Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
25 novembro 2011
Postagens na forja
* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Diário de campanha (4); Espíritos, doenças e médicos do invisível (6); Racismos (9); Pasteurização social (14); Contestação global e novas solidariedades (1); Teoria do conhecimento de Samora Machel (14); Consumidores machos, cervejas pretas fêmeas (17); Sobre a qualidade do ensino em Moçambique (31); E se os Moçambicanos fossem Chineses? (20); Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (25); Ditos (25); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (64)
* Séries pessoais: Diário de campanha (4); Espíritos, doenças e médicos do invisível (6); Racismos (9); Pasteurização social (14); Contestação global e novas solidariedades (1); Teoria do conhecimento de Samora Machel (14); Consumidores machos, cervejas pretas fêmeas (17); Sobre a qualidade do ensino em Moçambique (31); E se os Moçambicanos fossem Chineses? (20); Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (25); Ditos (25); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (64)
Diário de campanha (3)
Conflito das interpretações. As campanhas eleitorais são sempre um excelente laboratório para estudarmos muitos fenómenos, tal como mostra o livro constante da primeira adenda mais abaixo. Por exemplo, no "campo semântico do mostrado-oculto" (para usar uma expressão de Paul Ricoeur), na semântica das expressões de múltiplo sentido. O que quero sugerir? Quero sugerir que seria interessante estudar e comparar o que os candidatos dizem ou querem dizer e o que os eleitores, em sua diversidade social, acham que eles querem dizer ou realmente disseram. Não é o que dizemos que é importante, mas o que os outros acham que dizemos em função das suas expectativas. O "conflito das interpretações" (para usar de novo uma expressão de Ricoeur) é um dos campos maiores (mas infelizmente esquecidos) na análise da discursividade política de campanha.
Sátira e rumores. O estudo das formas populares de satirizar os candidatos e a propagação de rumores sobre eles ou sobre a campanha eleitoral, são outros dois campos merecedores de estudo.
Repetição. Alguém de um partido A afirma que o partido B está a usar meios do Estado em sua campanha. Logo de seguida alguém do partido B afirma que o partido A apenas revela que já está vencido. Este é um fenómeno que regressou ao cenário de campanha e que é merecedor de análise.
MDM. O MDM joga uma cartada: a de querer mostrar em três cidades do país que tem credibilidade urbana. O certo é que a Frelimo deslocou para as três cidades, para apoio e conselho aos seus candidatos, muitas das suas figuras séniores.
(continua)
Adenda 1: abordo múltiplos aspectos da engenharia eleitoral no seguinte livro: Serra, Carlos (dir), Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, 354 pp., confira especialmente pp. 43-243.
Adenda 2: recorde duas séries minhas, uma em 17 números intitulada Poder e representação: teatrocracia em Moçambique, aqui; outra, em 20 números, intitulada Para ganhar as eleições em Quelimane, aqui.
Adenda 4 às 11:42: "Diário da Zambézia" aqui.
Pasteurização social (13)
Décimo terceiro número da série de um tema cujo sumário está aqui e cuja definição foi dada aqui.
6. Factos insólitos e frivolização. Terminando este ponto. Quanto mais insistirmos nos aspectos fora de comum, na superfície dos fenómenos (a este nível com um forte pendor psicologizante), quanto mais ênfase damos ao espectáculo de coisas, mais escondidas ficam as verdadeiras chaves do social. Desta maneira, aspectos considerados perturbadores da realidade social são travestidos em aspectos inócuos, destituídos de vida própria ou convertidos em preceitos morais, desta maneira a pasteurização social elimina os "microorganismos patogénicos" sociais.
Permitam-me prosseguir no próximo número.
6. Factos insólitos e frivolização. Terminando este ponto. Quanto mais insistirmos nos aspectos fora de comum, na superfície dos fenómenos (a este nível com um forte pendor psicologizante), quanto mais ênfase damos ao espectáculo de coisas, mais escondidas ficam as verdadeiras chaves do social. Desta maneira, aspectos considerados perturbadores da realidade social são travestidos em aspectos inócuos, destituídos de vida própria ou convertidos em preceitos morais, desta maneira a pasteurização social elimina os "microorganismos patogénicos" sociais.
Permitam-me prosseguir no próximo número.
(continua)
O que sobrou para os intelectuais?
De um trabalho com o título em epígrafe: "(...) os intelectuais foram deglutidos também pelo seu aprisionamento nas instituições universitárias, onde são docilizados e permanecem envoltos à carreira. Esses intelectuais perderam a aura que tinham, com a proletarização da universidade. Como proletários do conhecimento, o horizonte ofertado é o de inserir-se em algum grupo de estudo que faça pesquisa para o poder público ou para as empresas. Quanto mais útil o conhecimento produzido for para as empresas ou para o Estado, maiores serão as verbas recebidas. Tais grupos de estudo são verdadeiras encubadoras de gestores. O aluno começa hoje pesquisando violência na cidade tal e amanhã estará dando palestra para a polícia, assessorando prefeitura e, se for bem sucedido, pode tornar-se secretário, presidente de um conselho de segurança ou dono de ONG. Feminismo, educação, ambiente e vários temas permitem o mesmo percurso." Aqui.
24 novembro 2011
Postagens na forja
* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Diário de campanha (3); Espíritos, doenças e médicos do invisível (6); Racismos (9); Pasteurização social (13); Contestação global e novas solidariedades (1); Teoria do conhecimento de Samora Machel (14); Consumidores machos, cervejas pretas fêmeas (17); Sobre a qualidade do ensino em Moçambique (31); E se os Moçambicanos fossem Chineses? (20); Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (25); Ditos (25); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (64)
* Séries pessoais: Diário de campanha (3); Espíritos, doenças e médicos do invisível (6); Racismos (9); Pasteurização social (13); Contestação global e novas solidariedades (1); Teoria do conhecimento de Samora Machel (14); Consumidores machos, cervejas pretas fêmeas (17); Sobre a qualidade do ensino em Moçambique (31); E se os Moçambicanos fossem Chineses? (20); Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (25); Ditos (25); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (64)
Diário de campanha (2)
Estigmatização. Em campanha eleitoral, os candidatos procuram mostrar que são as pessoas mais adequadas para governar e que os adversários não têm qualidades para isso. Tenho para mim que essa postura nada tem de anormal. O problema pode começar quando são transpostas as fronteiras da desqualificação aceitável e se entra num campo mais ofensivo, com recurso a expressões e a metáforas que não só desqualificam quanto estigmatizam.
Ausência da Renamo. Em 1998, a Renamo boicotou formalmente as primeiras eleições autárquicas do país, fenómeno que deu origem ao livro com as referências na primeira adenda abaixo. Em todo o lado, interpessoalmente ou em comícios, membros desse partido estiveram permanentemente a convidar as pessoas a não votar. Treze anos depois, a Renamo boicota de novo as eleições. Mas, desta vez, tanto quanto julgo saber, não tem andado a pedir às pessoas que não votem, pelo menos não há ainda registo público disso. Qual o impacto da ausência do partido? Irão os seus membros votar? Se sim, em que partido (s)? Um dado a avaliar após as eleições é a taxa de participação. Depois, será necessário verificar se a ausência de Renamo teve alguma influência nessa taxa. De qualquer das formas e segundo uma fonte, pelo menos em Quelimane parece que o partido apoia o MDM.
(continua)
Adenda: abordo múltiplos aspectos da engenharia eleitoral no seguinte livro: Serra, Carlos (dir), Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, 354 pp., confira especialmente pp. 43-243.
Adenda 2: recorde a minha série em 17 números intitulada Poder e representação: teatrocracia em Moçambique, aqui.
Adenda 3: sugiro recorde a minha série em 20 números intitulada Para ganhar as eleições em Quelimane, aqui.
Mas não o sistema
Faz dias que de novo a violência política campeia no Egipto e, em particular, no Cairo, na famosa Praça Tahrir. Os confrontos não páram entre manifestantes e forças de segurança, com mortos e muitos feridos. Os primeiros exigem um governo civil num país governado por militares. Quando Hosni Mubarak foi derrubado, os militares foram aplaudidos. Hoje são recusados. O grande problema das manifestações populares foi que conseguiram derrubar o ícone de um sistema, mas não o sistema. Agora querem o fim real do sistema.
Adenda às 10:11: BBC Brasil aqui.
Adenda às 10:11: BBC Brasil aqui.
23 novembro 2011
Diário de campanha
Na continuidade da série, dois temas serão abordados: (1) desqualificação e (2) impacto da ausência da Renamo.
Postagens na forja
* Genéricos: Diversos
* Séries pessoais: Diário de campanha (2); Espíritos, doenças e médicos do invisível (5); Racismos (8); Pasteurização social (12); Contestação global e novas solidariedades (1); Teoria do conhecimento de Samora Machel (14); Consumidores machos, cervejas pretas fêmeas (17); Sobre a qualidade do ensino em Moçambique (31); E se os Moçambicanos fossem Chineses? (20); Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (25); Ditos (25); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (64)
* Séries pessoais: Diário de campanha (2); Espíritos, doenças e médicos do invisível (5); Racismos (8); Pasteurização social (12); Contestação global e novas solidariedades (1); Teoria do conhecimento de Samora Machel (14); Consumidores machos, cervejas pretas fêmeas (17); Sobre a qualidade do ensino em Moçambique (31); E se os Moçambicanos fossem Chineses? (20); Dhlakamismo: Clausewitz à moçambicana (25); Ditos (25); O que é Moçambique, quem são os Moçambicanos? (64)
Diário de campanha (1)
Sondagens. As sondagens eleitorais são instrumentos mágicos. Por quê? Primeiro, porque surgem emitidas por fontes de autoridade, consideradas sagradas, razão por que não precisam exibir o conteúdo integral dos métodos e das técnicas; segundo, porque criam nas pessoas imagens potenciais de vitória ou derrota; terceiro, porque exibem números destituídos de estatutos e relações sociais, como se as pessoas fossem meras entidades neutras colectivamente agregadas. As sondagens surgidas criaram reflexos imediatos: os dados como favoritos não ripostaram, os dados como não favoritos de imediato redarguiram que sondagens não eram realidades.
Espectáculo. Os jornais mostram candidatos exibindo a sua musculatura em comícios e recursos, designadamente viaturas, claques, instrumentos de sopro e percussão, cartazes, panfletos, etc. "O grande actor político comanda o real pelo imaginário", escreveu um dia Georges Balandier. A propaganda eleitoral visa seduzir e dirigir a opinião pública, levá-la a acreditar no imaginário oferecido. O seu fundamento não é o real, mas a imagem que as pessoas são levadas a construir desse real. Uma das ideias subjacentes à teatrocracia eleitoral consiste em levar os leitores potenciais a acreditar e a aceitar o poder do candidato, o seu fausto, a sua grandiosidade, o seu poder de poder.
Para gente carenciada, a propaganda-espectáculo é potencialmente hipnótica. Creio que o partido no poder vai à frente nesse tipo de propaganda.
Eleitores-alvo. Pelo menos em Quelimane e segundo o "Diário de Moçambique", os candidatos concentraram as suas atenções nos mais carenciados habitando os subúrbios da cidade. Gostaria imenso de estudar os discursos, de analisar o conteúdo, de conhecer as reacções populares.
(continua)
Adenda: abordo múltiplos aspectos da engenharia eleitoral no seguinte livro: Serra, Carlos (dir), Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, 354 pp., confira especialmente pp. 43-243.
Adenda 2: recorde a minha série em 17 números intitulada Poder e representação: teatrocracia em Moçambique, aqui.
Adenda 3 às 8:49: sugiro recorde a minha série em 20 números intitulada Para ganhar as eleições em Quelimane, aqui.
Adenda 4 às 10:29: confira aqui:
Adenda 5 às 14:37: uma fonte de Quelimane informou-me que Lourenço Bico da Frelimo esteve colado ao secretário-geral do partido, Filpe Paúnde, falando com estudantes do ensino supeior em reunião de cerca de 100 pessoas, enquanto Manuel de Araújo do MDM trabalhou no quinto bairro, Namuinho, em contacto interpessoal.
Espíritos, doenças e médicos do invisível (5)
2. Crença na intencionalidade das forças do invisível. Perante a desordem que grassa, torna-se indispensável saber quem (e não o que) a provoca. A solução do problema só pode ocorrer no quadro da intencionalidade atribuída às forças do invisível. Estas forças actuam em todos os actos dos vivos, para bem ou para mal. Que forças do invisível estão em causa? Em primeiro lugar, as forças dos espíritos; em segundo lugar, as forças desencadeadas pela acção da magia. Em qualquer dos casos, trata-se de encontrar as causas e os antídotos, trata-se de construir o processo da verdade de um circuito que, afinal, é menos do foro da psicopatologia (termo que empreguei no número anterior) do que da sóciopatologia.
Com a vossa permissão, prossigo mais tarde. Foto reproduzida daqui.
(continua)
Adenda: "Para se ter uma ideia, na África do Sul, enquanto há um médico para cada 20 mil habitantes, existe um curandeiro para cada 500 pessoas." Aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.
Adenda 2: um trabalho do antropólogo Paulo Granjo intitulado "Saúde e doença em Moçambique", aqui.
Adenda 3 às 6:52: a história que dá origem a esta série (atribuição de um marido-espírito a uma jovem de 15 anos) está melhor contada no portal da Rádio Moçambique, aqui.
Racismos (8)
Oitavo número da série, baseado numa ideia de Pierre Bourdieu, apresentada aqui. Entro no quinto número do sumário proposto:
5. Racismo académico. Uma outra forma sofisticada de racismo habita não no dia-a-dia das ruas e do bula-bula das esquinas populares, mas nas universidades, nos centros sagrados do saber institucionalizado. Racismo biológico, racismo clássico? Não, não se trata desse tipo de racismo, mas - digamos, numa outra formulação - de racismo epistemológico.
(continua)
Pasteurização social (12)
Décimo segundo número da série de um tema cujo sumário está aqui e cuja definição foi dada aqui.
6. Factos insólitos e frivolização. A psicologização e a individuação que abordei nos dois números anteriores, com o aceno decisório atribuído à consciência individual em si, estão intimamente associadas a outros fenómenos, lógicos em seu desdobramento, como que suas consequências naturais. Nesta ordem de ideias, faz sentido a redução dos fenómenos sociais a eventos fora do comum por um lado e a eventos centrados no fútil e no superficial por outro.
Permitam-me prosseguir no próximo número.
6. Factos insólitos e frivolização. A psicologização e a individuação que abordei nos dois números anteriores, com o aceno decisório atribuído à consciência individual em si, estão intimamente associadas a outros fenómenos, lógicos em seu desdobramento, como que suas consequências naturais. Nesta ordem de ideias, faz sentido a redução dos fenómenos sociais a eventos fora do comum por um lado e a eventos centrados no fútil e no superficial por outro.
Permitam-me prosseguir no próximo número.
(continua)
A sedução do poder
Introdução de um trabalho do jornalista brasileiro José Antônio Sarcinelli: "Uma leitura rápida nas páginas econômicas dos jornais de hoje é suficiente para perceber que a reportagem de economia passou a concentrar seu foco em apenas um segmento da sociedade: a classe empresarial e seus representantes. As equipes de reportagem estão posicionadas junto ao poder político e econômico - presidente, governadores, prefeitos, deputados, ministros, senadores, vereadores e empresários - vendo o país e sua realidade econômica e social apenas pelo ângulo do poder, ignorando a parcela mais significativa da sociedade: trabalhadores, aposentados, donas-de-casa, estudantes, microempresários e funcionários públicos." Aqui.
Observação: certamente que este foco pelo "ângulo do poder" pode ser igualmente tido em conta no nosso país, a vários níveis. Daria provavelmente um belo trabalho de pesquisa.
Observação: certamente que este foco pelo "ângulo do poder" pode ser igualmente tido em conta no nosso país, a vários níveis. Daria provavelmente um belo trabalho de pesquisa.
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