24 julho 2007

O sacrifício de Tântalo: desDOADORizar as eleições (2)

Somos, se permitirdes a comparação, um fac-simile daquele herói de um filme de Charlie Chaplin que, apanhado por uma tempestade de neve quando dormia na sua cabana, vê esta de repente na borda de um precipício. Ao acordar, quer sair. Mas se avança para o lado do precipício, a cabana tomba; se recua e pretende sair, a tempestade aguarda-o. O herói de Chaplin não pode nem habitar a cabana nem deixá-la.
Como em tantas outras coisas, somos assim nas eleições.
Se não fazemos eleições, não há dinheiro, democracia e partidos; se as fazemos, dão-nos o dinheiro mas impõem-nos que as deixemos monitorar até ao tutano.
O nosso corpo tem de estar rigorosamente nu e pronto ao aluguer.
Todos sabemos disso, uns mais outros menos, uns mais perversos outros menos.
Mas deixemos isso e façamo-nos a seguinte e singela pergunta: que cenário devemos prever para no fim, no fim de tanta democrática angústia, em apoteótico clímax, com uma multidão de partidos roendo as unhas da expectativa, o dinheiro finalmente surgir, como a abençoada chuva em terra gretada?

Psiu....Deixa-falar!


Das mulheres de Bourdieu às mulheres de Touraine (1)

E se, por acaso, as mulheres gostassem mesmo de ser mulheres? E se gostassem de ser dominadas dominando pela feminilidade? Perguntas bizantinas, decerto. Mas aguardem que nas próximas horas eu poste aqui algo a propósito.

Sengulane critica festa nos funerais

"Falando por ocasião da 58ª sessão da conferência geral do CCM, havida semana finda na capital do país, Dinis Sengulane disse que a disposição de tornar os funerais momentos de festa, através da exigência de comidas e bebidas luxuosas, concorre para a profanação daquelas cerimónias, carregadas de muita dor e seriedade."
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Oiçam: tendes mais dados sobre este fenómeno? E como interpretá-lo? Ou ele, afinal, não é novo? Ou ele é, apenas, a consequência logica do que habitualmente chamamos "economia de mercado"?
Adenda, 12.26: o Bayano Valy acabou de me enviar um estudo feito pela Save the Children, "onde - escreveu o Bayano - aparece abordada a questão do "esbanjamento" dos bens da família enlutada. A questão foi levantada no contexto de crianças órfãs que vêem os familiares a consumirem os bens legados a eles pelos seus pais." Importe aqui, analise e debata connosco. Muito obrigado, Bayano.

Não gosta? Não consuma: Florêncio responde a Belmiro

Eis a resposta de Florêncio à posição do jornalista Belmiro:
"Meu caro Belmiro,
Para não correr o risco de voltar a ficar chocado com algum espectáculo bem remexido, sugiro-lhe que procure informar-se antes de CONSUMIR.
Sim, quando se desloca à Catedral Pimba, ao Cine-África ou a outros locais para assistir a espectáculos, o Belmiro vai CONSUMIR, vai pagar para ver e ouvir.
O bom senso aconselha “ler os rótulos do PRODUTOS” antes de os consumir. Não gosta da semi-nudez nos palcos? Não CONSUMA, não vá; há quem goste!
Acha chocante uma barriguinha ao léu, de grávida, numa mulher jovem e bonita num palco! Não CONSUMA, não vá. Há quem, sem qualquer tara, veja encanto nisso.
Assistiu a um “remexe nojento e vergonhoso” numa TV local; não gosta de “tanto striptease e tanto remexe” ? Não CONSUMA, mude de canal.
O Belmiro acha mesmo que “aprumo, rigor, ponderação, respeito e sobretudo um alto grau de moral e ético” se mede pelo “canudo”. Olhe à sua volta e verá, certamente, gente simples com todos esses atributos.
Não confunda as TANTAS “Ivânias” que pululam pelos nossos palcos com as PERSONAGENS que representam.
Entenda o espectáculo numa dimensão mais ampla: “tudo o que atrai o nosso olhar, a nossa atenção; diversão; cena; escândalo, etc. "
Um abraço

23 julho 2007

O sacrifício de Tântalo: desDOADORizar as eleições (1)

Os doadores disseram-nos que chegou a hora de financiarmos as eleições com o Orçamento Geal do Estado, de resto em grande medida por eles financiado. O que é que isso pode representar para o nosso país? Essa uma pergunta potencialmente tantalesca.

Linchamentos: BBC reporta pesquisa da Unidade de Diagnóstico Social


A BBC reportou a divulgação dos resultados preliminares sobre os linchamentos em Maputo feita quarta-feira passada pelos investigadores da Unidade de Diagnóstico Social do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane. Confira aqui.

Moçambicanos! Chegou a hora de vocês financiarem as vossas eleições - dizem doadores

"O grupo de doadores que financia Moçambique recomendou ao Governo para que passe a contemplar o dinheiro das eleições no Orçamento de Estado de forma a evitar que o processo seja comprometido por falta de vontade deste, como está a acontecer no caso das eleições provinciais.
De acordo com o Boletim sobre o processo político em Moçambique publicado pela AWEPA “os doadores dizem que é tempo de deixar de assumir que eles vão pagar as eleições, especialmente quando Moçambique não cria condições aceitáveis de observação”, diz ainda que “depois de cinco eleições financiadas por doadores, Moçambique devia ter incluído as eleições no seu orçamento geral – que aliás é substancialmente financiado pelos doadores”.

Comunicado de imprensa do MISA a propósito do roubo de computadores ontem no "Magazine Independente"

O MISA-Moçambique emitiu hoje um comunicado de imprensa na sequência do roubo de computadores ocorrido ontem no semanário "Magazine Independente", que aqui divulgo em primeira mão:

"COMUNICADO DE IMPRENSA

Roubo de computadores do “Magazine Independente”
pode visar silenciar a publicação


O capítulo moçambicano do Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA-Moçambique) lamenta o roubo de computadores do semanário “Magazine Independente” ocorrido ontem, domingo, dia 22 de Julho de 2007, na sede daquela publicação, sita na Avenida Eduardo Mondlane, Nº1113, na Cidade de Maputo, acto que foi perpetrado, à luz do dia, por seis homens fortemente armados.
Logo que tomou conhecimento do sucedido, o MISA-Moçambique fez deslocar ao local o seu oficial de Informação e Pesquisa, que pôde observar o carácter violento em que a ocorrência se deu, que era caracterizado por sangue humano resultante das agressões físicas ao guarda e por vestígios de equipamento informático e peças de mobiliário espalhados em quase toda a sede daquele semanário moçambicano.
Na ocasião, o Director daquela publicação, o jornalista Salomão Moyana, afirmou que tinham sido roubados 12 computadores PC na redacção do “Magazine Independente”, incluindo outros dois computadores portáteis, que foram retirados do seu gabinete e do do Editor daquele jornal.
“Duvido que tenha se tratado de um roubo igual a tantos outros que acontecem no país. Isto pode se tratar de algo visando silenciar o nosso jornal”, disse Salomão Moyana ao MISA-Moçambique.
O MISA-Moçambique desconfia que aquele acto violento, que se assemelha a um roubo, vise silenciar aquela publicação independente, o que, a ser verdade, significará um claro atentado à Liberdade de Imprensa e de Expressão, bem como ao Direito à Informação.
A desconfiança desta organização resulta do facto de os indivíduos que irromperam pelas instalações adentro daquele semanário terem somente se preocupado com a parte dos computadores onde se encontra o disco duro, que é a peça que guarda informação, deixando outros componentes, como é o caso de monitores.
Na manhã de hoje, segunda-feira, dia 23 de Julho, o MISA-Moçambique manteve um encontro com o superintendente Abílio Quive, porta-voz do Comando da Polícia da República de Moçambique (PRM) ao nível da Cidade de Maputo, com o objectivo de dele saber o que as autoridades policiais estão a fazer no sentido de esclarecer o caso.
Abílio Quive disse que o roubo violento ao “Magazine Independente” como tantos outros constitui preocupação para a Polícia, “que sempre faz de tudo no sentido de descobrir os seus autores e responsabilizá-los criminalmente. Estamos a trabalhar neste caso e, neste momento, não há nenhum detido”.
Explicou ainda que, tendo aquele caso se registado durante o último fim de semana, o mesmo foi abordado durante a reunião que os oficiais da Polícia em serviço no Comando da Cidade de Maputo tiveram esta manhã, não tendo, contudo, avançado o que terá sido efectivamente dito a respeito do roubo violento ao “Magazine Independente”.
Questionado pelo MISA-Moçambique sobre se a Polícia não acha que aquela ocorrência pode visar silenciar aquele semanário, que nos últimos dias publicou várias peças jornalísticas não abonatórias a alguns quadrantes, de entre os quais se destacam a própria PRM e a famigerada gang de Agostinho Chaúque, Abílio Quive afirmou que “não achamos que seja isso, dado que eles são livres de escrever o que quiserem”.
O MISA-Moçambique apela às autoridades policiais no sentido de esclarecerem, o mais rápido possível, o roubo violento ao “Magazine Independente”, o que, para esta organização, não é normal, dado se tratar do primeiro caso do género em 32 anos de Moçambique independente.
Maputo, aos 23 de Julho de 2007"
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O meu obrigado ao Ericino de Salema, oficial de Informação e Pesquisa, pelo envio do comunicado.

Cartas de amor: blogue da semana em "Links&Sites"


Depois deste diário, é agora a vez do meu blogue "nossas cartas de amor" figurar como um dos blogues da semana no portal brasileiro "Links&Sites".

José Belmiro critica Dama do Bling


O jornalista José Belmiro analisa a Dama do Bling e faz-lhe uma crítica severa no que concerne ao aborto que teve. Deixou um comentário neste diário, reproduzindo o que escreveu no seu blogue. Portanto, o debate prossegue aqui.

"Magazine": o problema do problema


Tal como ontem reportei, homens armados assaltaram a redacção do semanário "Magazine" e roubaram vários computadores.
Estamos, asssim, confrontados com um problema criminal aparentemente simples. Se esta simplicidade for aceite, o problema pode ter uma resposta assim: os computadores foram roubados para posteriormente serem vendidos.
Todavia, um computador é uma caixinha mágica complexa onde habita um coração chamado disco duro. No disco duro guardamos informação. E esta informação pode ser importante a vários níveis.
Então, agora, podemos pôr um problema ao problema. O problema do problema pode dar origem a esta pergunta: tem o roubo a ver com a informação guardada nos discos duros do "Magazine"? A pergunta tem subjacente esta outra: não é o "Magazine" um jornal agressivo, não é o Salomão Moyana, seu director, um jornalista crítico?*
E, já agora, neste campo de hipóteses, creio ser importante recordar uma série colocada neste diário há tempos a propósito do roubo de informação.
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*Outras duas perguntas maliciosas, encaixadas entre o problema e o problema do problema, poderiam ser assim feitas: por que roubar tantos computadores? E por que roubar computadores usados?

Na Beira: Cremilda adverte Deviz

Foram recentemente nomeados adminstradores para certos municípios do país. Esta medida causou estranheza e polémica, pois que sentido faria e faz, por exemplo, haver um adminstrador na Beira quando já lá há um presidente de município?
E, agora que há indicadores do excelente trabalho que o Eng. Deviz Simango - da Renamo/União Eleitoral - tem feito na Beira, surge a a administradora Cremilda Sabino advertindo o engenheiro de que deve colaborar com o Estado, dado que - sustentou - 90% do orçamento do município vem do Estado.
Isto mostra, por um lado, quão pouco real é a descentralização municipal e, por outro, como consequência, quanto os músculos estão rapidamente dispostos a desestatizar o Estado sempre que os dividendos políticos estão em jogo.

O pós-português hip-pop ou a língua de Kmoes (2)

Vamos lá ler isto, se não se importam, para prosseguirmos o número anterior:
"Essa nova escrita tem um efeito colateral desagradável para os adultos. A forma abreviada de escrever, que virou padrão nos sites dominados por crianças e jovens, é de dar arrepios. Mas há uma explicação. Na web, a escrita se aproxima mais da linguagem falada. Os internautas lançam mão de recursos como mudar o tamanho do corpo da letra, para dar entonação, e entremear seus textos com símbolos que expressem suas emoções. "Cada período histórico cria seus códigos. Essa linguagem só faz sentido na internet, graças à rapidez que caracteriza a rede", explica Maria Teresa Freitas, da UFJF. Cabe à escola reforçar as diferenças entre os dois gêneros de escrita e as situações em que cada um deles deve ser usado."
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O meu grande obrigado à Cássia por me ter indicado a revista online acima referenciada.

22 julho 2007

Última hora: "Magazine" foi hoje assaltado

Homens armados assaltaram hoje na cidade de Maputo a redacção do semanário "Magazine" (cujo director é o prestigiado jornalista Salomão Moyana), roubando dez computadores e outro material informático. Os guardas do jornal foram amarrados, espancados e colocados numa banheira. A polícia prometeu investigar o caso (Rádio Moçambique, noticiário das 21 horas).
Quanto mais polícia se vê nas ruas, mais parecem aumentar os assaltos espectaculares na cidade.

Mando para Ilser


Acontece que Mando escreveu um poema de amor para Ilser. E já que falo de poesia: o lugar também renasceu.

O pós-português hip-pop ou a língua de Kmoes (1)

Regra geral chego sempre atrasado à porta dos fenómenos. Melhor dito, daquilo que entendo serem fenómenos, coisas que se destacam na minha paisagem de rotinas.
Hoje, ao procurar uma foto diferente de Ivânia, a Dama do Bling, dei comigo a visitar fotoblogs moçambicanos fascinantes.
Foi aí que tropeçaram violentamente os meu dois portugueses: o português digamos clássico e o português moçambicano.
Encontrei o que me permiti e me permito intitular provisoriamente, de forma canhestra, pós-português hip-pop. Deixem-me dar apenas três exemplos:
"eeeeeee paaaaaaaaaa
ppl td nice ai dxe lado???
bem xpero k sim
nada para dizer
apnas comentem bastante
na pic
um damo ai
hehehe
eu memo
lol
peace"
Prossigo só mais um bocadinho:
"pasaba
besosss
bay bay "
Finalmente:
"oooiiih!tdo beinm??
eiixxx!!ek memuh memuh ja nuhx deixouh exa dama menn!!!
sooofffttt!goxtuh duh style!!!!!!:P
bjuu
thankx plo comment"
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Fátima Ribeiro: que comentário pode fazer sobre isto? Certamente tudo isto já é rotina e eu vivo na era jurássica, não é assim? Entretanto, procurarei algo a propósito.

Deixa-falar e Maria/João

Iniciou-se um debate sobre Ivânia no deixa-falar, enquanto Maria e João recomeçaram o diálogo.

Ni Dzivaleli

Dou-te tudo o que quiseres, até um avião - diz o homem. E ela diz: Não! O que eu quero é amor! Neste domingo, oiçamos este belo "ni dzivaleli", um admirável casamento moçambicano entre a marrabenta e o hip-pop.

Ivânia perdeu o filho

A cantora Ivânia Mudanisse, conhecida por Dama do Bling, perdeu ontem o filho, em gestação no quinto mês. De acordo com familiares, ela vivia sob stress devido às críticas que estava a sofrer nas últimas semanas, as quais lhe provocaram hipertensão arterial, constrição e diminuição do fluxo sanguíneo. A artista está internada num hospital sul-africano.
Tal como o semanário "domingo" faz hoje (p. 15), endereço à Ivânia os meus sinceros pêsames.
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E felicito o semanário por, numa das manchetes da sua edição de hoje, apresentar Ivânia - que é licenciada em Direito - como artista e ser humano e não como alguém a estigmatizar na esteira dos mandarins da moral. Foto extraída daqui.

21 julho 2007

Onde pára o "meianoite"?

Algum dos compatriotas sabe dizer-me onde pára o semanário meianoite? Lembro-me de que surgiu com grande publicidade, que se vendia a 7.500 Mts (moeda antiga), que teve uma editora (livros de Elísio Macamo e do Presidente Guebuza) e cronistas de relevo (Calane da Silva, Elísio Macamo, Ungulani Ba Khosa, entre outros). Por que deixou de publicar-se?

Os mandarins da moral


Os mandarins da moral, de todos os azimutes, procedem, faz dias, a um linchamento mediático de Ivânia, a Dama do Bling.
Ela é linchada sob acusação de que fere gravemente a moral.
Os mandarins, os proprietários da fita métrica da moral infalível, chegam mesmo ao ponto de porem em causa o facto de Ivânia dançar grávida, chegam mesmo ao ponto de, de forma indirecta, implícita, a acusarem de pôr moralmente em cheque o filho que transporta no ventre.
Mas, afinal, os mandarins da moral são especialmente mandarins da bagatela. O que no fundo fazem é bagatelizar a vida.
Seria bem mais útil que se debruçassem sobre o sistema que produz os horrores capturados e medidos pela fita métrica da moral mandarinesca, sobre o sistema que tritura, que fagocita todas as regras de moral, incluindo as mandarinescas.
Como escreveram um dia Marx e Engels, efectivamente tudo o que é sólido esboroa-se.
Seria bem mais moral que, em lugar de lincharem Ivânia, os mandarins, os régulos da fita métrica perversa, analisassem o sistema social que dá origem, por exemplo (e, certamente, apenas exemplo modesto no mar dos exemplos-arranha-céus) à construção do futuro Maputo Private Hospital, SARL - sim, assim se vai chamar -, orçado em 18 milhões de dólares, tendo como presidente do conselho de administração um ex-membro do nosso Governo.

As duas Maputos


Nesta foto aérea, temos topologicamente bem em evidência as duas Maputos: ao fundo a Maputo do cimento, no litoral, centro administrativo, comercial e residencial de Maputo; em primeiro plano, com forte densidade populacional, a Maputo-precária, do-salve-se-quem-puder. O aeroporto aparece ao centro.
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In Fabrice Folio, « La criminalité à Maputo, Mozambique : origine, distribution et répercussions spatiales », Cybergeo, Espace, Société, Territoire, article 380, mis en ligne le 2 juillet 2007.

Erotismo bloguista em Moçambique (2) (continua)

Vamos lá então prosseguir esta cruzada ícara, neste tema tão hot.
Recordam-se de que no número inaugural desta série quixotesca escrevi que procuraria estabelecer uma relação entre (1) as síndromas de Stendhal e de Davi, (2) os estudos psicanalíticos de Freud e (3) as invenções do físico inglês Tim Berners-Lee (browser, links de hipertexto, protocolo de transferência http, URLs com os endereços dos sites e a teia gigantesca que ele baptizou com o nome World Wide Web).
As síndromas de Stendhal e de Davi dizem respeito a um conjunto variado de sintomas (alucinações, taquicardia, cansaço cerebral, dissociações psicóticas, pânico, desejos imediatos, etc., no fundo despoletados aparentemente por transtornos psíquicos latentes) provocados pela visão de obras de arte, por exemplo. É como se certas coisas que vemos se transformassem subitamente de banais em excepcionais e fizessem vir à superfície o que está escondido dentro de nós. Isto conduz-nos a Freud.
Os estudos de Freud mostraram uma coisa da qual sabíamos sem saber e sem enunciar ou com muito medo de enunciar: é que armazenamos dentro de nós muitas ansiedades e muitos desejos que a nossa razão, que o conjunto de normas sociais controlam, escamoteam, amputam, policiam, punem simbolicamente. Uma parte importante dessas ansiedades e desses desejos tem a ver com sexo. Isto pode conduzir-nos à net.
Qual a saudável invenção de Tim Berners-Lee? A saudável invenção de Tim é o caminho que foi dar a caixinhas mágicas de contacto instantâneo como isto, este blogue, que foi dar ao messenger, ao skype, ao e-mail, ao Internet Explorer ou ao Opera, a toda a uma panóplia de coisas fantásticas que permitem coisas, ousadias, realizações, compensações, actos não menos fantásticos.
De que maneira, então, podemos criar uma sequência lógica entre a tríade síndromas/subconsciente/net e o nosso tema tão complexo e delicado?
E de que maneira fazendo isso podemos chegar ao corpo, ao corpo do qual fazemos segregar o erotismo para o dotar de uma vida quase autónoma, ao mesmo tempo distante e próxima, à mão e furtiva, desejada mas silhuetada?

Privatização da violência e da justiça: a criminalização do social em Moçambique (4) (continua)


"A moderna sociedade burguesa, uma sociedade que desenvolveu gigantescos meios de troca e de produção, é como o feiticeiro incapaz de controlar os poderes ocultos que desencadeou com as suas fórmulas mágicas" (Manifesto do Partido Comunista)
Naturalmente que são muitos os factores que estão à retaguarda da privatização da violência e da justiça.
Regra geral e no movimento instintivo que nos é peculiar de procurarmos as causas mais locais, mais à mão, recorremos a situações que nos parecem sensatamente lógicas e que, afinal, são mesmo sensatamente lógicas.
Por exemplo, em Moçambique, diremos que as fissuras no nosso judicial e no nosso sistema policial - morosidade processual, corrupção - são as causas da privatização da justiça e da crispação social, da violência que salta da alma para a adrenalina pistoleira, do desespero para as gangs de AK47 que parecem inundar Maputo.
Na mesma ordem de ideias, diremos que o futuro hospital privado a construir em Maputo e orçado em 18 milhões de dólares é fruto natural dos bloqueios de todos os tipos que encontramos nos hospitais estatais.
Tudo isso é sensatamente sensato. Tão sensato como dizermos que a intemperança da linguagem é produto da intemperança da alma.
Mais difícil, porém, é irmos à lógica de um sistema social que - por inteiro - produz, segrega naturalmente, logicamente, inexoravelmente, a visão privada de resolver as coisas da vida, o salve-se quem puder, o darwinismo social.
A privatização da violência e da justiça não tem nada a ver com o inatismo, com o guarda-roupa dos instintos. Não somos inatamente violentos e justiceiros. Não é naturalmente que segregamos os Filemos e as Báucias do Fausto de Goethe ou os pedintes e as crianças de rua das nossas cidades. É socialmente, deixe-me enunciar tão bárbara redundância.
A privatização da violência e da justiça tem, sim, a ver com o sistema social que produz a segregação, o racismo sem raça e as representações sociais atinentes.

O conflito na produção de heróis em Moçambique (7) (continua)


Tenho então para mim que o livro de Norbert Elias mencionado no último número desta série constitui uma excelente ferramenta para analisarmos a produção conflitual de heróis em Moçambique.
Com efeito, estamos hoje confrontados com o fenómeno de termos a gestão do panteão oficial de heróis - a cargo da Frelimo, ganhadora da independência nacional, gestora do Estado -, disputada e posta em causa por uma outra candidata à produção de heróis, a Renamo, parceira de uma guerra civil dolorosa e reclamando ter sido a autora da democracia multipartidária que hoje temos no país.
A Frelimo entende que apenas ela está em condições de produzir os heróis nacionais pois chegou primeiro à Nação, pois foi a criadora da Nação, pois tem a legitimidade da história. A Frelimo entende que qualquer produção fora desse perímetro é uma traição nacional, um atentado à história, à verdade. Por isso impugna violentamente a ousadia da Renamo, a desqualifica, a situa no campo da irracionalidade.
Por sua vez, a Renamo, que disputa a gestão do Estado e se reclama da criação da democracia nacional, entende que tem também o direito de nacionalizar os seus heróis, de lhes dar um estatuto de legitimidade.
Temos aí, então, uma nova guerra, desta vez não com AKs47, mas com heróis, uma guerra pela sua produção e pelo seu controlo.
A atribuição do nome de André Matsangaíssa à rotunda 2314, situada no Bairro da Munhava, arredores da cidade da Beira - cidade municipalmente gerida pela Renamo -, é um exemplo claro de uma primeira brecha aberta no monopólio frelimiano de gestão de heróis, é um exemplo claro do prosseguimento da guerra agora pelo controlo da toponímia.
O problema para a Frelimo é que a atribuição do nome daquele que a Renamo considera ter sido o seu pai fundador à rotunda da Munhava foi feita dentro da lei, ao abrigo da Lei n.º 2/97 de 18 de Fevereiro da Assembleia da República e - coisa fundamental - do próprio processo de descentralização dirigido pela Frelimo. Desesperada, esta tentou este ano invalidar a primeira lei e cortar as pernas à Renamo produzindo a Lei n.º 15/2007 de 27 de Junho, também da Assembleia da República.
Mas já era tarde (veja a edição do "O País" de 20/07/07, pp. 2 e 5; leia aqui, a propósito desse atraso, a preocupação de Jeremias Langa).
O país estava e está definitivamente instalado numa dura luta bipartidária pelo controlo da produção de heróis.
A Winston Parva, a pequena cidade do livro de Norbert Elias é, afinal, o nosso Moçambique.
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Os extractos das duas leis aqui em imagem pertencem ao "O País", ed. citada.

Dama do Bling na pena do Sr. Mamudo Razack


"Acho um insulto indelével cuspir para os moçambicanos dessa forma" - assim decreta o irritado Sr. Mamudo Razack, em violento ataque contra a Dama do Bling.
Entretanto, o que fazer e dizer das esbeltas dançarinas da foto à direita?

Hospital privado na luta contra a pobreza absoluta

"Um hospital privado com capacidade para 120 camas será construído brevemente na cidade de Maputo, um projecto de capitais moçambicanos e sul-africanos, orçado em 16 milhões de dólares norte-americanos. O empreendimento será erguido numa área aproximada de 8500 metros quadrados a ser indicada pelo Conselho Municipal, devendo compreender três blocos operatórios, medicina, maternidade, obstetrícia, pediatria, ginecologia, ortopedia, cirurgia, radiologia e patologia, cuidados intensivos, blocos de consultas médicas, farmácia, morgue, serviços auxiliares e um parque de estacionamento com capacidade para 100 viaturas."
Notícias destas são, claro, absolutamente reconfortantes para o nosso acirrado combate contra a pobreza absoluta.
E tenho a certeza de que é assim que pensa a Sra presidente do Conselho de Administração da Maputo Private Hospital, SARL (pois claro, com a designação assim em inglês temos o cheirinho adequado para a outorga do abençoado "Made in Mozambique"), Isadora Faztudo, antiga vice-ministra de Agricultura e Pescas, ao afirmar que "a perspectiva é fazer com que o projecto contribua para a melhoria das condições de saúde dos moçambicanos".
Como diz a nossa juventude, "yap, moçambique é nice".

20 julho 2007

Lura

Vamos lá, vamos estar com a linda, linda voz caboverdeana de Lura neste admirável "na ri na". E eu que estive recentemente em Cabo Verde, pois é, deu-me a "sodade"...Oiê, vamos lá dançar, na ri na!

Waldemar Bastos

Deixem a bela voz do angolano Waldemar Bastos entrar na alma do nosso fim-de-semana com estas duas belas canções: a viva "Georgina" e a nostálgica "Muxima". Trata-se do registo de um espectáculo realizado em Amesterdão em 2004, em post de GigiBrasil.