Um novo questionário está situado no lado direito deste diário, logo a seguir ao fórum, confira resultados aqui.
Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
22 fevereiro 2014
TheBobs2014: este diário de novo em concurso
Em diversas categorias e línguas, através do Twitter, do Facebook, do Open ID ou do VKontakte, blogues podem ser propostos até 05 de Março para o concurso The Bobs 2014 da Deutsche Welle, aqui. Este é o oitavo ano consecutivo de participação do "Diário de um sociólogo", surgido a 18 de Abril de 2006. Em 2007 e 2008, foi finalista por votação do júri e bem classificado na votação popular na categoria "Melhor Weblog em Português". Entrevista dada em 2008 ao UOL, aqui. Se acharem que este blogue tem algum mérito, proponham-no. Obrigado.Xenofobia: construção colectiva do inimigo total (2)
"Residentes de Cullinan, Pretória, África do Sul, levantaram-se terça-feira contra cidadãos estrangeiros, depois de um logista de origem paquistanesa ter supostamente agredido uma criança, que viria mais tarde a falecer no hospital. [A agressão terá ocorrido a semana passada. Segundo fontes, a criança um menino de 10 anos terá roubado bombons na loja de um paquistanês que o agrediu depois com o taco de golfe. O menino viria a morrer esta semana no hospital.[A comunidade, revoltada, começou terça-feira a atacar as lojas de cidadãos de origem paquistanesa. A violência estender-se-ia de imediato contra outros estrangeiros, designadamente cidadãos somalis que têm bancas nas ruas." (realce a vermelho da minha autoria, CS)
Segundo número da série. Escrevi no número inaugural que a xenofobia é uma forma extrema da "lei do grupo", a forma da construção colectiva do inimigo total, do inimigo absoluto. Essa construção existe e actua ab initio? Absolutamente não. O efeito semáforo (o verde para os nossos, o vermelho para os outros) só tem validade caso entrem em jogo as infra-estruturas sociais que produzem e reproduzem pelo imaginário a unidade interna face ao outro, ao exterior, ao distante, ao desconhecido, ao atemorizante. Basta um suposto roubo de rebuçados e uma agressão punitiva para gerar a "lei do grupo" e a construção colectiva, comunitária, do inimigo total? Não, não basta, como procurarei mostrar mais tarde.
Segundo número da série. Escrevi no número inaugural que a xenofobia é uma forma extrema da "lei do grupo", a forma da construção colectiva do inimigo total, do inimigo absoluto. Essa construção existe e actua ab initio? Absolutamente não. O efeito semáforo (o verde para os nossos, o vermelho para os outros) só tem validade caso entrem em jogo as infra-estruturas sociais que produzem e reproduzem pelo imaginário a unidade interna face ao outro, ao exterior, ao distante, ao desconhecido, ao atemorizante. Basta um suposto roubo de rebuçados e uma agressão punitiva para gerar a "lei do grupo" e a construção colectiva, comunitária, do inimigo total? Não, não basta, como procurarei mostrar mais tarde.
(continua)
Inclusão e exclusão
Quando um grupo se considera senhor de algo que entende ser vital para a sua reprodução social, produzirá através dos seus intelectuais orgânicos uma teoria sistemática destinada a justificar o status quo. Se esse grupo ainda não é senhor desse algo vital mas aspira a sê-lo, da mesma forma produzirá através dos seus intelectuais orgânicos uma teoria destinada a justificar a luta nesse sentido, invocando direitos históricos, legitimidade moral, etc. Em qualquer dos casos, na luta, o grupo detentor de algo muito importante ou a isso aspirando produzirá sobre si uma visão de bondade e pureza e sobre os inimigos uma visão de maldade e impureza. Os membros do grupo hegemónico outorgam-se o direito de se considerarem beneficiários por natureza e de considerar os outros como excluídos dos benefícios porque estrangeiros. O alvo é, sempre, um determinado conjunto de recursos de poder. É este conjunto de recursos de poder que dá origem, na luta, à inclusão de uns e à exclusão de outros e à produção permanente de ideologia ratificadora.
Edição 1050 na íntegra
21 fevereiro 2014
Postagens na forja
* Séries pessoais: Xenofobia: construção colectiva do inimigo total (2); Do lastro da Renamo à visibilidade de Muthisse (3); Culto aos presidentes (8); A guerra psicológica na possível guerra no país (6); Espírito do deixa-falar (12); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (16); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Xenofobia: construção colectiva do inimigo total (1)
"Residentes de Cullinan, Pretória, África do Sul, levantaram-se terça-feira contra cidadãos estrangeiros, depois de um logista de origem paquistanesa ter supostamente agredido uma criança, que viria mais tarde a falecer no hospital. [A agressão terá ocorrido a semana passada. Segundo fontes, a criança um menino de 10 anos terá roubado bombons na loja de um paquistanês que o agrediu depois com o taco de golfe. O menino viria a morrer esta semana no hospital.[A comunidade, revoltada, começou terça-feira a atacar as lojas de cidadãos de origem paquistanesa. A violência estender-se-ia de imediato contra outros estrangeiros, designadamente cidadãos somalis que têm bancas nas ruas." (realce a vermelho da minha autoria, CS)
Num dos seus livros, Michel de Certeau escreveu que o conflito é inerente à vida social e que toda a sociedade se define pelo que exclui, que toda a sociedade se forma diferenciando-se. Formar um grupo é criar, ao mesmo tempo, estrangeiros. Uma estrutura bipolar, essencial a toda a sociedade, cria um "fora" para que exista um "entre nós"; fronteiras, para que possa existir um país interior; "outros" para que o "nós" possa tomar forma. Temos assim uma lei, a lei do grupo - asseverou Michel - que é, também, um princípio de eliminação e de intolerância. União e diferenciação crescem e marcham de par.
A xenofobia é uma forma extrema da "lei do grupo", a forma da construção colectiva do inimigo total, do inimigo absoluto. De que maneira? Se não se importam, prossigo mais tarde.
Num dos seus livros, Michel de Certeau escreveu que o conflito é inerente à vida social e que toda a sociedade se define pelo que exclui, que toda a sociedade se forma diferenciando-se. Formar um grupo é criar, ao mesmo tempo, estrangeiros. Uma estrutura bipolar, essencial a toda a sociedade, cria um "fora" para que exista um "entre nós"; fronteiras, para que possa existir um país interior; "outros" para que o "nós" possa tomar forma. Temos assim uma lei, a lei do grupo - asseverou Michel - que é, também, um princípio de eliminação e de intolerância. União e diferenciação crescem e marcham de par.
A xenofobia é uma forma extrema da "lei do grupo", a forma da construção colectiva do inimigo total, do inimigo absoluto. De que maneira? Se não se importam, prossigo mais tarde.
(continua)
Travestimento político
Muito interessante o fenómeno de certos políticos começarem a vestir-se de uma certa maneira para obter aderência e votos de certas religiões. Também não é menos interessante o fenómeno de dançarem aparatosamente perante multidões.
Observação: para chegar ao topo muda-se a alma na base.
Adenda às 05:51: ou de surgirem na Assembleia da República com vestes que antes não usavam.
Observação: para chegar ao topo muda-se a alma na base.
Adenda às 05:51: ou de surgirem na Assembleia da República com vestes que antes não usavam.
CEA prepara III Conferência Internacional
O Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane prepara a sua III Conferência Internacional, prevista para realizar-se em Novembro do corrente ano. Manter-vos-ei informados em permanência e brevemente conto dar-vos a conhecer o tema e os subtemas.
20 fevereiro 2014
Proposta de lei eleitoral = +Renamo e -MDM
A proposta de lei eleitoral apresentada pela Renamo à Assembleia da República dá-lhe mais poder e marginaliza o MDM - esta a posição do Boletim sobre o Processo Político em Moçambique (20), com data de hoje, editado por Joseph Hanlon. Leia a proposta na íntegra no portal do CIP, aqui.
Postagens na forja
* Séries pessoais: Do lastro da Renamo à visibilidade de Muthisse (3); Culto aos presidentes (8); A guerra psicológica na possível guerra no país (6); Espírito do deixa-falar (12); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (16); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
Ditos (78)
(continua)
Dois em um
Uma hipótese: todos os seres humanos são portadores de um capital de obediência formado ao longo das suas diferentes socializações, sendo estas, regra geral, aprendizagens e interiorização de regras e de fórmulas de obediência à ordem. É por aí que se estruturam os veios de identificação e os laços afectivos primordiais: em termos freudianos, queremos ser como o nosso Pai (e, por extensão, como todos aqueles que simbolizam esse Pai e a sua autoridade: o professor, o curandeiro, o régulo, o administrador, o ministro, o escritor, etc.); mas acontece que esse processo é contrariado por um desejo de sermos o próprio Pai e, se possível, de irmos para além dele: é aqui que nasce a desidentificação primordial e a aspiração prometeica a uma neo-identificação na personagem do rebelde, do subvertor, do anómico, do produtor de historicidade. Põe-se em marcha, então, o capital de desobediência. Um mundo de motivos e de condições pode reproduzir e, até, ampliar essa neo-identificação.
19 fevereiro 2014
Os bons e os maus
E assim é anualmente na Assembleia da República: cada bancada partidária divide o mundo entre os bons (ela) e os maus (adversários), espécie de natureza imutável.
Postagens na forja
* Séries pessoais: Do lastro da Renamo à visibilidade de Muthisse (3); Culto aos presidentes (8); A guerra psicológica na possível guerra no país (6); Espírito do deixa-falar (12); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (16); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
CEA prepara III Conferência Internacional
O Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane prepara a sua III Conferência Internacional, prevista para realizar-se em Novembro do corrente ano. Manter-vos-ei informados em permanência e brevemente conto dar-vos a conhecer o tema e os subtemas.
Culto aos presidentes (7)
Sétimo número da série. Entro no terceiro ponto do sumário proposto aqui, a saber: 3. Alguns cultos políticos aos presidentes no mundo. Trata-se, agora, de mostrar, certamente de forma provocadora, que os cultos políticos são independentes dos sistemas políticos, que possuem digamos que a mesma alma sacro-política. Após uma introdução, apresentarei dois exemplos: o norte-coreano Kim Jong-un e o norte-americano Barack Obama.Se não se importam, prosseguirei mais tarde.
18 fevereiro 2014
Que as galinhas ganhem dentes
Segundo "O País" digital, citando a proposta de legislação eleitoral da Renamo: "Na proposta [...] a CNE será composta por cinco membros da Frelimo, quatro da Renamo, um do MDM. Nos actuais três da sociedade civil, deverá integrar-se mais dois da Renamo, um da Frelimo e um do MDM. [...] Em suma, serão no total seis membros da Frelimo, seis da Renamo, dois do MDM e três da sociedade civil, encontrando-se o tão almejado equilíbrio. Estas contas também serão feitas ao nível do Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE), onde se prevê um total de 18 membros ao nível central, incluindo dois directores-gerais-adjuntos do órgão." Aqui.Observação: uma partidarização completa, esta, a da proposta da Renamo, admitindo-se que esteja correcta a citação do jornal. E pobre "sociedade civil", também ela tornada partidária. Assim, há quem pense que semelhante superpolitizada composição - além do mais certamente cara, com muitos chefes e directores - permitirá uma gestão eleitoral eficiente e uma paz duradoura. Provavelmente será preciso aguardar que primeiro as galinhas ganhem dentes.
Observação 2 às 16:45: e remetido à insignifância estratégica fica o MDM, que não tem uma gorongosa bélica a tiracolo.
Postagens na forja
* Séries pessoais: Do lastro da Renamo à visibilidade de Muthisse (3); Culto aos presidentes (7); A guerra psicológica na possível guerra no país (6); Espírito do deixa-falar (12); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (16); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
A outra chuva
O jornal "Notícias" digital tem hoje o seguinte título: "Chuva penaliza mais uma vez Mahlampsene". Porém, lida a notícia, verificamos que não é a chuva que penaliza o bairro, mas um conjunto de fenómenos que, indo da má gestão à incúria, tornam dolorosa e ampliada a acção da água. Na verdade, trata-se de uma outra chuva. Leia aqui.
Observação: é frequente este tipo de imputação causal na nossa imprensa, imputação que atribui mecanicamente à natureza a razão de ser de problemas cujos autores são os seres humanos.
Observação: é frequente este tipo de imputação causal na nossa imprensa, imputação que atribui mecanicamente à natureza a razão de ser de problemas cujos autores são os seres humanos.
A guerra psicológica na possível guerra no país (5)
Quinto número da série, com três hipóteses no número inaugural. No número anterior escrevi um pouco sobre o primeiro dos dois níveis de guerra psicológica, o nível intencional a cargo de beligerantes. Chega agora a vez de escrever um pouco sobre o nível de repercussão popular. Em situações de intranquilidade social, provocadas por conflitos e agravadas pela guerra psicológica intencionalmente produzida pelos beligerantes, os fenómenos são amplamente ampliados e, não poucas vezes, reinventados no imaginário popular. Este imaginário é ainda alimentado por jornais sensacionalistas e por redes sociais digitais. Pode então acontecer que um conflito de pequena magnitude seja transformado pelo imaginário popular num conflito de grande magnitude, lubrificado em permanência pelo temor e pelo sensacionalismo.
(continua)
17 fevereiro 2014
Postagens na forja
* Séries pessoais: Do lastro da Renamo à visibilidade de Muthisse (3); Culto aos presidentes (7); A guerra psicológica na possível guerra no país (5); Espírito do deixa-falar (12); Politizar cientificando: autárquicas Moçambique 2013 (16); Propaganda eleitoral pelo vestuário (8); Discursos presidenciais e escritores-fantasmas em Moçambique (3); Da purificação das fileiras à purificação das ideias (4); Luta política: a Pasárgada da Renamo (21); A cova não está em Muxúnguè (29); Por que os médicos venceram? (21); Vídeosocial de Maputo (4); A raça das raças (7); Desunidos e unidos (5); O poder de nomear desviantes e vândalos (15); Sobre o 15 de Novembro (19); Produção de pobreza teórica (8); O discurso da identidade nacional (12); Como suster os linchamentos? (17); O que é um intelectual? (14); Democracia formal e prescrição hipnótica (9); A carne dos outros (23); A difícil fórmula da distribuição de consensos (49); Modos de navegação social (22); Ditos (78); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (102)
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