21 agosto 2008

Processo político em Moçambique

Já pode ler ler em português o boletim n.º 36 do Processo político em Moçambique aqui. A versão em inglês encontra-se aqui.

Vistos de trabalho falsos

Vem na primeira página do "Notícias" de hoje: 30 cidadãos estrangeiros, dos quais 29 chineses, trabalhavam em Moçambique com vistos de trabalho falsos. Recentemente, o mesmo jornal apresentou um extenso trabalho tendo a contrafacção de passaportes como título e o roubo de passaportes na Direcção Nacional de Migração como um dos temas do corpo da notícia.

Criminalidade

Duas notícias e uma carta de leitor falam de criminalidade no "Notícias" de hoje. Assim, na página 7, uma notícia refere o medo e a insegurança ("momentos de terror", expressão usada) em que vivem os habitantes do Bairro Intaca no município da Matola. Crimes por todo o lado, especialmente na zona da machambas por onde as pessoas passam a caminho das residências, não há iluminação, não há polícia presente. O mesmo ocorre na Matola-Rio, distrito de Boane, assaltos por todo o lado, um residente suspeita serem os crimes da autoria dos recém-regressados da África do Sul. Em carta de leitor (p. 5), Pedro Zimba queixa-se amargamente do roubo em Messano (província de Sofala) e suspeita, também neste caso, do dedo dos regressados da África do Sul*.
* Confira aqui, aqui, aqui e aqui.

Eleições municipais: guerra de curandeiros?

Eleições significa muita coisa, significa para os concorrentes a colocação em campo de inúmeras técnicas de persuasão. Por exemplo, o recurso à magia. E nestas coisas de disputa política as acusações mútuas podem cobrir um vasto leque, desde a de fraude até à de recurso a curandeiros. Assim, de acordo com o semanário "Zambeze" desta semana, o Sr. Carlos Manuel do partido Renamo acusou o partido Frelimo de contratar curandeiros em Nacala-Porto (aqui trata-se do "mestre Joaquim") e Beira com vista a recuperar a gestão dessas cidades, na posse da Renamo. A função dos curandeiros é a de "minar"(sic) os municípios e pô-los magicamente a favor da Frelimo - asseverou Carlos Manuel. Escutado o primeiro secretário da Frelimo na província de Nampula, este afirmou que o seu partido nunca trabalhou com curandeiros mas que "se for necessário recorrermos aos curandeiros podemos fazê-lo, se for estratégia" (última página).
Adenda: no meu livro Eleitorado incapturável - Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche (Maputo: Livraria Universitária, 1999), dei conta do que chamei "gestão política das forças do invisível" (p. 172).

Hoje


Sobre o falecido poeta José Craveirinha, recorde aqui e, para um dos seus mais famosos poemas, aqui. Sobre Jorge Rebelo confira aqui e sobre o rapper Azagaia (Edson da Luz de seu nome) aqui.

20 agosto 2008

Brasileirando a alma (4) (continua)

Prossigo a série, bem próximo agora da repartida para o Brasil.
Falo-vos do Brasil que conheci via Rio de Janeiro em 1997.
Disse-vos, já, que pouco tempo tive para arqueologizar a alma brasileira. Mas, a partir da Universidade Federal, pus-me nas ruas, andei vendo e ouvindo, andei também na feijoada aqui e acolá em restaurantes.
Ali, no RJ, aquele povo é calórico, empático, gente passa correndo é certo, gente muita, mas não menos gente forma grupo, encosta na parede, fica junto dos passeios, no bula-bula alto. Em certas cidades europeias que visitei, difícil ver bula-bulação, gente grupada, gente encostada nas paredes, sempre está correndo e virada para dentro de si como se destino fosse correr e vida matar as palavras. Tudo tem ordem, geometria nessas cidades frias. Ali, no Rio, também há ordem (e muita), mas seu povo se encarrega de lhe dar o toque mágico da vida cavaqueira e subversiva.

Diminuir não, aumentar sim

O encarregado de negócios da Embaixada da Dinamarca afirmou hoje à Rádio Moçambique que, contrariamente ao que certa imprensa tem escrito, a Dinamarca não vai diminuir a sua contribuição para o orçamento geral do Estado moçambicano, estando mesmo a estudar aumentá-la (Rádio Moçambique, noticiário das 19:30). Confira ainda aqui.

Acidente histórico

Estamos nos preparativos para as eleições autárquicas de 19 de Novembro, os pronunciamentos sucedem-se, os votos de fé multiplicam-se. Assim, Manuel Tomé, da Comissão Política da Frelimo, afirmou em Nampula que nas zonas onde a oposição governa, designadamente nas cidades, as populações desejam que o seu partido vença, tendo considerado como "acidente histórico" (sic) o facto de a Frelimo não estar a governar nessas cidades (Rádio Moçambique, noticiário das 19:30).

Sopa de raças - a propósito do último livro de Paulina Chiziane


"A corda rebenta sempre do lado do mais fraco. O branco diz ao preto: a culpa é tua. O rico diz ao pobre: a culpa é tua. O homem diz à mulher: a culpa é tua. A mulher diz ao filho : a culpa é tua. O filho diz ao cão: a culpa é tua. O cão furioso morde o branco e este furioso, grita de novo para o preto: a culpa é tua. E a roda continua por séculos e séculos." - Paulina Chiziane, Niketche, Uma história de poligamia.
"Histórias de navegadores que se fizeram ao mar em busca de piripiri numa terra distante. Histórias das onze sereias, todas irmãs, sendo a Zambézia a mais bela. Memórias dos marinheiros e do chicote dos prazeiros. Histórias das donas e das sinhás. Da Companhia da Zambézia, da Boror, do palmar. Histórias das mulheres guerreiras que penetraram na fortaleza do invasor, roubaram as sementes dos homens e construíram a barreira da vida, mostrando ao mundo que, perante a mulher zambeziana, o invasor não tem omnipotência. Provando que a superioridade das raças era simples treta. Histórias dos deuses e dos montes que abençoaram a Zambézia com o sangue divino de pretos, brancos, amarelos, numa sopa de raças mais recheada que a sopa de pedra." - Paulina Chiziane em O Alegre canto da perdiz, seu último livro, p. 326. Estudei profundamente a história da Zambézia e posso por isso afiançar que a infra-estrutura histórica do livro de Paulina é excelente. Paulina? Sim, aquela que melhor escreve romances em Moçambique, sempre digo isso. Por favor: obrigatório ler o livro. E grande beijo de parabéns, Paulina!

Moçambicanas e capulanas (4) (fim)



Eis o fim da série.
Num belo texto, Maria de Lurdes Torcato escreveu que a origem da capulana continua um enigma, mas que na África oriental falante de Swahili se diz que a maneira de vestir a capulana surgiu no século XIX “quando as mulheres começaram a comprar lenços (em Swahili diz-se leso) de tecido de algodã0 estampado e colorido, trazido pelos mercadores portugueses do Oriente para Mombaça”*.
Ora, sejam quais forem as suas modalidades modernas, a capulana mais não é, em meu entender, do que uma descendente do antigo bertangil (ou bertangim), tecido de algodão vermelho e azul fabricado na Índia (Surate, Cambaia, Diu e Damão), que serviu, até, como moeda. O protótipo da capulana é anterior ao século XIX e creio que começa a afirmar-se na segunda metade do século XVIII.
Todo o comércio colonial em Moçambique assentava em dois artigos básicos: o chamado pano (mais tarde bertangil, vindo da Índia) e a missanga (especialmente vinda de Veneza na gestão colonial portuguesa).
E a actividade mercantil ligada aos tecidos, na sua extensão e profundidade, foi sempre menos actividade de Portugueses, do que de Indianos.
Por hipótese, foram os tecidos indianos que contribuíram para a ruína da indústria local das famosas machiras zambezianas, panos de fio grosso (por vezes também fino) fabricados a partir de algodão localmente cultivado, estando a fiação e a tecelagem a cargo dos homens ainda no século XIX.
*AAVV, Capulanas & Lenços. Maputo: Missanga, 2004, p. 2

Nkomo: mau espírito do GUN no Zimbabwe (3) (continua)


Vamos lá avançar mais um pouco.
Quando da luta de libertação nacional, Joshua Nkomo (à direita no foto) foi companheiro de armas de Robert Mugabe (à esquerda). Em 1980, ano da independência do Zimbabwe, Nkomo (à testa de um movimento guerrilheiro chamado ZAPU) apareceu com um líder alternativo a Mugabe, tendo a Matabelândia (sul e oeste do país) como sua base de apoio. Durante cinco anos, ZANU e Mugabe lutaram contra Nkomo e ZAPU ("ZAPU e Nkomo são cobras e as cobras precisam ser destruídas - afirmou Mugabe), acabando os primeiros por sair vitoriosos em duas fases: primeiro, com o envio para a Matabelândia da quinta brigada militar, treinada por norte-coreanos, do que resultou a morte de milhares de apoiantes de Nkomo, cujos corpos foram enterrados em valas comuns, numa operação que ficou conhecida como Gukurahundi; segundo, conseguindo que Nkomo e ZAPU aceitassem partilhar o poder, fundindo ZAPU e ZANU, daí nascendo a ZANU-FP (PF=Frente Patriótica) e ficando Nkomo como vice-presidente do Zimbabwe, mas sem qualquer poder.
Assim se deu o fim político da ZAPU e de Nkomo. O ex-líder da ZAPU exilou-se em Londres em 1983, tendo morrido de cancro da próstata em 1999, ano em que, ironia da história, foi declarado herói nacional do Zimbabwe pelo regime de Mugabe.
São essa história e essa "partilha de poder" que sobrevoam em permanência, como maus espíritos premonitórios, os ares das negociações tendentes à formação de um "governo de unidade nacional" entre a ZANU-PF e a ala MDC de Morgan Tsvangirai. Quer Mugabe quer Tsvangirai conhecem a história e a anterior "partilha". O primeiro quer repeti-las, o segundo não quer ser o segundo Nkomo.
Prossigo no próximo número.

Mswati III


Notícia inserta no semanário "Magazine Independente" de hoje, p. 20. Sobre a Swazilândia, leia ou recorde aqui, aqui e aqui. Clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar.

19 agosto 2008

Gás e petróleo em Cheringoma?

A segunda fase de pesquisa de hidrocarbonetos no distrito de Cheringoma, província de Sofala, revelou indícios de gás e de petróleo - revelou o administrador do distrito (Rádio Moçambique, noticiário das 19:30).
Entretanto, leia ou recorde aqui a propósito de petróleo na foz do Rovuma.

Morreu Levi Mwanawasa


O presidente da Zâmbia, Levi Mwanawasa, faleceu hoje em Paris com 59 anos, após mais uma intervenção cirúrgica tendente a contrariar o problema cardíaco de que padecia. Confira ainda aqui. Se quer ler em português, use este tradutor. O ano passado, Mwanawasa apelidou o Zimbabwe de "titanic". Paz à sua alma.

A luta entre duas potências imperiais

No momento em que escrevo esta postagem, os Estados Unidos da América têm 79 medalhas e a China tem 76 nos Jogos Olímpicos de Beijing (mas reparem no peso chinês no que toca a medalhas de ouro). Ambos os países estão a considerável distância da Rússia e da Austrália (vejam o quadro no lado direito deste diário).
Claramente a luta é entre a potência imperial do presente e a potência imperial do futuro, sendo Beijing um espaço físico de transição.

Nkomo: mau espírito do GUN no Zimbabwe (2) (continua)


Prossigo um pouco mais a série.
Continuamos sem "governo de unidade nacional" no Zimbabwe. O mediador negocial entre ZANU-PF e o MDC de Morgan Tsvangirai (o grupo de Mutambara não tem qualquer significado político), Thabo Mbeki, presidente da África do Sul, tenta agora que pelo menos o parlamento zimbabweano funcione, por forma a permitir o encaixe legal da figura de primeiro-ministro.
Na verdade, não há governo legal no Zimbabwe após as eleições de Março.
Mas por que razão está difícil obter um GUN no Zimbabwe? Por uma razão mais simples do que a simplicidade: a elite que governa o Zimbabwe (um enquadramento bem mais lógico do que aquele que consiste em dar a Robert Mugabe - na foto à esquerda - a centralidade dos processos) não tem qualquer disposição em permitir que a nova elite oriunda do MDC possa dispor de governo efectivo.
Ancorada na luta armada, com seu passado de libertadora da pátria, crente de que tem por destino eterno governar o país, monitorada pelos serviços de segurança, a elite da ZANU-PF considera uma heresia permitir que a elite concorrente - civil, nascida não nas matas como a do falecido Joshua Nkomo (à direita na foto), mas nos sindicatos, na luta contra o regime e, claro, nas prisões - possa ter uma palavra a dizer na governação de um país que tem agora uma inflacção de onze milhões por cento, mas que tem, também, a segunda maior reserva de platina do mundo.
Ora, a elite da ZANU tudo fará para dar ao MDC o mesmo destino que deu à de Joshua Nkomo: o da decapitação política. Assim fazendo, procurará conservar os centros nevrálgicos do poder a nível político e económico.

Suspeita de tráfico: 33 pessoas transportadas como se gado fossem

Sob suspeita de tráfico, três indivíduos estão detidos numa esquadra da polícia em Maputo, depois que "transportavam de Manica 33 pessoas de entre crianças, homens e mulheres sem as mínimas condições de acomodação num camião da marca Toyota Hino com a chapa de inscrição BTT 9 – 09 GP, da vizinha África do Sul." - eis o que reporta o "Canal de Moçambique"de hoje.
Recorde outros casos aqui, aqui e aqui.

Quinta-feira


Sobre o falecido poeta José Craveirinha, recorde aqui e, para um dos seus mais famosos poemas, aqui.

18 agosto 2008

Processo político moçambicano

Sugiro-lhe que leia o Boletim do processo político moçambicano - dedicado às nossas eleições -, boletim n.º 36, com data de hoje, em edição conjunta da AWEPA e do CIP, tendo Joseph Hanlon como editor e Adriano Nuvunga como editor-adjunto. A partir de amanhã haverá uma versão em português e julgo saber que o processo eleitoral será monitorado em permanência pela AWEPA e pelo CIP. Confira aqui. Se quer ler em português, use este tradutor. Recorde as irregularidades eleitorais surgidas em 2004 aqui.

Bravo na mesma, Lurdes!


A nossa Lurdes Mutola (com 35 anos), ainda que com um bom tempo de cerca de 1.57 (a confirmar), ficou em quinto lugar na final dos 800 metros realizada hoje em Beijing para os Jogos Olímpicos, em prova ganha por uma jovem queniana de 19 anos que fez cerca de 1.54 (informe da Rádio Moçambique, há momentos). Parabéns, Lurdes, sempre!
Adenda: o quadro que encima esta postagem acabou de me ser enviado via email pelo Aboo Patel, a partir de Muscat/Oman (clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar). Leiam, no interior, o seu comentário a esta postagem.

Bravo Françoise!


Apesar de muitos contratempos, saltou 13m39 e estabeleceu um novo recorde olímpico: chama-se François Mbango, camaronesa, medalhista de ouro. Leia aqui em francês. Se quer ler em português, use este tradutor.
Pedido: por favor avisem-me quando souberem de algo da nossa Lurdes Mutola na prova de hoje. Obrigado.

Bunkers, prédios e condomínios

"Já os altos quadros de empresas estrangeiras e os angolanos milionários vivem barricados em condomínios de luxo em Luanda Sul a 17 km do centro da cidade, resguardados dos musseques que os cercam."
Viver com luxo no meio ou fora dos musseques de Luanda, capital de Angola? Esse o tema, que pode começar assim: "Bob Gedolf veio a Portugal dizer que as casas em Luanda são mais caras do que em Londres. As autoridades angolanas ripostaram violentamente. O DN foi saber de que fala o cantor irlandês." - trabalho do "Diário de Notícias" de Portugal reproduzido em vários portais, por exemplo aqui. Confira ainda o trabalho "Petróleo, miséria e sonhos em Luanda" aqui. E já que estamos em maré de bunkers e de condomínios, veja este vídeo do youtube referente a São Paulo (leia o more info do youtube).

Quinta: Jorge Rebelo e Azagaia juntos no MNA

Próxima quinta-feira, no Museu Nacional de Arte, cidade de Maputo, 17:30, Jorge Rebelo (à esquerda) e o rapper Azagaia (Edson da Luz de seu nome, à direita) falam de cultura na segunda sessão de intervenções organizadas pelo pintor Naguib (estão programadas cinco sessões), com moderação do jornalista Machado da Graça.

Ziguezagues discursivos

O eng.º Noé Nhantumbo escreveu uma crónica que tem o título em epígrafe como segunda parte do seu. Confira aqui.

Mais um cura-tudo


Eis novo exemplo de cura-tudismo, em foto uma vez mais tirada pelo Chagas Levene na Avenida Joaquim Chissano, em frente ao Posto de Saúde do Xipamanine, cidade de Maputo. Recorde o último exemplo de cura-tudismo aqui.
Adenda: emprego e recuperação de bens roubados são uma constante nos produtos oferecidos pelos cura-tudo. Um bom indicador do social da cidade de Maputo.

Custo de vida agrava-se na cidade de Maputo - dizem consumidores

O "Notícias" foi saber quanto custam os produtos básicos de alimentação nos mercados da cidade de Maputo. Eis um extracto do trabalho: "Na mesma ocasião ouvimos alguns consumidores. A maioria considera que o custo de vida está a aumentar na cidade de Maputo, situação que levanta uma série de situações desagradáveis na sociedade."
Enquanto isso, a página de cartas dos leitores do mesmo jornal tem um trabalho de Xigwai Faife com o título "Vida actual está cada vez mais difícil". O penúltimo parágrafo é este: "Êpa, está-se mal mesmo! Mas se a vida está assim, culpa de Deus ou dos homens? Aí é que está..."

Virtudes do empreendedorismo

A empresária Natividade Bule é uma senhora convicta no que concerne a uma termo cada vez mais usado no país: empreendorismo. Assim, deu a conhecer que "o empreededorismo da mulher começa quando, com apenas 20 meticais, consegue confeccionar uma refeição para que os seus não morram de fome."

17 agosto 2008

Foto sensorial

Chove mansamente em Maputo, noite, a temperatura baixou, 16 graus. De viatura, sondo a Polana, as ruas estão desertas. Numa rua seis guardas privados estão acocorados em torno de uma fogueira. À porta de um banco o namorado beija a namorada, ele é muito magro, ela é bem forte, coisa dialéctica. Junto a um restaurante ainda há dois arrumadores de carros e um vendedor de cigarros. Em frente a um talho recheado, lá está aquele homem deitado, embrulhado num lençol, tem camisola e meias e três garrafas de água mineral junto de si, duas vazias, uma semi-cheia.

Zimbabwe: advertência de Phandu Skelemani

O Zimbabwe pode vir a sofrer um golpe militar ou uma guerra civil se as negociações entre Mugabe (foto à esquerda) e a oposição fracassarem - afirmou Phandu Skelemani (foto à direita), ministro dos Negócios Estrangeiros do Botswana, país que boicotou a cimeira da SADC. Sobre a decisão do Botswana em não reconhecer o regime de Mugabe, leia ainda aqui. Se quer ler em português, use este tradutor. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio das referências.
Adenda: ainda escreverei sobre o Zimbabwe, conforme prometido aqui a propósito do espírito de Nkomo. Já agora, leia ou recorde algo sobre a Sawzilândia aqui. E sobre a posição da COSATU em relação ao Zimbabwe e à Swazilândia aqui.

Brasileirando a alma (3) (continua)

Vamos lá prosseguir um pouco mais esta série, a poucos dias de repartir para o Brasil.
No Rio de Janeiro, em 1997, pouco tempo tive para conhecer a sua alma. Fiquei-me, por isso, em pequenas coisas da rua.
Uma vez, mesmo à entrada da Universidade Federal, vi algo que me chocou profundamente: estavam jovens dormindo do lado de fora do muro externo da entrada, embrulhados em mantas, era ainda muito cedo, não me recordo da hora. De repente um carro da polícia parou com grande estrépito e dele saíram 5 enormes polícias (policiais, para dizer a coisa à brasileira), cenas rápidas de violência caceteira e os jovens foram metidos no carro, que pouco depois arrancou em grande velocidade. Dor na alma, impotência inexorável.
Numa outra vez descobri estudantes universitários moçambicanos habitando uma flat a pouca distância do Hotel Glória. Uma das coisas que me contaram é que eram periodicamente revistados (encostados a paredes, mãos ao alto) de noite pelos polícias. Tristeza, protesto nas vísceras.
Como não suporto ambientes fechados e amo as ruas, também tentei saber da gente que as povoa, fotografá-la com os sentidos, em curtos momentos.