22 abril 2014

Apropriação

Feiticismo da aparência

Capital mágico

Dificilmente cada um de nós escapa, na inteligência espontânea das coisas, à busca do absoluto e das forças intencionais. O chamado azar mais não é, afinal, do que uma intenção esvaziada de seu conteúdo. Peguemos nos dados, interroguemo-nos sobre a nossa confiança neste ou naquelo número (por que temos mais fé num número colocado, por exemplo, em quatro faces do que no colocado em duas?), na "sorte" que sentimos quando um dos nossos desejos se realiza, perscrutemos a atribuição de uma intenção ao que nos acontece imprevistamente, etc. Vamos na Avenida Eduardo Mondlane, um carro vai de encontro a nós, ficamos feridos: quantos de nós se recusariam a ver nisso não o produto de uma causa ou de um conjunto de causas fortuitas (ou, para dizer como Cournot, "o reencontro de séries causais diferentes"), mas a expressão do azar, a misteriosa sombra de uma intenção subreptícia que nos teria escolhido precisamente a nós e não a outros? Existe uma espécie de capital mágico em todos nós, sempre pronto a vir à superfície à mais pequena oportunidade.

ADECRU

A mais recente posição da Acção Académica para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais em relação ao Prosavana, aqui.

No "Diário da Zambézia" de hoje

21 abril 2014

Imbróglio

A Renamo insiste na paridade das forças de defesa e segurança e o governo defende que aquela formação política não quer desmilitarizar-se - síntese de um trabalho da "Rádio Moçambique" no jornal da noite das 19:30, a propósito de mais uma ronda negocial.
Adenda: recorde  neste diário um  texto meu intitulado "Duopólio político e equilíbrio à Nash (sobre as exigências da Renamo)", aqui; reprodução no semanário "Savana" 1058, aqui

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (9); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)

Culto aos presidentes (8)

Oitavo número da série. Prossigo no terceiro ponto do sumário proposto aqui, a saber: 3. Alguns cultos políticos aos presidentes no mundo. Os cultos políticos são independentes dos sistemas políticos - defendi no número anterior -, possuem digamos que a mesma alma sacro-política. Dois exemplos: o norte-coreano Kim Jong-un e o norte-americano Barack Obama. No que concerne a Kim Jong-un, bem na tradição de seu pai, estamos diante da sacro-veneração de um projecto social mediante um rosto, uma efígie sistematicamente publicitada, estátuas nas praças públicas, uma forma severa de vestir, um secretismo divinizado, planeado, que simultaneamente aproxima e afasta. Tudo na figura do líder é concebido para surtir efeitos hipnóticos de massa: a veste é a farda do comissário político, a farda do pai geral, do pai protector, do pai ao serviço do povo, a farda de serviço abnegado, permanente (o grande líder é apresentado sistematicamente como único e necessário). É, também, a farda militar, espécie de escudo simbólico de alerta contra o havido inimigo imperialista. Um aspecto fundamental do ritual político norte-coreano diz respeito à estatuária.
Se não se importam, prosseguirei mais tarde.
(continua)
Adenda: sugiro leia dois textos meus intitulados "Culto da personalidade" e "O conflito na produção de heróis em Moçambique" , respectivamente aqui e aqui.

20 abril 2014

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (8); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)

A confusão entre juízo de facto e juízo de valor

Quando dizemos "esta garrafa é verde" estamos perante um juízo de facto. Quando dizemos "esta garrafa verde é bonita" estamos perante um juízo de valor. Na primeira proposição definimos uma certa realidade, abstendo-nos de a classificar estetica ou moralmente; na segunda, a avaliação factual é determinada pela avaliação estética ou moral.
Se estiverdes atentos ao que se escreve na nossa imprensa, nos blogues e nas redes sociais digitais, dareis facilmente conta da promiscuidade permanente entre os dois tipos de juízo, mesmo a nível académico.
Um exemplo político: "o partido A quer atingir o poder" é um juízo de facto - mesmo se sujeito a comprovação; mas a preposição "é uma aberração o partido A querer atingir o poder" é um juízo de valor. No mercado das ideias, o segundo tipo de juízo faz questão de ostentar os galões do primeiro.
Como escreveu um dia Charles Peirce, mais do que verdades científicas procuramos crenças que tomamos por verdadeiras. Faltou-lhe acrescentar: especialmente a nível político.

19 abril 2014

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (8); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)

Negócios em Moçambique

Cabeçalhos do mundo de negócios em Moçambique no Africa Intelligence, aqui.

"À hora do fecho" no "Savana"

Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1058, disponível na íntegra aqui:
Notas: de vez em quando um leitor queixa-se de não conseguir baixar o semanário "Savana" neste diário. Só tem de executar os seguintes três passos: clicar no "Disponível na íntegra aqui" da postagem, a seguir no "Baixar" do programa 4Shared e, a terminar, no "Baixar grátis" também do programa. Por outro lado, de vez em quando também me perguntam por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

18 abril 2014

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (8); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)

A confusão entre juízo de facto e juízo de valor

Hoje: oitavo aniversário deste diário

Este diário faz hoje oito anos de vida ininterrupta, tendo nascido às 13:26 de 18 de Abril de 2006, através desta postagem aqui. Esta é a 21179.ª postagem. Muito obrigado a todas aquelas e a todos aqueles que, um bocado por todo o mundo, dele fizeram e fazem o mais visitado blogue moçambicano e uma referência nacional e internacional. Daqui têm saído (e continuarão a sair) ideias e textos para livros meus e daqui sai o material das minhas páginas no Facebook, no Twitter e na Academia.edu. O Diário de um sociólogo é (1) diariamente actualizado, (2) não se esconde no anonimato, (3) não pratica o panfletarismo e (4) não vive da mediocridade parasitária do copia/cola/mexerica. Face à hegemonia de redes sociais como Facebook e Twitter, é provavelmente o único blogue moçambicano que se mantém vivo com base nas quatro características apontadas. Finalmente, dizer que foi finalista em 2007 e 2008 na modalidade Melhor Webblog em Português no concurso The Bobs da Deutsche Welle - para 2008, recorde aquiImagem reproduzida com a devida vénia daqui.

Sobre "poder" e "aspirar ao poder"

1. Não há poder em si. Nenhum poder é extrínseco a uma relação, a uma comunicação regular entre pelo menos duas pessoas. Na verdade, que poder poderia alguém ter fora dessa relação, fora de um Nós? Com efeito, é na relação societal e só nela que alguém poder ter o poder de influenciar ou de determinar a nossa conduta. Assim, o poder tem uma natureza intrinsecamente relacional. O poder de A sobre B é a capacidade revelada por A para obter, na relação com B, que os termos de troca lhe sejam favoráveis. Alarguemos o postulado para a relação política. Lá onde a relação política está saturada de força e de violência (do género "a bolsa ou a vida") e onde, portanto, as alternativas à acção social são escassas ou inexistem, não há uma relação de poder, mas uma relação de violência ou de força. Como escreveu Foucault, uma relação de violência age sobre corpos e coisas: ela força, dobra, quebra, destrói, aspira à passividade do Outro e, confrontada com a resistência, destrói. Pelo contrário, uma relação de poder articula-se sobre dois eixos fundamentais: por um lado, o Outro é sempre reconhecido como sujeito da acção e, por outro, está sempre em aberto todo um campo mútuo de respostas, de reacções, de efeitos e de invenções possíveis.
2. O segundo ponto diz respeito a uma posição que surge sistematicamente na nossa imprensa escrita, nas rádios, nas televisões, nos blogues e nas redes sociais digitais. A posição é esta: "Eles aspiram ao poder". Nos casos mais extremos, diz-se "Eles aspiram ao poder a todo o custo". Regra geral essa acusação - porque é efectivamente uma acusação - é feita a quem não está em posição de ter, relacionalmente, o poder de gerir e de manter o Estado. Por outras palavras, é suposto que quem não tem esse poder, aspira a tê-lo. Não poucas vezes, a acusação tem um valor moral muito forte, um valor moral negativo, no sentido de que B não deve aspirar ao poder que já pertence a A - típica acusação de pecado. O que se esconde à retaguarda dessa posição acusatória? Esconde-se, oculta-se o facto de quem tem o poder de poder gerir o Estado tem tanta ou mais apetência pelo "poder político de poder". Por isso o mantém e por isso o defende a todo o custo. Só que o transfigura, o camufla, dotando-o de características meramente técnicas, de características neutralmente assistenciais, como se fosse algo estrangeiro a uma entidade política concreta. (Imagem: el poder, quadro do pintor e ceramista argentino Raúl Pietranera)

Antiracismo

O que diz o racismo? Diz que há raças superiores e raças inferiores. O que diz o antiracismo? Diz que as raças são iguais ou diz que apenas existe uma raça, a humana. Mas o fenómeno é bem mais delicado. A matriz da luta antiracial consiste não em trabalhar sobre os mecanismos infra-estruturais do sistema social que produz e reproduz a visão racial – das relações de produção aos sistemas educativos -, mas em defender a paridade das raças, em defender que as raças têm os mesmos direitos. Diferentes, mas iguais - para usar um cliché da moda. Nesta óptica, o problema não está na raça em si, mas na distribuição desigual de direitos raciais. O antiracismo é, muitas vezes, um mero biombo do racismo, seja este ofensivo ou defensivo. A suposta luta contra o racismo através de (1) quotas raciais de acesso institucional, (2) modelo de gestão social excludente do tipo acção afirmativa e (3) produção de identidades e culturas racializadas consideradas sui generis, é, em meu entender, um dramático campo nas relações sociais. O grande problema continua a ser que tudo muda sem nada mudar. Isto, para lembrar a famosa frase de Tancredi no Il Gattopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Tudo deve mudar para que tudo fique como está."

17 abril 2014

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (8); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)

Sobre "poder" e "aspirar ao poder"

Questão central

Texto de António Zefanias do DZ

No "Diário da Zambézia" digital com data de hoje. Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.

Um livro

Amplie as magens clicando sobre elas com o lado esquerdo do rato.

16 abril 2014

Sobre "poder" e "aspirar ao poder"

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (8); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)

Aumento dos casos de insegurança em África

Confira o editorial do The African Executive digital, aqui.

Duopólio político e equilíbrio à Nash (sobre as exigências da Renamo)

Faz já meses que governo e Renamo negoceiam o que no senso comum se chama paz mas que, na mesa das conversações, tem inteiramente a ver com redistribuição de recursos de poder no país. Por outras palavras: a Renamo quer parte do que - assim entende ela - a Frelimo tem ao nível da gestão do Estado.
Durante alguns meses cristalizou-se a ideia de que a Renamo apenas pretendia uma paridade ao nível dos órgãos eleitorais. Quer dizer, aceitou-se que tudo caminhava pela estrada das eleições e pelo seu melhor controlo.
Mas agora a Renamo subiu a parada: para se desmilitarizar, exige também paridade nas forças de defesa e segurança, quer mesmo chefiar o Estado-Maior General e o Comando-Geral da polícia.
Ora, a exigência surge em ano eleitoral, pois em Outubro deverão realizar-se as presidenciais e as legislativas.
Que conclusão tirar? Esta: a Renamo quer que a redistribuição de recursos de poder passe não pelas eleições, mas por um arranjo prévio, inteiramente partidarizado, ao nível de um duopólio político gerido, ao nível do Estado, pelo governo - que entende ser um mero utensílio da Frelimo - e por ela. Apenas por ambos, o que, entre outras consequências, representa (1) bipartidarizar militar e policialmente o que a Renamo entende estar unipartidarizado e (2) enviar às urtigas os outros partidos.
Por outras palavras: as eleições são havidas como um coméstico, um pró-forma para incautos.
Mas há uma questão fundamental: está a Renamo a fazer bluff? A resposta é negativa.
Há, provavelmente, muitas coisas na penumbra em todo este processo. Algumas poderão, futuramente, constituir uma surpresa.
Porém, talvez seja uma hipótese sensata admitir que a Renamo tem músculo guerrilheiro suficiente para pôr em causa a tranquilidade do país. Esse músculo pode rapidamente passar da guerrilha de pequena intensidade para a guerrilha de média intensidade, espalhando-se como um líquido, pouco a pouco, pelo país, pelo campo e, depois, pelas cidades (previ os dois cenários num trabalho publicado "Savana" e conferível aqui), arrastando consigo outros tipos de fenómenos. E pode, igualmente, contribuir para que as eleições sejam adiadas e/ou prejudicadas.
Tudo isso pode pôr em causa as expectativas de muita gente, de muitas instâncias nacionais e estrangeiras e do Capital internacional.
Na teoria dos jogos e do ponto de vista do princípio do equilíbrio de Nash (sabeis da teoria proposta por John Nash em 1950), cada jogador pratica a estratégia que lhe agrada, que melhor resultados lhe traz e, portanto, não está interessado em alterá-la.
Tudo parecia apontar para um equilíbrio à Nash: a Renamo exigiu paridade nos órgãos eleitorais, o governo aceitou, isso irá representar muito dinheiro a dispender mensalmente por milhares de membros de partidos, mas, enfim, a paz é cara. Por outras palavras: a Renamo conseguiu estar em locais eleitorais decisivos, o governo não foi questionado na gestão estatal e, portanto, nos órgãos de soberania. Equilíbrio à Nash.
Porém - com o Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissam transformado numa extensão urbano-seminarial da guerrilha rural - a Renamo subiu a parada, avançou para o ponto nevrálgico, para o coração da gestão do poder, exigindo paridade também nas forças de defesa e segurança. E o governo já respondeu, rapidamente, dizendo que isso não irá suceder.
O equilíbrio à Nash perdeu-se, o jogo estratégico foi alterado.
Infelizmente - nota de humor amargo - ninguém poderá saber o que pensaria o matemático norte-americano John Forbes Nash caso tivesse aqui nascido.
Os dados estão, entretanto, lançados. Enquanto isso, duvido que o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, reapareça em tablado civil para se recensear e apresentar-se, depois, como candidato presidencial do seu partido. Por um lado, ele conhece o cenário à Savimbi e, por outro, o bloco hegemónico da Renamo sabe que sem Dhlakama a "Renamo renovada" perde o seu DNA castrense e, portanto, o peso político à Clausewitz.

Recenseamento: ponto de situação

Ponto de situação do recenseamento eleitoral até a manhã de ontem, no Boletim sobre o Processo Político em Moçambique, aqui.

15 abril 2014

Duopólio político e equilíbrio à Nash (sobre as exigências da Renamo)

Postagens na forja

Eis alguns dos temas que, progressivamente, deverão entrar neste diário a partir da meia-noite local:
Séries pessoais: Culto aos presidentes (8); Espírito do deixa-falar (14); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (17); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)