Há sociólogos que se interrogam sobre os factos sociais.
Há factos sociais que se interrogam sobre para que servem os sociólogos.
Há astrólogos que passam por sociólogos.
Há sociólogos que são astrólogos.
E há sociólogos que se convenceram de que estão nos tribunais.
Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
30 setembro 2006
Chicualacuala
O horizonte, um fio de fumo que se avoluma, o comboio que se aproxima. Chiar de freios, vai parando, parou. A vila atraca buliçosa às carruagens. Chicualacuala.
Tete
Tete, mitete. Regresso às origens. Chingodzi, desço do avião, apalpo com os olhos todo aquele imenso e calmo mar de embondeiros. Uma planície sem árvores rasteiras, o calor embrulha-me, Matundo. Localizo o velho rochedo onde habita Tsato, a gibóia mítica. O casario visto da ponte, abraçado ao Cuama dos livros, o Zambeze, cumprimento os espíritos manhungué do rio. A cidade, as ruas largas, um presente buliçoso preso à história dos mutapas do Chioco e dos muzungos de terras e de guerras do Zumbo e do Massangano. O passado regressado nos escombros do velho prédio do Carletis, do casarão tombado de Vieira o "chicauira". Sonho as maçanicas enquanto como pende encostado ao Zambeze, lá onde na minha infância a velha canhoneira chegava resfolegando vinda do Chinde, carregada dos lanhos que eu sempre guardei nos sonhos. Miro a ilha de Canhimbe à esquerda. À direita, longe, orgulhoso, o pico da Caroeira. Quem se lembra que alguém um dia ali houve um botequim onde um homem creio que careca servia galinha assada no carvão e cerveja gelada pela frescura da noite e onde nas fraldas de micaia, por madrugadas sem fim, os macacos-cães esperavam que o leopardo saísse da toca? Adormeço num quarto da Univendas.
29 setembro 2006
La Habana
Habana, Havana. Açúcar. Centenas de estudantes, batas brancas. Médicos, enfermeiros, chevrolets e fords dos anos 50. As palavras saem rudes e altas e agridem no trânsito quando uma transgressão surge às cavalitas de outras, que muitas são. Gente de múltiplas origens, cubanizadas, cubanas, mestiçadas. Nesta Cuba para onde vieram escravos de Moçambique, com os nomes da altura, os macuás, os mozambiques*. As calles, dança-se, eles com ar gingão, músculos à mostra, a garrafa de vodka perto. A fala é alegre, chistosa, calórica. Povo generoso. E corajoso. O mar é belo, sinto-me em Copacabana, mas faço questão de inventar uma diagonal directa para Bazaruto. Remoçambicanizo-me cubanizando-me.
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* Ortiz, Fernando, Los negros escravos. Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 1987, pp. 54, 74.
Comprei esse livro em Habana.
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* Ortiz, Fernando, Los negros escravos. Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 1987, pp. 54, 74.
Comprei esse livro em Habana.
Moscovo
Moscovo, Moskova, Москово. Aquele gigantismo, o cheiro a gasolina a chumbo, as praças enormes parecem saltar o horizonte. O metro, toda aquela gente apressada, com gorros, casacões, as paragens, as estações sempre com baixos relevos pesados. Viajo como se estivesse dentro de Tolstoi. Não, Dostoievsky. Saio, perco-me, ninguém sabe português, francês ou inglês. Para onde ir? E o meu russo é deploravelmente franciscano. A tristeza num andamento de Prokoviev, o frio cerrado.
Exterior da estação. Aqueles prédios cinzentos, frios, estalinistas.
Eu sou do país do Sol e falta-me aqui o Índico.
E chega-se-me logo um russo enorme, ar de negociante, sorriso cúmplice: Товарищ, Вы хотите девочку? (Camarada, quer uma rapariga?).
Onde está o sol?
Exterior da estação. Aqueles prédios cinzentos, frios, estalinistas.
Eu sou do país do Sol e falta-me aqui o Índico.
E chega-se-me logo um russo enorme, ar de negociante, sorriso cúmplice: Товарищ, Вы хотите девочку? (Camarada, quer uma rapariga?).
Onde está o sol?
28 setembro 2006
Siargao: paraíso dos turistas e dos rins para transplante
A ilha de Siargao, no sul das Filipinas, é considerada um paraíso pelos turistas: praias maravilhosas, lagoas e ilhotas de sonho, uma pérola para os surfistas.
Mas Siargao é provavelmente também o local de maior concentração de vendedores de rins. Entre 2001 e 2004, 60 residentes da ilha venderam um rim a um dos maiores hospitais de Manila, onde os seus órgãos foram transplantados para ricos pacientes árabes, japoneses e filipinos. Pescadores de subsistência, farmeiros empobrecidos de coqueiros, vendem os seus rins a preços entre USD 2.000 e 4.000.
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Coronel, Sheila and Dixit, Kunda, Setting the context/The development debate thirty years after What Now, in What next, Development Dialogue (47), june 2006, vol. 1, p. 13.
Deepest thanks to Dag Hammarskjöld Foundation for this review.
Mas Siargao é provavelmente também o local de maior concentração de vendedores de rins. Entre 2001 e 2004, 60 residentes da ilha venderam um rim a um dos maiores hospitais de Manila, onde os seus órgãos foram transplantados para ricos pacientes árabes, japoneses e filipinos. Pescadores de subsistência, farmeiros empobrecidos de coqueiros, vendem os seus rins a preços entre USD 2.000 e 4.000.
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Coronel, Sheila and Dixit, Kunda, Setting the context/The development debate thirty years after What Now, in What next, Development Dialogue (47), june 2006, vol. 1, p. 13.
Deepest thanks to Dag Hammarskjöld Foundation for this review.
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro. Estou atrelado a toda aquela gente que passa sem parar, tenho a sensação browniana de que estou no centro do mundo, mundo de palavra farta, consecutiva, ruidosa. Falares diversos, cores tantas, destinos múltiplos. Em cada uno está a bandeira do variado. Craveirinha está nas veias de Chico Buarque, o mundo de Malangatana habita os morros. Choco com a Europa no preciso momento em que, ao recuar, bato com as costas em África. Tenho o meu xicuembo abraçado ao cadomblé quando em Copacabana reencontro o Bilene. Vixe!
Oslo
Oslo, uma cidade linda, parece um poema geométrico, uma cidade onde a desordem se suicidou, onde tudo, mesmo o nada, parece regrado, sem as fissuras do acaso e do impoderado. Até as árvores têm consciência da vitória da razão sobre a emoção.
Mas falta-me a desordem, o não previsto, algo que seja a perversidade amiga e cúmplice da emoção.
Volto a Maputo, que prazer esta subversão do sempre organizado, este caos táctil, forte, esta vertigem de chapa-cem, esta ontologia xiquelenística.
Mas quando vejo as bases das acácias negras de urina imperial, volto a Oslo.
E assim estou eu entre Oslo onde procuro Maputo e Maputo onde procuro Oslo.
Apenas me dou bem nessa intemperança mestiça e em permanente bifurcação.
Mas falta-me a desordem, o não previsto, algo que seja a perversidade amiga e cúmplice da emoção.
Volto a Maputo, que prazer esta subversão do sempre organizado, este caos táctil, forte, esta vertigem de chapa-cem, esta ontologia xiquelenística.
Mas quando vejo as bases das acácias negras de urina imperial, volto a Oslo.
E assim estou eu entre Oslo onde procuro Maputo e Maputo onde procuro Oslo.
Apenas me dou bem nessa intemperança mestiça e em permanente bifurcação.
John veio do John
Lá em Gaza, numa aldeia, atravessando campo e bois, alterando o sempre-foi-assim, John, o mineiro, chegou do John. Carrinha atulhada, coisas de todos os tipos, para comer, para vestir, para vender, para fazer casa, o fantástico subverte a rotina campesina. A família, a alegria, a vitória sobre o igual e a privação.
Cupalha para agradecer aos espíritos benfazejos.
O mineiro tem os pulmões estragados e veste um grosso casacão apesar do calor.
Cupalha para agradecer aos espíritos benfazejos.
O mineiro tem os pulmões estragados e veste um grosso casacão apesar do calor.
A deliciosa natureza humana
Existe uma coisa deliciosa, confortável. Chama-se natureza humana. Todos a partilhamos. E, frequentemente, os seus maiores admiradores são os chamados cientistas sociais. Em muito do que escrevem tocam uma partitura igual à que se segue:
-Meu, sabes o que é natureza humana?
-Claro que sei. Somos nós.
-Nós quem?
-Nós, os seres humanos.
-E como sabes que somos nós?
-Porque somos a natureza humana.
-E que provas tens de que as coisas são assim?
-Por que somos a natureza humana eterna, somos o que todos sabem. Para quê falar sobre uma coisa tão óbvia?
-E os habitantes da Sommerchield têm a mesma natureza humana que os do Xipamanine?
-Claro, não somos todos humanos?
-E em que é que nos distinguimos por exemplo das alforrecas? Estas também sentem, pensam, agem. Se não o fizessem, morriam.
-Estás enganado, que crime o que dizes! Nós pensamos as alforrecas, elas não nos pensam.
-Ah sim? E que mais?
-É natureza humana e prontos.
-Meu, sabes o que é natureza humana?
-Claro que sei. Somos nós.
-Nós quem?
-Nós, os seres humanos.
-E como sabes que somos nós?
-Porque somos a natureza humana.
-E que provas tens de que as coisas são assim?
-Por que somos a natureza humana eterna, somos o que todos sabem. Para quê falar sobre uma coisa tão óbvia?
-E os habitantes da Sommerchield têm a mesma natureza humana que os do Xipamanine?
-Claro, não somos todos humanos?
-E em que é que nos distinguimos por exemplo das alforrecas? Estas também sentem, pensam, agem. Se não o fizessem, morriam.
-Estás enganado, que crime o que dizes! Nós pensamos as alforrecas, elas não nos pensam.
-Ah sim? E que mais?
-É natureza humana e prontos.
27 setembro 2006
IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais
Luanda, 28/30 de Novembro, IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, dedicado ao tema Dinâmicas, Mudanças e Desenvolvimento no Século XXI. Diversidade cultural, cidadania, migrações e comunidades transnacionais são algumas das áreas temáticas.
Secretariado do IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais
Universidade Agostinho Neto
Faculdade de Direito (Secretariado da Pós-Graduação)
Caixa Postal 1354
Av. Ho Chi Minh, Luanda, Angola
E-mail: ixclabcs@yahoo.com.br
Telefones: +244222325538/923215340/923565845
Fax: +244222325538
Eu estarei lá, como investigador e membro da Comissão Científica.
________________________
http://www.ces.uc.pt/misc/IX_CONGRESSO_LUSO-AFRO-BRASILEIRO.pdf
Secretariado do IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais
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Telefones: +244222325538/923215340/923565845
Fax: +244222325538
Eu estarei lá, como investigador e membro da Comissão Científica.
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http://www.ces.uc.pt/misc/IX_CONGRESSO_LUSO-AFRO-BRASILEIRO.pdf
26 setembro 2006
Baixaaaaaaaaaaaaaaaaooooo!!!

24 de Julho, junto à clínica 222. Chapas, chapismo. Baixaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaooooooooooooooooooo!!!!!, buia alene eh wena!!!!, grita o chamador corpo de fora na porta sem porta, ar gingão de filme americano, um corpo entre outros todos encostados, ensardinhados, ida para a baixa da cidade, hora de ponta. Pára o chapa roncando, made in Korea: apinhado, o único espaço que há é a falta dele. Estudantes, mechas, tchuna-babes, operários, funcionários do Estado, bonés, come-se amendoim, alguém lança por uma janela uma lata de coca-cola. O semi-colectivo não tem tubo de escape, o pneu direito dianteiro está semi-vazio. O condutor fuma uma beata. Meu! Vamos! Baixaaaaaaaaaaaaaaaaaaaooooooooooooooooooo!!!! E lá vai o chapa envolvo em fumo. Caminho para o meu carro. E lá estão as crianças da rua. Patrão dá mil, patrão fome!
Metros autistas
Paris, metro. Adoro andar de metro em Paris. Andar de metro é para mim estar no coração do autismo. Entro e sento-me. Como os outros ou quase todos os outros, também trago um livro ou trago o Le Monde. Um ritual inexorável. Por vezes tento a provocação, sem sucesso, trazendo o L´Hummanité. Parte o metro, pulsa o autismo, sístole e diástole do sempre igual. Com poucas excepções, os passageiros lêem, o jornal, a revista, o livro. Cada passageiro é um mundo fechado, hostil, uma fortaleza perfeita. Ninguém fala, as palavras foram há muito assassinadas. E eu, que venho das ruas calóricas, das ruas das vozes, do bula-bula, do face-a-face permanente. Estudo viagem após viagem a morfologia de todo aquele autismo. A roupa, o corpo, os cabelos, os sapatos, o tipo de livro, de revista. Estudantes, gente de escritório, professores, prostitutas, carteiristas disfarçados, emigrantes, alguns turistas. Reparo que poucas vezes os cabelos foram lavados. Bem, deixemos isso. Regra geral é possível estabelecer relações entre o tipo de leitura, o tipo de vestuário e a forma - estudadamente cansada - dos olhos, como naqueles filmes franceses cheios de drama e de vozes sem destino. Várias vezes procuro saber se se lê mesmo. Há quem realmente leia, frequentemente o último romance do autor consagrado do mês. Mas em expressão que não posso quantificar, não é pouca a gente que não sai da mesma página, aí fica em panne. Entram as pedintes do norte de África, com filhos embrulhados em mantas, minha senhora, meu senhor, estou a sofrer, por favor ajudem-me. Etc. E vão passando no corredor, pardon, pardon, o olhar treinado pela recusa mas sempre lutador, ninguém dá o que quer que seja, olham todos mais demoradamente para as janelas, apertam os atacadores ou intensificam o teatro diário do sono. O homem do acordeão, o saxofonista, o desempregado com um cartaz no peito, pequenos estremeções no autismo que se repetem de viagem em viagem, de carruagem em carruagem. Bem, importa ser honesto: uma ou outra moeda vez que vez. Mais nada. Chego a tocar com os joelhos nas pessoas, tusso demoradamente, ensaio o espirro, faço o parto do diferente, a ver o que sucede. Um ligeiro movimento de enfado, o autismo mantém-se, os olhos bem ancorados no livro, na revista ou no jornal, tudo se resumiu a uma pequena pedra sem glória no charco metro-autista. Ruído. Entram sul-americanos? Argentinos? Espanhóis? Ou são alunos do ensino primário? Mas o que importa isso? Fim de estação, nova estação, sai gente, entra gente, tudo a correr para destinos secretos, o autismo, o silêncio, o saxofonista. Etc. Saio na estação seguinte, nos bancos de espera estão os habituais desempregados dormindo junto das garrafas de vinho vazias. Merde, diz um. E acrescenta outras coisas, que não fixo. Uma vez mais gorada a minha tentativa de berrar a plenos pulmões. Au revoir!
O corpo
Penso que todo o mundo imagético que temos criado, que toda a espantosa mitologia que temos produzido ao longo de séculos, penso que tudo isso tem no corpo o seu embôlo, a sua raiz, a sua matriz, a sua fonte de inspiração.
Concebemos o social à medida do corpo, das suas partes, etc. Leia-se, por exemplo, Émile Durkheim.
Tenhamos em conta, nas teorias do social, as imagens da sociedade doente, da sociedade com saúde, da moral, da perda da moral, do equilíbrio, das funções e disfunções, do comportamento anómico, das revoluções, do Estado intervencionista, etc.
Concebemos o social à medida do corpo, das suas partes, etc. Leia-se, por exemplo, Émile Durkheim.
Tenhamos em conta, nas teorias do social, as imagens da sociedade doente, da sociedade com saúde, da moral, da perda da moral, do equilíbrio, das funções e disfunções, do comportamento anómico, das revoluções, do Estado intervencionista, etc.
25 setembro 2006
Consciência jurássica

Maputo, sábado, Av.ª Friedrich Engels, Jardim dos Namorados, faz um sol lindo, chegam e partem as comitivas ruidosas dos noivos recém-casados com a benção dos respectivos grupos corais.
Duas jovens passam devagar, no sentido ascendente da avenida, catorzinhas, ambas calçam sapatilhas coloridas nos pés direitos e botins nos esquerdos, uma delas coxeia, provavelmente porque um dos botins a magoa. Nas cabeças, mechas vermelha uma, castanha outra.
Em sentido contrário passam mulheres com vestidos garridos, todas com os habituais folhos nos ombros, típicos dos trajes das deputadas e das acompanhantes dos casamentos, sinal de quarentonas severas, ainda que sempre predispostas à dança e ao menear das ancas.
Todo o meu estoque rotineiro de estética corporal fica empenado ante as sapatilhas e os botins.
Esboço a tentativa de me aproximar das catorzinhas e entabular diálogo com a diferença para conhecer o segredo daquela assimetria no calçado.
Mas desisto, procurando digerir a minha consciência jurássica.
Perguntas ociosas

Maputo: salões de beleza, em toda a sua variedade, formais e informais, com todo o seu público feminino; sextas-feiras dos homens, no seu mundo das barracas. Mundos densos, palavras agarradas umas às outras, frenético diz-que-diz, bula-bula transfronteiriço na revisão comunitária da vida.
Quantas horas ocuparão as mulheres com as mechas, as unhas, a depilação, etc.? E os homens nas barracas? Que custos financeiros estão aí envolvidos? Que variáveis devemos usar? Que perguntas devemos fazer?
Custos? Mas também: quantos ganhos sociais, quanto mundo imagético, quantas vitórias underground?
Tenho para mim que o mundo se pode refazer num salão de beleza com três mulheres e numa barraca com quatro homens. Por hipótese, claro.
A tese do chanceler Gerson
Simmel e a estética
Em minha opinião, ninguém melhor do que o sociólogo alemão Georg Simmel escreveu mais bela e profundamente sobre a estética corporal, sobre os julgamentos estéticos, sobre o corpo, sobre a moda, sobre a nossa imensa sede de nos parecermos com outros, de tentarmos chegar ao alto se estamos em baixo, sobre, finalmente, esta "impaciência específica da vida moderna", como ele afirmou.
Mechas+ tchuna-babes
Fascina-me cada vez mais ver as nossas jovens trocando os seus cabelos naturais pelas mechas de cabelos naturais ou sintéticos, que podem ter várias cores, especialmente na cidade de Maputo.
Há dias dei-me em verificar que numa turma minha de estudantes universitários, apenas uma mulher tinha os seus cabelos naturais cuidadosamente arranjados.
Mechas que podem levar horas, muitas horas a colocar e a tirar, em locais femininos de fala e revisão da vida, nos quintais ou nas varandas.
Mechas que se combinam crescentemente com as tchuna-babes (vesti-las e tirá-las também pode levar tempo) em raparigas longilíneas e numa gestão corporal inexistente no look de há dez anos.
Uma completa revolução na estética corporal que importa estudar.
A propósito de mechas e do seu significado social, veja o portal a seguir:
http://www.lpp-uerj.net/olped/exibir_opiniao.asp?codnoticias=9495
Há dias dei-me em verificar que numa turma minha de estudantes universitários, apenas uma mulher tinha os seus cabelos naturais cuidadosamente arranjados.
Mechas que podem levar horas, muitas horas a colocar e a tirar, em locais femininos de fala e revisão da vida, nos quintais ou nas varandas.
Mechas que se combinam crescentemente com as tchuna-babes (vesti-las e tirá-las também pode levar tempo) em raparigas longilíneas e numa gestão corporal inexistente no look de há dez anos.
Uma completa revolução na estética corporal que importa estudar.
A propósito de mechas e do seu significado social, veja o portal a seguir:
http://www.lpp-uerj.net/olped/exibir_opiniao.asp?codnoticias=9495
Livros de estórias: imagem masculina do mundo

"Os livros de estórias mostram invariavelmente uma imagem masculina do mundo: homens e animais machos são mais numerosos e nitidamente valorizados. A representação dos personagens femininos explica a manutenção dos estereótipos e das desigualdades. Com efeito, de cada dois um é "apenas" uma mãe, e sua relação com os filhos é reduzida a uma ligação de serviço. Neles, apenas 5% das mães trabalham, enquanto que na realidade elas são 80%, e são reduzidas a enfermeiras, professoras primárias ou vendedoras. Já os homens, estes são inseridos socialmente em todos os escalões." - Sylvie Cromer
http://www.ambafrance.org.br/abr/label/label37/dossier/
As cadeiras masculinas

Dificilmente nos interrogamos sobre as cadeiras. Sentamo-nos nelas e é tudo. Mas é justamente sobre as coisas mais banalizadas pelo uso, mais aparentemente estrangeiras aos mitos e às relações de poder, que devemos interrogar-nos.
Existem diferentes tipos de perguntas que podemos colocar às coisas modestas.
No caso das cadeiras, podemos rapidamente fazer duas perguntas, uma de tipo digamos filosófico e outra do tipo prático-situacional, a saber:
(1) Por que razão usamos cadeiras e pura e simplesmente não nos sentamos no chão?
(2) Por que razão a cadeira continua a ser em Moçambique um atributo generalizadamente masculino?
Deixemos de parte possíveis respostas para a primeira pergunta.
Quando à segunda, devo confessar que ainda não investiguei isso, mas se cada um de nós estiver atento, verá que, especialmente em zonas rurais, a cadeira é ainda um quase exclusivo dos homens, sentando-se as mulheres no chão, em esteiras.
Nas sessões de tribunais comunitários, não poucas vezes as mulheres sentam-se no chão e os homens em cadeiras.
Mais: os homens sentam-se em espaços abertos e as mulheres em espaços fechados, no interior das casas ou em locais de pouca visibilidade.
A cadeira tem duas histórias: uma horizontal (no sentido da sua origem) e outra vertical (no sentido das relações de poder).
Através de uma cadeira pode fazer-se a história e a sociologia de um país.
N.B. Excluí falar dos primos burgueses das cadeiras, os sofás.
Ídolos
Digerir os outros
"Nada de mais original, de mais intrínseco do que alimentarmo-nos dos outros. É preciso, porém, digeri-los. O leão é feito de carneiros assimilados” (Paul Valéry).
A epistemologia da Sra. Vanessa Brown
A Sra. Vanessa Brown, que exibe o seu grau académico de mestre, criou um blog para encorajar as mulheres negras lésbias a amarem e a assumirem a sua sexualidade.
Mas decidiu ir mais longe: escrever um livro sobre a sociologia e a psicologia das mulheres negras bisexuais. E solicita voluntárias para participar no projecto:
http://www.kuma2.net/blog/?p=11
Não há dúvida de que os campos do saber são matematicamente vastos e de que o conhecimento pode mesmo ser um sedativo.
Imagino o tema bem americano da Sra. Vanessa Brown a ser desenvolvido aqui, em Moçambique. Imagino as pragas que seriam lançadas pelas boas consciências.
Mas decidiu ir mais longe: escrever um livro sobre a sociologia e a psicologia das mulheres negras bisexuais. E solicita voluntárias para participar no projecto:
http://www.kuma2.net/blog/?p=11
Não há dúvida de que os campos do saber são matematicamente vastos e de que o conhecimento pode mesmo ser um sedativo.
Imagino o tema bem americano da Sra. Vanessa Brown a ser desenvolvido aqui, em Moçambique. Imagino as pragas que seriam lançadas pelas boas consciências.
24 setembro 2006
Casar com mulheres educadas e trabalhadoras= risco de divórcio para os homens

Casar com mulheres educadas, que trabalham, mulheres de carreira, é um risco de divórcio para os homens.
Um ponto de vista bem androcêntrico e com invocação de sociólogos, defendido por Michael Noer na edição on-line de Forbes com o título "Não case com uma mulher de carreira", o que, naturalmente, provocou logo reacções.
Nesta e em outras posições, a dúvida metódica é sempre o melhor antídoto para não nos divorciarmos do bom senso.
___________________________
Veja o ponto de vista de Noer e os pontos de vista contrários nestes portais:
http://www.forbes.com/2006/08/23/Marriage-Careers-Divorce_cx_mn_land_print.html
http://www.pobronson.com/blog/2006/08/response-to-forbes-dont-marry-career.html
Ilustração extraída de : http://loup05.deviantart.com/
23 setembro 2006
Malaika e os garanhões da net

Naturalmente que cada um de nós sabe que a net é um excelente e rizomático laboratório sociológico.
No que me concerne, adoro os programas de mensagem instantânea tipo msn ou skype.
Um dia, em momento de lazer, decidi estudar o comportamento reactivo dos garanhões da net, os garanhões netianos, via skype.
Procedi assim: criei uma personagem feminina, muito sensual, fi-la habitar Paris, escrevi uma frase muito hot no perfil em inglês e francês, importei um seio espectacular de um programa destinado a dar esperança aos impotentes de todos os azimutes e, finalmente, coloquei-me em skype me.
Decidi estar rigorosamente uma hora a skypar.
Nesse período, a doce, fascinante e parisiense mulher, de nome Malaika, foi rápida e consecutivamente interpelada por 245 garanhões, dos quais 145 pediram logo para fazerem sexo pela cam (enquanto chamavam desesperadamente pelo audio) e 30 dispuseram-se a mostrar os seus dotes corporais e baixo-ventrais pelo mesmo canal. Quelle féerie, mon dieu! Do ponto de vista da origem regional de semelhante fauna, 85% era constituída por tarzans ansiosos de Marrocos, Argélia, Egipto, Lisboa e Paris. Lembro-me ainda de um russo, de um mexicano e de um habitante do Alasca.
Por agora não vou comentar. E muito menos comentarei o conteúdo digamos que didáctico das mensagens que ela ia recebendo.
__________________
Ilustração em:
http://loup05.deviantart.com
Virtudes exorcistas dos advérbios
Cada vez que uma agência internacional diz que há corrupção em Moçambique ou cada vez que internamente o tema é ventilado, sempre aparecem os que conhecem bem as virtudes dos advérbios.
Assim, os sábios adverbiais imediatamente emitem um comentário-tipo ou uma diatribe-tipo do género "quem nos critica devia olhar primeiro para a sua casa, onde a corrupção também prolifera".
Com o belo também exorcizamos os fantasmas punidores, remetemo-los para a malevolência e, docemente, sem ressaibos de consciência, prosseguimos a saga acumuladora.
Quem ousa ter o desplante de afirmar que não temos direito à corrupção?
Assim, os sábios adverbiais imediatamente emitem um comentário-tipo ou uma diatribe-tipo do género "quem nos critica devia olhar primeiro para a sua casa, onde a corrupção também prolifera".
Com o belo também exorcizamos os fantasmas punidores, remetemo-los para a malevolência e, docemente, sem ressaibos de consciência, prosseguimos a saga acumuladora.
Quem ousa ter o desplante de afirmar que não temos direito à corrupção?
22 setembro 2006
A Pátria de Salman Masalha
Por vezes a vida tem sentidos que merecem ser amados. Que merecem a pena serem fortemente desejados.
Por exemplo, o poeta árabo-israelita Salman Masalha propôs a criação da Pátria, uma Pátria singular, uma Pátria de todos os cidadãos, uma pátria que não é nem de Israelitas, nem de Árabes.
Nessa Pátria multi-cidadã a poesia substituiria a prece, uma Casa de Encontros o templo. Seriam proibidos os sinos de igrejas, o shofar judaico ou o muezzin das mesquitas que chama à oração.
"Não quero um passado neste lugar", disse Masalha. "Aqui não há lei de retorno. Apenas temos obrigações para com o futuro ", acrescentou.
E disse ainda o seguinte: "Há tanto passado que não conseguimos ver um futuro aqui. O judaísmo e o islão capitalizam a importância da lembrança. Nós, cidadãos da Pátria, queremos esquecer. Não queremos deitar fora as memórias pessoais, mas queremos começar uma jornada conjunta a partir do que temos aqui e agora."
_____________________________
Leia em detalhe este fascinante fenómeno no portal:
http://www.haaretz.com/hasen/spages/766045.html
Por exemplo, o poeta árabo-israelita Salman Masalha propôs a criação da Pátria, uma Pátria singular, uma Pátria de todos os cidadãos, uma pátria que não é nem de Israelitas, nem de Árabes.
Nessa Pátria multi-cidadã a poesia substituiria a prece, uma Casa de Encontros o templo. Seriam proibidos os sinos de igrejas, o shofar judaico ou o muezzin das mesquitas que chama à oração.
"Não quero um passado neste lugar", disse Masalha. "Aqui não há lei de retorno. Apenas temos obrigações para com o futuro ", acrescentou.
E disse ainda o seguinte: "Há tanto passado que não conseguimos ver um futuro aqui. O judaísmo e o islão capitalizam a importância da lembrança. Nós, cidadãos da Pátria, queremos esquecer. Não queremos deitar fora as memórias pessoais, mas queremos começar uma jornada conjunta a partir do que temos aqui e agora."
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Leia em detalhe este fascinante fenómeno no portal:
http://www.haaretz.com/hasen/spages/766045.html
Ao rico não se rouba....
Há dias escutei o seguinte diálogo entre dois estudantes universitários, creio que de História:
-É pá, isto de roubo está mesmo numa alta.
-É verdade. Mas um gajo precisa ver que roubo não é roubo muitas vezes.
-Roubo não é roubo, meu?
-Não, roubo não é roubo quando tu roubas os ricos.
-Como assim, meu?
-Roubar um rico não é roubar, é só diminuir-lhe um pouco.
-É pá, isto de roubo está mesmo numa alta.
-É verdade. Mas um gajo precisa ver que roubo não é roubo muitas vezes.
-Roubo não é roubo, meu?
-Não, roubo não é roubo quando tu roubas os ricos.
-Como assim, meu?
-Roubar um rico não é roubar, é só diminuir-lhe um pouco.
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