, telecomunicações, publicidade, finanças, recursos minerais, construções e consultoria) das quais, segundo o jornal, Guebuza é sócio, bem como outros quadros do Partido Frelimo.
Três perguntas aos leitores
De acordo com o "O País", o Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Gestão das Participações de Estado, Hipólito Hamela, "confirma a intenção de venda de acções na empresa Moçambique Celular - Mcel. Hipólito Hamela disse que a pretensão não está ainda decidida, mas tendo revelado apenas que a venda de parte das acções nesta operadora de telefonia móvel, vai permitir que os moçambicanos emponderem-se."
Três perguntas: regularmente a Mcel aparece como uma empresa de sucesso, multiplicando-se em copiosos anúncios pelos jornais. Como sou ignorante no ramo, permito-me colocar aos leitores as seguintes três perguntas: (1) Se é uma empresa de sucesso, o que significa vender acções?; (2) Qual o súbito interesse em "empoderar" os Moçambicanos? (3); De que Moçambicanos se trata?
Primeiros meses de Estado guebuziano em 2005
Boletim sobre o Processo político de Moçambique (32), AWEPA, 15 de Julho de 2005: "(...) Pela primeira vez desde o período pós-independência, um novo presidente está a tentar reformar radicalmente o governo moçambicano, mas dar-lhe a volta está a provar ser mais difícil do que se esperava. (...) Durante vinte anos Joaquim Chissano esteve à frente de um governo acusado de "deixa andar", de corrupção e abuso do poder. Os funcionários que tinham criado confortáveis feudos estão a resistir à mudança, e é evidente que alguns “dinossauros” precisam de ser substituídos por um geração mais jovem. (...) O novo governo foi buscar muitas características do governo de Samora Machel do final dos anos 70, enquanto o Presidente Armando Guebuza tenta impor dinamismo e criar um vento de mudança."
Os Moçambicanos são preguiçosos? (5)

"Deus chama cada um para uma vocação cujo objetivo é a glorificação de Deus. O pobre é suspeito de preguiça, a qual é uma injúria para com Deus" - João Calvino
Mais um pouco da série.
Capítulo fascinante da história colonial é a luta entre os capatazes das plantações com o regime de tarefas e os corpos nos quais se pretendia instalar o hábito continuado do que me permitirei chamar fordismo de plantação: tantos cocos por dia, tantos pés de sisal por manhã, etc. Essa era um luta entre concepções diferentes de trabalho, de modos de produção, de visões da vida. Era nessa luta que o trabalhador era colonialmente considerado preguiçoso. Quando digo colonialmente não falo apenas do capataz e/ou do administrador: falo também do régulo, encarregado de arregimentar e de controlar os trabalhadores nas comunidades com ajuda dos cipaios.
(continua)
Nota: recorde uma série inacabada aqui.
Linchar à luz do dia: como analisar? (2)
Avanço nesta série com algumas hipóteses.
Parece ser sensato defender que a noite é um resguardo, um esconderijo para o linchamento impune posto em acto logo que alguém grita "ladrão" e se forma a multidão. Mas esse não é o real elemento percutor dos linchamentos. O elemento percutor é a conjunção de duas coisas nos bairros periféricos das nossas cidades: o roubo sistemático e o medo (especialmente nocturno) dos residentes. Os bairros periféricos - densamente habitados - são, regra geral mal iluminados e mal (ou nunca) policiados. As casas - muitas juntas umas das outras, na maior parte dos casos de construção precária - não dispõem dos dispositivos de segurança dos centros urbanos. Em meios habitados por muitos jovens e mulheres, o roubo campeia, reinam o desemprego, a cultura do presente, a ausência de economias, a vida em permanente exposição colectiva, o pequeno comércio retalhista, o consumo de bebidas alcoólicas e de drogas, a sobrevivência mediante expedientes e esquemas, o recurso imediato à rixa para resolver problemas, a ludicidade competitiva, a desconfiança e a repulsa para com os agentes e os símbolos das sociedade do bem-estar dos centros urbanos. Quando a noite chega, vem acompanhada do medo. E o medo, quando sistemático e cansado - e, portanto, ávido de bodes expiatórios e de catarse -, faz com que possamos ver assaltantes tanto reais quanto imaginários.
(continua)
Sugestão: sugiro leiam um importante comentário do antropólogo Paulo Granjo aqui.
Somos natureza (6)
Mais um pouco desta série.
Herdámos, sem ressaibos, a concepção hegeliano-colonial, a de que somos fundamentalmente natureza. Essa assumpção é um estandarte identitário permanente com o qual fazemos face às malevolências da história (deixem-me dizer as coisas assim), mesmo se e quando, bem dialecticamente, mostramos ser exímios gestores da modernidade.
(continua)
25 agosto 2010
Postagens na forja
Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Linchar à luz do dia: como analisar? (2) Os Moçambicanos são preguiçosos? (5); O pronto-a-pensar (8); Somos natureza (6); Indicadores suspeitos e comoção popular (11); Vassalagem (4); Cientistas sociais são "sacerdotes"? (8); É nas cidades do país (9); Ciências sociais e verdade (10); Já nos descolonizámos? (12); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (15); Moçambique dentro de 30 anos (série) (6) (recordar aqui e aqui)
Linchar à luz do dia: como analisar? (1)
Acusadas de roubo, três pessoas foram espancadas e queimadas vivas no último fim-de-semana em dois bairros periféricos da cidade da Beira (uma na Manga e duas na Munhava). Segundo a Rádio Moçambique, duas outras encontram-se hospitalizadas com ferimentos graves. De acordo com o "O País" online, os linchamentos foram efectuados por centenas de pessoas. Foi isso feito de noite? Não, foi em pleno dia. Segundo o jornal, o Secretário da Munhava disse que "os moradores optaram pela justiça com as próprias mãos, porque a polícia revela falta de capacidade para conter a onda de criminalidade que tende a agudizar-se naquele bairro" (confira numa postagem minha aqui). Num estudo que dirigi sobre linchamentos no país, divulgado em dois livros em 2008 e 2009 (frequentemente referidos neste diário), verificou-se que a noite e o secretismo eram o pano de fundo desses actos. Ora, no evento aqui em causa, os linchamentos foram executados em pleno dia por multidões, acrescendo que foram demasiados casos para um período temporal demasiado curto. Como podemos analisar isso?
(continua)
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