A nossa selecção nacional de futebol foi eliminada do CAN2010. O Guilherme Mussane escreveu um texto (cujo envio agradeço) que nos fala das "bolas sujas do nosso desporto". Aqui.Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
26 janeiro 2010
Guilherme e as bolas sujas
A nossa selecção nacional de futebol foi eliminada do CAN2010. O Guilherme Mussane escreveu um texto (cujo envio agradeço) que nos fala das "bolas sujas do nosso desporto". Aqui.A conviçcão de Matsolo
Por ocasião da abertura da época do canhu, o régulo de Mulotane (periferia da cidade da Matola), Mateus Matsolo, assegurou que "os antepassados vão responder aos pedidos de chuva dos seus súbditos". Sobre os problemas que podem ocorrer caso a chuva tarde, recorde aqui.Malária: a principal doença de Moçambique

A malária mata um milhão de pessoas por ano e uma criança africana em cada 30 segundos. Aqui. Em Moçambique "é a principal causa de morte no país e responsável por cerca de 60 por cento dos internamentos em enfermarias de pediatria moçambicana e 44 por cento dos atendimentos hospitalares."
Pelos corredores do poder (7)
Um conquistador é um homem cuja cabeça se serve, com feliz habilidade, do braço de outrem (Voltaire)Vamos lá a mais um número desta série, tentando responder à pergunta anunciada no número anterior: por que razão ou por que razões Deviz Simango foi ao almoço com o reeleito presidente Armando Guebuza?
Também neste caso me furto à cidadã hipótese de que ele foi porque é bem-educado e de que Afonso Dhlakama, que não foi, é mal-educado. Trilho, antes, as hipóteses políticas.
O presidente do MDM foi ao almoço por três razões básicas: primeiro, porque deixou de ser um modesto ainda que premiado edil numa cidade do país distante do cosmopolitismo maputense, a Beira, passando a ser uma figura de maior relevo político com as eleições de Outubro do ano passado. Ele quis mostrar isso; segundo, porque estaria em igualdade de condições com aquele que fôra seu presidente na Renamo e que o trocara por Manuel Pereira em 2008 como candidato desse partido na Beira quando das eleições autárquicas; terceiro, porque poderia eventualmente negociar maior visibilidade do MDM na Assembleia da República (constituição como bancada apesar de só ter oito membros eleitos), especialmente porque seria boa hipótese pensar que Dhlakama, sempre orgulhoso, não iria ao almoço, podendo, assim, estar mais à vontade e dotar o pedido de um intimismo razoável.
Também neste caso me furto à cidadã hipótese de que ele foi porque é bem-educado e de que Afonso Dhlakama, que não foi, é mal-educado. Trilho, antes, as hipóteses políticas.
O presidente do MDM foi ao almoço por três razões básicas: primeiro, porque deixou de ser um modesto ainda que premiado edil numa cidade do país distante do cosmopolitismo maputense, a Beira, passando a ser uma figura de maior relevo político com as eleições de Outubro do ano passado. Ele quis mostrar isso; segundo, porque estaria em igualdade de condições com aquele que fôra seu presidente na Renamo e que o trocara por Manuel Pereira em 2008 como candidato desse partido na Beira quando das eleições autárquicas; terceiro, porque poderia eventualmente negociar maior visibilidade do MDM na Assembleia da República (constituição como bancada apesar de só ter oito membros eleitos), especialmente porque seria boa hipótese pensar que Dhlakama, sempre orgulhoso, não iria ao almoço, podendo, assim, estar mais à vontade e dotar o pedido de um intimismo razoável.
Finalmente: terminado o almoço, o que irá acontecer?
(continua)
25 janeiro 2010
Khadafi, o eterno
O presidente da Líbia, coronel Muammar Khadafi, capitão do exército aos 27 anos, assinalará este ano 41 anos à testa do país, sem dúvida um feito cheio de medalhas. Nas democracias publicitadas do mundo, ninguém se preocupa politicamente com a longevidade do reinado desde que o coronel faça jorrar e vender petróleo.Quarto no Amatomu hoje

Hoje e neste momento (a classificação varia diariamente e, por vezes, várias vezes ao longo do dia), este diário figura em quarto lugar (em leitura e postagens) na rubrica Blogues populares em notícias e política entre 367 blogues inscritos no Amatomu, um dos dois grandes hospedeiros de blogues da África do Sul. Em primeiro lugar está o Thought Leader do Mail&Guardian. Na classificação geral está em 31.° lugar entre 500 blogues inscritos em várias rubricas, sendo um dos dois blogues em língua portuguesa (o segundo é o meu cartas de amor, em 285.° lugar).
Adenda: interrogo-me sobre a causa ou as causas de semelhante interesse na África do Sul.
Pelos corredores do poder (6)
A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros (Henry de Montherlant)Avancemos mais um pouco nesta série.
A pergunta que ficou no último número: por que Dhlakama faltou ao almoço?
Furto-me à cidadã hipótese de que ele é mal-educado e trilho, antes, os caminhos políticos.
O presidente da Renamo não foi ao almoço (em 2005 também não foi) por duas razões (duas hipóteses): primeiro, porque continua a acreditar que é um eterno vencedor e que os votos lhe foram uma vez mais roubados a 28 de Outubro pela máquina eleitoral que ele acredita estar ao serviço dos candidatos da Frelimo, antes Chissano, agora Guebuza. Portanto, ir ao almoço seria aceitar que as eleições foram justas e que Guebuza e a Frelimo ganharam merecidamente; segundo, porque seria humilhante estar em igualdade de condições com aquele que já foi seu subordinado e a quem ele já um dia chamou miúdo, Deviz Simango, um político em rápida ascensão que tirou muitos militantes à Renamo e que ameaça fazer do MDM uma alternativa a esse partido.
E por que Simango foi ao almoço?
(continua)
Adenda 2 às 11:15: segundo Vasco Fenita escrevendo na coluna "Khomala" do "Wamphula Fax" de hoje, Dhlakama contra-ordenou e deu luz verde para os deputados da Renamo tomarem posse na Assembleia da República. Aqui.
A crença no roubo da chuva
Sete camponeses estão detidos por terem sido acusados de agredirem um régulo e estragado uma antena de rádio na Serra da Gorongosa - considerada sagrada pelas comunidades aldeãs -, o primeiro por não colaborar com os espíritos, a segunda por evitar a queda de chuvas. Um oficial da polícia afirmou que semelhantes atitudes não contribuem para o desenvolvimento. Aqui.Adenda: recordem as minhas série com os títulos Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu e Leões (14 números), chuva, cólera e energia nociva: trajectórias de "guerreiros" (cinco números), respectivamente aqui e aqui. Recordem uma postagem reportando o que duas prefeituras fizeram no Brasil por causa da falta de chuvas, aqui.
A chegada de Meque

Pela pena de António Zefanias, o "Diário da Zambézia" com data de hoje descreveu, com ironia, a chegada a Quelimane do novo governador da Zambézia, Itae Meque, aqui (a edição permite, ainda, ler a crónica política de Noé Nhantumbo).
24 janeiro 2010
"O Savana e as balas açucaradas"
O editorial do semanário "Savana" com data de 22 do corrente mês tem o título em epígrafe. Leia-o na íntegra aqui.Pelos corredores do poder (5)
Nada é tão nocivo para os povos como darem-se por satisfeitos com meras palavras e aparências.(François Guizot)
Cá estou eu para mais um pouco desta série.
Então por que razão Guebuza convidou Dhlakama e Simango para um almoço?
Então por que razão Guebuza convidou Dhlakama e Simango para um almoço?
Avanço três hipóteses: primeiro porque, tal como ocorreu no primeiro almoço com outros em 2005, queria mostrar que é realmente um vencedor (a magnanimidade é, então, um corolário quase lógico); segundo porque queria estudar como reagiriam Dhlakama e Simango, dado que este último foi, inicialmente, subordinado de Dhlakama na Renamo e é agora um oponente político em crescimento; terceiro porque deve achar interessante poder contar, sem concessões de vulto, com uma figura que entende ser respeitadora (que entende estar concentrada em ruído político sem risco, uma figura de luta unicamente técnica, jurídica, controlável pelos pequenos favores), a de Simango, um peão que poderá servir para terminar de vez com a carreira política de Dhlakama no tabuleiro de xadrez do país, em troca de um jeitinho na AR para que esta constitua o MDM como bancada.
Por que Dhlakama faltou ao almoço?
(continua)
Pelos corredores do poder (4)
"Vencer na política não é tudo: é a única coisa" (Richard Nixon) Mais um pouco da série.
O vencedor das eleições tem mais cinco anos para governar, o seu partido dispõe da maioria absoluta na Assembleia da República. O vencedor é empresário envolvido em várias empresas. Por outras palavras, politica e finaneiramente Guebuza não precisa dos favores (sejam eles quais forem) de Afonso Dhlakama e de Deviz Simango, não fará nunca qualquer concessão de tomo a seu favor.
O vencedor das eleições tem mais cinco anos para governar, o seu partido dispõe da maioria absoluta na Assembleia da República. O vencedor é empresário envolvido em várias empresas. Por outras palavras, politica e finaneiramente Guebuza não precisa dos favores (sejam eles quais forem) de Afonso Dhlakama e de Deviz Simango, não fará nunca qualquer concessão de tomo a seu favor.
Acresce que o partido vencedor não tem por tradição parceirar com quem quer que seja que lhe seja oposto - o seu jogo é, invariavelmente, o da soma-zero -, além de que tudo fez e tudo fará para incluir e fazer circular apenas a sua elite de fiéis políticos.
Ninguém entra em negociações políticas quando tudo parece jogar a seu favor.
Então por que razão Guebuza convidou Dhlakama e Simango?
(continua)
23 janeiro 2010
Pelos corredores do poder (3)
"Não receber o convite para estar próximo fisicamente do portador do poder pode produzir no sujeito não convidado um sentimento de rancor e ressentimento capaz de proporcionar distúrbios políticos descomunais, pois ser convidado representa afirmar: você é reconhecido e está na rede de poder e de influência, o que é importante para aqueles que participam da comunidade política, nesse sentido, jantares e banquetes, são espaço de sociabilidade política, principalmente num jantar que envolve alguém portador do poder reconhecido. Não é um evento descapitalizado politicamente. Ele significa benefícios, encontros e soluções, é um capital simbólico precioso."Mais um pouquinho da série.
Então, o convite para o almoço é feito pelo ganhador das eleições, os convidados são os derrotados.
O almoço é precedido e acompanhado por um grande publicidade, claramente a ideia é a de que o acto deve ser nacional e internacionalmente conhecido e louvado, o ganhador deve ser apresentado como magnânimo, como disposto a dialogar e a ser inclusivo.
Está o ganhador disposto a concessões políticas? Estão os derrotados em condições de exigir? Porque Dhlakama não foi foi e Deviz foi?
(continua)
Pelos corredores do poder (2)
"(...) os banquetes e jantares estão longe serem práticas somente preocupadas com que vai ser consumido. Neles a preocupação está também vinculada com quem vai se convidado, nesse sentido, com interesses políticos e com os projetos de poder." Eles são práticas sociais que devem ser bem estudadas e observadas. A degustação da boa comida se faz tecendo a negociação política."Mas um pouco desta série.
A descrição do encontro entre Guebuza e Deviz aparece evacuada da rivalidade política, surge como território da fala tranquila, cortez, com a agressividade domesticada. Parece um encontro entre cavalheiros de igual valia unidos no mesmo objectivo, entre companheiros da mesma rota, estrangeiros à luta política.
Todavia, esse quadro cortez, de pares, é, afinal, apenas aparente, pois está desde o princípio fracturado, entre outras coisas, pela hierarquia (é imperioso afirmar quem está em cima e quem está em baixo), recorde-se o título do trabalho jornalístico aqui em causa: Guebuza é tratado no título não por Guebuza, mas por "PR" (presidente da República); o convidado, Deviz Simango, esse é apenas "Davis".
Mas, afinal de contas, o que é que esteve e está politicamente em jogo no almoço do qual Dhlakama esteve ausente?
(continua)
Pelos corredores do poder (1)
"Quando um governante decide oferecer um jantar/almoço a convidados por causa de uma situação política ou para festejar vitórias partidárias ou datas comemorativas, esse banquete deve ser percebido para além de um simplório (ou informal) encontro, como discurso do poder pretende que ele pareça, mas como parte essencial na negociação política."A sete colunas bem destacadas em primeira página, emoldurando uma enorme foto a quatro colunas (na qual, estando Guebuza e Deviz acompanhados das respectivas esposas, se vêem muitos jornalistas fotografando e filmando), o "Notícias" de hoje exibe um trabalho com o título "Diálogo aberto", o título "PR almoça com Daviz na Ponta Vermelha" e subtítulo "Dhlakama, convidado, não compareceu".
O texto é do género edificante, cheio de palavras cortezes e intimistas, com Guebuza dizendo que todos devem trabalhar para o desenvolvimento do país e com Deviz dizendo que o seu partido trabalhará com as instituições democráticas e para o bom nome de Moçambique.
O presidente da Renamo ocupa apenas quatro linhas do segundo parágrafo, nas quais se diz que ele não compareceu por "razões desconhecidas" (a versão online está aqui; e recorde aqui e aqui).
Tenho para mim que estamos perante um exemplar instrumento de trabalho merecedor de uma boa degustação semiológica. Nos números seguintes apresentarei algumas ideias nesse sentido.
Tenho para mim que estamos perante um exemplar instrumento de trabalho merecedor de uma boa degustação semiológica. Nos números seguintes apresentarei algumas ideias nesse sentido.
(continua)
Adenda às 9:13: um jornalista informou-me que hoje Guebuza almoça com editores de órgãos de informação.
O duplo constrangimento de Ivone (4)
Escrevi assim no número anterior: "Duplo constrangimento de Ivone - prisioneira de duas coisas, refém das tenazes da vida. Obedecer ou desobedecer? Ser célula de um partido ou ser célula de si? - o dilema de muitos, afinal."
Efectivamente, esse é o dilema de muitos militantes de partidos. Onde podemos observar isso? Podemos observar isso, por exemplo, na Assembleia da República. Aqui, confrontados com os adversários do Partido A, militantes do Partido B (ou vice-versa) surgem dizendo não aquilo que seria razoável dizer, mas aquilo que o partido impõe (instintintavamente impõe) que seja dito na luta e na demonização do adversário.
No caso de Ivone, como no caso de outros, houve a fractura com a disciplina partidária e, em particular, com o Grande Chefe do partido. Seja quais forem as causas, essa fractura aconteceu (aliás, isso parece ser uma constante na história da Renamo desde o ano passado, a cissiparidade política) e certamente Ivone deve estar constrangida: agarrou nas asas da liberdade sem ter perdido as da fidelidade. Mas essa contradição não evacua aquilo que nela, como em outros, é luta pelo poder político.
Adenda: esta série deu origem a muitos e anónimos comentários. E creio que uma parte significativa desses comentários vem de gente da Renamo, de gente que parece conhecer um pouco o interior das lutas e das ambições do partido. Finalmente: a propósito de comentários, sugiro a releitura das regras pelas quais devem pautar-se as pessoas que desejam deixar algo delas neste diário.
(fim)
22 janeiro 2010
Dhlakama não foi
Acabei de ser informado de que o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama (na imagem), não foi hoje ao almoço para o qual ele e Deviz Simango, presidente do MDM (que foi, com sua esposa), tinham sido convidados pelo presidente da Frelimo e da República, Armando Guebuza.Adenda às 19:17: haverá que nos interrogar sobre por que razão ou sobre por que razões os construtivos que se dizem continuadamente da oposição não foram convidados, designadamente o Homo Sibindycus (imagino no quanto ele se esmeraria com o seu guarda-roupa de capulanas e turbantes e com seu cajado real), o Homo Maboticus e o Homo Massangus. Certamente estão muito aborrecidos.
Adenda 2 às 21:11: um jornalista mandou-me uma mensagem dizendo que Guebuza manteve uma prática iniciada em 2005, quando convidou os quatro candidatos presidenciais derrotados. Agora convidou os dois derrotados.
No Niassa com o "Faísca"

Saiba coisas da província do Niassa através do "Faísca", por exemplo aquilo que o ex-governador Bimbe prometeu e que, segundo o jornal, não cumpriu. Aqui.
Haiti ligado ao mundo pelas redes sociais
Segundo a Deutsche Wele: "Em meio ao caos, à falta de luz e às linhas de telefone fixo mudas em Porto Príncipe, serviços virtuais como YouTube, Twitter e Facebook ganham importância como fontes de informação sobre o Haiti."
Enquanto isso, eis, no youtube, um vídeo do dia 13 do corrente mês, com imagens chocantes e que faz apelo a donativos:
Tese de Raul

Com o título em epígrafe, o compatriota Raul Chambote (também leitor deste diário) defendeu com distinção a sua tese de mestrado na Universidade de Birminghan, Inglaterra. Com a sua permissão e com prazer meu, tese disponível aqui, com dois apêndices aqui e aqui. Muitos parabéns e votos de bom futuro começo para o doutoramento.
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